Marta priorizou população carente e ignorou classe média

Toda vez que se pensa em melhorar a distribuição de renda no Brasil, a primeira idéia que ocorre aos governantes é sacrificar a classe média. E, aqui, quando se fala em classe média, é classe média mesmo, não é mero eufemismo para encobrir a noção de classe alta que, diante da pobreza geral, soa antipática. Trata-se de tirar de quem tem, mas tem pouco.

Para evitar o choque da abordagem explícita das diferenças econômicas, em nosso país ninguém mais pertence ao segmento dos muito ricos nem à categoria dos muito pobres. Estes últimos são chamados de excluídos, carentes ou desfavorecidos, enquanto os milionários simplesmente desapareceram do vocabulário político. Sobrou a designação “classe média”, politicamente correta, pois sua existência não ofende os pobres nem perturba os ricos.

Trata-se da faixa populacional mais visada pelos impostos, taxas, medidas econômicas confiscatórias e arrocho salarial. Esse nível intermediário é composto de empregados em geral, profissionais liberais, autônomos, intelectuais, pequenos empresários, professores, funcionários públicos, jornalistas. Não passam necessidades, mas têm orçamento apertado. Qualquer novo encargo pode desequilibrá-lo.

Os políticos de visão abrangente, que governam para todos, não desprezam os interesses dos remediados, nem procuram fazer justiça social tirando daqueles que, a duras penas, conseguiram melhorar sua qualidade de vida. Os pobres são em maior quantidade, infelizmente, e investir na diminuição da pobreza é prioridade, mas o peso dos medianos não pode, de forma alguma, ser ignorado.

Quanto maior a classe média de um país, maior o seu desenvolvimento. É ela que forma a opinião pública, consolida ou destrói reputações, fomenta a economia e fornece quadros importantes para as instituições. As últimas eleições municipais evidenciaram isso.

Em São Paulo, por exemplo, Marta Suplicy priorizou a população carente, no que fez bem, mas ignorou os problemas da classe média e foi esse seu maior erro. Imediatamente após assumir o cargo, aumentou o IPTU e instituiu taxas para tudo, onerando excessivamente o contribuinte. Criou corredores de ônibus em vários locais, o que favoreceu o transporte público, mas complicou terrivelmente o trânsito para os automóveis particulares.

Como se não bastasse, instalou radares de detecção de velocidade que multam uma quantidade absurda de veículos por dia, não porque os paulistanos são transgressores por natureza, mas em razão dos limites de velocidade impraticáveis e irreais que foram fixados. Consta que as empresas terceirizadas que instalaram os radares e as máquinas fotográficas para flagrar infratores recebem porcentagem pelas multas aplicadas, situação que criou uma lucrativa “indústria” e aterrorizou os proprietários de veículos. Além disso, o resultado da arrecadação não foi percebido na melhoria do trânsito.

Em resumo, a qualidade de vida dos habitantes da cidade não evoluiu. Houve melhoramentos cosméticos, mas a poluição ambiental, que é problema da maior gravidade por afetar diretamente a saúde pública, não foi objeto de preocupação. A reforma do Mercado Municipal e a revalorização da região central foram relevantes investimentos estéticos, mas a fonte colocada no lago do Ibirapuera, local altamente poluído, atemorizou pelo risco de espalhar coliformes fecais no ar. Apesar da beleza do chafariz, a limpeza da água, com o saneamento do lago, teria sido muito mais importante.

Marta tem razão quando afirma existir preconceito contra a mulher. Não é nada fácil ser mulher na política, assim como em qualquer outro cargo de poder. Estamos atravessando um estágio de desenvolvimento social no qual não é vedado à mulher pleitear uma posição de comando e, por vezes, eleger-se com o voto popular. No entanto, manter-se no cargo é ainda mais difícil do que chegar a ele. Mesmo quando o preconceito não se manifesta no momento da eleição, pode surgir fulminante durante a gestão administrativa.

No entanto, não foi o preconceito que derrotou Marta nas últimas eleições, tampouco se podendo atribuir seus índices de rejeição à separação conjugal e ao novo casamento. A vida pessoal das celebridades interessa ao povo, mas, não ocorrendo nenhum escândalo, é mera curiosidade e não interfere na opção política dos cidadãos.

A tentativa canhestra de atribuir a culpa pela derrota eleitoral ao comportamento do senador Eduardo Suplicy apenas desvia o foco das questões político-administrativas que, de fato, fizeram a diferença. Isso tudo sem falar nos equívocos evidentes na condução da campanha, marcada por uma agressividade desnecessária.

A administração federal do PT tem boa parcela de responsabilidade no resultado das eleições municipais. Ao mesmo tempo em que reduziu o poder aquisitivo da classe média, adotou medidas que jamais defendeu quando era oposição, favorecendo os bancos e o capital internacional. Sacrificou o funcionalismo público, que sempre prometeu valorizar, e comprou uma briga com o Poder Judiciário totalmente sem sentido. O Ministério Público chegou a ser comparado com a polícia de Hitler apenas por cumprir sua missão constitucional de repressão ao crime.

Os setores da população que têm formação suficiente para acompanhar e entender o noticiário — a classe média — não engoliram as incoerências e mandaram um recado ao PT: é preciso respeitar as instituições e preservar os recursos financeiros de quem trabalha honestamente e já contribui, no limite de suas possibilidades, para a manutenção do Estado e de seus governantes.

* Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo

Luiza Nagib Eluf

é advogada.

Gustavo Henrique Freire disse:
10 de novembro de 2004 às 11:48

Não sou paulistano, muito menos simpatizante histórico do PT, mas como São Paulo é a locomotiva do País, o seu centro irradiador de progresso e desenvolvimento e como tudo passa necessariamente por lá, não posso deixar de transmitir um pouco do que penso sobre as últimas eleições para Prefeito, onde saiu derrotada Marta Suplicy, que, quatro anos antes, tirava do poder Celso Pitta, boneco de ventríloco do Sr. Paulo Salim Maluf, a quem Marta, nestas últimas eleições, desesperada com um segundo turno complicadíssimo, resolveu se aliar, quebrando a cara e perdendo por 10% dos votos para o tucano e ex-Ministro José Serra.

A meu ver, o que "derrotou" a dona Marta (como Paulo Maluf tanto gostava de brincar, para fúria da agora ex-Prefeita) foi a sua arrogância, a sua falta de humildade para entender que o cargo de Prefeito não lhe pertencia, mas ao povo da cidade de São Paulo.

No fundo, o que "derrotou" Marta no segundo turno foi a sua extrema falta de habilidade gerencial para saber enfrentar os grandes problemas da megalópole em que se encontram a Ipiranga com a Avenida São João, sobretudo, aqueles ligados ao tráfego crescente de carros, à poluição, ao favelamento de São Paulo, às freqüentes enchentes etc.

Também não se pode negar que a forma como se separou do (popularíssimo) senador Eduardo Suplicy e se "casou" com o franco-argentino Luis Favre (famoso pelas várias mulheres que acumulou em seu curriculum) tirou muitos votos de Marta, principalmente, entre o eleitorado idoso e o feminino, normalmente mais sensíveis a esse tipo de postura.

Saiu igualmente derrotado das eleições deste ano o próprio Partido dos Trabalhadores, que já estava se considerando onipresente e onipotente demais para uma democracia que se pretende saudável e ordeira como a nossa.

O presidente Luis Inácio Lula da Silva constatou, de uma vez por todas, na própria pele, como é duro ser governo e não mais oposição.

De outro lado, não é verdade que foi o preconceito quem venceu Marta Suplicy. Foi ela mesma, com aquele jeito de perua mimada, a visitar favelas e morros com roupas que valiam muito mais do que se poderia imaginar.

Às vezes a impressão que eu tinha era a de que Marta Suplicy se julgava Prefeita de Paris ou Londres, e não de São Paulo, que, mesmo sendo uma cidade tão rica, ainda faz parte de um País chamado Brasil, cuja população de pobres e miseráveis é infinitamente maior do que qualquer outra.

Lu2007 disse:
10 de novembro de 2004 às 14:10

Que esplêndida análise fez a Dra. Luiza. Expressa exatamente o que eu também penso. Eu me incluio nesta classe média que se viu sufocada pelo PT da Marta. Eu posso dizer que alegar preconceito é preconceito dela. Acho indecente invocar a condição de ser mulher para se favorecer em relação ao outro candidato, sem que tenha motivos. Eu, por exemplo , votei na Marta no primeiro turno. Primeiro porque nao queria o Maluf na cidade( que ironia...depois ela se juntou a ele num dos mais desrespeitaveis gestos contra o eleitorado que eu já vi). E segundo porque queria ver qual seria a administração dela. Portanto, como uma prefeita mulher, eleita, fica alegando, absurdamente, preconceito? É preconceito dela alegar isso em vão. Aliás, o PT está fazendo tanta besteira que ele proprio vai se enforcar. Não tem politica nenhuma, nem planejamento social ou um projeto social, como era apregoado pelo PT. Fica comprando avião....enquanto tira da classe media e do funcionalismo! E enchendo a classe media de tributos. Fica copiando a politica do Fernando Henrique ao mesmo tempo que o chama de herança maldita. Então eles gostaram da herança maldita. MAs herança maldita vai deixar o PT quando sair do poder. Se querem tirar de quem tem para favorecer quem nao tem, porque não tiram de banqueiros, de milionarios..de gente que realmente tem dinheiro neste país. Mas não. Com este eles não mexem.
Alem disso, com este aumento de ISS absurdo que teve em São Paulo muitas empresas correram para Barueri, Alphavile, e teve um " boom" nesta cidade graças a Marta. Além do que, eu achei esta administração péssima. Teve muita vitrine e pouca consistência. Eu converso com pessoas humildes, como empregadas domésticas ou recepcionistas que moram longe e precisam de transporte publico e estes estao chamando estes corredores de onibus ( Passa Rapido) de Passa Raiva......então nao foi bom nem pra eles.
Eu conheço uma rua em Sao Paulo que foi muito afetada pela prefeitura da Marta por causa destas obras, perto da Faria Lima que de repente tiveram seu sossego abalado e ao mesmo tempo, não tiveram seu IPTU reduzido....então, eu vejo isso como truculência, como má administração. E foi isso que derrubou esta prefeitura. Nao foi nem Eduardo Suplicy, nem preconceito. É fácil colocar a culpa nos outros. Acho que o PT está precisando fazer uma terapia!!!!

Osvaldo Bispo de Beija disse:
10 de novembro de 2004 às 14:11

Concordo com a articulista :

"A administração federal do PT tem boa parcela de responsabilidade no resultado das eleições municipais. Ao mesmo tempo em que reduziu o poder aquisitivo da classe média, adotou medidas que jamais defendeu quando era oposição, favorecendo os bancos e o capital internacional. Sacrificou o funcionalismo público, que sempre prometeu valorizar, e comprou uma briga com o Poder Judiciário totalmente sem sentido. O Ministério Público chegou a ser comparado com a polícia de Hitler apenas por cumprir sua missão constitucional de repressão ao crime".

Digo mais, em grande parte a minha decisão nessa útlima eleição, não obstante ter José Serra como um homem público mais bem preparado, foi em decorrência de o PT (perda total) ter tomado atitudes/decisões frontalmente contrárias à sua história, conforme acima articulado. Notadamente "ferrando" (desculpe o vocabulário) o funcionalismo publico. Tenho colegas que, por conta da "reforma" da previdência tiveram seus salários líquidos reduzidos em quase 50%, isso depois de 45 a 50 anos de trabalho, ou seja, desrespeito total aos direitos adquiridos que sempre o Perda Total jurou respeitar.
E tenho dito.

Gustavo Henrique Freire disse:
10 de novembro de 2004 às 16:12

Concordo integralmente com as demais opiniões estampadas neste site a respeito da administração desastrosa da srª Marta Suplicy, a famosa "martaxa", como os paulistanos a chamam. De fato, nem bem assumiu e "dona marta" aumentou o IPTU e criou todo tipo de taxa possível e imaginável, irritando a população. Poucos devem lembrar, mas quando aqui esteve o Prefeito de Paris dona Marta mandou dar uma bela maquiada em São Paulo, coisa que há tempos não se via igual. E pior é que o Governo Lula, a grande mãe dos derrotados nas eleições, ainda mandou desocupar a Embaixada de Paris imaginem para quem? Bingo! Para Marta, a perua, e Favre, o antipático. Preconceito? Preconceito contra quem? Ora, pelo amor de Deus!!! Vivemos em pleno século 21. As mulheres podem não estar ganhando o mesmo que os homens que ocupem igual posição de trabalho, isto é certo, mas já avançaram muito e faz tempo que já deixaram de ser "pilotas de fogão", como nos idos de nossas avós e bisavós. A eleição de Marta, em 2000, é uma amostra disso. O eleitor queria mudança, queria o fim do malufismo, por isso votou na Marta e no PT. E deu no quê???? Em mais decepção. A própria Marta, que, por mais de uma vez chamou Maluf de "nefasto" e "cafajeste" aliou-se a ele nestas últimas eleições, o que é lamentável. Logo Marta Suplicy, uma mulher considerada tão articulada e inteligente, fazer uma dessas... e, no final, queria o que? Ganhar no primeiro turno?? O eleitor não é bobo, prefeita. Muito pelo contrário. Ele hoje está bem mais consciente e bem informado sobre os rumos da sua cidade. Cada vez mais o execrável "voto de cabresto" vai se tornando uma prática restrita aos interiores, locais em que o acesso à cultura e à cidadania permanece controlado por "coronéis". Mas até isso tende a desaparecer com o passar dos anos. É o que dizem os sociólogos mais renomados. Seja como for, a derrota de Marta e do PT em São Paulo deveria servir como um puxão de orelha em ambos, a fim de que compreendam que não são senhores do povo ou do Brasil, mas seus servidores. Em Porto Alegre, aliás, o PT, que já mandava na cidade há 16 anos, também levou uma baita surra nas urnas. E aí? Para eles, do PT, faz parte da democracia... sei... sei... e pro resto? Ah... pro resto é uma lição... coisa e tal... Hmmm.... e pro PT não é também??? Claro que é!!!! Eles agora enxergaram que o Brasil é muito maior do que eles pensam... o povo sabe das coisas!!

Vinicius Dardanus (dardanus.blogspot.com) disse:
10 de novembro de 2004 às 18:48

A Martaxa nada mais é do que uma populista de araque. Quer ferrar com a classe média, mas poupar a classe dos ricaços, a qual ela pertence.

Esses comunistas ricos são patéticos mesmo.

Marcos disse:
10 de novembro de 2004 às 19:39

Infelizmente não moro em São Paulo para poder apreciar os novos dias que virão.
A partir de 1º de janeiro, os paulistanos não terão mais enchentes, congestionamentos, camelôs e outras mazelas. Também no primeiro dia do ano, estarão livres do IPTU e das taxas escorchantes impostas pela maldosa Marta.
Sinto realmente não poder usufruir desse novo tempo que será propiciado pelo novo Prefeito já no primeiro dia do mandato.

Leandro de Paula Souza disse:
10 de novembro de 2004 às 23:04

Depois do que acabo de ler vou entar em pânico!
A partir de 1º de janeiro teremos um inédito governo petista aqui em Osasco.
Isso quer dizer que eu, componente da aludida classe média baixa, dentro de uma lógica muito cretina, posso começar a espernear se meu futuro prefeito resolver adotar medidas que priorizem aqueles que efetivamente mais precisam, e que precisam para ontém?
Então, vou atravessar a rua e ir para os braços do careca da capital, que aí, quem sabe, a camada à qual pertenço seja contemplada com suas nobres medidas depois de se resolverem as reivindicações dos habitantes dos Jardins, Morumbi, etc.

Jonatas Venancio disse:
11 de novembro de 2004 às 09:39

Quem já utilizou algum dos programas sociais desenvolvidos na gestão da Marta, sabe do seu valor. Alguns exemplo: Renda mínima, isenção do IPTU para aposentados, vai e volta!
Então para os sonhadores pensam que o prefeito eleito josé serra vai abaixar o IPTU, retirar a taxa de lixo, a Osip, continuem sonhando!!!
O próprio José Serra Falou que uma das primeiras medidas e ser tomadas na sua gestão será o aumento da alíquota de ISS para os banco, ou seja, os banco aumentaram as taxa cobradas por eles! (pensem classe média)
Não sou um petista, mas sei reconhecer os trabalhos desenvolvidos nessa gestão.

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