Homicida viola direitos humanos porque é bandido

A Comissão de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo, nos dias que se seguiram à saraivada de atentados do crime organizado, recebeu mais de 200 e-mails e mais de 100 telefonemas com ameaças, desaforos e xingamentos. O presidente da comissão, o ex-ministro José Gregori, chegou a receber ligação em sua residência. No insulto mais leve, chamaram-no de “defensor de bandido”. Sua assessora, Celia Whitaker, também recebeu ofensas e ameaças na comissão, na sua casa e até em seu celular. Em alguns telefonemas, houve promessas de perseguição, com a sugestão velada de que coisas piores poderiam acontecer. E tudo porque eles — como defensores dos direitos humanos — estariam entre os culpados pela onda de atentados que parou São Paulo.

É uma estupidez himalaica culpar defensores dos direitos humanos pelos atentados. É uma soma de estupidez e burrice, porque acontece exatamente o contrário: atentados, rebeliões e revoltas, ameaças de matança e chacinas, comandadas ou executadas por presos, acontecem exatamente porque, entre outros motivos, falta respeito aos direitos humanos. Porque falta, e não porque há excesso. Porque, entre outras coisas, essa gente bandida vive como bicho enjaulado.

O espantoso é que uma parcela ponderável da sociedade — a mesma que se calou diante do massacre de 111 presos no Carandiru — ainda não conseguiu entender que bicho enjaulado age e reage como bicho enjaulado, e não como preso disciplinado. O espantoso é que essa parte da sociedade — a mesma que acha lindo o deputado paulista Conte Lopes bradar seus assassinatos de bandidos — ainda se pergunte: por que respeitar os direitos humanos do homicida se ele não respeitou os direitos humanos de sua vítima? A resposta é simples: o homicida viola os direitos humanos porque é bandido, criminoso, mas o Estado respeita os direitos humanos porque não é (ou não deveria ser) nada disso.

Os covardes que ameaçam e insultam anonimamente os membros da Comissão de Direitos Humanos de São Paulo precisam entender que o que realmente ajuda a combater a criminalidade não é tratar os criminosos como lixo humano. É dar-lhes a certeza da punição. Não é preciso torturá-los, arrancar-lhes os olhos, deixá-los dormir entre excrementos… Basta puni-los, com justiça e com rigor. Só isso. Esses covardes são os mesmos que, diante de um assassinato de maior repercussão ou coisa parecida, saem logo pedindo para ampliar a lista de crimes hediondos, aumentar as penas de prisão, aprovar a cadeira elétrica… É tudo enganação. Pena maior não resolve nada, pena de morte não resolve nada. O que resolve é a certeza da punição, rigorosa, justa e humanamente decente.

Os defensores dos direitos humanos — de negros, de mulheres, de crianças, de todos, inclusive de presidiários — são a consciência civilizatória do homem. Eles nos dão a esperança de um horizonte moral. De minha parte, meus aplausos ao ex-ministro Gregori e sua assessora Whitaker, que não se intimidam diante da estupidez, da burrice e dos bandidos. Eles não passarão.

André Petry

é chefe da sucursal da revista Veja em Brasíla.

Paulo disse:
27 de maio de 2006 às 22:12

O que é estupidez himalaica?

Comentarista disse:
27 de maio de 2006 às 22:37

Excelente texto!

Aliás, os defensores da pena de morte e da violação dos direitos humanos não merecem nenhum respeito, sequer temor.

Quem é covarde a ponto de telefonar anonimamente para ameaçar alguém certamente também será covarde o bastante para não cumprir a ameaça.

No máximo, não passam de profissionais (?) frustrados e pessoas mal amadas, que sequer são respeitadas em suas próprias casas...

LUÍS disse:
27 de maio de 2006 às 23:06

Parabéns pelo artigo. O Estado não é criminoso e não pode se igualar aos criminosos, sob pena de não haver justificativa para sua existência.

Nome Aleatório disse:
27 de maio de 2006 às 23:23

Realmente, um texto muito bom... não concordo com as ameaças feitas aos integrantes da organização e as críticas à organização para este caso. O que acho triste, é ver que uma organização como está, utiliza de casos sérios para se propagar. Isto é, são mais enfáticos em casos que a mídia está mais forte de gerando mais polêmica. Já em casos menores, não "perdem tanto tempo".

Alisson disse:
28 de maio de 2006 às 01:30

O Brasil precisa primeiramente resolver seus problemas sociais para, só depois, aceitar os Direitos Humanos.
Direitos Humanos é politicagem.

Alisson disse:
28 de maio de 2006 às 01:35

Nas rebeliões vemos bandeiras com dizeres como: "paz, justiça" e outras coisas mais, e dentro de um presídio vemos palavras com: "vamos quebrar tudo, ou, é tudo nosso".
Já está na hora de abrirmos os olhos.

Rossi Vieira disse:
28 de maio de 2006 às 03:15

Parabéns pelo texto. Preliminarmente,nessas horas da madrugada paulista, parabéns a PM paulista e a polícia civil de São Paulo. Só quem viviveu um plantão do Departamento de homicídios sabe o valor da polícia. A polícia defende a sociedade, aquele que está dormindo e é assaltado e logo após telefona para o 190. Obrigado aos policiais pela assistência 24 horas ao dia. O policial homicida deve pagar seus pecados na cadeia. O policial protetor deve rezar, E nós, do povo, devemos diferenciar o policial bom do mal e rezarmos por eles. Agradecer. Dizer obrigado.Direitos humanos ao policial morto. Fiz parte desse time. Parabéns aos honrados policiais defensores da sociedade paulista. E à aquele que mata por prazer, cana nele....é esse meu desejo. Mas aquele que deixa a família em casa e não sabe se volta, minha honra e solidariedade.

Otavio Augusto Rossi Vieira, 39
advogado criminal em SãoPaulo.

Reginaldo disse:
28 de maio de 2006 às 10:42

Dr. Rossi disse tudo.

Rodrigo Teixeira disse:
28 de maio de 2006 às 14:53

As pessoas são caolhas ou estúpidas mesmo. Direitos humanos são para todos e nós quanto sociedade organizada e "democrática" devemos respeitar e ser respeitados em quaisquer circunstâncias.
Viva os Direitos Humanos que não distingue classes ou grupos.

Michael Crichton disse:
28 de maio de 2006 às 17:41

Assino embaixo do Dr. Rossi...

ZÉ ELIAS disse:
29 de maio de 2006 às 10:33

É a lógica mais plausível mesmo e é o que sempre defendo, um Estado equilibrado e imparcial, executor aplicador e executor de leis justas e não de canalhices, como querem muitos.

mangusto disse:
30 de maio de 2006 às 12:54

A sempre debatida e nunca compreendida questão dos direitos humanos, no Brasil, deveria passar, primeiro,pelo indispensável processo de educação coletiva nacional, campo em que estamos da mais absoluta carencia. Após decadas de conceituação do que sejam os direitos humanos, a maioria primitiva ainda os confunde com direitos privativos de delinquentes, erro grosseiro, bárbaro e conveniente. Tanto que, os mais afoitos em pedir torturas e chacinas, são sempre os primeiros a bater às portas das comissões humanistas, quando seus parentes e amigos vêm a sofrer, com razão ou não, o peso da repressão policial e penal. É esse comportamento social cambiante, que dá a justa medida da hipocrisia e do cinismo, que junto à ignorância, formam o grosso da opinião vigente. A opinião, despida de compreensão, de entendimento, de tato, de visão, gera monstruosidades e monstros, que infelizmente, vivem da escuridão do anonimato. E viva o sistema! Numa sociedade dessas, o sr. Filinto Mueller seria escoteiro. e dos mais ardentes.Afinal, o que é que se está fazendo com o povo bom, comunicativo, afável e pacífico, marca maior desse país maravilhoso, chamado Brasil?

Flávio Haddad disse:
30 de maio de 2006 às 16:49

Parabens pelo bem elaborado artigo. Em tempos de barbárie, é sempre oportuno uma voz de equilíbrio e sabedoria. Lamentável é ler manifestações de profissionais do direito - advogados - maculando o juramento que fizeram ao ingressar nesta brilhante profissão. Na verdade, infelizmente, grande parte dos colegas não saberia discernir "ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO". Em nome da PAZ, DOS DIREITOS DA PESSOA HUMANA, DA SOLIDARIEDADE e DA DEMOCRACIA !

irado ms disse:
30 de maio de 2006 às 23:57

Trago comigo certa dúvida quanto aos grupos defensores dos Direitos Humanos.farei aqui um breve relato do que vi acontecer certa vez.Uma família teve seu partiarca arrancado de dentro de sua residência por bandidos despidos de qualquer senso humanitário,pois estavam querendo dinheiro,jóias,porque queriam grana pra compra fumo e gastar.O triste desenrolar dessa história foi o assassinato de um cidadão trabalhador,honesto,e sem qualquer chance para se defender.Passados alguns dias,a polícia conseguiu prender o autor do homícidio e a surpresa foi que,ao chegar na Delegacia já havia um advogado esperando pelo meliante.Pasmei quando o advogado perguntou ao assassino se havia sido maltratado pelos policiais.Familiares chegaram a DP e hostilizavam o fulano,mas ele não se importava.O que me deixou estarrecido foi assistir um bandido ter todos seus direitos preservados,enquanto os familiares que dependiam do patriarca assassinado não tiveram ninguém para defendê-los.Não apareceu advogado,Direitos humanos,assistente social ou qualquer interessado na defesa dos direitos destes ou para dar-lhes conforto.Faço aqui a seguinte pergunta:Algum animal ataca uma residência,tirando de seu sono tranquilo uma vitima para matá-lo?Sabemos que os animais só atacam quando são atacados,na maioria para se defender ou a sua prole.
Quanto ao fato de um bandido agir como bicho enjaulado,citado pelo caríssimo André Petry,quero lembrá-lo de que este animal só está neste estágio porque preferiu roubar,matar,traficar,estuprar,praticar tudo aquilo que um animal não faz.
Sou contra toda e qualquer ameaça,mas que temos que realmente repensar quanto aos Direitos Humanos,isso precisamos e muito!!!

Você precisa estar logado para enviar um comentário.

Leia também