O excesso de informação pode acabar com a ciência

Vivemos numa época fabulosa em termos tecnológicos. Métodos, sistemas e artefatos que há bem pouco tempo só conhecíamos através de livros e filmes de ficção científica, fazem hoje parte do cotidiano de nossas vidas e são regularmente anunciados na televisão a preços irrisórios. A parcela maior de responsabilidade pelo vertiginoso impulso tecnológico da última década foi, sem dúvida, o advento do computador pessoal e a popularização da Internet no final do século XX.

A sociedade migrou definitivamente para o mundo virtual e pode-se dizer com tranqüila segurança que quem não estiver conectado no mundo contemporâneo, sejam pessoas físicas ou empresas, certamente está defasado em relação ao hodierno modelo sócio-econômico. Notebooks, Palmtops, celulares, Blackberries, Blue Tooths e um sem-número de engenhos eletrônicos constituem o meio convencional de comunicação das pessoas, tornando-se cada vez acessíveis às camadas menos abastadas da população.

Mas toda essa tecnologia embute um preço; uma conseqüência tão séria e tão importante quanto o preço que vimos pagando pelo progresso tecnológico desenfreado desde a Revolução Industrial, representado pelo aquecimento global e a degradação do meio-ambiente: a humanidade está lidando com informação demais.

Os números estatísticos são impressionantes. No início do século XIX não havia sequer mil pessoas que pudessem ser denominadas de cientistas ou pesquisadores. Hoje em dia são milhões, e especialistas estimam que nesse ritmo a Terra terá cerca de 1 bilhão de cientistas por volta do ano 2020, se sobreviver ao impacto da atividade humana no planeta até lá. Basta verificar a pujança das publicações ditas científicas. A ciência parece estar tomando conta de tudo. Liderado por revistas do porte da Nature e Scientific American, esse segmento produziu, somente em 2006, mais de 4 mil artigos e papers dedicados à ciência.

Cada vez mais “especialistas” esmeram-se em tornar “científicos” campos que nunca o foram. Tomemos como exemplo a história do Universo, que vem crescentemente ameaçando os credos e dogmas religiosos. Estaremos caminhando para um mundo frio e calculista em que todos os relacionamentos e negócios humanos serão conduzidos unicamente a partir de conceitos científicos? Tudo indica que esta seja uma grande possibilidade. À uma, porque a maioria das idéias ditas “científicas” está errada e depois, porque simplesmente são inúteis. Seu simples cotejo com o mundo real comprova isso. Jovens estudantes de prestigiosas instituições universitárias como o MIT, nos Estados Unidos, são um exemplo vivo: dedicam-se seriamente a estudar e criar equações matemáticas para as coisas mais comezinhas da vida, como, por exemplo, uma paquera, a primeira relação sexual ou as chances do time da escola ganhar o campeonato anual.

O verdadeiro desafio dessa avassaladora quantidade de informações com que nos deparamos diariamente é triá-las com a finalidade de obter algo útil para o nosso dia-a-dia. Quem já não praguejou diante do computador de manhã cedo, diante de centenas de e-mails esperando na caixa de entrada, entre mensagens sérias e úteis e spams indesejados e ainda tendo um trabalho importante por fazer com prazo certo de entrega? Diariamente lemos jornais, revistas e assistimos aos noticiários da TV, sem falar nos filmes e programas de entretenimento, mas somos bombardeados por um volume quase infinito de informações e nos sentimos frustrados ao final do dia porque não temos o controle — nem o conhecimento — de todas elas.

Quanto mais o conhecimento se acumula, mais difícil se torna encontrar alguma coisa nova que realmente se destaque na panóplia de dados existentes. Podemos arriscar-nos a asseverar que pelo menos 80% das idéias defendidas pelos cientistas contemporâneos são errôneas e jamais serão consideradas fatos científicos.

Realizar a descoberta inicial no campo da ciência é como achar ouro: estima-se que várias pepitas podem provavelmente ser encontradas em volta, só que na medida em que hordas de novos pesquisadores entram em cena, é preciso cavar cada vez mais fundo para conseguir resultados dignos de nota. Quando o segmento está amadurecido, o panorama assemelha-se a um gigantesco garimpo.

Para detectar ínfimas quantidades de informação louvável e útil, é preciso “peneirar” indefinidamente. Quando se adentra um segmento científico como esse, em que centenas, às vezes milhares de pessoas já se encontram há décadas, as chances de encontrar alguma coisa decente são próximas de zero. Diante dessa realidade, é forçoso afirmar que a porção do conhecimento humano verdadeiramente científico vem diminuindo há vários séculos, justamente por causa da chamada informação “não-científica”. Na Grécia antiga, a ciência era conhecida como Filosofia Natural e os textos filosóficos, matemáticos e médicos constituíam apenas uma pequena fração de todas as palavras escritas.

Quando Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis no século XV, tornou possíveis o Iluminismo e a revolução científica, mas também abriu caminho para o crescimento exponencial da informação não-científica impressa. Quando Newton publicou seu Principia em 1687, para cada texto científico lançado seguiam-se dezenas de poemas, peças dramáticas e essays políticos, a maioria críticos ou detratores, reduzindo o alcance real do conhecimento científico. O surgimento do romance, no século XVIII foi outro golpe vigoroso na disseminação da ciência.

Na virada do século XIX, mesmo com a profusão de novas descobertas como o motor a vapor, o telégrafo e a luz elétrica, a maioria dos jornais imprimia substancialmente mais assuntos mundanos do que ciência. Até mesmo a eminente Encyclopédie Française, um trabalho de mais de 20 milhões de palavras publicado em meados do décimo-sétimo século, não conseguiu manter-se fiel aos fatos científicos. Nela se encontram elementos duvidosos que vão desde a magia negra a obscuras questões teológicas que hoje são considerados radicalmente não-científicos.

A revolução surgida com o maciço processamento de informações do mundo atual foi capaz de conferir grande capacidade de disseminação de informações a qualquer pessoa com acesso a um simples computador capaz de conectar-se à Internet. O mundo virtual — ou ciberespaço — desbancou todas as demais formas de texto escrito desenvolvidas pela humanidade desde os seus primórdios, numa verdadeira transição da informação de conhecimento útil a transtorno, como uma simples pesquisa numa ferramenta de busca como o Google pode demonstrar em apenas alguns segundos.

A quantidade de informação descartável hoje existente na grande rede mundial de computadores torna qualquer estudo científico substancialmente mais difícil, pois “nivela por baixo” as horas de pesquisa antes demandadas para se conseguir alcançar um patamar de qualidade. De alunos universitários que literalmente “baixam” trabalhos inteiros da Web e os assinam usurpando-lhes a autoria a pseudo-cientistas que rebatem a Teoria da Relatividade de Einstein, há muito tempo que a ciência sabe que grande parte da informação é puramente randômica e precisa ser ordenada.

Uma das principais descobertas da Física recente é que cada átomo ou partícula elementar registra pedaços (bits) de informação. Um bit é a menor quantidade possível de informação e representa a distinção entre duas possibilidades únicas: zeros (0s) e uns (1s)? se um átomo puder ser representado por uma dessas duas formas, ele representa um bit. O número de configurações possíveis das partículas elementares é imenso. Um centímetro cúbico de água, por exemplo, contém, em seus cerca de 100.000 bilhões de bilhões de átomos, mais informação do que todos os livros, textos, computadores e cérebros do nosso planeta, mas a grande maioria desses bits existe em forma randômica, como uma seqüência de jogo de dados.

Toda essa informação, portanto, é inútil e colabora com o princípio da entropia, conhecido como uma tendência universal à desordem e explicaria o funcionamento das máquinas e do corpo humano, que necessitam despender energia residual em forma de calor. Entretanto, escondidas no meio desse “oceano” de informação inútil encontram-se bits que conferem ordem ao caos e revelam a função primordial da vida no universo: separar o joio do trigo, isto é, a grande quantidade de informação sem valor daquela efetivamente útil.

O estudo da evolução da vida é uma prova real dessa tendência, se considerarmos que há cerca de 4 bilhões de anos, os primeiros microorganismos vivos “aprenderam” a separar os bits importantes do mundo que os rodeava. As bactérias desenvolveram mecanismos orgânicos para proteger a vital informação contida em seu código genético dos predadores de calor, por exemplo, e passaram esta informação a seus descendentes através da reprodução. Cabe a nós humanos, todo esse tempo depois, aprender a fazer o mesmo em um nível infinitamente superior, pois enquanto para os antigos a informação tinha que ser procurada e encontrada, para nós, a questão crucial é saber separá-la e organizá-la por valor em meio ao fenomenal volume de dados disponíveis ao toque de um botão do mouse. Antes que nos afoguemos todos neste verdadeiro mar de dados, é preciso lembrar que sempre existe algo de valioso e útil em meio ao lixo e que a avassaladora revolução digital que já assola nossa sociedade está destruindo a verdadeira ciência.

Nehemias Gueiros Jr

é advogado especializado em Direito Autoral, Show Business e Internet, professor da Fundação Getúlio Vargas-RJ e da Escola Superior de Advocacia — ESA-OAB/RJ , consultor de Direito Autoral da ConJur, membro da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos e da Federação Interamericana dos Advogados – Washington D.C. e do escritório Nelson Schver Advogados no Rio de Janeiro.

Hipointelectual da Silva disse:
15 de maio de 2007 às 19:47

Caro Nehemias,

Gostei da sua reflexão!

Mas não fique triste, pois a Ciência não sairá perdendo. Ao contrário, ela se desenvolverá de forma mais rápida e em progressão geométrica. Note, por exemplo, o período em que os grandes avanços se deram: da TV de tubo para a de plasmas e LCD, da analógica para a digital, da conversão do telefone como artigo de luxo para o artigo de camelô, os alimentos transgênicos, células-tronco, clonagem, viagens espaciais cada vez mais comuns, cirurgias que antes eram complicadas e agora são microcirurgias, etc.etc.etc. É certo que o setor de embalagens, o automobilístico, como outros, estão muito atrasados ainda, detém-se muito em designer, mas em breve, muito em breve mesmo, você verá “carros inteligentes” circulando pelas ruas, embalagens biodegradáveis, etc., pois serão forçados a mudar.

É certo que estamos num estágio em que perdemos muito tempo com o excesso de informações, mas vamos encontrar uma forma de resolver esse problema, como encontramos quando ainda não existia carros e havia um “excesso de estrada”, quando a medicina não estava desenvolvida e havia “excesso de doenças”, etc.

Assim, embora a quantidade de informações disponíveis seja muito grande (parecendo que não nos vai levar a lugar nenhum), o que está ocorrendo é o contrário. A quantidade imensa de informações dispostas, ainda que aleatoriamente, forçam o método da serendipidade: as conclusões brotarão naturalmente, ainda que do subconsciente, de forma vigorosa. E assim, o povo, seja com sua “criatividade técnica” ou “chute científico”, participará ativamente do processo evolutivo. Aliás, a ciência produziu muitos horrores quando apenas os cientistas a manipulavam.

Hoje, brincamos de ciências todos os dias. O mundo está virando um grande laboratório. Mas é justamente brincando de “internetar” que mudaremos o mundo. Aprende melhor quem brinca de aprender. Lembra-se dos sites e blogs quando pareciam algo inútil? Hoje pessoas importantes e instituições expõem seus produtos ou pensamentos de forma eficiente, trocam informações úteis com seus interlocutores no mundo inteiro.

O Orkut tornou-se hoje numa necessidade para muitas instituições, embora contenha realmente muita coisa que não tem tanto valor. O “Second Life” é mais uma brincadeira que estimulará a produção de informações aparentemente sem importância, mas hoje você encontra lá (naquilo que deveria ser uma brincadeira), instituições bancárias, companhias área, universidades, instituições oficiais, e pessoas comuns também, pois o mundo é nosso, das pessoas comuns que “chutam”, acertam, erram, e por aí vai.

As crianças nascem hoje sabendo operar computadores e isso será algo cada vez mais comum, como é comum na China crianças de dois ou três anos falar chinês.

A humanidade vai encontrar uma forma de selecionar o que é útil e tudo voltará a se equilibrar. Com o tempo o inútil na internet perecerá, pois não é possível que alguém sobreviva por muito tempo produzindo o inútil.

Mas, insisto, gostei da sua reflexão. Pensando a respeito, deu-me até uma certa nostalgia de quando eu vivia em uma cidade de 5.000 habitantes e as crianças brincavam de roda nas ruas, onde o simples badalar dos sinos das igrejas funcionavam como jornal da comunidade. Mas, fazer o quê né? O progresso está aí e não vejo o que possa pará-lo.

Saudações científicas!

Itg@ig.com.br

Armando do Prado disse:
16 de maio de 2007 às 00:28

Discordo. Apenas volume. Quantidade. Na verdade, continuam valendo os esforços, não mais que uma dúzia de livros, alguns escritos há vários séculos. A vida se mede pela qualidade e não pela quantidade. Vive-se intensivamente pela qualidade, não extensivamente pela quantidade.

Armando do Prado disse:
16 de maio de 2007 às 00:30

Complementando: quanto a doenças terríveis, deve-se ao fato de começarmos a vive mais do que o necessário. Nossa carcaça não resiste bem a 100 anos.

Armando do Prado disse:
16 de maio de 2007 às 00:30

digo, viver

Ampueiro Potiguar disse:
16 de maio de 2007 às 11:18

Parabéns!

O excesso é de fato prejudicial.E alienador. Obriga-nos a sermos "cientistas" para separar toda essa parafernália de informações num cadinho e usar, quando possível, o que é útil.

Prometeu, quando foi buscar o fogo no céu, partiu com um totem na mão e um sorriso hipócrita nos lábios.

De lá para cá (o fogo como símbolo do progresso), chegamos onde estamos.Numa entropia social. Perdidos em meio a tantas informações. Pricipalmente as pseudocientíficas.

Entretanto o progresso meteórico da ciência é inversamente proporcional à miséria do mundo, ao progresso social. Ou da humanidade. Representada pela infância perdida; violência insuportável;desemprego alarmante.

Enquanto isso, para mencionar apenas um, Bill Gates doa anualmente alguns milhões. Que servem apenas para manter o status quo da miséria. Milhões que sobram dos seus bilhões estocados. Mas circulando pelo mundo e pruduzir mais bilhões. Pergunta ingênua: para quê? Seria o dono da Microsoft e seus descendentes imortais?

Enquanto isso, também, a chamada Ciência do Direito, refratária a absorver conhecimentos das demais, está sentada num pódio da Idade Média. No Brasil, o Direito, que se pretende puro, adota comportamentos mediavais. Procedimentos e resultados que fariam corar um Diógenes, o pai da filosofia tida como Cínica. Que, na verdade, era o supra-sumo da virtude.

Richard Smith disse:
16 de maio de 2007 às 13:31

É claro que os poucos livros a que aduz o professor, são os de marx, engels, lênin (se bem que duvido que já tenha lido lênin, principalmente o "Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo"), gramsci, marighella, marilena chauí, emir sáder e outras sumidades (do verbo sumir, claro!).

Ai, ai, ai.

Richard Smith disse:
16 de maio de 2007 às 13:43

Caro Dr. Potiguar:

Dois comentários apenas:

a)Em que pese os incipientes esforços da Apple, antes de Bill Gates, dispunhamos apenas do sistema DOS, de letrinhas verdes ou brancas sobre os famosos monitores de fósforo verde.

Nada de páginas branquinhas, de WORD. Imagens? Nem pensar!

b) Salvo engano (por desatualização, claro) Bill Gates já doou DEZESSETE BILHÕES DE DÓLARES! E a sua Fundação, a Bill e Melinda Gates ficará com 95% do seu patrimônio quando eles morrerem.

Um "tantinho" a mais do que os nossos bravos capitalistas (geralmente do dinheiro público!) daqui, não?

De qualquer forma, de se pensar: dois camaradas em uma garagem e um sistema operacional que revolucionou o mundo moderno. Enquanto aqui, e em que pese a imensa e inegável criatividade do brasileiro, aonde estão as condições para o florescimento dos "bill gates" nacionais?

No nosso corrupto (des)governo?

Nos remelentinhos e msfaldinhas invasores da reitoria da USP e suas "ideias felômenais"?

Nas teorias e idéias fossilizadas de indivíduos ídem, como o nosso professor de poucas letras e muitchas idéias na "máça enssefálica dentro do célebro", como disse recentemente o Homem do "ponto G", o Abortista/Excomungado?

Um abraço.

Richard Smith disse:
16 de maio de 2007 às 13:43

Desculpe, "pesem" e não "pese" (os esforços)

Ampueiro Potiguar disse:
16 de maio de 2007 às 14:04

Assunto é sério. Excluam-se as vulgaridades neste democrático CONJUR.
Neste mundo plasmático (gasoso) do consumismo é lamentável que não tenhamos melhoras com os bilhões (onde foram empregados ?) do Bill Gates. A rede Mac Donald´s vende câncer às crianças o aono inteiro. Reserva um dia para o faturamento do dia reservado ser doado às crianças cancerosas. Haja Diógens. No mal sentido.

Quem está usufruindo deste nundo gasoso, seria de bom alvitre ler Planeta favela (Planet of Slums) do norte-americano Mike Davis. Certamente fariam uma reflexão sobre o sentido da vida com a galáxia de Gutemberg. A nave terra suportará tantos problemas? Dá no que pensar. Em que pese certos livrinhos que de há muito tempo alervava a humanidade para o perigo da barbárie.

Richard Smith disse:
16 de maio de 2007 às 14:16

Caro Dr. Potiguar:

Expurgarem-se as "vulgaridades" deste democrático espaço, até que seri afácill, embora bastante anti-democrático.

Agora, expurgarem-se as Vulgaridades desse (des)governo "que aí está", do seu chefe abortista e empurrador de Papa e de todas as pessoas que o apóiam, aí é tarefa bastante amis difícil.

Mas não impossível!

Passar bem

Band disse:
16 de maio de 2007 às 17:59

Caro Irineu Tolentino
“Aliás, a ciência produziu muitos horrores quando apenas os cientistas a manipulavam.” Onde isto ocorreu? A maioria dos horrores foram feitos por legisladores e políticos, não por cientistas!

Band disse:
16 de maio de 2007 às 18:08

O autor acaba defendendo a felicidade de ignorar!

Como em tudo, inclusive a liberdade, só se dá valor quando se perde!

Assim, um pai sofria conformado enquanto a varíola consumia a sua família! Mas o que fazer, dizia, era vontade de Deus?

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