Vítimas do Bateau Mouche ainda esperam indenização

Na quarta-feira (31/12), às 23h50, a tragédia com o barco Bateau Mouche, de repercussão mundial, completa 20 anos sem que ninguém tenha pagado por ela. Apenas um parente de um garçom recebeu o equivalente a R$ 20 mil — isso porque percorreu um caminho mais curto. O seu advogado entrou com a ação contra o restaurante Sol e Mar, dos donos do barco, e não contra o Bateau Mouche, como todos os outros.

A Folha de S. Paulo publica reportagem, assinada por Paulo Sampaio, contando que o processo criminal contra o grupo de espanhóis que empresariavam o Bateau Mouche prescreveu antes de a tragédia completar 10 anos, deixando os sete sócios do barco e os dois da agência de turismo Itatiaia (que vendeu os ingressos) livres. Todos foram absolvidos em primeira instância, pelo juiz Jasmin Simões Costa.

Quatro saíram do Brasil pela porta da frente, apresentando os passaportes em dia. Os dois menos ricos — que trabalhavam como gerentes no restaurante, mas tinham participação na sociedade — foram condenados em segunda instância. Cumpriram quatro meses da pena, em regime semi-aberto, e fugiram com um terceiro, condenado por sonegação fiscal, para a Europa.

“Não me pergunte como isso acontece, como criminosos saem do país assim. Eu fico apavorado com esses mecanismos”, diz o advogado de defesa de 26 parentes de vítimas, em 32 ações, João Tancredo. Entre seus clientes estão Bernardo e João Mário, filhos da atriz Yara Amaral, e o ex-ministro do Planejamento Anibal Teixeira, último a entrar com ação cível, há 10 dias, antes do fim do prazo para a reclamação, no próximo dia 31.

Ouvidos pela Folha, os advogados do grupo de espanhóis colocaram a culpa pelo acidente em dois mortos — o mestre arrais Camilo Faro Costa e o engenheiro Mario Triller — e na Capitania dos Portos, que vistoriou o Bateau Mouche no dia 29. “Naquelas condições, o barco não poderia ter saído. Havia uma série de irregularidades na reforma que eles fizeram”, diz o advogado George Tavares.

De acordo com o laudo publicado um mês depois, o material utilizado na reforma do barco e as duas caixas-d’água instaladas na parte superior pesaram demais e comprometeram a estabilidade do Bateau Mouche. Em dado momento, por causa da má vedação e de problemas na tubulação do esgoto, havia 1,5 metro de água no chão do banheiro. O documento diz ainda que não seria seguro ter mais de 62 pessoas a bordo -naquela noite, embarcaram 153.

Na ocasião, foi aberto inquérito policial militar e, posteriormente, já fora da esfera de apuração do então Ministério da Marinha, o caso Bateau Mouche passou à competência da Justiça Militar. Três militares foram condenados a penas que variaram de dois meses a um ano e seis meses de detenção. Nenhum deles foi submetido à Justiça comum.

Em reportagens da época, o então defensor público Roberto Vitagliano, designado para o caso pelo procurador-geral da defensoria Técio Lins e Silva, afirmava que, para serem indenizados, os parentes das vítimas deveriam apresentar os atestados de óbito, da ocorrência policial e da prova de ganhos mensais. A decisão final, segundo estimativa do defensor, sairia no período de um ano. Vinte anos depois, Vitagliano explica que “o caso era muito complexo”.

“Deixei de acompanhar há muito tempo, mas era um processo que envolvia a Marinha e a Justiça estadual. E existem muitos detalhes em um processo assim. Você vê o caso desse PM que matou a criança [no Rio]: a população fica indignada, mas o juiz pode entender que não era a intenção do policial matar. No Bateau Mouche, a mesma coisa, aqueles empresários provavelmente não tinham essa intenção. Eu não achava isso. Entendia que eles assumiram o risco pela avidez do lucro. Mas o que conta é a decisão do juiz.”

Técio Lins e Silva, que hoje é membro do Conselho Nacional de Justiça, órgão fiscalizador do Judiciário, reagiu nervoso, ao telefonema da Folha: “Não estive envolvido com isso, não era minha área. Era um caso de política e cidadania”.

O advogado João Tancredo diz que, se seus clientes tivessem processado apenas a União (pelo erro da Capitania dos Portos), provavelmente já teriam sido ressarcidos. “Por questão de decência e também tomados pela revolta, eles acreditaram que os responsáveis pelo acidente seriam punidos e entraram com ações criminais. Acontece que essas ações interferem no encaminhamento das cíveis, e vice-versa, tornando o processo ainda mais moroso”, diz Tancredo.

Ele conseguiu ver aprovadas sentenças indenizatórias, embora ninguém tenha ganhado um tostão. Tancredo diz que arrestou R$ 40 milhões em bens dos empresários do Bateau Mouche, mas é preciso concluir o processo para usá-los.

Ruberval, de Apiacás, MT disse:
28 de dezembro de 2008 às 12:52

Se prescreveu o crime, alguém prevaricou ou fez "corpo mole". E o Salvador da Pátria - o MP, o que fez?

hammer eduardo disse:
28 de dezembro de 2008 às 23:35

Comentar este assunto cansa pelos simples fato de que ficou resumido a chover no molhado. Nestas horas , apesar das vivandeiras histericas que volta e meia pululam livremente por aqui , é que dá NOJO de ser brasileiro e mais NOJO ainda desta indicutivelmente JUSTIÇA DE BOSTA que permite um absurdo que nos coloca em primeiro lugar no podium dos descalabros.
O caso bateau mouche como ficou conhecido , se transformou num monumento a impunidade e a esculhambação que reinam livres neste Pais , fisicamente deve ser maior ate que o proprio Pão de Açucar aos pés do qual ocorreu a tragedia. È simplesmente inadmissivel que esta quadrilha de VAGABUNDOS espanhois tenha saido pela porta da frente como se tivessem apenas perdido um prosaico guarda chuvas. Todos se lembram das cenas dos mortos sendo retirados da agua boiando apos o afogamento , a Imprensa gritou ate não poder mais e a nossa comica justiça????? com seus infinitos penduricalhos e detalhamentos tecnicos tomou os devidos cuidados para que a velha impunidade levasse mais esta. Mais uma vez fica provado sem margem a maiores discussões que cadeia no Brasil sil sil continua sendo APENAS para os famosos "3 P", ou seja , pardos , pretos e pobres, quem tem grana no bolso JAMAIS será devidamente punido , me convençam do contrario com FATOS e não com aquela usuaria e cansativa baboseira de boteco.

Que o bom Deus continue a amparar as sofridas Familias das Vitimas que sequer foram compensadas materialmente de alguma forma , se é que é possivel valorar vidas humanas. Que apodreçam no fundo do inferno estes espanhois malditos , o capeta deve estar a espera de todos eles. Brasilzinho nojento esse..........

Mauro Garcia disse:
29 de dezembro de 2008 às 08:39

E alguém achou que seria diferente?
Cada vez mais se lê aqui e ali, que os Srs. juízes trabalham pouco. Muitos seminários e cogressos, ministram muitas aulas em cursinhos (quem resiste a R$ 200,00 a hora aula), férias de 60 dias, trabalho frouxo (ou inexistente) nas segundas e sextas feiras.
Importante que o CNJ nao falhe em sua tarefa de cobrar produçao dos juízes. No CNJ a última esperança da pátria.

Carlos disse:
29 de dezembro de 2008 às 08:46

Mauro Garcia (Advogado Autônomo - - ) 29/12/2008 - 08:39

O PERIGOSO é cobrar produtividade dos juízes e cair MAIS DO QUE JÁ CAIU a qualidfade das sentenças.

Mas que tem culpado nesta história, não precisa ser muito inteligente para saber que tem?

Quem será punido? Seja de algum poder: Judiciário, Ministério Público, etc. ou dos que praticaram o ato naquele reveillon?

Não acho que spo tem coisas ruins no Judiciário, mas que ultimamente o mesmo anda na UTI, disto ninguém discorda. E do jeito que as coisas vão a tendência é piorar.

Axel Figueiredo disse:
29 de dezembro de 2008 às 11:15

E viva a Justiça Federal!!!

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