Quando imprensa, polícia e MP extrapolam seus poderes

Está resolvido um dos principais problemas brasileiros: a lentidão da Justiça. Resolvido, aliás, ao arrepio da lei. Porém, com ajuda de pessoas que ganham polpudos salários para defender o Estado Democrático de Direito e zelar pelo cumprimento da lei. Agora, quem denuncia, julga e sentencia é a Imprensa — essa mesma instituição da qual faço parte, às vezes com orgulho, às vezes com acanhamento.

Hoje temos julgamentos diários, exercitados em programas de tvs e rádios, primeiras-páginas de jornal ou em implacáveis sites de notícia. Estes últimos são, pode-se assim dizer, os “juizados especiais”, porque recebem a informação, julgam e publicam em menos de cinco minutos. Para se candidatar ao cargo de “juiz a jato” basta alugar um horário na tv e no rádio, estrear um programa e pronto: paladino da moralidade. Também montar um site. Algo assim “www.julgamentoajato.com.br”. Sentença em forma de notícia ao alcance de um click.

Os julgamentos são sumários. Não existem mais suspeitos, supostos, possíveis. A sanha julgadora não preserva ninguém e os outrora sonhados 15 minutos de fama, ultimamente, estão sendo substituídos por 15 minutos de escândalo. O indivíduo foi promovido a osso. É roído e largado pelo caminho, sem cerimônia. Alguns comunicadores usam como instrumento de trabalho apenas o que outros publicaram, criando uma criminosa bola de neve.

É verdade que não é de hoje que a imprensa é surpreendida em erro, expondo pessoas e crucificando, sem dor, outro tanto. Também é verdade que na maioria das vezes o erro era evidenciado pela má apuração dos fatos. Porém, numa época em que jornalista desconfiava de tudo e de todos, e a relação com as fontes desenvolvia-se cautelosa. Tinha-se redobrado cuidado para dar uma manchete.

Antes, em anos de chumbo, fonte policial era alvo quase proibitivo. Agora, refeita essa mórbida relação, espanta a promiscuidade da aproximação e os resultados da simbiose. O que a Polícia fala é verdade e vai para as páginas. O que o Ministério Público acha é transformado em dogma, indiscutível. E essas duas fontes oficiais de informação descobriram o fascínio que exercem e, despudoradamente, usam, abusam e desusam da relativa ingenuidade da maioria dos colegas. Ingenuidade + descompromisso sempre leva para o caminho mais fácil: aceitar a informação como verdadeira sem nenhuma checagem ou questionamento. Como se essas fontes fossem infalíveis por “estarem” autoridade.

Ignora-se um fato elementar: polícia investiga. Sem investigação, não existe julgamento. Então, não pode a Polícia sair divulgando nomes, fatos, detalhes, distribuindo cds com depoimentos. É uma investigação reality show, onde todos têm acesso a tudo. Todos, exceto advogados dos e os próprios investigados, para não atrapalhar a trama. Criou-se um círculo vicioso, com afronta à ética, ao bom jornalismo e, de outro lado, onde se edifica, cada vez mais, uma polícia fantástica, do holofote, da manchete. Policiais-estrelas; no coldre, saco de vaidades.

Um dos velhos jornalistas que contribuíram para a minha formação dizia sempre: quem julga é juiz. Quem advoga é advogado. Quem denuncia é promotor. Então, juiz não é igual a advogado e nem a promotor, pois estes dois últimos representam interesses das partes. Ministério Público, mesmo sendo fiscal da lei, é parte nos processos. Presume-se, portanto, que o outro lado pode estar correto. Não podemos ser, portanto, aliados de primeira hora de um lado, sob pena de perder aquilo que devemos buscar sempre como jornalistas: isenção.

O que fazer então, cara-bororo? Sinceramente, estou cético com o risco de encontrarmos uma solução. Sim, risco, principalmente porque temos em cena muito de preguiça, ingenuidade, despreparo, vaidade, manipulação, rancor e desleixo. Está certo o ministro Marco Aurélio. Vivemos um Brasil de faz de conta, de incoerências. Vivemos, com isso, um cenário sempre propício ao surgimento de salvadores da pátria. Precisamos urgente de um choque ético, sem dó. A começar por nós, jornalistas. Um choque capaz de fazer acordar cada qual para a sua verdadeira finalidade. Senão, é conluio.

Américo Corrêa

é jornalista em Cuiabá.

jose brasileiro disse:
06 de fevereiro de 2008 às 17:31

O brasil não tem bandidos.....

Armando do Prado disse:
06 de fevereiro de 2008 às 17:50

Certa mídia, vive de factóides que, infelizmente, POR VEZES, é alimentada por policiais e agentes políticos.

Michael Crichton disse:
06 de fevereiro de 2008 às 18:55

Uau!!!!
Esse artigo deveria ser leitura obrigatória para jornalistas e estudantes de jornalismo. É isso aí.

Carlos Augusto disse:
06 de fevereiro de 2008 às 19:07

Américo Corrêa, meu parabéns!
O Sr. pode ostentar, com orgulho, a designação de jornalista profissional.
Quiçá todos que são e pretendem ser jornalistas possam contar com tamanha lucidez em seu exercício profissional.

Mauricio_ disse:
06 de fevereiro de 2008 às 19:23

Meus parabéns ao jornalista Américo Corrêa!

Que bom seria se tivéssemos muitos "Américos" nas redações de todos os jornais brasileiros!

olhovivo disse:
06 de fevereiro de 2008 às 20:16

Faltou citar o personagem mais abjeto desse "reality show": o juiz chancelador. Aquele que, embora tenha passado vários anos na faculdade, não raro pós-graduado, e que se limita a ser induzido pelo policial, MP e jornalista condenadores. Normalmente, um jornalista que sequer sabe manusear o CP ou CPP. Essa postura foi identificada por um ministro do STF, salvo engano, Gilmar Mendes, e cunhada com a célebre frase "covardia institucional". Não fosse isso, o "reality show" daquelas três instituições não prosperaria, cairia no ridículo. Mas, de covardia em covardia, o show não deve, tão cedo, parar.

Mauro disse:
06 de fevereiro de 2008 às 21:08

Pontual, contundente e objetivo. Essas são palavras que vieram à minha mente enquanto lia este excelente texto. Parabéns!! Parabéns!! Parabéns!!
A imprensa brasileira é um fato social digno de muito estudo. Quem diria que um dia a imprensa fosse se tornar a principal inimiga não-declarada e muito bem camuflada da liberdade de expressão? É um fato históricamente surpreendente.
A verdade é que a Polícia e o MP são joguetes na mão da imprensa. Promotores, investigadores, delegados e demais integrantes agem como atores de novela com notável retórica e palavreado rebuscado quanto sabem que se trata de algum caso que tem cobertura da imprensa. Não obstante, são também promovidos a ossos, conforme o autor, e não apenas os objetos-vítimas das notícias, e depois largados pelo caminho.
E asim caminha a nossa ridícula democracia. Enquanto houver gente que se considera culta e bem informada dando ibope para esses parasitas sociais, tais como Globo e Veja, o nosso amado Brasil amargará essa mediocridade intelectual, social, economica e política.

Spartacus disse:
06 de fevereiro de 2008 às 21:37

O artigo é totalmente pertinente. Dá gosto de ler. Bem escrito, perspicaz, sério, bem fundamentado. Faltou, talvez, como lembrou em seu comentário o Olhovivo, mencionar os juízes chanceladores, também os juízes mais burocratas do que magistrado, os juízos lerdos, os juízes engavetadores de processos, os juízes farejadores e caçadores de filigranas para inadmissibilidade de recursos especial e extraordinário. Porém, se o articulista fosse esgotar o tema, dada sua argúcia e capacidade discursiva, o sistema judiciário, penitenciário, policial e o Ministérios Público brasileiros sairiam completamente destruidos, não sobraria pedra sobre pedra.

Pensando sobre essas coisas, às vezes chego a concluir que só implodindo tudo para reconstruir é que se conseguiria uma verdadeira mudança, capaz de quebrar paradigmas, enterrar velhas tradições (com licença do pleonasmo reforçativo, pois o tradicional caracteriza-se pela diuturnidade), para em seu lugar erigir um novo sistema, que dê certo, pelo menos mais certo do que este que está aí, em que se verifica um nojento jogo de empurra que visa transferir responsabilidades para o primeiro que aparecer. Como franco atirador, atiramse a esmo as próprias responsabilidades sobre qualquer outra pessoa, desde que isso seja capaz de criar confusão e dúvida sobre o verdadeiro responsável.

Juiz nunca erra, pois suas decisões são jurisdicionais e delas cabe recurso, os mesmos que atacam como vilões da celeridade processual. O MP pode atuar como parte e, ao mesmo tempo como fiscal da lei, como se num passe de mágica fosse possível sustentar uma posição como parte e outra como fiscal da lei. Mágicas interpretativas que superam qualquer presdigitação conhecida, deixando o coelho que sai da cartola acanhado pela singelaz do seu truque.

O articulista tocou na ferida aberta e latejante, a grande fogueira das vaidades da atualidade, pois todos invocam a falta de ética nos outros, nas demais classes, deixando-se de fora. O articulista, diferentemente, com elegância singular, cobra o compromisso ético sem distinção, incluindo-se no rol dos cobrados, fazendo uma auto-reflexão que não só não exclui a categoria profissional a que pertence, mas antes coloca-a em primeira lugar na fila dos reivindicados a adimplir o compromisso ético saudável e necessário ao exercíco de qualquer profissão. Essa súplica plangente por um pacto com a decência deve obter a adesão de todos os que pensam racionalmente em contribuir para que as gerações futuras recebam um legado melhor, já que para a nossa geração isso, infelizmente, não será possível vivenciar.

(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Diretor do Depto. de Prerrogativas da FADESP - Federação das Associações dos Advogados do Estado de São Paulo – Mestre em Direito pela USP – Professor de Direito – Palestrante – Parecerista
sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br ou
sergioniemeyer@ig.com.br

Richard Smith disse:
06 de fevereiro de 2008 às 23:55

Do "blog" de REINALDO AZEVEDO do dia de hoje:

A corrupção do caráter
É bom que vocês saibam: qualquer governo atua para desviar jornalistas da rota se percebe que eles estão no caminho certo e, ao fim da trajetória, acabarão batendo em algum figurão. Pode fazê-lo por meios lícitos ou ilícitos, e cumpre ao profissional se esforçar para não cair em armadilhas.

No caso da ex-ministra Matilde Ribeiro, essa armadilha consistia justamente em oferecê-la às piranhas, para que o resto da manada governista passasse incólume. Em nenhum momento, houve esforço oficial para preservá-la da acusação de uso irregular do cartão corporativo. Ao contrário até. Havia um discreto incentivo para torná-la um exemplo negativo num ambiente de suposta correção no uso dos cartões. Sim, ela foi oferecida como o famoso boi de piranha.

As coisas começaram a se complicar para o governo quando reportagem da VEJA demonstrou que três funcionários da Presidência da República gastaram, no cartão, R$ 205 mil em 2007. A conta maior foi feita num supermercado. Nota: tudo o que Lula come e bebe no Brasil deve ser comprado por meio de licitação pública. O uso do cartão para isso é irregular.

E, então, o tal Portal da Transparência passou a ser uma verdadeira cornucópia de irregularidades. A ponto de o general Jorge Felix, da Segurança Institucional, querer tirar de lá os gastos relacionados à família presidencial. Parecem dizer: “Pô, já fizemos demais em dar transparência a algumas lambanças; só falta agora essa gente da imprensa cobrar também a punição”.

O lulo-petismo é expressão de uma nova visão de mundo e da política: “Mostrar a irregularidade, vá lá; querer corrigi-la já é excesso de moralismo”. Trata-se de uma grande contribuição à degradação da vida pública. O larápio que nega a ilegalidade de pés juntos continua bandido, mas não corrompe o princípio. Os tempos são outros: estamos falando da corrupção da convicção, da vontade, da verdade e das instituições. Querem que aceitemos a falcatrua com um fato normal da vida e uma característica intrínseca à política.

Luiz P. Carlos (((ô''ô))) disse:
07 de fevereiro de 2008 às 08:05

Detalhe esquecido!

O problema não é 'Quando imprensa, polícia e MP extrapolam seus poderes ', é quando ambos estão formando uma quadrilha se locupletando, prevaricando de mau carater e inexcrupulosamente.

Transformando o interesse cívico pela luta contra o Estado Paralelo, estes que tem todos os direitos e não cumpre com seus deveres, se afigura extorsivo contumaz, mantendo o cidadão moderno sob regime tributário de trabalho escravo, se locupletando com pedagios urbanos inconstitucionais, multas eletronicas, vistorias veicular anual, usando e abusando do poder de policia que lhes é por prerrogativas legais para circunstanciar o terror em troca de votos e outrs chantagens politiqueiras.

Nesse sentido só ha uma defesa...

O Grito na Midia !!!

Fernanda disse:
07 de fevereiro de 2008 às 10:10

Sr. Américo Corrêa
Parabéns pelo texto.
Infelizmente, poucos tem esse 'olhar' sobre a verdadeira função da mídia.
Hoje, bom é aquele que aparece mais, e não importa de que lado esteja.

Dr. Ségio
Sua ideía de imp]odir para reconstruir é bem apropriada neste momento; talvez, a única saída.

gilberto disse:
07 de fevereiro de 2008 às 11:16

Esse artigo foi um verdadeiro "tapa na cara"! Nunca li algo tão sincero, principalmente vindo de um jornalista, pois os mesmos são corporativistas!!! Todo mundo sabe do gosto que delegado e promotor têm por estar na frente de uma câmera de TV ou de um repórter de rádio AM. Suspeitos são aprensentados aos holofotes como se já fossem culpados e, ali mesmo, nos seus gabinetes, recebem a sentença de condenação, às vezes sem a presença de um advogado. Em operações midiáticas com nomes esquisitos, a polícia chama logo a imprensa, de preferência aquelas que dão maior audiência!! Nas entrevistas que dão, colocam um óculos escuro, ajeitam o paletó e se metem a dar palpites e condenar o suspeito sem o devido processo legal, sem respeitar os direitos constitucionais que qualquer pessoa tem. Já cai na armadilha de achar que MP e polícia têm que agir com todo rigor, bater, quebrar, aparecer e excrachar as pessoas na imprensa, mas acho que isso é tolice, pois são duas instituições que não julgam ninguém, porém, se arvoram de autoridades judiciais!!! Essa farra tem que acabar! A Justiça não pode permitir a divulgação na mídia de trechos de conversas e, ao final do prazo das escutas telefônicas, um cópia tem que ser repassada aos advogados e só, nada de dar trechos ao jornalista, pois, como fica o princípio constitucional da ampla defesa! Em operações não precisa estar lá também o repórter, principalmente daqueles emissoras poderosas e das grandes revistas! Na minha humilde opinião, se a constituição for respeitada, MP e polícia cumprindo o seu papel direitinho, sem extrapolar, a Justiça já está sendo feita!

pietro disse:
07 de fevereiro de 2008 às 11:44

Sou testemunha na procura por parte da imprensa do negativo, do ruim, do que deturpar e provocar tumulto. Concordo com o autor da matéria, mas deixou claro que parte da imprensa procura e se não acha inventa.

Émerson Fernandes de Carvalho disse:
07 de fevereiro de 2008 às 13:40

Há muito tempo disse aqui mesmo no Conjur, que denegrir a imegem dos outros estava se tornando um esporte nacional. Qualquer alegação, partisse de onde partisse e por mais absurda e despudorada que fosse, era divulgado com ares de verdade absoluta, em completo desrespeito ao direito de defesa.
O artigo acima, que é muito correto e sincero em seu conteúdo, só surpreende por ter rompido com o silêncio imposto aos que denunciam a sistemática atual, que preserva apenas "os amigos do rei", como, p. ex., nos casos que envolveram Gugu Liberato, que morbidamente se aproveitou dos atentados do PCC em 2006, para forjar matérias terroristas, em que atores se passando por bandidos ameaçavam a paz e as autoridades públicas.
Parabéns ao Conjur pela iniciativa!!!

REGINACOELI disse:
07 de fevereiro de 2008 às 14:05

PARABÉNS AMÉRICO. SOMENTE QUEM PASSOU POR UM LINCHAMENTO MORAL NA MÍDIA, APÓS ANOS E ANOS DE TRABALHO E DEDICAÇÃO, COM ESTATÍSTICAS ALTÍSSIMAS, É QUE SABE A DOR DE UMA NOTÍCIA MENTIROSA, CALCADA NUMA DENUNCIA IRRESPONSÁVEL E TENDENCIOSA. UMA AÇÃO DE DANOS MORAIS JAMAIS COMPENSARÁ O SOFRIMENTO DE UMA FAMÍLIA INTEIRA VENDO O SEU NOME SER MANCHADO POR MOTIVAÇÕES TORPES E INCONFESSÁVEIS. UM GRANDE ABRAÇO E FIQUE COM DEUS.

Mauro disse:
07 de fevereiro de 2008 às 16:37

Só mesmo o gringo Richard (o consultor cujos honorários são os mais altos de todos os tempos e nenhum de nós aqui do Conjur tem condições de pagá-los) fica sempre do lado de jornalistas como Reinaldo Azevedo. Esse texto de Américo Correa é um dos mais contundentes que já vi aqui no Conjur e mesmo assim o gringo ainda fica do lado da Veja. Gringo, acorde, entre políticos e jornalistas não há diferença alguma, ou melhor, há sim, é que os políticos corrompem o poder e os jornalistas corrompem a informação.

Richard Smith disse:
07 de fevereiro de 2008 às 21:58

Bad boy, bad boy...

Maura Marques disse:
05 de março de 2008 às 16:02

PARABÉNS VC È D+, é uma vergonha o Judiciario acatar somente a palavra de policiais em flagrante de trafico de entorpecentes, e dar credibilidade de fé publica sem o cunho do contraditório. Maura Marques

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