Imprensa precisa de lei para deixar de julgar e condenar

[Artigo originalmente publicado no blog do Zé Dirceu no sábado (23/2)]

A revisão, suspensão de dispositivos, ou revogação total da Lei de Imprensa, apesar de necessária, deve ser feita com uma discussão mais ampla sobre o respeito aos direitos de imagem e resposta, sobre as formas não só de assegurá-los, como de fazer a imprensa também os acatar. Hoje ela os desrespeita de forma ampla, geral e irrestrita, cotidianamente, prevalecendo-se da impunidade de que usufrui, já que, no caso da instituição imprensa, a Justiça se faz de cega mesmo.

Falo de direitos assegurados pela Constituição, impossível, portanto — ou deveria ser — de serem desrespeitados tão seguidamente no país. Ao se tratar de uma nova lei de imprensa, ou algo que a substitua como legislação na área, que se aproveite para regulamentar o artigo 5, da Constituição de 1988, o item que esta trata da proteção “a honra e imagem das pessoas, assegurado direito a indenização por dano material ou moral e o direito de resposta, “proporcional ao agravo”.

Em 20 anos de vigência da Constituição esta regulamentação nunca ocorreu e este mantra da mídia, de que os códigos civil e penal bastam para regular sua atividade encobre, na verdade, o seu propósito de não ter nenhuma regulamentação. Até porque, na seqüência — e já há postulações nesse sentido — vão querer revogar, também, qualquer legislação que estabeleça pena de prisão ou multas para crimes da mídia. É óbvio que isso visa coagir o Poder Judiciário.

Temos o código penal e civil, mas eles em relação à mídia são letra morta. Não resolvem questões do direito de resposta e nem da indenização por dano material e moral — pelo menos como os tribunais tratam demandas abertas com base neles hoje. A regulamentação destes dois direitos faz-se necessária para evitar que a simples revogação da Lei de Imprensa transforme em um costume o desrespeito a estes dois direitos, hoje já uma prática comum, cotidiana e absoluta.

Sugeri ontem [sexta-feira (22/2)] e retomo hoje [sábado (23/2)] a proposta de discussão de uma nova lei de imprensa. A liberdade de informação não está em risco no Brasil, como sugere a campanha da mídia tendo como pretexto processos movidos por integrantes da Igreja Universal. Vamos distinguir: são processos que podem e devem ser resolvidos no âmbito do Judiciário e a decisão do ministro Ayres Brito, do STF, ao suspender 20 dispositivos da Lei de Imprensa só comprova isso. Aliás, um dia depois da decisão do magistrado, descobriu-se que boa parte deles não têm como base a Lei de Imprensa, mas outros dispositivos da legislação.

Repito, faz-se necessário um debate democrático sobre a estrita obediência por parte da imprensa ao texto constitucional. A imprensa não pode continuar a ignorar a presunção da inocência, os devidos processos legais, não pode se antecipar à conclusão destes. Não pode atingir a honra e imagem dos cidadãos alegando que foram denunciados ou processados e ficar por isso mesmo. A Constituição é clara, e as leis também — não há culpabilidade de uma pessoa quando da aceitação de uma denúncia contra ela — ela e todos tem o direito a presunção da inocência até serem julgadas.

A imprensa não é Polícia, nem Promotoria, muito menos Justiça. Não pode investigar, processar e julgar como faz, não pode alegar ser ou atender o “clamor popular” ou a “opinião publica”. Pior, não pode dar páginas e páginas diárias contra uma pessoa massacrando-a, e remeter suas reclamações e esclarecimentos para um cantinho escondido e diminuto da seção de cartas dos veículos. A continuar assim, pior do que manter a Lei de Imprensa será estarmos consagrando uma ditadura, agora não militar, mas da mídia.

José Dirceu

advogado, é ex-ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Teve seu mandato de deputado federal pelo PT-SP cassado em 2005.

cremonesi disse:
26 de fevereiro de 2008 às 21:34

O CONJUR resolveu lançar uma coluna especial sobre humor ? O ZÉ DIRCEU ESCREVEU ISSO ???

MUDABRASIL disse:
26 de fevereiro de 2008 às 22:29

Quer dizer que o ex-deputado, réu do mensalão, pretende ver votada uma lei de imprensa ainda mais dura que a anterior, já tida como retrógrada????
Pretende substituir o entulho autoritário com algo ainda mais cerceador da liberdade de imprensa???
Realmente, os tempos mudaram. As máscaras não param de cair...

fernandojr disse:
26 de fevereiro de 2008 às 22:47

Ah, não! Zé Dirceu no Conjur!?!? Chama o Procon, porra!

www.professormanuel.blogspot.com disse:
26 de fevereiro de 2008 às 23:39

O ZD parece aquela nutricionista do zorra total: "isto não pooodjiiii".

Só pode se for como o governo quer.

Conjur: gostei muito da nova coluna de humor negro, mas meu estômago está revirando...

Luiz Carlos de Oliveira Cesar Zubcov disse:
27 de fevereiro de 2008 às 00:14

Realmente, a imprensa brasileira causa nojo ao usurpar a função de julgar e promover diariamente condenações sociais de forma indiscriminada.
Não há compromisso com a verdade. Mostram-se inquebrantáveis na construção das calúnias que estampam os seus folhetins e são felizes com as desgraças das suas vítimas.
Quanto aos atos praticados pelo Senhor Zé Dirceu, esses já foram julgados pelos seus pares, restando a sentença judicial e o veredicto da história. Espero que ocorram com a mesma coerência do seu texto.

J. Ribeiro disse:
27 de fevereiro de 2008 às 00:59

Já temos leis até demais (redundâncias), falta é respeitá-las.
O que falta é uma mudança de paradigma, de mentalidade de nossos juízes. A imprensa quando falha, deve ser tratada igual ao médico e hospital negligentes em relação ao paciente, conforme as conseqüência/seqüelas, deve ser duramente penalizada, pois muitas das vezes podem ser irreversíveis os danos.

George Rumiatto disse:
27 de fevereiro de 2008 às 07:41

Irretocáveis os comentários do colega Zubcov.

Independente de quem seja o autor do artigo, suas ponderações foram pertinentes.

A mídia não pode agir como se fosse um Poder acima dos outros três da República, dizendo o que quer sem consequência nenhuma.

Liberdade de imprensa, sim. Porém, com responsabilidade. Punição adequada aos que exorbitarem do direito constitucionalmente garantido.

Axel Figueiredo disse:
27 de fevereiro de 2008 às 08:00

Artigo do ilibado "sai daí, zé"?
Piadinha de mau gosto.
Quando será postado o artigo do Lalau contra a lei de licitações e a favor da prisão domiciliar para figurões?

ERocha disse:
27 de fevereiro de 2008 às 08:14

Perai Dirceu, não existe as leis de responsabilidade civil ai para isto?

Acusar uma pessoa de um crime que ela não cometeu é crime. Seja uma pessoa, seja a impresa, estou certo?

Ou o que você quer é uma mídia submissa ao governo do Lula?

ZÉ ELIAS disse:
27 de fevereiro de 2008 às 08:28

O Zé sentiu a fúria da imprensa na pela. O grande problema é se a imprensa estiver dizendo a verdade!

Embira disse:
27 de fevereiro de 2008 às 11:04

Zé Dirceu está certo, mas, pelo andar da carruagem, parece que as coisas vão continuar como estão. O Legislativo não está preocupado em elaborar leis: prefere postular perante a Suprema Corte, que lhe abre as portas e supre a inércia. E, na oposição, não faltam bons advogados para desfrutar dessa cordialidade do Judiciário: é o Dr. Roberto, do PPS; o Dr. Miro, do PDT... Vamos postular! Enquanto isso a imprensa continuará livre, leve e solta, sem qualquer regulamentação, e nós, mesmo se injustamente atacados, teremos de nos conformar. Afinal: a imprensa é a irmã siamesa da democracia e “eu sou quem sou para serdes vós quem sois”, como dizia o poeta Vicente de Carvalho.

Lucas disse:
27 de fevereiro de 2008 às 11:27

De fato, no Brasil, a imprensa precisa parar de julgar e condenar, ainda mais com relação ao Zé Dirceu. Está na hora de a Justiça brasileira, esta sim, julgá-lo e condená-lo, bem como seus 40 comparsas e demais mensaleiros.

Uma vergonha nacional este cidadão ainda estar transitando livremente por aí.

Marcelo L. Garisio Sartori disse:
27 de fevereiro de 2008 às 12:01

Apesar do signatário ser quem é, sou obrigado a concordar com ele. A imprensa, corporativista, se auto intitula um quarto poder, sem que nada seja feito quanto aos seus abusos.
A manipulação de massa deve ser coibida, pois é tão vil quanto a própria corrupção, já que dirige o pensamento das pessoas para a direção que se bem entende, de acordo com a conveniência de cada caso.
Fontes deveriam ser citadas, para que se evite a veiculação irresponsável sob esse pretexto.

Armando do Prado disse:
27 de fevereiro de 2008 às 12:49

Tudo tem limite. Inclusive, a imprensa. Intolerável que o 4º poder se arvore em inquisidor, denunciador, julgador e sentenciador, sem o devido processo legal e o contraditório.

Chega de unanimidade: leu um, leu todos.

olhovivo disse:
27 de fevereiro de 2008 às 13:13

Essa mesma imprensa havia acusado, julgado e condenado Alceni Gerra, Ibsen Pinheiro, Eduardo Jorge e tantos outros. Ninguém reclamou. Isso lembra o quê? Primeiro, vieram e levaram os comunistas e não reclamei. Depois, levaram os judeus e não reclamei. Para encurtar, no final levaram a mim e já não havia ninguém para reclamar. Enquanto isso, os semi-deuses Marinhos, Mesquitas, Frias, Cevitas e, agora, Macedos, vão deitando e rolando (de rir).

barbosa disse:
27 de fevereiro de 2008 às 16:15

A imprensa não tem direito de investigar? Tem sim. Todos tem. Quanto mais gente investigando, melhor. A imprensa é a voz do povo. Todo eleitor tem o dever de investigar as pessoas em que votou. Pessoal! Vamos investigar mais e botar a boca no trombone ( a imprensa)

Thiago Pellegrini disse:
27 de fevereiro de 2008 às 16:48

Eu ia até ler a matéria.

Mas, quando vi o nome do autor dela, desisti.

Mauro disse:
27 de fevereiro de 2008 às 20:13

Mesmo com toda sua arrogância pelo encanto do poder, Dirceu está certo. Globo e Veja fazem os culpados brotarem da terra e depois de constada a inocência deles, apelam para o argumento da impunidade. Isso é coisa de democracia que tem retardamento mental, atraso de crescimento. Há uns anos os analistas políticos da imprensa viviam falando em "processo democrático", mas depois pararam. Acho que viram que o tal processo democrático estava longe de acabar e eles não queriam ser repetitivos.

MUDABRASIL disse:
27 de fevereiro de 2008 às 21:59

Um país sem liberdade de imprensa não tem futuro.

Richard Smith disse:
27 de fevereiro de 2008 às 23:29

Safado, vagabundo, revolucionário "de boteco"!

dinarte bonetti disse:
28 de fevereiro de 2008 às 08:51

Corajosa e oportuna decisao de Conjur ao apresentar opiniao do ex ministro Jose Dirceu. Aos eternos rochedos da opiniao formada, uma licao de humildade.
A questao da imprensa no Brasil requer meditacao.
A afronta ao art. 5 da Constituicao, no item da honra e imagem, pela falta de sua regulamentacao, é evidente.
A imprensa brasileira caracteriza-se por defender interesses economicos explicitos, mandando às calendas o real interesse dos que pretendem encontrar informacao, e nao formacao de opiniao.
O pais devera dispor de armas contra essa manipulacao, que nada tem a ver com liberdade de imprensa.
A liberdade do poder economico ditar as regras, destruir biografias, julgar e condenar, NAO ESTA NA CONSTITUICAO DE QUALQUER ESTADO DEMOCRATICO DE DIREITO.
Que o processo iniciado pela guerra entre o poder economico e o poder da fé (Folha x Igreja Universal) reverta em novo enfoque.
E mais uma vez, estamos vendo o Judiciario legislando, graças à enorme dificuldade do Legislativo de legislar, trabalhar, ao inves de brincar de policia investigativa, coisa que nao sabe fazer, alem de que, no fundo, nao quer fazer.
O pais ja cansou dessas fajutas CPIs- palanques.

Jose Antonio Schitini disse:
28 de fevereiro de 2008 às 08:53

É o velho viés. Todo mundo pede Lei quando a mesma abunda. Caso o crime esteja em fase de apuração no caso por inquérito, em fase administrativa, por ser peça de natureza administrativa, inquisitiva e preliminar, o mesmo deve ser sigiloso nos termos do artigo 20 do CPP. Posteriormente na fase processual o que rege é o princípio da publicidade.

CHORBA disse:
28 de fevereiro de 2008 às 10:00

Richard - Que feio, um consultor falando assim. Que "catiguria".

TEM QUE POR UM FREIO NOS JORNALISTAS, COMENTARISTAS.

FALTAM-LHES RELAÇÕES HUMANAS.

PENSAM QUE É A LEI.

PRÉ-JULGAM E CONDENAM. em suas precipitações destroem vidas.

A maioria é um fiasco, lhes falta contúdo.

chorbamatrix@gmail.com

Richard Smith disse:
28 de fevereiro de 2008 às 11:23

Ai, ai, ai...

Um PeTralha metido a gentil!

Caro Chorba, eu sei que os admiradores do Abortista/Excomungado sem-dedo que atualmente ocupa a Cadeira Presidencial não tem olhos para as patifarias e sujeiras que de lá emanam.

E que a sua "dualética" (duas ou mais éticas dependendo da ocasião) os impele a preferir um regime de governo sem a Liberdade de imprensa e de opinião.

Mas dou-lhe uma sugestão: tente vir cassar a minha liberdade de pensamento expressão.

Enquanto isso, fique com o seu "revolucionário de boteco".

Passar bem.

Mauro disse:
28 de fevereiro de 2008 às 11:36

Engraçado!! Para o não-autóctone e dogmático gringo Richard, todos os que criticam a imprensa são petistas. Sou um crítico feroz da imprensa tal qual praticada no Brasil, mas não sou petista, nunca votei em petistas e quero que eles que se danem.

futuka disse:
28 de fevereiro de 2008 às 12:10

As considerações do autor da matéria é sem dúvida um ponto crucial para uma discussão imparcial e com um maior envolvimento da sociedade onde todos os cidadãos com conhecimentos afins pudessem colaborar seja expressando ou atuando na certeza de que precisamos defender o direito de todos nós diante da mídia, inclusive o da liberdade de livre expressão por todos, adicionando ao tema o senso da responsabilidade nas ações. Agindo assim a sociedade estará provocando uma discussão com a firme intenção de sanear este assunto tão emblemático, qual seja envolvimento da mídia, acredito que com o uso de muito bom senso, critério educação e quesito tranqüilidade das partes envolvidas,irá ganhar com isso, toda a sociedade e não o 'samba'!

-Parabéns ao Conjur pela pescaria !!!

Issami disse:
28 de fevereiro de 2008 às 12:13

O deputado cassado, qualificado como "líder de uma organização criminosa" pelo Exmo. Sr. Procurador-Geral da República, jamais manifestou essa preocupação quando, por longo tempo, esteve na oposição e, juntamente com seus companheiros, usavam e abusavam da mídia para detonar biografias e manchar reputações (algumas até justamente). Essa é a "dualética" já referida nesse espaço. Dependendo das circunstâncias, utiliza-se uma ou outra. Aliás, duas caras é com ele mesmo (literalmente)!!

CHORBA disse:
28 de fevereiro de 2008 às 23:16

Caro Richard Smith – Consultor
Pe Tralha metido a Gentil?
Engano.
Fui um crítico do PT e outros e até por que não dizer, por falta de maturidade Anti-PT.
Não tens noção como critiquei o Governo do PT no RS, quando o Sr. Olívio Dutra perdeu a FORD para a Bahia, por estar mal assessorado e uma ideologia infundada.

Não é o Caso do Sr. Lula, Presidente do Brasil a quem devo todo o Respeito, como o fiz com outros Presidentes.
Parece-me que o Governo Lula esta deixando as pessoas nervosas.
O Sr. Lula é um exemplo: Proibiu alguém de qualquer Comentário ou Ação

Mesmo assim faço críticas:
TIREM O AR CONDICIONADO DA MINISTRA MARINA SILVA.

Não misture as coisas.
Estamos discutindo IMPRENSA:
IRRESPONSÁVEIS, SEM CONTEÚDO, SEM ÉTICA, SEM RESPEITO, FORMADORES DE OPINIÕES, PRÉ-JULGAM, PRÉ-CONDENAM, DESTROEM VIDAS, sem falar na PIROTECNIA DA PF. (Nem todos)

“Tente vir cassar minha liberdade de pensamento expressão”
Jamais farei isto, até porque não é direito ou obrigação minha.
Estamos em um País Democrático, com liberdade de expressão que permite comentários agressivos com despolidez.

Richard Smith disse:
29 de fevereiro de 2008 às 04:11

Então tá, amigo Chorba.

Mas que do seu comentário se depreende um certo viés cala-imprensa, isto sim.

Nossa imprensa sempre defendeu este ou aquele interesse. Aliás, no mundo inteiro é assim. Acho que as manifestações anti-isso ou pró-aquilo, devem ser reservadas, com honestidade e clareza, para as páginas dos editoriais. O resto deve ser JORNALISMO, livre, responsável e honesto.

Mesmo que nem sempre seja assim (e temos vários exemplos) é melhor uma imprensa menor do que nenhuma ou do que uma efetivamente aliada do "oficialismo".

Já se disse: "Entre imprensa e governo, prefiro um país sem governo e com imprensa, do que um com governo e sem imprensa".

No caso presente, o "revolucionário de boteco", fiel ao leninismo-gramsciano, evidencia claramente a sua preferência pela segunda opção.

A ação da IURD tenta reproduzir o tipo de comportamento de amesquinhamento e sujeição da imprensa pela coação e ameaça, coisa a qual o (des)governo "que aí está" vem acalentando faz tempo.

Um abraço.

Renério disse:
07 de março de 2008 às 16:22

De qual Lei? Aquela que amordaça e cria o controle externo conduzido pelo Executivo vigente????????

Se for de outra, concordo plenamente.
Abs.

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