“A vida humana não está apenas num órgão, como o cérebro, por mais importante que ele seja. A vida está no conjunto das funções do organismo. No caso desses fetos, tanto é verdade que são seres vivos, que eles podem se desenvolver no seio da mãe e chegar até à maturidade, para nascerem. Se não fossem seres vivos, não se desenvolveriam. E são seres vivos humanos.”
A afirmação é de dom Odilo Pedro Scherer, secretário-geral da CNBB — Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil. Ele concedeu a entrevista ao site Zenit.org, agência internacional católica de notícias no dia 7 de julho, para repudiar a decisão do ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, que autoriza gestantes de feto anencefálico, ou seja, sem cérebro, a interromper a gravidez.
Segundo dom Odilo, a igreja é contrária ao aborto, mesmo nos casos de fetos anencefálicos porque “a vida deve ser respeitada sempre, não importando quantos anos, dias, ou minutos alguém possa viver”.
Leia a entrevista:
Por quê a Igreja é contrária à “interrupção da gravidez” dos anencéfalos?
Porque ela é a favor da vida e da dignidade do ser humano, não importando o estágio do seu desenvolvimento, ou a condição na qual ele se encontre. A vida é sempre um dom de Deus e deve ser respeitada, desde o seu início até o seu fim natural. Não temos o direito de tirar a vida de ninguém.
Mas estes fetos não sentem dor, não podem expressar movimentos e não têm chance nenhuma de sobreviver. Podem ser considerados seres vivos?
A vida humana não está apenas num órgão, como o cérebro, por mais importante que ele seja. A vida está no conjunto das funções do organismo. No caso desses fetos, tanto é verdade que são seres vivos, que eles podem se desenvolver no seio da mãe e chegar até à maturidade, para nascerem. Se não fossem seres vivos, não se desenvolveriam. E são seres vivos humanos. A verdade é que muitos deles já abortam naturalmente e os que nascem não podem viver por muito tempo fora do seio da mãe.
Considerando que esses fetos não têm nenhuma chance de sobreviver, não seria melhor eliminá-los logo, sem esperar que nasçam?
Pensar assim seria introduzir um princípio perigoso. A vida deve ser respeitada sempre, não importando quantos anos, dias, ou minutos alguém possa viver. Contrariamente, poderemos chegar também a concordar com a supressão da vida dos doentes terminais, dos idosos, dos que têm doenças incuráveis.
A Igreja tem medo que a autorização do Supremo Tribunal Federal possa abrir a porta para outras permissões questionáveis a respeito da vida humana?
De fato, a posição da moral católica é pelo respeito à vida e não seria diferente, mesmo que se tratasse apenas dos anencéfalos. De toda maneira, permanece a suspeita de que essa decisão possa levar a outras semelhantes, como a permissão de eliminar fetos que tenham outras síndromes e doenças incuráveis, ou de permitir a eutanásia, quando se trata de doentes terminais, ou de pessoas com doenças incuráveis.
Mas não deveríamos olhar também o lado da mãe, que gera um bebê sem cérebro? Ela não poderá ficar desesperada e com um drama prejudicial à sua saúde? Não seria melhor permitir que o feto fosse eliminado, para que a mãe não sofresse tanto? Tal gravidez não poderá colocar em risco a saúde da mãe?
Certamente, a mulher que gera um filho com anencefalia pode passar por um drama grave e por muitos sofrimentos, sabendo que o feto pode morrer ainda no seu seio, ou então, morrerá logo depois de nascer. Temos que ter muita compreensão para com essa mãe e a sociedade dispõe de muitos meios para ajudá-la. Mesmo o risco para a saúde da mãe pode ser controlado pela medicina. Mas o sofrimento da mãe não é justificativa suficiente para tirar a vida do filho dela. Além disso, fazer o aborto, nestes casos, pode marcar a mãe com um segundo drama, que ela vai carregar para o resto da vida. Abortar um filho não é solução, mas é um problema a mais para a mãe. Melhor, neste caso, é deixar que a natureza siga o seu curso natural.
A opinião da sociedade, em geral, não é a mesma da CNBB e parece favorável à interrupção da gravidez dos fetos anencéfalos.
Conhecemos apenas a opinião daqueles que têm o poder da comunicação, mas não sabemos se, de fato, a maioria das pessoas concordaria com o aborto dos anencéfalos. A verdade é que os juízos morais não dependem da opinião da maioria, mas da adequação à verdade das coisas. Não se pode esquecer que se trata de vidas humanas, que devem ser respeitadas sempre. Trata-se de vidas frágeis, doentes, indefesas. De uma sociedade culturalmente evoluída e humanamente responsável se ela espera que respeite a vida e a dignidade dos mais fracos e os ampare e proteja; se a sociedade dos adultos, dos fortes e sadios, dos que têm a ciência, a técnica, o dinheiro e o poder a seu dispor, não fizer isso, corremos o risco de voltar à lei da selva, onde os mais fortes se prevalecem dos mais fracos e indefesos. E seria a negação de toda a civilização e da cultura.
Mas o Brasil é um Estado laico e não será a Igreja que vai determinar aquilo que a sociedade deve fazer.
De fato, o Brasil não é um Estado religioso, mas a sociedade, em função da qual o Estado existe, é religiosa em sua grande maioria. O Estado não deve ir contra seus cidadãos, nem desrespeitar sua cultura e suas convicções. Ademais, o respeito à vida do próximo não é questão de religião e de convicção religiosa: Trata-se de uma questão de lei natural, que vale para todos, mesmo para os que não têm religião. Por esse princípio, não por uma questão de religião, é que cada cidadão pode contar com a proteção das leis contra aqueles que agridem sua vida ou a põem em perigo.
Está desfocada a visão da igreja católica sobre o conceito de vida. Nessa linha de raciocínio até tumores uterinos têm vida e deveriam ser poupados. Um ser vivo sem cérebro - pelo amor de Deus - que vida é essa ? Então que sejam entregues todas as "pessoas" nascidas sem cérebro aos cuidados dos padres e demais defensores da tese.
Sem comentários. Há certas situações em que a hipocrisia das opiniões proferidas por alguns integrantes da Igreja Católica parece não ter limites.
Dom Odílio (que tratamento pomposo), na condição de cidadão, pode externar livremente a sua opinião, mesmo que divergente da ampla maioria da população informada. Agora até ser porta-vóz da sociedade ("o estado não deve ir contra seus cidadãos, nem desrespeitar sua cultura e suas convicões") há uma distância colossal. Como o homem sabe a opinião do povo. Ouviu o rumor das igrejas vazias ? Apesar das pressões eclesiásticas, o STF decidirá serenamente a pendência com fundamento unico nas leis em vigor, reflexo da vontade popular (ao menos em tese), mesmo porque as pessoas já não temem, para desespero dos religiosos, "os fogos do inferno". O diabo é tão esperto que não aparece mais porque, se o fizer, estará fatalmente desmoralizado.
Gilberto Aparecido Américo
advogado
Só quero lembrar que eu ou você não somos considerados "mortos" até que haja morte cerebral. Portanto, um feto (se é que pode ser considerado um feto) sem cérebro é clinicamente morto, não tem vida, portanto ao meu entender isso não é aborto.
Outra coisa: assuntos técnicos devem ser discutidos tecnicamente, senão o resultado é uma grande ...
Pois é. Vou aceitar a provocação de D. Odílio. Segundo seu raciocínio, a sociedade " é religiosa em sua grande maioria", certo? Mas, antes de mais nada, o que é ser religioso na acepção empregada pelo bispo católico? Tratando-se de temas que envolvem direitos da personalidade, tais como disposição do próprio corpo e sexualidade, presume-se que "ser religioso" signifique cumprir aquilo que é prescrito pela religião à qual o indivíduo adere. Percebe-se a olho nu a distância abissal existente entre a realidade da vida no planeta Terra no início do século XXI e o discurso da Igreja, que no pontificado de Karol Woytila conseguiu retroceder até o século XIII. Ou seja, na prática nem mesmo os fiéis o seguem, muito menos os não religiosos (infiéis, talvez?). Por esta simples questão de fato, a Igreja carece de legitimidade para reivindicar a condição de porta-voz da maioria da sociedade.
No entanto, existe um aspecto mais sério no discurso de Sua Eminência: dizer que o Estado pode ser laico, mas que a maioria é "religiosa" e que o Estado não pode ir contra a maioria, isto quer dizer que o Estado deve se submeter à religião, o que termina por anular sua laicidade, e por conseqüência sua natureza democrática. Sim, pois a democracia não só exige que a maioria prevaleça mas também que a minoria tenha seus direitos fundamentais resguardados. Mais ainda, o moderno Estado Democrático e Social de Direito, em tudo e por tudo a antítese de uma teocracia ou de qualquer outra forma de totalitarismo, garante AO INDIVÍDUO certas prerrogativas inalienáveis, como a defesa da vida privada e da intimidade. Neste contexto, incluem-se os direitos reprodutivos da mulher. Não cabe mais tratar essa questão com os olhos do Antigo Testamento, do Livro Gênesis, no qual Eva, ao ser expulsa do Paraíso, ouvia do Senhor Deus, em pessoa que " Multiplicarei os teus trabalhos e especialmente os de teus partos. Darás à luz com dor os filhos, e estarás sob o poder do marido, e ele te dominará". Pois é, prefiro o artigo 5º, I, da nossa Constituição Federal.
"A vida é sempre um dom de Deus e deve ser respeitada, desde o seu início até o seu fim natural."
Tou preocupado pensei em virar vegetariano, mas dai lembrei que vegetal tb é ser vivo... E agora josé? Aliás e agora CNBB?
Lembrei de algo que nao tem a ver com o tema. Mas consoante o que li a alguns dias atras é pecado:
ter software pirata
fazer spam
download ilegal de músicas e filme
"Os pecados considerados mais graves foram a criação e o uso de sites pornográficos e o fornecimento de informações pessoais falsas nas conversas via chat. Também estará em débito com Deus quem “passar a noite conversando com uma pessoa que não é o marido, a esposa ou os filhos”, ou quem mantiver uma relação sentimental virtual."
O MUNDO ESTA PERDIDO..
A Igreja Católica Apostólica Romana, simplesmente fecha a questão. Dizer que o feto é um ser vivo, por conseguinte, há que ser gerado, parece-me muito cômodo. Todavia, há que se mostrar claramente a base cristã dessa postura. Há que se apontar o dedo para as escrituras. Onde está escrito ou em que momento esse posicionamento fica evidente à luz das escrituras sagradas? Muito além disso, há que ser explicado claramente os motivos de Deus para o prosseguimento dessa aflição. Diante de tudo isso fica aqui uma pergunta que não me faz calar: Jesus Cristo ressuscitaria Lázaro se este estivesse sem célebro, ou sem cabeça, o quê dá no mesmo? Entendo que sim porque ele era o filho de Deus e poderia restaurar o corpo físico de Lázaro por inteiro. Mas será que ressucitaria Lásaro sem restaurar seu célebro? Se a resposta da Igreja for positiva e fundamentada nas escrituras eu coloco-me a seu lado.
João Bosco Fagundes.
errata: Ao invés de célebro, leia-se cérebro.
A opinião da igreja católica é apenas uma opinião e PONTO. Que eu saiba vivemos em um estado laico onde não há uma religião oficial, então porque dão ouvidos a esta instituição e seus conceitos ultrapassados, não acho que a opinião da gloriosa igreja católica seja mais importante do que qualquer outra instituição religiosa. Se não há modo viável de vida porque não interromper a gestação? É mais fácil para os religiosos se apegarem naquelas bobagens que o texto diz do que olhar com os olhos da mão que carregará em seu ventre durante toda a gestação um feto fadado a morte pouco após ou antes da concepção.
VIVA A IGREJA CATÓLICA
É muito difícil para a Igreja aceitar sua perda de poder em relação às pessoas e suas vidas cotidianas. Como opressora da dignidade humana (dizendo-se protetora da decência divina) ela já causou muito sofrimento e fomentou muitas guerras. Por que acreditar em uma igreja que já divulgou que "OS NEGROS NÃO TEM ALMA",... dentre outras atrocidades históricas e atuais.
É fácil descobrir por que eles querem tanto que nasçam pessoas sem cérebro (ou melhor, mais ainda do que as que já nos circulam). Só mesmo sendo anencéfalo para ouvir e dar valor à vil palavra de uma instituição tão indigna.
Só uma coisa a dizer: dom Odilo Pedro Scherer não deve ter tido aulas de biologia no seminário, ou as deve ter cabulado.
Bem, mas... os cardeais já foram muito comentados, aqui.
Vamos ficar com Caetano, em "Haiti", na parte que toca à CNBB - melhor divulgar o Caê, né?
"E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que VÊ TANTO ESPÍRITO NO FETO
E NENHUM NO MARGINAL".
Maria Lima
Para a igreja a vida é um conjunto, assim o fato do cérebro estar morto não significa que a pessoa esteja morta. Pois bem, esse entendimento também desautoriza o desligamento de aparelhos que mantem em funcionamento órgãos de pessoas com morte cerebral pelo simples fato da "vida" não estar no cérebro.
No caso da retirada de feto anencefálico, segundo os ministros contrários a interrupção da gravidez, não “há probabilidade necessária para conceder cautelar que crie uma norma penal em contradição com o expresso nos artigos 124, 126 e 128 do Código Penal” e que “exclua a ilicitude da conduta”.
Penso que a criminalização do chamado "aborto" existe para preservar a vida intra-uterina. No caso da gestação de anencefálico não existe essa vida intra-uterina, portando, penso eu, com meus parcos conhecimentos jurídicos, que a retirada do feto sem cérebro não é fato típico do crime de aborto, vez que não há vida a ser preservada.
Portanto, s.m.j não há excludente de ilicitude, pois não há prática de ato ilícito.
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