Muito se tem falado a respeito da ética profissional dos advogados que levaram Suzane Richthofen a expor seus falsos sentimentos em rede nacional de televisão e na capa da mais vendida revista brasileira. Pouco ou nada se falou das responsabilidades da imprensa neste episódio. Como se ela não tivesse nenhuma. Tem. Toda.
Fala-se de farsa. É verdade. As lágrimas fingidas da assassina confessa dos próprios pais, suas falas mal ensaiadas diante das câmaras e do bloco de anotações das repórteres não constituem outra coisa — uma farsa. Quem fez a entrevista sabia que aquilo era uma farsa. Seria uma farsa particular até se tornar pública. Porque torná-la pública, então?
Nas primeiras aulas de jornalismo, ensina-se que nem tudo que se apura vai para o ar ou se publica. Se a informação é falsa, ela não merece ser publicada. Na medida em que se publica uma falsidade, quem o faz assume a responsabilidade pela falsidade, participa da farsa, mesmo que seja para denunciá-la. Então por que publicar a falsa lágrima da mulher que matou os pais?
Fica evidente que os advogados pretenderam usar a imprensa para construir uma imagem positiva de sua cliente. Se deram mal. Desconstruíram o que ainda poderia restar de positivo na figura que defendem. Estão sendo cobrados por isso. A imprensa se vingou e usou a farsa montada com sua conivência em proveito próprio. Deu capa na revista e ibope alto na telinha. Para ela, ficou de graça.
Este é um jogo permanente entre fonte e jornalista. Cada um sabe que está sendo usado e deliberadamente busca usar o outro. Sempre foi assim e continuará sendo. É justo que os bônus e também os ônus deste jogo sejam equanimemente repartidos pelos participantes do jogo.
O interesse público é sempre uma boa razão para se justificar a publicação de uma informação — esta é outra das lições básicas do bom jornalismo. Pergunta-se: qual o interesse público da entrevista de Suzane? O que ganha a sociedade em saber que além de assassina, a moça é fria e dissimulada. O máximo que as duas reportagens conseguem é antecipar o julgamento da ré, o que não é exatamente um bom serviço à convivência social. Para julgar Suzane, com a observância do devido processo legal e com o respeito aos direitos fundamentais do cidadão, mesmo sendo este cidadão uma mulher que matou os próprios pais, está marcado o Tribunal do Júri no dia 5 de junho próximo.
Por causa das entrevistas, a moça voltou para cadeia, mas nem isso pode ser creditado como um bom serviço prestado pela imprensa. O Ministério Público, com o oportunismo que lhe é característico, entrou em cena e fez o pedido para que fosse restabelecida a prisão preventiva de Suzane. Como se fosse crime fracassar no papel de atriz no desempenho de um personagem infeliz. Se Suzane merece cadeia, ela certamente a terá depois de devidamente julgada e condenada. Prisão preventiva não é pena, é medida processual e portanto não é instrumento para apenar ou fazer Justiça.
Voltando ao papel da imprensa no episódio, o que é certo é que não teria havido farsa se a tentativa de farsa não tivesse virado manchete. Da mesma forma que o sigilo do caseiro não teria sido quebrado se não tivesse sido divulgado na Imprensa. Veja bem: tanto o presidente da Caixa Econômica Federal quanto o ministro da Fazenda estão legalmente autorizados a tomar conhecimento do extrato de qualquer correntista. O que eles não podem fazer, e ninguém pode, é publicar na internet o extrato de quem quer que seja, como foi feito no site de uma revista. Sem divulgação da informação sigilosa, não há quebra de sigilo.
Neste caso, também, quem vazou a informação pretendeu usar a Imprensa e acabou sendo usado pela Imprensa, que deu um furo. Mas as responsabilidades não foram distribuídas com a mesma equanimidade.
Tanto a publicação do extrato do caseiro como a exibição da falsa lágrima da assassina fazem parte do show da mídia, desta tendência universal e irreversível de transformar tudo e qualquer coisa num espetáculo para comover platéias. Informação é outra coisa, mas tudo bem. É muito salutar que seja garantido às últimas conseqüências o direito de informação. Que a Imprensa publique absolutamente tudo que julgar no seu direito. Mas é igualmente muito salutar que responda pelo que escreve, fala, e exibe.
Que falta de ética e falta de imaginação induzir a cliente a chorar! Já atuei em 45 plenários e "chorar" necessariamente não é técnica processual, necessariamente a Sra. Suzane Richtthofen está indefesa, é vítima do próprio advogado, pois estava em liberdade e agora está presa. Na dinâmica do Tribunal do Júri, "chorar" não modifica o fato dela ser ré confessa, haja vista, o clima do tribunal do júri ser extremamente sério, isso sim é infração ética, inépcia profissional e a Sra. Suzane necessariamente está indefesa, pois o advogado piorou a situação dela que se era péssima, ficou crítica. O Advogado criminalista precisa ter concentração no caso, esclarecer a verdade, ou será que o fato dela chorar vai inocentá-la? Não vai inocentá-la, será que este advogado está MENTINDO para esta pobre moça? Seria oportuno saber se ele está dizendo que ela será inocentada é errado, pois na minha opinião e deixo aqui o número da minha OAB/SP 151993 para afirmar que eu duvido que ela será inocentada, duvido também que o fato dela chorar não modifica nada a gravidade do crime, que chocou o mundo inteiro, que além de ser grave, hediondo, crime que é in dubio pro societatis, fere diretamente a sociedade, deixo aqui uma afirmação: DUVIDO QUE O FATO DELA CHORAR MODIFIQUE A DINÂMICA PROCESSUAL DO TRIBUNAL DO JÚRI E DUVIDO QUE ISSO A ABSOLVA, EM RAZÃO DA TORPEZA DO CRIME, QUE A SOCIEDADE NÃO VAI PERDOAR E GOSTARIA DE SABER SE ESTE ADVOGADO ESTÁ MENTINDO PARA A SUZANE DIZENDO QUE ELA SERÁ ABSOLVIDA, POR QUE ELE TEM QUE DIZER QUE É IMPOSSÍVEL ELA SER ABSOLIVDA NUM CRIME QUE CHOCOU O MUNDO INTEIRO. SE EU ESTIVER ERRADA, QUERO QUE PROVEM QUE EU ESTOU ERRADA. ANDRÉIA
Hoje, numa roda de amigos forenses, chegamos uma oportuna conclusão: Quão ingênuos (para não dizer burro) foram os causídicos encarregados da defesa da ré. Como se vai falar com alguém com microfone no peito? A família dela, seja quem de resta dela para se dizer "família", tem de agora em diante, todo o direito de requerer reparação por danos morais, por terem colocada a ré a um constrangimento de tal envergadura. E, o que falar do prejuizo processual que se avizinha no julgamento do tribunal do juri? O prejuízo é profundo! Largo e profundo... Quem vai querer contratar um advogado que pode colocar o cliente em risco? A atitude estarpafúrdia, entrou para os anais da advocacia criminal. Não adianta agora querer ficar com raiva da Globo, pois desde criança, se sabe que jornalista não tem escrúpulo. O escrúpulo do jornalista é sempre a primeira página! É como querer cobrar fidelidade de uma prostituta...
Doutora Andrea, Parabéns ! Não entendo como ainda encontramos colegas de profissão que culpam a Rede Globo ao invés de observar a conduta de um colega de profissão frente a sociedade na qual prestamos contas e somos cobrados diariamente pela ética.
Acabei de ler o texto do Sr. Maurício Cardoso. Fantástico o ângulo escolhido. Não sei se concordo com a opinião dele, mas que foi um texto inteligente, ah, isso foi.
Doutora Andreia, parabéns pela brilhante opinião!
Infelizmente, os segmentos da mídia que dominam o meio servem a interesses particulares de famílias, grupos econômicos e do próprio governo, que se insinua através de órgãos, subornos e chantagens que o empresário brasileiro conhece bem.
Na verdade, quem é do meio sabe que não existe liberdade de imprensa. Hoje, substituímos os interesses políticos pelos econômicos e trocamos o censor do Estado pela mesa do diretor. Na prática, é o mesmo lixo reacionário e tendencioso de sempre.
Brilhante artigo!
A novela se repete todo dia, em horário nobre. A imprensa brasileira, no ímpeto doentio pelos números favoráveis do IBOPE, rasga, sem pudor algum, todos os manuais de Ética. Bem lembrou o articulista, foi assim também no caso Francenildo: de um lado da reportagem, em letras garrafais, o extrato bancário do caseiro. Do outro, a crítica ao ministro que devassou a privacidade de um cidadão. Me faz lembrar das palavras de Jesus: "E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmäo, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmäo: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e entäo cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmäo." Mt.7:3-5. Há uma trave enorme nos olhos da imprensa brasileira...
"BBOAB -
Big Brother OAB
A globo misturou BBB com OAB.
A globo editou vozes de advogados e o povo pensou que os advogados cometeram crimes fantasticos e agora descobriu que maquiar réu não é crime. A moça foi estuprada pelo fantástico e a população quer lincha-la. A globo editou Collor e Collor engoliu Lula e Collor engoliu a poupança. a globo pode maquiar candidatos a presidencia e acha que advogado não pode maquiar mocinhas desamparadas pela morte dos pais.acho que a globo vai gastar com reparação de danos morais no BBOAB mais do que no premio do BBB.
PARABÉNS AO CONSULTOR JURÍDICO PELA EXCELÊNCIA NAS MATÉRIAS, PARABÉNS, É EXCELENTE A QUALIDADE, PARABÉNS!
Habitamos uma republiqueta onde quem mata o pai e a mãe a pauladas pode ser colocado em liberdade provisória, mas quem mente para o Fantástico vai preso!
Isso é simplesmente Fantástico!
Mais Fantástico ainda é ver profissionais do direito pré-julgando a infeliz garota e condenando publicamente - em fóruns de opinião na internet - os procedimentos adotados por seus advogados.
Por fim, é deprimente constatar que alguns profissionais do direito têm como única fonte de informação e verdade absoluta programas como o Fantástico...
Por essas e outras é que o caminho mais curto para que nós - brasileiros - possamos chegar ao primeiro mundo ainda é o mesmo, ou seja, a distância entre nossas casas e o aeroporto internacional mais próximo.
Concordo parcialmente com as colocações do Maurício.
Mas não podemos esquecer a motivação para a tão "bombástica" entrevista. A intenção era de criar comoção em relação à ré; angariar simpatia para contrapor a um crime tão brutal. Afinal, ela deverá enfrentar um júri composto por muitos que assistem ao Fantástico! Verdade é que o tiro saiu pela culatra na medida em que expôs um lado ainda mais dissimulado da acusada.A monobra via midia acabou se tornando mais um entrave em sua defesa.
Numa disputa que não se pautou pela melhor ética, a Globo levou a vantagem de explorar o episódio, restando mais exposta quem, com a entrevista, buscava se precaver.Em toda jogada de alto risco, há um ônus ao perdedor.
E foi exatamente isso que a entrevistada lucrou.
Será que a estratégia deu errado mesmo? A entrevista mostrou uma "menina" de camisetinha rosa e personagem da Disney, pantufas e franginha infantil que, por seguir maus conselhos, desta vez dos advogados, acaba se dando mal. Será que a defesa não quis, justamente agora, próximo do julgamento, passar a imagem de uma Susane cabecinha fraca que faz qualquer besteira que lhe sugerem, será que não querem que os jurados acreditem que do mesmo jeito que foi manipulada pelos advogados teria sido pelos Cravinhos? A afirmação do Mauricio estaria certa...um usando o outro e vice versa.
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