Veja o noticiário jurídico dos jornais deste sábado

Juízes e bicheiros na mesma frase

A operação Hurricane, realizada na sexta-feira (13/4) pela Polícia Federal, toma as manchetes dos jornais em dia de noticiário político fraco. Enquanto a Folha de S.Paulo entendeu que o tema é político, O Globo e O Estado de S.Paulo jogaram o assunto para o caderno de cidades. Além da prisão dos 25 envolvidos, o destaque explorado pelos jornais é o fato de o ministro Paulo Medina, do STF, estar sob a mira da PF.

O Globo afirma que a operação é apenas um primeiro passo para uma devassa. Os documentos apreendidos na sexta-feira abrirão caminhos para novas investigações. Diz que as investigações podem mostrar uma ligação entre o grupo e o caso Álvaro Lins, também investigado por envolvimento de policiais com máquinas de jogos caça-níqueis. O jornal carioca brinca ainda com o fato de a operação acontecer justamente em uma sexta-feira 13.

Os desembargadores José Eduardo Carreira Alvim e José Ricardo Siqueira Regueira, presos na sexta-feira (13/4), também são citados em outro inquérito que corre em sigilo na Corte Especial do STJ, informa o Estadão. As investigações tratam de um suposto esquema de tráfico de influência para obtenção de sentenças envolvendo distribuidoras de combustíveis no Rio.

Nome correto – Os jornais impressos preferiram não se arriscar e adotaram o nome oficial, em inglês, da operação usado pela PF. Durante o dia, alguns sites e emissoras de televisão ensaiaram a tradução do nome para Furação, o que criaria uma estranha paranomásia.

Sem recurso

Editorial do Estado de S.Paulo faz pressão pela aprovação na Câmara dos Deputados do projeto que altera o artigo 520 do Código do Processo Civil. Com ele, os recursos de apelação não podem interromper o cumprimento de uma decisão judicial de um juiz de primeira instância, a não ser em casos em que a execução possa causar danos irreparáveis. A matéria já foi aprovada pela Câmara, mas voltou com emendas do Senado. O jornal lembra que a mudança é um dos principais itens do Pacto de Estado em Favor de um Judiciário mais Rápido e Republicano. Segundo o jornal, a fase Legislativa do pacto seria finalizada com esta mudança.

CPI do Apagão Aéreo

O STF está à espera do parecer do procurador-geral da República para tomar posição sobre o a instalação da CPI do Apagão Aéreo. A tendência tanto da procuradoria como do tribunal é de que eles sejam favoráveis à comissão, informa o Estadão.

Senador cassado

O Globo e Folha registram a cassação do senador Expedito Junior (PP-RO) pelo Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia. Para os juízes, ficou claro que durante a eleição de 2006, o então candidato ao Senado comprou votos em um esquema que envolve inclusive o governador do estado, Ivo Cassol (PPS).

Greve dos lixeiros

A Folha conta que os lixeiros de São Paulo entraram em greve. Na próxima segunda-feira (16/4), o Tribunal Regional do Trabalho julgará se a greve é abusiva. Na sexta-feira (13/4), o tribunal determinou que 70% do serviço funcionasse.

Paquistão

Os protestos de advogados no Paquistão contra a suspensão do juiz da Suprema Corte Ifitkhar Mohammed Chaudhry merece longa reportagem no Estadão.

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Valter disse:
14 de abril de 2007 às 12:08

NÃO FAÇA DA SUA CANETA UMA ARMA!

Abro o jornal e leio a manchete: “Desembargador Federal é preso em operação por possível envolvimento com o crime organizado”. Não sou nem pretendo ser advogado do ilustre magistrado em questão, que aprendi a respeitar mais pelo sobrenome que pela pessoa, porquanto na minha estante de trabalho e de estudos existem vários livros que veiculam essa verdadeira “marca” do ensino jurídico em cujo nível bem poucos conseguem chegar, e, com certeza, não por obra e graça do acaso. Mas não me poderia furtar de tecer alguns comentários a respeito, valendo-me do fato de encontrar-me aposentado e não mais sujeito à mordaça da Lei da Magistratura Nacional, que impede a emissão de juízos de valor sobre decisões proferidas por colegas no exercício de sua atividade jurisdicional. Aliás, fiz questão mesmo de nem saber o autor da referida decisão judicial, porquanto assim me considero mais livre para tratar do tema, destacando que o uso da palavra “possível”, para mim, faz toda a diferença.

Na minha modesta opinião, o Poder Judiciário está vivendo uma fase de autofagia, não sei se orquestrada ou não; se conduzida por interesses menos ortodoxos ou não. Mas os seus alicerces estão sendo postos à prova e isto coloca em risco o sistema democrático de direito. Não defendo a impunidade e, quem me conhece mais de perto, sabe que jamais transigi com certos conceitos e valores, havendo perdido amigos e ganho inimigos em virtude dessa minha conduta, pois sempre procurei optar pela presunção de inocência e pela irrestrita observância do princípio do contraditório antes de decidir sobre situações em que o erro é irremediável, é fatal, ou, como dizem os letrados “causa prejuízo irrecuperável”. Sempre fui adepto da absolvição – embora muitos eu haja considerado culpados e, por isso, adotado a postura prevista na lei. Mas a condenação sempre me pareceu ser a última das últimas opções. Por que, a meu sentir, melhor conviver com o fato de haver deixado cem culpados soltos do que me sentir responsável pela prisão de apenas um e somente um inocente. Por que este um, segundo penso, não pode nem deve ser considerado apenas um simples número em fria estatística; mas um ser humano, credor do que de melhor a sociedade possa oferecer em termos de civilização e de exemplo.

E aprendi, desde criança, que quanto mais alto for o posto ocupado por alguém na pirâmide social – e sem qualquer demérito a quem quer que seja – mais haverá de ser merecedor de respeito e de credibilidade, pois não se constrói uma sadia reputação do dia para a noite. Mas se a pode perder, ainda que injustamente, em um átimo de segundo. E que a culpa, quando o erro restar caracterizado, não seria jamais de quem pediu ou acusou de modo apressado e irresponsável; mas, a rigor e efetivamente, de quem decidiu. E quem decide sobre a vida e a honra alheias – é o que penso, com todo o respeito – não tem licença para errar. Pois tanto quanto para a morte não há retorno, também para a moral quebrada não há conserto. Tal qual papel picado jogado de cima de um prédio: não existe a menor possibilidade de serem juntados todos os pedacinhos e restabelecer-se a integridade original.

Por isso ouso pedir, suplicar e rogar, encarecidamente, a quem ainda pensa que tem poder de decisão e acha que os ventos hão de soprar sempre na mesma direção: juízo, meu juiz. A única arma de que dispõe o magistrado é a confiança que a sociedade nele deposita. Se é preciso afastar alguém da atividade judicante ou mandar um juiz para a cadeia, que isto aconteça quando e se absolutamente indispensável e necessário, pois sabemos todos que uma maçã podre tem condições de estragar uma produção inteira de maçãs boas, sendo praticamente impossível ocorrer o contrário. Mas que ninguém esqueça do “devido processo legal” ou se entusiasme com a odiosa referência de que “estaria cortando na própria carne”; ou com o apelo da mídia que se nutre de “sangue” e de “carniça”, qual vampiros e abutres. Mais não seja, por que certos órgãos são considerados “vitais” não é à toa, mas por que sem eles o organismo não continua vivo. E jamais representou uma boa solução curar-se a doença matando o doente. E o Judiciário, tanto quanto o Legislativo, são órgãos vitais para a sobrevivência de um Estado de Direito, que pretenda ser Democrático. E, quem corta muito fundo “na própria carne”, com a mais respeitosa licença, parece-me agir tal qual um suicida. Vejo, desde algum tempo, “parlamentar” sendo traduzido como sinônimo de “bandido”. E isto passou a ser considerado “normal”, embora saibamos todos que a imensa maioria dos membros do legislativo é constituída de pessoas idealistas, honestas e responsáveis, não podendo qualificar-se de certo ou errado quem pensa diferente. E, agora, já se começa a incluir “magistrado” no mesmo conceito, quando sabemos que o Mal ainda está em minoria sobre a Terra e sob a Toga, embora muito bem assessorado em termos de marketing e de propaganda.

Juízes de hoje e de sempre, não se iludam com as manchetes; não se deixem seduzir ou impressionar pelos poderosos de ocasião e de todos os quilates; e, menos ainda com a mídia ávida de sangue e de carniça que silencia sobre Guantánamo e chama de terroristas os mais fracos e oprimidos, que perderam o rumo e o prumo. E lhes peço licença para parodiar antiga orientação dos departamentos de trânsito: Não faça da sua caneta uma arma. A vítima pode ser você!

Desembargador Valter Xavier,
Presidente do Instituto dos Magistrados do Distrito Federal.
13/04/2007.

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