Uniformização de jurisprudência em Juizados é repudiada

Os bons resultados obtidos com os Juizados Especiais estão ameaçados pela proposta da reforma processual que prevê a uniformização da jurisprudência dos Juizados brasileiros. É o que dizem juizes especiais cíveis e criminais que iniciaram uma campanha para alterar o Projeto de Lei nº 4.723/2004 enviado pelo governo ao Congresso Nacional.

O movimento para alterar o projeto foi iniciado, nesta quinta-feira (10/3), em Brasília, em reunião do Fonaje — Fórum Nacional de Juizados Especiais Cíveis e Criminais, entidade que congrega juizes especiais de todo o país.

Segundo os membros do Fonaje, apesar da importância do pacto firmado para dar maior agilidade ao Judiciário como um todo, a proposta de uniformização dos Juizados Especiais “eliminará a celeridade que rege os juizados, destruindo os bons resultados para a população até aqui obtidos”.

Ao final do encontro, os juízes e juízas aprovaram a “Carta aos Brasileiros”, onde expressam sua desaprovação ao Projeto de Lei. A iniciativa também foi transmitida ao secretário da reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Sérgio Renault, que participou do encontro.

Conforme a carta, “ao criar mais dois recursos para as causas julgadas pelos Juizados Especiais dos Estados e do DF”, o projeto “contraria a busca da rápida solução dos litígios e a tendência de que somente causas de repercussão geral cheguem aos Tribunais Superiores”.

De acordo com o juiz Antonio Silveira Neto, representante dos juizados especiais do Estado da Paraíba no Fonaje, o projeto de lei 4.723/2004 trará morosidade à Justiça brasileira e não agilidade, o que contraria a filosofia de redução de recursos.

Para o presidente da AMB — Associação dos Magistrados Brasileiros, Rodrigo Collaço, “o Fonaje é importante para fomentar a discussão sobre as propostas que tramitam no Congresso Nacional para agilizar a justiça. Pelo conhecimento que os juízes e juízas que integram o Fórum têm da matéria, acredito que suas reivindicações devam ser ouvidas com muita atenção”.

Leia a íntegra da carta

CARTA AOS BRASILEIROS

O Fórum Nacional de Juizados Especiais Cíveis e Criminais, entidade que congrega Juízes de Juizados Especiais de todos os Estados brasileiros e do Distrito Federal, reunidos extraordinariamente em Brasília nos dias 09 e 10 de março de 2005, cientes da importância do Pacto em favor de um Judicário Mais Rápido e Republicano firmado pelos três poderes da República, porém preocupados com disposições nele inseridas e que podem eliminar os bons resultados para a população até aqui obtidos pelos Juizados Especiais, vem a público para apresentar o seguinte alerta:

O Projeto de Lei n. 4.723/2004, que integra o pacto e dispõe sobre a uniformização da jurisprudência dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais dos Estados e do Distrito Federal, na forma de sua redação originária, eliminará a celeridade que rege os Juizados, conforme anteriormente foi reconhecido nas razões do veto ao artigo 47 da Lei n. 9.099, de 1995, que trazia instituto similar aos pedidos de uniformização ora questionados e que foi considerado contrário ao interesse público.

Ao criar mais dois “recursos” para as causas julgadas pelos Juizados Especiais dos Estados e do DF, além dos embargos, do recurso inominado e do Recurso Extraordinário já existentes, o projeto contraria a busca da rápida solução dos litígios e a tendência de que somente causas de repercussão geral cheguem aos Tribunais Superiores.

A aprovação do Projeto configurará grave e irremediável prejuízo para toda a população, pois tornará o Juizado Especial um sistema moroso, oneroso e implicará no imediato aumento do número de recursos que já retardam os julgamentos do Colendo Superior Tribunal de Justiça.

Brasília, 10 de março de 2005.

Laura Prudente da Costa disse:
11 de março de 2005 às 17:44

Como pessoa comum do povo não entendo o mal que tal posicionamento traria, JUSTIÇA para mim são direitos iguais para situações iguais, implicando em decisões iguais para demandas da mesma natureza.
A verdadeira Babel, mais de cem Tribunais, interpretando e decidindo das mais variadas formas só contribui para aumentar o numero de demandas, juízes, funcionários, advogados, me parecendo que o pretexto de defender a autonomia dos juízes serve apenas para ocultar interesses coorporativos.
Racionalizar parece uma palavra proibida quando o assunto envolve este tema.
Reconheço minha ignorância e morrerei entendendo que a mesma causa merece idêntica solução.

Antonio Cesar de Souza disse:
12 de março de 2005 às 10:05

Estou de acordo com a opinião da leitora Laura. Porém, tenho de admitir que a Jurisprudência é que nem uma manada de bois, todos seguem um fluxo, uma direção, mesmo sendo a direção equivocada. Por isso seria bom que as portas não se fechassem para novas posições.

Juarez Araujo Pavão disse:
12 de março de 2005 às 22:29

JUAREZ ARAUJO PAVÃO (Advogado e Conciliador de Juizado)
São Luís(MA)

Fiquei estarrecido ao ler essa matária sobre a proposta do Governo, em criar mais dois recursos no âmbito dos Juizados Especiais.
A maior desgraça deste País, além da corrupção e da impunidade, é a hipertrofia que permeia nas ações do Poder Central em relaçao ao restante do território brasileiro.Os gabinetes de Brasília não interagem com a Nação, a prova disso, é esse famigerado Projeto de Lei nº 4.723/2004, que com a previsão de mais dois recursos, contraria o mais elementar dos sensos comuns, que clama por mudanças no Judiciário, atualmente, muito distante das necessidades da sociedade. O maior clamor por justiça está na exigência de prestação jurisdicional rápida, papel que apesar das deficiências, os Juizados Especiais vêm cumprindo satisfatoriamente, exatamente, pelo ruduzido número de recursos, que os demandantes proteladores, dispõem para fazer valer seus intentos. Como se não bastasse as mazelas que a multiplicidade de recrsos existentes na justiça comum, trazem para a sociedade, vem agora o Governo que deveria está trabalhando pelo o bem-comum, apresentar um Projeto de nefasto para os cidadãos, especialmente, para aqueles que
têm sede e fome de justiça, que são os marginalizados no acesso ao judiciário.

Gilberto Oenning disse:
13 de março de 2005 às 18:20

O comentária da Sra. Laura, foi muito inteligente... Por esta razão, que , ELES, as V.Excias, são contra as Súmula Vinculante....Queremos sim é uma justiça célere,igualitária,impessoal, para todos os brasileiros.

Gentil disse:
13 de março de 2005 às 22:24

Para quem atua constantemente perante os JE´s, percebemos que, mesmo que esteja-se sacrificando algum prazo para solução da demanda, a medida nos parece vir a servir para a satisfação justa das decisões, respeitando sobretudo, o princípio constitucional da ampla defesa. O atual sistema, implantado inicialmente com o intuito de celeridade, tem se apresentado, por muitas vezes, injusto, já que a re-apreciação das decisões são realizadas por juizes de mesmo grau hierárquico, e que julgam decisões de colegas, que em mesma seção, poderão julgar os seus julgados. Ademais, o C. STF tem rejeitado os recursos oriundos dos JE´s, por ser a ofensa reflexa à CF, justamente porque as matérias debatidas, são em sua maioria, ancoradas em questões de Leis Federais, de cuja guarda é competente o STJ. Por tal razão, indiscutível que tal intervenção daquele Tribunal Superior é necessária, para, mesmo que sacrificando o prazo da entrega jurisdicional, esta o seja de forma mais justas, e respeitando o princípio da ampla defesa.

RAFAEL ADV disse:
06 de outubro de 2006 às 08:30

SÚMULA VINCULANTE vai substituir os juízes de primeiro grau por marionetes ou computadores, pois bastará ler o processo, consultar a súmula e dar um "Ctrl C" depois um "Ctrl V" e colar a decisão. Não precisaremos pagar um grande salário de Juiz pra este serviço. Basta um técnico ou estagiário !!! Abraço, Claudio Rafael D. Viegas

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