Após 91 dias de greve, servidores retomam no ritmo padrão.

Noventa e um dias depois de iniciada, sofre interrupção, a greve dos Serventuários da Justiça no Estado de São Paulo. O dia 27 de setembro começou, na Praça da Sé, com ato público convocado pela OAB e co-participação da AASP, IASP e AACRIMESP, além de entidades outras não ligadas à advocacia. Um dos jornais de São Paulo, cobrindo aquela manifestação, mostra o presidente nacional do PSTU debatendo com um advogado e dizendo a ele, provavelmente, que os servidores, ganhando miséria, mereceriam melhor sorte do que trabalhar sem retribuição adequada.

O advogado, de seu lado, parece retrucar que a Justiça não pode ficar paralisada, perecendo, no meio disso, os direitos dos clientes. O presidente do Tribunal de Justiça, no gabinete, deve estar refletindo que manteve a posição inicial, dentro da legalidade, porque juiz não pode ofender a lei atendendo a reivindicações não cobertas pelo orçamento.

O governador Geraldo, silente, parece estar mais preocupado com as eleições do dia 3 de outubro, cruzando os braços agora, porque teria pouco a ver com aquele turbilhão de recriminações. Os servidores, destacando-se aqueles que manipulam os processos costurando-os e carimbando as páginas já deterioradas pelo uso, estão voltando às repartições, prometendo realizar a “operação padrão”, ou seja, a “operação tartaruga”, no fingimento de exercício do trabalho. Meu assistente Rogério, enquanto digita a crônica, lembra que a conduta dos serventuários se equipara àquela do jogador “Vampeta”, em oportunidade recente: “O Flamengo finge que me paga e eu finjo que jogo”.

No meio da refrega, todos fazem poucos dos presos, centenas deles, aliás, com seus processos refreados, habeas corpus paralisados, alvarás de soltura perdidos nas gavetas, juízes impotentes tentando, também, de seu lado, exercer a jurisdição. Na verdade, o estado de São Paulo tem mais de cem mil detentos, todos pendurados nas grades das celas, alguns menos incomodados, mas todos prejudicados, quer pelo estancamento da tramitação das ações penais, quer pela inatividade na apreciação dos benefícios, notando-se que a concessão de progressões é, se e quando cumprida a etapa, obrigação do Estado e não privilégio do condenado. Dentro de tal perspectiva, não houve quem perguntasse aos reclusos qual a opinião deles a respeito da paralisação.

O presidente do PSTU, cuja imagem aparece intrépida, não fez tal indagação à população carcerária, mesmo porque é líder de partido de trabalhadores e preso não trabalha. Logo, o preso não pode meter o bedelho nas coisas da sociedade livre, cumprindo-lhe esperar que o Poder Judiciário, as escrivanias, os advogados enfim, pacifiquem suas contradições. Alckmin não gosta de presos.

Para o governador, os condenados podem ir às tintas, não devendo e não podendo influir, tais delinqüentes, na solução da pendenga. O futuro é negro, pois as seqüelas da paralisação vão marcar profundamente todo o sistema penitenciário do estado de São Paulo. Lá de Brasília, entretanto, o Presidente do Superior Tribunal de Justiça sugeriu a intervenção federal, porque o povo não pode ficar sem Justiça. Aliás, só há exemplo de paralisação da Justiça naqueles países sob grave crise institucional.

A propósito, nos idos de 1964, o cronista não havia completado os trinta anos, mas se pôs na escadaria do Palácio da Justiça para que os vinculados ao fórum sindical de debates fossem impedidos de fechar a Corte. Daí, quando o cronista viu, estava fazendo parte daquela nefanda revolução que mudou os destinos do país durante vinte anos. Precisou voltar atrás, caindo nos braços do extremo oposto. Agora, no entremeio dessa greve mefítica, dá muita pena dos encarcerados. A solução seria reparti-los: um pedaço seria doado ao Tribunal de Justiça, o outro ao PSTU e o restante iria aos serventuários, numa trinomia que poderia ser simplificada sob o título: adote um preso. Finalizando: os condenados paulistas mereceriam uma estrela no peito, a exemplo daquilo que se fazia, ou se faz ainda, nos Estados Unidos da América do Norte. Eles recebiam, lá, uma insígnia por bom comportamento. Verdadeiramente, os presidiários se postaram com uma estabilidade digna de aplausos. Não houve um queixume, um sinal de alarme, um levante, uma só gota de sangue a saudar essa guerra absolutamente irracional.

Os serventuários prometem não mais fazer sentenças para os juízes, não mais ajudar os advogados com seus códigos e só dar informações obrigatórias. O exemplo paulista é único no mundo, dentro de um regime político estável. Fica-se a pensar sobre os motivos de cada qual.

O presidente do Tribunal deu exemplo de determinação no cumprimento da lei, os servidores mostraram que estão politicamente organizados, os advogados demonstraram que precisam lutar pelo restabelecimento da tramitação de suas ações e o governador, no fim de tudo, também não teve como resolver a questão.

Por fim, a Assembléia Legislativa, por seus 94 deputados, se mostra apática. Não se pense que o problema terminou. A bem dizer, começou agora. Ruim será se o grupo dos privados da liberdade (PRAE), ou seja, Partido dos Relegados ao Esquecimento, resolver disputar com o presidente do PSTU “in loco”, como dizem os versados em latim, isto é, no pátio das penitenciárias ou no corredor dos calabouços. Ali a coisa pega e a greve acaba de vez.

Paulo Sérgio Leite Fernandes

é advogado criminalista em São Paulo.

Luis Flavio Augusto Leal disse:
29 de setembro de 2004 às 18:28

Caro Dr. Paulo Sérgio,

Parabenizo o seu vigoroso e perspicaz texto, mas deixo uma pergunta: Já que o dano está feito para a sociedade, politicamente, quem se beneficia com a greve? Não tomo partido com relação ao TJ, aos grevistas e nem sequer os reclamos da OAB, apesar de que sempre acontece algo que vulnera a nossa classe, vocês estão sempre por perto para ajudar. A figura do qual tomo partido é da sociedade num todo, pois o bem comum foi destruído e a credibilidade da justiça e dos seus operadores está, no presente momento, em frangalhos. Faço outra pergunta: Não existem outras formas de se fazer greve? O radicalismo desta situação virou um quase "terrorismo jurídico" para a sociedade. Temo pelo futuro negro que se avizinha.

Sinceramente,

Dr. Luís

Jose Antonio Dias disse:
29 de setembro de 2004 às 18:33

A OAB/SP, mais uma vez, agiu erradamente em não apoiar a greve dos servidores do judiciário. Perdeu a maior oportunidade de se aliar a quem mais os advogados necessitam, ou seja, os servidores do judiciário.
A OAB/SP foi a primeira a entrar na Justiça em face da greve dos servidores, acirrando, dessa forma, os ânimos, levando a greve a durar 3 meses.
A OAB/SP sabia que a greve estava sendo politicamente insuflada e não analisou que o governador estava querendo que o circo pegasse fogo e o presidente do TJ não tinha capacidade para dialogar.
Portanto, a maior interessada em terminar com a greve deveria ser a OAB/SP, tomando a frente como mediadora. Mas fez tudo errado. Partiu de faca em punho contra os grevistas, cujo movimento, nós, advogados, sabemos, era justo.
Agora, Urso, tu vais ver como vamos padecer sem a simpatia dos abenegados servidores do judiciário. Vais te arrepender do comício da Praça da Sé. Não esqueças que a nossa justiça está falida e só não entrou em fase de liquidação graças a seus servidores, que retornam ao trabalho magoados com a falta do apoio dos advogados.
A pior greve inicia-se agora. Está na hora, Urso, de reclamar para o Bispo...

Fernando B. Pinheiro disse:
29 de setembro de 2004 às 20:03

Meu caro Dr. Paulo Sérgio Leite Fernandes,

Lamento, mas sou obrigado a concordar com o Sr. José Antonio Dias. Realmente, a OAB-SP errou, e errou feio nessa questão da greve dos serventuários da justiça.

Não podemos culpar os serventuários da justiça se um juiz permite que um processo se alongue mais do que deve! Não podemos culpar os serventuários da justiça se um processo leva cinco anos para ser distribuído no tribunal! Não podemos culpar os serventuários da justiça se juízes decidem liberar quem deveria estar preso, e prendem quem poderia estar solto.

A OAB deveria saber que um juiz está acostumado com o "Cumpra-se". O Juiz ordena e quer suas ordens cumpridas sob pena de desrespeito à justiça e prisão. É só ver como os juizes tratam os advogados. E tem juiz que nem recebe advogado, não é verdade?

No caso da greve dos serventuários da justiça, a OAB tinha que assumir o papel de mediador. O advogado conhece os problemas dos serventuários da justiça e dos juízes, ou seja, tem tudo para intermediar uma questão dessas. E o que fez?!

Lamento a posição da OAB-SP, lamento a posição do Judiciário e lamento a situação dos serventuários da justiça! Sou contra a greve, mas as vezes...

Na verdade, o que me parece é que estão todos olhando o próprio umbigo e ninguem está interessado em resolver o problema.

Receba por gentileza os meus cumprimentos cordiais,
Fernando B. Pinheiro
Pinheiro e Bueno - Advogados
e-mail: fpinheiro@pinheiro.adv.br

Themis disse:
29 de setembro de 2004 às 20:37

O único responsável pelo caos no Judiciário Paulista é o próprio presidente do TJ , pois o mesmo publicou no diário oficial , a concessão de um reajuste de 26,39% ao funcionalismo publico, e em seguida voltou atrás oferecendo 10% . Literalmente deu um calote nos servidores!!!!! E agora , após a greve pretende usurpar os direitos adquiridos de seus funcionários (FAM., LICENÇA PRÊMIO, FÉRIAS VENCIDAS).Os técnicos contábeis do comando de greve provaram ao presidente que ele poderia conceder o reajuste sem prejudicar a LRF. Fica aqui a pergunta:O presidente do TJ agiu dentro da legalidade, porque juiz não pode ofender a lei atendendo a reivindicações não cobertas pelo orçamento, ou ele simplesmente prefere usar o orçamento para comprar sapatos de pelica e tecidos finos para os desembargadores?????????

Alexandre Domingues Martins Bandeira disse:
29 de setembro de 2004 às 21:02

Concordo por completo com os ilustre comentaristas. Se a situação apresentada pelo tribunal fosse com um cliente meu, que se propusesse a pagar um determinado valor de honorário, e na hora do pagamento, diz que não tem dinheiro e me paga menos, nunca mais trabalharia para ele, pagar o acordado.

Os profissionais dos cartórios judidciais são gente e merecem muito respeito. è o mais engraçado é como as nossas seccionais agem de maneira totalmente diferentes. No Amazonas, uma greve foi impedida pela OAB local, que decidiu apoiar a greve e lutar contra o Tribunal de Justiça. A greve foi encerrada imediatamente. Aqui, a nossa Ordem fez um desfavor e decidiu ser contrária a greve, e mais, FEZ UM ATO DE PROVOCAÇÃO GRATUITA, POIS, SOMENTE DEPOIS DE 91 DE GREVE (E NÃO ESCREVO ISSO COM LETRAS MAIS GARRAFAIS PORQUE NÃO CONSIGO), LEMBROU QUE DEVERIA LUTAR PELO FIM DA GREVE (AINDA QUE SOB ARGUMENTOS QUE DISCORDO TOTALMENTE), E DECIDIU PROMOVER UM ATO RÍDICULO, DO LADO DO FORUM JOÃO MENDES.

A ordem necessita de uma representação que atenda os verdadeiros interesses da classe. Um funcionário motivado, que ganha bem, motivado, é o primeiro passo para a reestruturação do Poder Judiciário. Todos sabem que é no cartório que o processo trava, e são raras as vezes que isso acontece por culpa de um funcionário desidioso.
Por que não lutar por isso? Por que não lutar para que se acabe com diárias ridículas que são pagas a juízes que moram em jandira, barueri e adjacencias e trabalham na capital?

Os serventuários são cidadãos como todos. Se estamos num pais falido, isso não é culpa deles. Eles são cidadãos como nós advogados e merecem respeito. Fica impossível dizer que eles estão errados, já que, além de bancar por algo que não deveriam, o que em muito nos beneficiavam, recebem uma banana de nós advogados, (mau) representados por nosso presidente.

Carolina Tecchio Lara disse:
29 de setembro de 2004 às 21:22

Aos meus amigos Servidores do Poder Judiciário

"Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de
Seattle, nove participantes, todos com
deficiência mental,alinharam-se para a largada da corrida dos
100 metros rasos.

Ao sinal, todos partiram, não exatamente em
disparada,mas com vontade de dar o melhor de si, terminar
a corrida e ganhar.

Um dos garotos tropeçou no asfalto, caiu e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e
olharam para trás. Então viraram e voltaram.

Todos eles. Uma das meninas com Síndrome de Down ajoelhou, deu um beijo no garoto e disse:

- Pronto, agora vai sarar!

E todos os noves competidores deram os braços e
andaram juntos até a linha de chegada.

O estádio inteiro levantou e os aplausos duraram muitos minutos...

Talvez os atletas fossem deficientes mentais...

Mas com certeza, não eram deficientes espirituais...

"Isso porque, lá no fundo, todos nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir os
nossos passos..."

"Procure ser um homem de valor, em vez de
procurar ser um homem de sucesso"

Albert Einstein"

Um abraço, Carolina

Servidor disse:
29 de setembro de 2004 às 23:09

Dra. Carolina Tecchio Lara,
Cara doutora, as suas palavras foram muito lindas, mas creio que deveriam se dirigidas aos srs. advogados, pelo fato que foi por causa da atitude do sr. Durso que a greve ganhou mais ânimo e se extendeu por 91 dias (recorde).
Os Advogados e nós os servidores sempre caminhamos juntos dentro dos cartórios nos fóruns, sempre trabalhamos cooperando com os nobres advogados, porém na hora em que mais precisávamos que eles nos dessem as mãos e os braços para juntos vencermos as injustiças do TJ e do Governador Alckimim (do partido do José Serra), fomos apunhalados pelas costas pelos nossos nobres colegas.
Realmente eu acho que as perdas para ambas as partes são e serão muitas no futuro, mas, não houve bom senso da OAB quando tomou posição política do lado dos mais fortes e injustos, prejuízos que devem ser creditados à OAB, Tâmbara e assessores e o Alckimim.

Servidor disse:
30 de setembro de 2004 às 10:10

Corrigindo
estendeu

Carolina Tecchio Lara disse:
30 de setembro de 2004 às 11:33

Sr. Servidor :

Concordo com você que efetivamente não se fez Justiça e que a OAB não traduziu o ânimo de todos os advogados, só de alguns.
Ao contrário, acendeu em praça pública uma grande fogueira de vaidades.
No mais, lhe digo que inseri aquele texto com a intenção de demonstrar a vocês e a quem mais possa interessar que existem inúmeros advogados que preferem seguir ao lado de vocês do que coadunar com injustiças.
Caro amigo, é difícil aceitar esse tipo de coisa e mais difícil ainda, é explicar aos nossos filhos que eles devem ser justos e coerentes sempre, não obstante inúmeras demonstrações de injustiça e desigualdade oriundas de nossos governantes.
Assim, reitero aqui meus valores e minha posição favorável a luta de vocês, repetindo o que já escrevi anteriormente : para mim, a vitória de vocês é inegável, uma vez q

Rosana P. Martelli Barbosa disse:
30 de setembro de 2004 às 12:24

O que mais me revolta, por fim, é que, ano pasado os MMs. Juízes "ameaçaram" fazer greve, e o que aconteceu? Antes mesmo da paralisação, conseguiram o que queriam! Se o TJ tem como atender às reivindicações dos Srs. Magistrados, por que não pode atender à dos SERVIDORES???????? Se tem verba para atender aos Magistrados, por que não tem verba para atender aos SERVIDORES?????????

Andrea Albuquerque Rodrigues disse:
30 de setembro de 2004 às 13:51

Conquanto eu apóie o movimento em tese, os grevistas se esqueceram da máxima: "tratar igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais".

A Justiça é o coração de um país. E se o coração paulista já estava safenado, os serventuários da Justiça induziram o coma, cessando quase que por completo os batimentos.

Temos apenas um leve respirar... a fronteira entre a vida e a morte.

O acesso à Justiça é direito fundamental do cidadão, previsto na Constituição, e ultrapassa o querer dos servidores. Por um lado, foi um prazer (quase sexual, se me permitem ousar) ler as notícias de que o TJ negou liminares aos servidores, seja em virtude do exercício do direito de greve, seja com o intuito da não-abertura de procedimentos administrativos.

Srs. Funcionários, não é a solução... mas se não está bom, saiam. Deixem outros entrarem em seus lugares. Deixem outros trabalharem.

Temos que esperar Justiça, da casa onde se faz Justiça.

M Elisa Focante B D'Elia disse:
30 de setembro de 2004 às 14:37

A OAB deve servir aos advogados e não se servir deles, como ocorreu na manifestação do dia 27/9.

Norma M. O. Pereira disse:
30 de setembro de 2004 às 15:07

Sirvo-me deste espaço para comentar sobre a atitude da dra. Andrea Albuquerque Rodrigues.
Sra. Advogada, seja lá o que a senhora quis dizer com "apoiar, em tese", é preciso que saiba que nós, servidores, temos pleno conhecimento do transtorno causado à população e aos advogados com o movimento paredista. Porém, a ele não demos causa, pois o tempo todo lutávamos pelo que nos é assegurado por Lei.
Se a Justiça estava safenada, é porque, além do exercício de suas múltiplas funções, o servidor ainda atuava como paramédico, mantendo ativas as funções vitais da moribunda.
Nas suas palavras, a sra. menciona "o acesso à Justiça como direito fundamental do cidadão", porém regozija-se, num prazer quase físico, ao ver descumprido o direito constitucional do servidor cidadão.
É temerário este tipo de sentimento, em quem deveria somente regozijar-se com o cumprimento da Lei e da Justiça, e quando a Lei se contrapusesse à Justiça, por esta, deveria lutar.
Quanto à maxima de que, se ganho pouco, devo deixar meu emprego, certamente, a abertura de novos concursos, atraíria candidatos como a senhora, que certamente estariam satisfeitos, tão somente em fazer parte do quadro do judiciário, não importando para isso, que todos os dias tivesse seu direito achincalhado e seu poder aquisitivo corroído, pelo não cumprimento de normas básicas da nossa Lei maior.

Alexandre Domingues Martins Bandeira disse:
30 de setembro de 2004 às 18:05

Eu escrevi algumas mensagens contra os colegas que usam o forum do consultor jurídico de maneira inadequada, estuprando o bom senso. Mas acho que ninguém leu.

Será que meus colegas se esqueceram que existe o dever de urbanidade? Será que meus colegas sabem que determinados comentários que deveriam ser censurados num bar, em locais que se permitem uma maior liber(tinagem)dade de expressão, e são colocados neste forum público, degradam a imagem do advogado? Qual é a impressão de um cliente de um desses meus colegas tem ao ver "prazer (quase sexual)" (apesar que esse não foi o pior, mas serve bem de exemplo), tem ao ver o profissional gabaritado, que deve manter o máximo de educação, agindo dessa forma?

Como eu disse antes, se os funcionários públicos baixam o nível, isso é problema deles. E como eu disse, eu estou vendo muito mais baixaria por parte de advogados (que em tese são formados numa faculdade de direito e tem de passar por um rigoroso exame de ordem), do que de funcionários públicos que em tese teriam apenas o secundário ou primário (não sei direito como o quadro do estadual acaba se preenchendo). Será que somos nós que temos apenas o secundário ou primário?

Fica complicado e ridiculo ver comentários de alguns colegas (ou que se identificam como se neus colegas fossem, mas só se passam por advogados). Nojentos, vocês são nojentos. Ao invés de mandarem os funcionários públicos entregarem os cargos, vocês deveriam entregar a carteira da ordem. Não me conformo como alguns portadores de identificação de advogados conseguem escrever "a casa vai cair", "batata tá assando", e o ápice "prazer (quase sexual)". Doutora, não lhe permito, apesar do seu número de ordem ser 50.000 menor do que o meu, usar a identificação de advogada e escrever isso. Se a senhora tem prazer com isso, ainda mais um tão intímo como o sexual, deve guardar para si tal sentimento. Meus olhos nada fizeram para merecer a visão de seu prazer.

Ser favorável a greve ou contra, é exercício de democracia. Não importa a razão. Agora, baixaria, por parte de advogados não. Poxa, vocês estão degradando a imagem do advogado ao agirem assim. Por óbvio nossa profissão, cada dia que passa, fica cada vez mais desacreditada.

Acredito que esse desabafo meu é o mesmo de todos os advogados que lutam e honram a profissão, seguindo o juramento feito, de elevar o seu ministério ao grau mais elevado. Não me admire que cada vez mais os advogados são tolhidos da administração da justiça.

Alexandre Domingues Martins Bandeira disse:
30 de setembro de 2004 às 18:16

cont.) É uma pena que o bom nível da profissão seja mantido por poucos profissionais que usam o poder de se manifestar com enorme sapiência. Um grande exemplo disso é o articulista deste texto. Não sei se o ilustre Dr. Paulo Sergio era favorável ou não a greve. Mas ninguém o viu escrevendo baixarias no texto acima. Muito pelo contrário. Apesar de discorda dele, não se pode negar que a tese foi brilhantemente defendida, e confesso que quase mudei de opinião ao ler o que este nobre conselheiro da ordem escreveu.

É impossível nos manifestarmos com nível? Será impossível escrevemos com o mesmo nível de educação do que o do articulista acima? Será que apenas alguns advogados dignificam a classe, como o Dr. Paulo Sérgio?

Por favor, advogados, leiam o seu estatuto depois do artigo 6º. É um execelente exercício de cidadania. Muito se pode aprender ao vermos que nós não temos só direitos, como deveres, e muitos que são esquecidos.

Como eu falei antes, o futuro é meu, não de vocÊs. Gostaria de viver como advogado, morrer como advogado. Enobreçam a profissão, não a destruam.

Andrea Albuquerque Rodrigues disse:
04 de outubro de 2004 às 10:29

Sra. Norma, o que eu, tanto quanto milhares de advogados queremos exprimir, é que apoiamos os seus direitos à reinvindicações justas. Mas a conclusão a que a sociedade inteira chegou, é que os direitos dos serventuários acabou, aonde entrou o direito de toda a população do ESTADO de São Paulo, de ter a tutela jurisdicional cumprida.

Um exemplo, mínimo. Uma vizinha - que sequer é minha cliente, 24 anos, duas filhas, viúva há um ano. Não consegue obter alvará para a venda de bens que possam sustentar suas filhas, e a ela mesma.

Quanto aos serventuários, bem ou mal, durante este período estão sendo remunerados. Entende o paradoxo???

Quantos advogados perderam clientes, tiveram que demitir funcionários... sequer vou me alongar quanto às consequências da greve, para não dar a entender que estou formulando acusações. O que quero dizer é que o direito de alguns, ainda que legítimo, não pode prejudicar o direito da esmagadoria maioria da população.

Eu jamais prestei concursos, por amar a minha profissão. Uma vez, quando trabalhava em uma grande instituição financeira, há muitos anos atrás, não participei da greve da categoria, por entender que não se justificava! E isso não se devia ao meu salário, não (baixo), mas sim, a um entendimento pessoal. Eu não concordo em aderir à greve e pronto.

Agora, se vcs vão fazer a greve, não podem se esquecer que, se obtiveram a reposição salarial, ainda que em índice muito aquém do desejado, prejudicaram milhares e milhares de pessoas. É essa a questão, mais filosófica e moral, do que propriamente jurídica...

Quanto ao nobre colega, Dr. Alexandre, seus comentários são dignos de dó. Vergonha é chegar em casa, e não ter dinheiro para pagar as contas, mesmo trabalhando honestamente. Vergonha é não ter mais o que falar aos seus clientes, que telefonam por meses seguidos, buscando informações. E o ápice da satisfação é ver os servidores buscando junto ao Tribunal de Justiça, o mesmo órgão que os emprega, os seus direitos....
Doutor, uma lição para sua vida: julgue os atos, nunca as pessoas. E, boa sorte.... é recém formado, ainda tem muito o que aprender.

E quanto à satisfação quase sexual, se me permite o aparte... disso não vou fazer greve não... advogados têm esse direito. E não se irrite por isso. Se irrite quando não puder sustentar sua familia com dignidade... Um grande abraço, e sorte na carreira.

Alexandre Domingues Martins Bandeira disse:
05 de outubro de 2004 às 19:24

No que tange ao seus comentários, doutora, o que tenho a dizer é o seguinte.

Comentários como o seu fazem com que nós advogados não tenhamos como pagar as nossas contas DEPOIS da greve. Na medida que existe uma vulgarização da profissão faz com que os membros na nossa classe não tenhamos como sustentar a nossa família DEPOIS da greve.

Nenhum advogado, mas nenhum mesmo tem o respeito que tinha da sociedade a 20 anos, 30 anos atrás. Na notícia posterior, um colega fez um comentário brilhante, contra a greve. Onde está a educação inerente a nossa classe, onde está o dever de urbanidade? É só vermos quantos estão procurando o Juizados Especiais sem o nosso auxílio. É só vermos como o STF trata a indispensabilidade do advogado.

O advogado é advogado com ou sem crise. Aquele que acha diferente tem que devolver a carteira. E ser advogado é, antes de tudo, pórtar-se como advogado.

Tenho muito a aprender mesmo, como todos os meus colegas, seja o número de ordem 220.000, ou 30.000. Não é o tempo de carreira que define a qualidade profissional ou seu saber jurídico. É o que fazemos que define nossa qualidade. Não adianta ser advogado a 30 anos e nunca ter saido da mesa do escritório. É ser advogado, e não estar advogado que define o quanto um profissional merece de consideração.

Por fim, o único lugar que pesosas devem ter prazer sexual é com suas pessoas amadas, num lugar reservado. Fazê-lo, em abientes abertos ao público, como disse antes, nos deixa sem dinheiro para pagar as constas DEPOIS da greve.

Francano disse:
06 de outubro de 2004 às 00:58

1.O problema não se situa no ânimo dos servidores em trabalhar. Todos trabalham muito, alguns como eu, há 26 anos de dedicação ao serviço prestado. Em minha carreira como servidor do judiciário paulista, me orgulho de nunca ter tido um procedimento administrativo. Sequer uma advertência. Orgulho-me de nunca ter feito uma audiência deixar de se realizar por falta de intimação de partes ou testemunha. Orgulho-me de ter tido a confiança de todos os juízes junto aos quais tive a honra de trabalhar. Orgulho-me de ser amigo dos advogados que militam na comarca onde trabalho, sendo merecedor de sua confiança tanto no que se refere à celeridade e correção do serviço que presto como oficial de justiça, quanto na forma honesta como me porto no cumprimento dos mandados. Orgulho-me de conhecer profundamente meu trabalho, estudando continuamente para ter segurança nos procedimentos diversos como "o juiz na rua" como é conhecida a função que desempenho. Já escrevi dois livros sobre a função do oficial de justiça.
2.A verdadeira questão é a seguinte: de que me valeram todos esses anos de dedicação ao trabalho? De que me adiantou trabalhar de forma a satisfazer partes, juízes e advogados? De que me adiantou nunca ter pedido, em 26 anos de carreira sequer uma licença médica? De que me serviu colecionar em meu prontuário várias petições de advogados elogiando o serviço desenvolvido? Em que me socorre hoje o fato de nunca ter uma falta abonada? Que valem as madrugadas em que acordei 04h00 horas da manhã para citar réus recalcitrantes? Que valem os sábados e domingos em que abandonei minha família para cumprir mandados de pessoas só encontradas aos finais de semana? DE NADA VALE TUDO ISSO!
3.Na primeira oportunidade, a OAB me apunhalou pelas costas e em vez de me apoiar, me processou.
4.Na primeira oportunidade, vi advogados, ou pessoas que se identificam como tal, me chamarem de vagabundo, marajá, vadio. Que eu ficaria fofocando no corredor do Fórum em vez de trabalhar. Que eu seria mal educado com advogados. Que eu trataria com desprezo as partes. Que eu sou irresponsável. Que eu seria desprezível.
5.NÃO SOU NADA DISSO! Mas uma coisa admito que sou. TROUXA. E admito também que perdi metade da minha vida trabalhando idiotamente para gente que não merecia o meu esforço. Eu não sabia disso, mas hoje eu sei.
6.Isso, senhores advogados, é o que sinto hoje.
7.Tenham a certeza de uma coisa: é o que sente a maioria de meus colegas servidores.
8.Um abraço.

Moisés Gonçalves disse:
16 de outubro de 2004 às 19:43

Caro Francano.

Seu empenho pela profissão é digno de condecoração. É importante que saiba que a opinião de muitos dos advogados que aqui postaram suas opiniões, ofendendo a imagem daqueles que, de fato, batalham para trabalhar com dignidade, não refletem o posicionamento de toda a classe.

Mas, com relação à greve, quero que entenda nosso lado, do advogado. Essa profissão tão nobre que, infelizmente, tem sido desacreditada por muitos em virtude da lentidão do Judiciário (poucos os nossos clientes que entendem que o fato não se dá por nossa culpa). Profissão onerosa, que envolve investimento em muitas áreas: escritório, livros, revistas, computador e internet... nada dado pelo Estado. O bacharel em direito, que tanto se esforçou para terminar um curso que também acarreta grande investimento, tem de passar pelo abusivo exame da OAB. Passada essa fase, nada lhe é garantido (ao contrário dos concursos). O bacharel se torna advogado, com todos os encargos que o cargo lhe exige.

Por causa da greve, quantos os novos advogados que desistiram de um sonho? Quantos os escritórios de advocacia que tiveram de fechar suas portas? Quantos os clientes que nos cobraram serviços, e tivemos de explicar que nada poderíamos fazer em virtude da greve no fórum (e quantos os devedores contumazes que foram favorecidos)? Quantos funcionários de escritório foram demitidos (secretárias, office-boys e estagiários)?

Que fique claro uma coisa: a advocacia é profissão liberal, mas dependemos do serviço de vocês, os servidores do Judiciário. Quando vocês param, a própria Justiça é paralisada. Quando vocês param, nós (principalmente os advogados mais novos) paramos, também... mas, ao contrário de vocês, não recebemos nada enquanto pende essa situação.

Entenda que caminhamos lado a lado. Nosso objetivo (tanto do advogado quanto de vocês) é a concretização da Justiça. Embora uma visão utópica, não há como negar que todos nós somos indispensáveis à administração da Justiça, mesmo que estejamos preocupados, apenas, em verdade, conosco mesmo.

Agora, não foram poucas semanas, nem poucos meses, em que a Justiça paulista simplesmente parou. Foram 91 dias, longos e angustiantes. Não foi tempo demais em que ficaram parados? Tem certeza, você e todos os servidores do Judiciário que aqui quiserem opinar a respeito, de que não abusaram, nem um pouco, do direito de greve? Reflita sobre isso, sem voltar sua visão para o advogado, para a OAB, para o Estado... direcione-a para o povo!!!

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