As greves no setor público devem ter tratamento legal mais rigoroso do que as de trabalhadores da iniciativa privada porque no primeiro caso “não se trata de greve do trabalho contra o capital. É a greve de um setor que presta serviço ao cidadão”. A opinião é do advogado-geral da União, José Antonio Toffoli.
Em entrevista ao repórter Frederico Vasconcelos, publicada na Folha de S.Paulo deste domingo (28/10), o advogado da União disse que a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre greve esclareceu alguns critérios importantes, como a possibilidade de descontar os dias não trabalhados. Na quinta-feira (25/10), o STF impôs limites às greves no funcionalismo público ao decidir que enquanto perdurar a omissão legislativa para a regulamentação da matéria, valem para o setor as regras definidas para a iniciativa privada.
Para Toffoli, a decisão do Supremo deve acelerar o envio, do Executivo para o Congresso, do projeto de lei que regulará as greves do funcionalismo. O advogado-geral afirmou também que “em certas áreas, não deveria ser admitida a greve, como na Justiça, na Educação. Não há como repor os dias perdidos”.
Leia a entrevista à Folha
Qual será o impacto imediato da decisão do Supremo?
José Antonio Toffoli — Alguns critérios passaram a ficar claros. Por exemplo, a possibilidade de descontar os dias não trabalhados, de a Justiça decretar se uma paralisação é legal ou não e de haver um quórum para a assembléia decidir a greve.
Essa decisão deve refrear paralisações no serviço público?
Toffoli — Não vai refrear. Vai trazer um novo paradigma. Porque havia uma situação de total liberdade. Com certeza, vai reduzir litígios e conflitos.
Isso apressará o envio do projeto do governo ao Congresso?
Toffoli —- O Congresso e o Poder Executivo não podem ficar ausentes desse debate e terão que acelerar a definição de uma lei sobre a greve. Até porque a lei do setor privado não deve ser um paradigma para o setor público. A greve no setor público deve ter tratamento mais rigoroso, do ponto de vista da lei.
Não procede, então, a alegação de que o projeto que o governo encaminhou tem semelhança com a lei de greve do setor privado?
Toffoli — Ela pega as premissas do setor privado e as torna mais rigorosas no público. O quórum para aprovar a greve aumenta e é maior o percentual de servidores para as necessidades de atendimento público. As condições têm de ser mais rigorosas, pois no setor público não se trata de greve do trabalho contra o capital. É a greve de um setor que presta serviço ao cidadão.
Quais são os pontos mais importantes do projeto do governo?
Toffoli —- O quórum. Uma greve tem de ter legitimidade. A notificação prévia para iniciar a paralisação. E a possibilidade do desconto dos dias não trabalhados. Se a pessoa não trabalhou, tem que arcar com esse ônus. O mais importante é a possibilidade de contratação imediata de servidores para substituir os grevistas.
Os sindicatos vão pressionar por mudanças no projeto?
Toffoli —- Até onde sei, a negociação coletiva na administração pública é a contrapartida que as lideranças sindicais querem do governo para a regulamentação do direito de greve.
É possível estabelecer a negociação coletiva no setor público? Isso não está no projeto.
Toffoli — É possível, mas não no projeto. Existe um tratado internacional, a Convenção da OIT nº 155. O Executivo ainda não encaminhou [ao Congresso]. Precisaria o governo mandar as duas coisas, a lei de greve e um decreto legislativo.
O senhor citou a necessidade de se evitar o “exercício da greve sem limites”. Em quais áreas essa situação tem sido mais preocupante?
Toffoli — Em certas áreas, não deveria ser admitida a greve, como na Justiça, na Educação. Não há como repor os dias perdidos. A área da cultura ficou três meses paralisada. Houve greve na Receita Federal, no Incra, no Ibama. Houve atrasos em obras essenciais.
O governo vai usar para valer esse instrumento, sabendo-se que o funcionalismo público é uma categoria muito ligada ao PT?
Toffoli — O governo Lula não é um governo de servidor público. É um governo para atender o país e a sociedade. Evidentemente, o setor público é um segmento extremamente importante da sociedade. Esperamos que saibam acatar que toda reivindicação tem que ter regras. Vários sindicatos compreendem essa necessidade.
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