Direção do JB decide suspender coluna de Alberto Dines

A partir deste sábado os leitores do Jornal do Brasil não contarão mais com a coluna assinada pelo jornalista Alberto Dines. A decisão de suspender o espaço foi tomada nesta sexta-feira (11/6) pelo presidente do conselho editorial do jornal, José Antonio Nascimento Brito.

A decisão é uma resposta direta ao artigo intitulado A imprensa sob custódia, publicado por Dines em seu Observatório da Imprensa. No texto, o jornalista critica a cobertura feita pelo JB em relação à omissão do governo do estado para enfrentar a rebelião que ocorreu na Casa de Custódia de Benfica.

Leia o artigo de Alberto Dines

OMISSÃO & VIOLÊNCIA NO RIO

A imprensa sob custódia

O ideal de Maquiavel é um Príncipe que não precisa prestar satisfações aos súditos. Hoje, quando governantes se calam é sinal de que não estão sendo pressionados a se manifestar. E esta pressão só pode ser exercida pela imprensa.

Se o casal governador do Rio de Janeiro adotou a tática da omissão durante quatro dias para enfrentar a calamidade na Casa de Custódia de Benfica, cabia à imprensa fazer um estardalhaço federal. Pior do que a mentira é o silêncio. Inverdades acabam sendo descobertas, mas o silêncio desmobiliza, desanima os cobradores, esfria indignações. Sobretudo quando a opinião pública começa a imunizar-se com a repetição.

O “comunicador” Anthony Garotinho sabia o que fazia quando desapareceu misteriosamente mal começou a calamidade em Benfica. Contava com o fim de semana, o providencial hiato inventado pelo jornalismo brasileiro, habeas corpus dos relapsos. Previa que se o noticiário sobre o motim iniciado no sábado não fosse alimentado no domingo, na terça-feira estaria secundarizado ou esquecido.

Garotinho errou: não imaginou a dimensão e o grau de brutalidade do massacre, o caso continuou sendo noticiado com destaque até a sexta-feira seguinte. Mas acertou nos efeitos: sem informações, a imprensa carioca não ficou suficientemente chocada com o episódio nem conseguiu chocar. Muito menos acionar os alarmes para acordar o governo federal imerso nos seus dramas de consciência.

Isso não significa que O Dia e O Globo, os principais jornais da cidade, tenham escondido a cobertura. Acompanharam o caso razoavelmente, desde a edição do domingo (30/5). Mas, o que chama a atenção do observador é que a cobertura mais contundente, mais insistente e mais dramática – portanto a mais jornalística – foi a do jornal Extra, do Grupo Globo, cuja circulação não se compara em termos quantitativos ou qualitativos aos dois jornalões citados.

Se esta ênfase do Extra fosse transferida para O Dia e, sobretudo, para o portentoso Globo, evidentemente produziria um efeito-cascata, incontrolável, com resultados bem diferentes. Inclusive sobre a mídia paulista, que costuma ter mais penetração na esfera política.

Esta é a questão: se a ingovernabilidade do Rio de Janeiro transformar-se em questão nacional o casal Garotinho conseguirá manter-se impune? Um editorial curto e grosso na primeira página do Globo, mesmo na segunda-feira (31/5, quando já se tinha uma noção da carnificina) teria provocado um turbilhão político bem diferente da resignada reação que o episódio produziu.

Desmascarar governantes

Então cabe perguntar: e o Jornal do Brasil?

O JB abdicou de fazer jornalismo. Parece jornal, tem periodicidade de jornal, tem os atributos formais de um jornal, tem uma história incorporada ao jornalismo brasileiro, mas neste momento é movido por dinâmica e prioridades diferentes das de um jornal. Pode até estar reinventando o jornalismo, mas este não é o jornalismo do qual foi um dos expoentes e continua sendo praticado pela maioria dos seus concorrentes.

Compreende-se, o JB está em crise. Não apenas em crise financeira mas em crise interna. Dos nove vice-presidentes que ostentava no seu expediente antes do trágico fim de semana, dois vices-presidentes jornalistas estavam demissionários desde a sexta-feira (Augusto Nunes e Cristina Konder) e o nome do terceiro foi retirado do expediente no sábado, sem o menor aviso aos leitores (Wilson Figueiredo, com 42 anos consecutivos de casa!) [veja sua entrevista reproduzida na rubrica Entre Aspas, nesta edição].

O JB tem ainda excelentes profissionais no comando da redação, mas a empresa e a diretoria esqueceram que jornalismo não é uma colagem de noticias – jornalismo é um compromisso político com a sociedade. A prova deste esquecimento está na edição de terça-feira (1º/6), quando as dimensões do massacre de Benfica já eram conhecidas inclusive pelos próprios leitores do jornal.

Neste dia crucial, o JB fez o balanço do caso com uma chamada insignificante na parte inferior da primeira página! Ao lado, com destaque dez vezes maior, para satisfazer o enorme contingente de socialites que devoram suas colunas sociais, enorme foto de uma carioca friorenta ostentando um “casaquinho básico”. Antes assim, poderia estar falando em brioches.

E, como se não bastasse, na quinta-feira (3/6) – depois da manchete correta do dia anterior, “Inquisição do tráfico mata 30 presos” – o jornal recuou acintosamente para enveredar pela linha business com esta pérola em oito colunas: “Rio troca imposto por segurança”.

Trata-se de mais uma pilantragem desenvolvida nos laboratórios do casal Garotinho para esconder sua dupla incompetência como responsável pela segurança pública e para atrair incautos defensores da livre iniciativa: empresas que financiarem a segurança pública terão desconto de 10% no ICMS.

Descobre-se então que esta manchete foi financiada pelos patrocinadores de um seminário organizado pelo Grupo JB, estrelado pela deslumbrante governadora Rosinha e convertido no sábado seguinte num caderno especial.

Seria injusto acusar unicamente o Jornal do Brasil: O Dia também dá sinais de que não deseja embaraçar o projeto político do casal Garotinho, sobretudo depois das desavenças entre duas herdeiras do falecido Ari de Carvalho, que transformaram o arquiconservador Ronald Levinsohn numa espécie de publisher informal do jornal.

O Globo tem vigor e garra de sobra para mostrar ao país a débâcle da unidade federativa onde as Organizações Roberto Marinho têm sua sede. Delegar esta tarefa ao jovem Extra é uma forma de relegar a catástrofe carioca à esfera paroquial.

Não apenas na invasão do Iraque mas também em Benfica comprovou-se que a imprensa é crucial para desmascarar governantes. Ou para servir inocentemente aos seus ignóbeis propósitos.

Marco Aurélio Moreira Bortowski disse:
11 de junho de 2004 às 20:41

Não tenho como avaliar se as informações prestadas pelo jornalista em questão no tocante ao casal Rosinha e Garotinho são corretos. A verdade é que ele não tinha o direito de expor a situação interna da empresa em que trabalhava ao público. Liberdade de imprensa não significa que tudo possa ser escrito. O direito à critícia é um direito inarredável, mas não pode se transformar em inegável desrespeito ao próprio direito de informar.
a) Marco Aurélio Moreira Bortowski

Juca Kfouri disse:
11 de junho de 2004 às 23:47

É triste constatar que os dois comentaristas que me precedem não têm a menor idéia do que seja a função social do jornalismo. Ave!

Luís Eduardo disse:
12 de junho de 2004 às 00:54

Dines, aguém disse que você já foi tarde? É uma pena algum cidadão pensar desse modo, mas o que há de se fazer contra a mediocridade? Você teve coragem de narrar o que aconteceu no JB (ou o que vem acontecendo) demonstrando a omissão voluntária de um veículo que só existe em função de informar e não de omitir. Caro jornalista, pode ter certeza que esse tipo de acontecimento só abrilhantará o seu curriculo pessoal e profissional. É isso ai, a coluna (vertebral) de um homem de bem pode até vergar mas não se quebra. Parabéns e que alguns pseudos jornalistas aprendam com você como é que se faz um jornalismo com "J" maiúsculo, sem medo, sem mediocridade e com honra.

Joaquim disse:
12 de junho de 2004 às 02:41

Dines:
Por sorte ainda o encontraremos no site do Observatório da Imprensa. Estou com nojo dos grandes grupos midiáticos, cada dia mais servis aos interesses políticos e financeiras. Com um Judiciário controlado, MP amordaçado e a grande imprensa de quatro, que democracia é a Brasileira?

Chefia disse:
12 de junho de 2004 às 11:59

Já repararam que a defesa da tão badalada "liberdade de imprensa" no Brasil só toma os níveis necessários para que alguma medida seja tomada qdo se fere a execrável "imagem do Brasil lá fora"?

Caríssimos Dines e Kajuru, talvez a solução seja vcs arrumarem uma naturalização americana e enviar as reportagens publicadas aqui para qualquer jornalzinho de merda nos EUA... aí ninguém ousará mexer com vcs!

Cadê a imagem do Brasil aqui dentro?

Edimilson Gomes Alves disse:
12 de junho de 2004 às 14:22

Carambas!!!!
Ligo o rádio e lá vem ... " Fala governador ", mudo de estação e la está " fala Prefeito". Tento escapar para a FM, e na rádio evangélica me deparo com o casal Garotinho, procuro outra rádio e encontro o Senador amigo dos radialistas, que tem o pai um grande sambista. Outro senador também tem seu tempo na rádio, canta e faz orações.
Uso o carro porque o metrô está com problemas, ligo para o programa na Rádio para denunciar, para pedir providencias, mas não podem falar contra o Metrô, nem a Supervia, nem a Fetransportes, afinal eles " patrocinam" o programa.
Quero reclamar do Prefeito, não pode. Sua excelência tem um quadro em nosso programa.Reclamar da Governadora nem pensar.
Creio que no Rio só é permitido, ainda, criticar o presidente.

Para que Imprensa ?
Foi por essa imprensa que vários jornalistas deram suas vidas?
A imprensa não existe para ficar calada, ela tem que falar.
É tudo uma droga! Qualquer dia desses , até este espaço´nos será retirado.

Edimilson Alves

Vinícius Loss disse:
12 de junho de 2004 às 14:22

É a Ditadura OculTa que Nunca deiXamos de ViVer!!!
Viva os "CoronéIs" nordestinos, ViVa os GranDes "Senhores Feudais" do Resto Do PaíS, ViVa o populacho drogado e manipulado, ViVa os NoVos DecreTos-Lei (MPs), ViVa para um GoVerNo que SemPre MuDa aPenas o NoMe, ViVa os ImposTos que são SemPre Mais "GranDioSos", Viva as ImporTaÇões indiretas vindas da China via ParaGuai, Viva Toda a EstuPidez PoPuLar em Ter EsPeranÇa que o BraSil um Dia MuDe!!! ViVa para O PAÍS eternaMenTe do FuTuRo!!!

Pedro P. Pinheiro disse:
13 de junho de 2004 às 02:27

O JB está mal... muito mal... realmente, não merece ter um colunista como Alberto Dines.
Sugeriria à edição do jornal chamar o atual secretário de segurança do Rio, Anthony Garotinho, para inaugurar uma coluna no lugar da de Alberto Dines. Acho que estaria mais de acordo com a linha editorial.

Marco Antonio Pinto disse:
13 de junho de 2004 às 22:43

Parabenizo o jornalista Alberto Dines pela coragem, independência, credibilidade e honra que todo homem e todo profissional deve (ou deveria)ter.
Com certeza o diamante Dines que foi lapidado por anos terá muitas dificuldades de encontrar nos dias de hoje um veículo idôneo que o mereça.

Claudia Regina Martins Lacerda disse:
14 de junho de 2004 às 12:24

Em um dia, o Presidente da República pretende EXPULSAR do país jornalista estrangeiro por não haver gostado de sua reportagem... outro dia, jornalista do JORNAL DO BRASIL é DEMITIDO por cumprir suas funções (levar a verdade aos seus leitores)...
Acredito na liberdade de imprensa... acredito também em Papai Noel e no coelhinho da Páscoa.
Patético...
Parabéns, Alberto Dines... que todos os jornalistas do Brasil sigam o seu exemplo. Quem sabe, assim o povo consegue deixar de ser menos ignorante e abra os olhos para a realidade que o cerca?

Jorge Marcio Pereira disse:
14 de junho de 2004 às 14:35

A liberdade de imprensa foi uma conquista arduosamente resgatada pela sociedade brasileira, e que a todo custo deve ser preservada.

Os recentes casos, de setores que atuaram na defesa desta liberdade, demitindo seus jornalistas, caso kajuru, e agora do Dines, por retratarem o lado podre dos governos, tanto mineiro, como o carioca, demonstra claramente, que o povo ainda é, a unica força capaz de mudar esse pais, pois pelo visto, a imprensa brasileira ainda come na mão dos governantes deste pais,

Assim como o governo, apodreceu a imprensa ...,

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