Subdesenvolvimento é sinônimo de ignorância. O abandono intelectual e a fragilidade moral em que se encontra o povo brasileiro são as principais causas dos seus infortúnios. A mera observação daquilo que se passa ao nosso redor já seria suficiente para concluirmos que sem educação não há saída, mas, agora, o fato encontra-se confirmado pela última pesquisa do Ibope sobre o analfabetismo funcional, publicada no jornal O Estado de São Paulo do dia 8 de setembro deste ano.
Os dados da pesquisa mostram que 75% da nossa população não consegue ler nem escrever satisfatoriamente, pois muitos daqueles que eram considerados alfabetizados por outros métodos de avaliação, embora conseguissem ler palavras, não tinham noção do que elas realmente significavam e não compreendiam corretamente o sentido de um texto.
Obviamente, não basta saber rabiscar o nome ou meia dúzia de palavras para ser considerado alfabetizado, ou seja, apto a adquirir conhecimentos por meio da leitura ou de se fazer entender por meio da escrita. Assim, dos 170 milhões de habitantes brasileiros, cerca de 130 milhões vivem na ignorância. O conceito de analfabetismo funcional foi desenvolvido pela Unesco no fim da década de 70 e engloba aqueles que não conseguem utilizar a leitura e a escrita para se inserir plenamente na sociedade e compreender a realidade. Essa, portanto, é a verdadeira exclusão social.
O índice encontrado explica muita coisa. A corrupção deslavada, por exemplo, tem tudo a ver com a ignorância. Primeiro, porque os governantes não se sentem na obrigação de dar satisfações a ninguém, já que o povo, mergulhado nas trevas, não entende e não cobra nada. Segundo, porque os próprios governantes, em parte, provêm dessa camada iletrada da população e são completamente despreparados para assumir funções administrativas de relevância.
É ilusão achar que o povo brasileiro é cordial, trabalhador, honesto. Existe uma parcela de pessoas nessas condições, claro, mas a grande maioria da população se debate na incompetência, na desorientação, na falta de perspectivas e de valores morais. Em posição de poder, um sujeito assim despreparado tende a optar pela corrupção, como acontece freqüentemente.
Quanto mais ignorante o político, menos se importará com as conseqüências sociais de atos de ganância e irresponsabilidade política que possa praticar. Desta forma, a falta de ética no trato da coisa pública alastrou-se por todas as camadas da população, enredando-se profundamente nas práticas eleitorais e administrativas. Mesmo os mais intelectualizados e, possivelmente, mais conscientes dos deveres de um governante, foram, em certos casos, tragados pela cultura da prevaricação.
O triste espetáculo da administração federal petista e da banalização da propina no Congresso Nacional são puro reflexo desse obscurantismo cultural. “Faturar por fora”, exigir “agrados”, cobrar “mesadas”, vender favores são comportamentos tão baixos, tão irresponsáveis que só podem partir de pessoas sem escrúpulos e sem nenhum compromisso com o interesse público.
É deprimente que o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, que acaba de renunciar ao mandato, esteja sendo acusado de cobrar 10 mil reais mensais para favorecer um empresário dono de restaurante, que, por sua vez, alegou tirar dinheiro dos garçons para satisfazer a ânsia aproveitadora do parlamentar. No entanto, é mais lamentável, ainda, que 300 deputados federais tenham votado em uma pessoa com fama de comportar-se dessa forma.
Enquanto isso, pesa sobre o deputado federal professor Luizinho, ex-líder do governo, a acusação de ter recebido “mensalão” no valor de R$ 20 mil, não se sabe exatamente a que título. Sua euforia, à época da liderança, foi de tal magnitude que ele se transformou em ferrenho defensor de uma duvidosa reforma da previdência e, de quebra, passou a criticar o Ministério Público, o Poder Judiciário e os funcionários públicos em geral como os grandes vilões da Nação. Foi patético.
A continuar nesse diapasão, em futuro próximo, haverá representantes do povo se vendendo por uma penca de bananas. Tudo em nome da esperteza chinfrim e da necessidade de levar vantagem a qualquer custo.
Por sua vez, parcela da elite econômica acaba agindo da mesma forma que os políticos irresponsáveis, seguindo as mesmas regras, perpetuando as bandalheiras.
O resultado é perceptível a olho nu. Além da miséria generalizada e da transformação do país em um favelão, é importante observar que não existem mais lugares aprazíveis no Brasil. As regiões montanhosas, anteriormente exuberantes e cobertas de vegetação, atualmente estão em processo acelerado de desmatamento, castigadas pelas queimadas ou ocupadas por barracos precários pendurados em suas encostas. As praias, verdadeiros símbolos de nossa natureza tropical, sucumbem aos coliformes fecais e à ocupação irregular. As cidades, totalmente desorganizadas, vicejam em meio ao lixo, ao esgoto, à degradação ambiental e à violência. As periferias dos grandes centros urbanos são um espetáculo de horror, tomadas de casas precariamente construídas, apinhadas, todas de tijolo aparente ou barro, desprovidas das mais elementares condições de higiene e segurança.
Para piorar o quadro, dos 40 milhões que, supomos, são alfabetizados de verdade, poucos gostam de ler. É enorme a quantidade de cidades brasileiras que sequer possuem livrarias, e muitas delas abrigam universidades. Difícil saber como conseguem ensinar sem livros…
O momento é de tomada de consciência e de adoção de medidas imediatas. Se não afastarmos e punirmos com rigor os corruptos, se não recuperarmos o dinheiro que nos foi subtraído, se não investirmos em educação continuaremos sendo vítimas de aventureiros e aproveitadores.
Ótimo artigo. Parabéns à autora. A ignorância e a corrupção, de fato, sempre caminharam de mãos dadas. Contudo, é uma pena que a própria articulista fez parte do "governo" FHC, o mesmo que, também apoiado na ignorância popular, aliou-se a pessoas como Marco Maciel e ACM, inclusive para obter o êxito da emenda da reeleição ou para privatizar nossas empresas públicas e sociedades de economia mista a preço vil e financiamento público com condições que nem pai oferece para filho. Lógico que não foi a culpada por nenhum desses vícios, pelo contrário, tenho certeza de que procurou manter-se isolada dessa imundície, tal qual a flor que viceja no pântano fétido. Mas que, afinal, apoiou esse "governo" de alguma forma, isso não há de se negar.
Brilhante o posicionamento da ilustre procuradora.
É inegável, à qualquer pessoa que comungue esforços para entender aspectos históricos de nossa maltratada nação, que a educação é tratada como uma piada de mal gosto no Brasil.
Somente daqui a, no mínimo, 3 gerações, que estudaram debaixo de aulas obrigatórias de Educação Moral e Cívica, desde o primário até a graduação final, é que poderemos, em tese, vislumbrar alguma melhora na patética "lei de gerson", ou encerrar de vez o odioso "jeitinho brasileiro", zona cinzenta entre o certo e o errado, criada por nossa cultura popular e pela ditadura de analfabetos que exercem poder, em diversas esferas, mais recentemente, institucionalizando o semi-analfabetismo como fonte de suposto "orgulho nacional".
Lamentavelmente, não esperemos qualquer melhora, no sentido de caminharmos em direção ao primeiro mundo. Primeiro, devemos encerrar o flerte com o quarto ou o quinto mundo, refletido pelos nossos bizonhos índices sociais e agravado pela sempre incoerente e atrasada Igreja católica.
CONCORDO PLENAMENTE COM A DRA. LUIZA, O QUE FALTA NESTE PAÍS É UMA EDUCAÇÃO DE NÍVEL MAIS ELEVADO .
GLAYTON CAVALCANTI
Concordo em gênero, número e grau. Perfeito! É um povo estranho, que já na segunda-feira quer saber onde é o pagode e o forró do próximo sábado, que vive de expedientes, que quer se "encaixar" no Governo sem concurso, que ultrapassa você pelo acostamento, que reivindica aumento de salário sem aumento de trabalho e almeja riqueza sem nada ter feito para conquistá-la. Hordas de boçais enchem nossas ruas,sem camisa, de palito nos dentes, sem rumo, cheirando a álcool e olhos vermelhos de macoonha. Em boa parcela das casas brasileiras só existem duas publicações. A Bíblia, que nunca leram ou quando lêem nada entendem( comno vão entender parábolas) e a lista telefônica intacta, pois quando querem saber um número de telefone, não se dão ao trabalho de consultá-la e ligam para 102, pagando R$ 1,50 a consulta.
O Brasil está muito mal , realmente
Gostaria de fazer um adendo ao meu comentário. Tem a outra face da moeda. E a corrupção dos doutos, dos Juizes que vendem habeas corpus, dos que ganham R$ 20.000 por mês e têm apartamementos de quase R$ 2 milhões, sem ter herdado nada. A nossa Procuradora da REpública precisa fazer um segundo artigo analisando essa vertente.
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