Ontem, sonhei que advocacia e marketing eram amigos

Ontem, eu tive um sonho. Sonhei que o segmento jurídico no Brasil era diferente. Estava tudo mudado. Sonhei que os escritórios jurídicos eram chamados de empresas de prestação de serviços jurídicos e a razão social não precisava mais trazer obrigatoriamente o nome dos sócios. Os cursos de Direito tinham um período inteiro dedicado à formação em administração e marketing para os futuros advogados.

As empresas de prestação de serviços jurídicos valorizavam mais o planejamento estratégico e de marketing, e por isso tinham planos bem definidos e ajustados à sua realidade e à realidade do mercado. Os planos de marketing colaboravam na fidelização dos clientes e na captação de novos, porque eram mais objetivos e os profissionais de marketing estavam totalmente comprometidos com o resultado. Nesses planos, era possível encontrar ações de vendas, assessoria de imprensa, publicidade, marketing direto e eventos.

Sonhei que era de praxe os escritórios terem uma grande área comercial e que podiam captar seus clientes de forma mais criativa, com advogados também especializados em vendas. A captação de clientes acontecia de forma direta, utilizando até o telemarketing para agendar reuniões de prospecção. Os escritórios genéricos, que oferecem de tudo, tinham acabado. No meu sonho, apenas os escritórios especializados tinham sobrevivido.

No meu devaneio, os escritórios tinham a nítida percepção de que o atendimento era um grande diferencial e o compromisso de serem especializados no negócio de seus clientes, fundamental. Para isso, tinham excelentes planos de CRM (Customer Relationship Management). Esses planos permitiam um registro sistêmico das características do cliente e o cruzamento dessas informações fazia de cada escritório um expert nas demandas jurídicas do cliente. Eles utilizavam várias ferramentas para intensificar o relacionamento.

No sonho, a situação acima descrita não era vista como uma grande oportunidade de concorrência desleal, pois cada escritório agregava competências múltiplas, capazes de garantir o seu espaço debaixo do sol.

Lá, no meu mundo imaginário, os advogados românticos não existiam mais. Existiam apenas profissionais do Direito, conscientes de que o mercado mudou e exige prestadores de serviços jurídicos alinhados com as tendências de mercado. E também que o cliente precisa olhar para os escritórios e encontrar mais do que advogados bem preparados, mas profissionais do Direito conhecedores da atividade fim do cliente.

No meu sonho, os advogados tinham maturidade suficiente para saber que o simples fato de exercerem o seu dom não era suficiente para garantir um escritório de sucesso. Essa maturidade era extensiva ao entendimento de que todo advogado precisa ser um grande empreendedor, não para o oportunismo capitalista, mas para garantir o reconhecimento da prestação de serviços advocatícios realizados com honestidade e excelência de qualidade. No meu sonho, esse reconhecimento não era espontâneo, precisava ser conquistado com suor.

Ontem, eu tive um sonho.

Robson Vitorino

é especialista em Marketing Jurídico. É formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Veiga de Almeida, tem MBA em Marketing pela Universidade Cândido Mendes, é especializado em CRM e Novas Tecnologias pelo IBMEC. Também é professor de Marketing da Pós-graduação da Universidade Cândido Mendes.

Cícero José da Silva disse:
22 de janeiro de 2007 às 17:50

Com todo respeito que merece o articulista, espero sinceramente que o seu sonho nunca se concretize, pois ser advogado é muito mais do que ser proprietário de um estabelecimento comercial.
Ser advogado é ter acima de tudo amor pelo que se faz, e não procurar transformar a tão nobre profissão em um negócio jurídico.
Escrevo isso porque fui executivo de um grande banco, e também CEO de uma empresa de Tecnologia da Informação, e graças a Deus espero que nunca a advocacia fique impregnada com os que eu costumo chamar de camisas brancas, ou seja, aqueles que nada produzem e vivem de reuniões, planejamentos, business plan, enfim toda sorte de termos e siglas que nada acrescentam e acabam por comprometer a imagem do profissional da advocacia.
Por isso, prefiro continuar sendo o advogado romântico que atua no Tribunal do Júri e faz sustentação oral nos tribunais, porque isso sim é ser profissional e colocar o cliente acima de tudo, e não como um número qualquer dentro dos bancos de dados e nas mãos dos atendentes de call center.

Raul Haidar disse:
22 de janeiro de 2007 às 18:37

Quem vive de sonho é o jogo do bicho! A realidade é outra. As atividades do advogado acham-se disciplinadas pela Lei 8906 e pelo Código de Ética. Advocacia é uma profissão "sui generis", que defende a honra, a liberdade e o patrimônio das pessoas. Os advogados prestam serviço personalíssimo, onde a confiança do cliente é essencial para a contratação. O cliente que contrata advogado por causa de marqueteiros ou marquetagens, que vai atrás de propaganda, que está procurando "serviços jurídicos alinhados com as tendências de mercado" ,que se deixa impressionar até mesmo pela boa aparência de "relações públicas" que oferecem serviços advocatícios de porta em porta, como se fosse latas de sardinha ou lotes de terrenos, faz um péssimo negócio. Nós somos ADVOGADOS, ou seja, "aquele que é chamado". Podemos e devemos divulgar nosso trabalho. Não podemos, nem devemos, nos colocar como mercadores ou, pior ainda, como mercadorias. Quem cuida de mercado é comerciante! E, definitivamente, advogado não tem "concorrente", mas colega. Não se trata de ser romântico, mas de entender que o Direito é um instrumento de realização da Justiça, não um instrumento de ganhar dinheiro a qualquer custo. E chega dessa marquetagem ridícula, que adota idioma estrangeiro para impressionar a gentalha ignara. Antes de aprender inglês ou o tal de marquetingue, precisamos estudar Ética ! Papo mais furado esse!!!

Michael Crichton disse:
22 de janeiro de 2007 às 19:42

Dr. Raul Haidar, parabéns!!

Luiz Augusto Mendes disse:
22 de janeiro de 2007 às 23:12

É matéria paga? Ainal, já é a segunda no mesmo dia...

Eri Coelho - Jornalista disse:
23 de janeiro de 2007 às 07:11

A matéria corresponde à realidade norte-americana, lá os advogados têm liberdade para fazer publicidade, ao mesmo que é maior democracia do mundo, o consumidor é extremamente respeitado, as reparações de danos são significativas, a Justiça é rápida, etc... Aqui os advogados, principalmente os neófitos, precisam ficar confinados nos seus escritórios rezando para aparecer algum cliente, pois é proibido divulgar o seu trabalho, sua especialidade, procurar clientes que estão sendo vítimas de abusos. A nossa democracia é "isso aí", os consumidores não são respeitados, os valores das reparações (quando ocorrem) são aviltantes, a Justiça é lenta. Além disso os advogados estão perdendo o seu mercado de trabalho com a implantação de Juizados, disso e daquilo, nos quais o reclamante não precisa de advogado. Não basta dificultar o trabalho do advogado é preciso afastá-lo da resolução das demandas. Quem está ganhando com isso???

Miyasaki disse:
23 de janeiro de 2007 às 12:34

O Código de Ética da OAB deveria chamar “Lei da Mordaça” afinal ele impede que as pessoas tomem conhecimento de seus direito através dos únicos profissionais gabaritados para esta pratica. Mas como diz um dito popular em terra de sego quem tem um olho só é Rei, por isso vamos nos contentar com a nossa liberdade de expressão, pois isso os nossos governantes ainda não conseguiram tirar, como por exemplo.

Dr Wagner disse:
09 de fevereiro de 2007 às 09:56

Somente os radicais e retrógrados e que não enxergam que o mundo está em constante mudança, o mercado muda com o mundo e as pessoas precisam cada vez mais de conhecimento e conhecendo seus direitos cada cidadão será uma arma em potencial contra os sitema que aí está; opressão, medo e por último até censura como fez o Presidente Lula em relação a um texto do Arnaldo Jabor, onde suas críticas são diretas e atingem em cheio o centro desse poder podre que comanda o nosso país.
Dessa forma temos que mudar e por que não começar pelos Advogados e pela OAB, mudando essa visão de que a Advocacia não é um negócio???
Wagner J. Santos
OAB/RJ 139.641-E

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