“Delação premiada implica em ser verdadeiro, estar com espírito aberto e intenção inequívoca de colaborar naquilo que for questionado, não cabendo limitar o universo do que deseja esclarecer.” Este foi o principal motivo para o juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, negar o acordo proposto pelo megatraficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía. O réu queria o direito de ficar em silêncio quando não quisesse revelar algum segredo.
A proposta do traficante era entregar de US$ 30 milhões a US$ 40 milhões, além da rendição de mais quatro comparsas, em troca da agilização de seu processo de extradição, a extinção de denúncias contra sua mulher e a transferência dela para São Paulo. Abadia queria fazer um acordo para ser extraditado para os Estados Unidos com brevidade. Com isso, ele espera obter vantagens das autoridades americanas em troca de informações e dinheiro relacionados às atividades ilícitas que praticou.
Abadia é o suposto chefe do cartel da droga do Valle del Norte, na Colômbia. Ele está detido no Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande (MS) e foi levado para a sede da Superintendência da Polícia Federal de São Paulo, na Lapa, zona oeste da cidade, nesta terça-feira (15/1) para prestar depoimento à Justiça. Abadía passou a noite na sede da PF e chegou à Vara Criminal no meio da manhã.
Em nota à imprensa, o juiz diz que, no decorrer da audiência, Abadia mudou as condições do acordo e mostrou que não estava disposto a colaborar com informações que poderiam ser preciosas para a conclusão do processo. E ressalta que o Ministério Público Federal concordou com a proposta do traficante — à exceção da extinção de sua pena —, “pontuando que já se poderia ter uma parcela da pena diminuída, independentemente da nova manifestação do preso no sentido de revelar fatos e apresentar novos valores que tinham sido ocultados da Justiça Federal”.
Sanctis declara que não é o destino do dinheiro que está em jogo, mas o interesse real do réu falar e contribuir de fato com as investigações. A procuradora República Thaméa Danelon lamentou que o acordo não tenha sido aceito, pois pretendia que o dinheiro fosse revertido para a área social, ONGs e infra-estrutura da Justiça.
“A Justiça Federal brasileira tem que cumprir o seu papel diante dos seus limites legais e constitucionais e na defesa da sociedade brasileira”, alerta o juiz.
Leia a nota
NOTA À IMPRENSA
Tendo em vista as informações veiculadas pela imprensa com base em declarações do Ministério Público Federal, na pessoa de Thamea Danelon Valiengo, e do defensor do acusado Juan Carlos Ramirez Abadia, Luiz Gustavo Bataglin Maciel, lamentando a rejeição de acordo para a concessão de benefícios decorrentes de Delação Premiada, a despeito da solicitação de sigilo em audiência realizada nesta data, este juízo se obriga a se manifestar sobre tais fatos para que a sociedade brasileira seja devidamente esclarecida.
1) O preso Juan Carlos Ramirez Abadía manifestou em 20.12.2007 desejo de ser novamente interrogado com vistas a possível delação premiada. Tal manifestação foi feita do presídio onde se encontra, diretamente ao Delegado de Polícia Federal Fernando Francischini, com autorização do juiz corregedor, sendo certo que na ocasião afirmou ter informações valiosas a serem prestadas sobre tráfico internacional de drogas, além de revelar que entregaria a quantia de 40 milhões de dólares, que se encontraria no Brasil. Este juízo, em 21 de dezembro de 2007, quando em plantão no recesso autorizou audiência do preso com acompanhamento do Superintendente Regional da Polícia Federal, Jaber Saadi, fato que ocorreu em 28 de dezembro de 2007. Nessa ocasião o preso novamente manifestou a intenção de revelar novos fatos, entregar quantia de 35 milhões de dólares, não mais de 40 milhões. Este juízo, nos autos principais, autos nº 2007.61.81.0011245-7, folhas 2588/2629, já tinha se manifestado quanto ao pedido de delação premiada, apesar de não adequadamente formulado. Naquela ocasião restou pontuada a necessidade da delação premiada ser realizada de forma autônoma com manifestação do Ministério Público Federal que, como parte, deve concordar previamente com o pedido, apesar de se recusar a fazê-lo. Também ficou decidido a necessidade de esclarecimento melhor dos fatos da trama criminosa eventualmente existente e de todos os eventuais auxiliares do crime, não sendo possível ao acusado se restringir a revelação de eventual extorsão de policiais, sem estar disposto aos esclarecimentos de outras supostas atividades ilícitas e indicação de patrimônio de origem espúria. Também na mesma ocasião foi decidido a necessidade de entrega de valor a título de indenização ou mesmo como recuperação do produto do crime. Naquela decisão observou-se a necessidade de manifestação das partes quanto à delação, não formalizada, todavia, pela defesa. Mas, em face do pedido do preso e de sua recente manifestação perante a autoridade policial, houve por bem este juízo designar esta data para audiência.
2) O preso foi devidamente cientificado acerca do instituto da delação premiada no sentido de ser um benefício que a lei brasileira concede àqueles que realmente queiram colaborar com a Justiça. A advertência buscou cientificá-lo, inclusive, das condições e expectativas possíveis, com tempo para sua reflexão, uma vez que não caberiam mentiras, afirmações dúbias e justificativas sem qualquer argumento razoável. Em suma, caberia agregar à Justiça com revelação e vontade real de revelar fatos.
3) No decorrer da audiência, o preso alterou as condições demonstrando não estar disposto a colaborar, mas apenas impor a condição de se afastar de presídio federal, de não cumprir pena no Brasil, mas apenas nos E.U.A., além de desejar a extinção ou absolvição de sua pena e de sua mulher, a co-ré Yessica Paola Rojas Morales, pedidos dos quais o Ministério Público Federal assentiu (à exceção da extinção de sua pena), pontuando, o órgão acusatório, que já se poderia ter uma parcela da pena diminuída, independentemente da nova manifestação do preso no sentido de revelar fatos e apresentar novos valores que tinham sido ocultados da Justiça Federal.
4) Diante do constatado, restou pontuado por este juízo que certos requerimentos têm que ficar adstritos à competência jurisdicional, sendo certo que a manifestação sobre extradição e sobre cumprimento de pena não seriam naquela ocasião adequados e estar-se-ia violando não só a soberania do Brasil, como a soberania dos Estados Unidos. Por outro lado, a independência do Juiz não poderia ser objeto de deliberação, não se abrindo mão do livre convencimento para a prolação de futura Sentença. Ainda este magistrado observou que a delação é vantajosa porque pode eventualmente, desde que exista colaboração, ensejar a diminuição da pena e até na sua extinção. A Justiça não deseja dinheiro, tão-somente o esclarecimento dos fatos e o pagamento de uma indenização ou da entrega do produto do crime, sendo necessário haver confiança de parte a parte. Delação implica em ser verdadeiro, estar com espírito aberto e intenção inequívoca de colaborar naquilo que for questionado, não cabendo limitar o universo do que deseja esclarecer.
5) Ao encerrar a audiência este magistrado registrou “O senhor escolheu, o senhor escolheu o seu caminho, o senhor escolheu o seu destino e o senhor escolheu não colaborar com a Justiça”, sendo, então, invocado pelo Ministério Público Federal o direito ao silêncio e a destinação social do dinheiro a ser entregue.
6) Deve-se observar que este juízo foi procurado pelo preso que alegou desejar revelar fatos e entregar dinheiro, afastando-se invocação do direito ao silêncio, totalmente inapropriado quando se invoca a delação premiada. Não se pode imaginar que o dinheiro, dinheiro esse que está à disposição do acusado desde sempre, pudesse acarretar decisão benéfica da Justiça, apesar da destinação legítima que iria ser dado a ele. Não está em causa o destino do dinheiro, mas sim o interesse da verdade de alguém que deseja falar de espírito aberto, que deseja contribuir de fato e não usar da delação para um benefício em detrimento da busca da verdade. A Justiça Federal brasileira tem que cumprir o seu papel diante dos seus limites legais e constitucionais e na defesa da sociedade brasileira.
São Paulo, 16 de janeiro de 2008
FAUSTO MARTINS DE SANCTIS
Juiz titular da 6ª Vara Federal Criminal

...parabéns ao juiz De Sanctis. Para magistrados como ele cabe a frase do imortal Roberto Lyra: "Honraremos os juízes que, sem garantias reais, contrariam os interesses dos poderosos; que com a pobreza em casa, contêm os apetites dos opulentos...Não só em Berlim há juízes para dar ao moleiro o que é seu"...
...à procuradora, meus pesâmes. Lamentável.
O eminente juiz Fausto Martins De Sanctis cumpriu com o seu dever, bem como a Polícia Federal e o o Ministério Público. Aguardemos o curso e o fecho do processo.
É uma questão de valores ! ! !
Não tem nada a vêr com os "juízes de Berlim" !
Se a oferta aumentar, o "negócio" será fechado ! ! !
Com todo respeito que tenho ao Juiz, promotora e advogado, todos, mas todos, não tinham que se manifestar em nada. Abram-se as portas do processo, então. Queremos saber de tudo.
Otávio Augusto Rossi Vieira, 41
Advogado Criminal em São Paulo
No fim de tudo quem vai se dar bem é o acusado. Nao teve que dar dinheiro algum e o STF provavelmente vai conceder uma ordem de HC para o paciente em face da demora do processo e ele vai voar livre leve e solto
A Consultor Jurídico poderia ter um pouco de senso crítico.
Dizer que o dito cujo quer ir pros EEUU é ridículo.
Quem não sabe que até a cadeia no Brasil é um paraíso pros que podem pagar, seja pra ficar, seja pra fugir?
40 milhões em troca de prisão perpétua nos EUA?
Basta uma tonelada de drogas e o valor está recuperado. E isso é fácil para quem já encaminhou 20 pros EUA (isso é o que se tem conhecimento...).
Como poderia o Juízo agilizar o procedimento de extradição, se o processo corre no STF?
Além de não ser enganado, o Juízo demonstrou estar lastreado em postulado moral condizente com sua função. Parabéns.
Parabéns ao magistrado, sua sobriedade e argumentação são exemplos que deveriam ser seguidos em todas as esferas do poder.
Só nos resta aguardar e torcer para que o Judiciário mantenha essa postura.
O magistrado agiu corretamente. Pergunta-se: Do ponto de vista ético seria correto o Brasil receber voluntariamente, em pagamento, dinheiro que é produto de narcotráfico?
Desejo clarear o meu pensamento. Uma coisa é voce apreender o dinheiro do produto do crime de narcotráfico. Cmo voce não sabe quem é dono para devolver ele acaba sendo aproriado pelo Estado.Até aí tudo bem.
Outra coisa é o ESTADO negociar com o bandido e o mesm propor-se a pagar por este acodo. Pagamento, cujo produto é de origem ilicita.
...parabéns ao juiz De Sanctis. Para magistrados como ele cabe a frase do imortal Roberto Lyra: "Honraremos os juízes que, sem garantias reais, contrariam os interesses dos poderosos; que com a pobreza em casa, contêm os apetites dos opulentos...Não só em Berlim há juízes para dar ao moleiro o que é seu"...
...à procuradora, meus pesâmes. Lamentável.
Concordo plenamente com o ilustre magistrado. A função da Justiça não é obter dinheiro para o Governo, mas simplesmente aplicar a Lei.
Aliás, causa estranheza a postura o MPF ao concordar com tal absurda proposta.
Corrupção ativa mudou de nome???
Não seria o caso de prisão em flagrante delito???
Entendo que caberia mais um processo, isso sim.
Concordo plenamente com o brandão, pois se é dessa forma que funciona, os grandes traficantes ficarão sempre soltos, pois tem dinheiro para negociar e o pobre coitado, traficante pequeno ou avião ficará preso, pois não tem dinheiro para comprar sua liberdade.
parabéns sr. Juiz
No mundo inteiro, (inclusive nos EE.UU., donos do mundo), troca-se "liberdade" por dinheiro ! ! !
Neste caso, o traficante não está negociando a liberdade. -
Mas, tão somente, a mudança de prisão ! ! !
O juiz explicou PORQUE quis, ou explicou POR QUE (razão, motivo) indeferiu o pedido?
Cuidado com o Português, CONJUR ...
Parabéns ao Dr. Fausto de Sanctis que, mais uma vez, em decisao acertada, mostrou seu compromisso com a Justiça.
Parabéns Dr. Fausto. Sei que ainda existem homens com tamanha profundidade de conhecimento, como o sr. Eu acredito na justiça!
Cara Patuléia: Em seu comentário você falou tudo! Parabéns por tão oportuna colocação.
Como já era de se esperar, a proposta de acordo foi recusada.
Porém, vale lembrar que esse tipo de acordo - como proposto - é comum em praticamente todos os países desenvolvidos do planeta, pois, como é cediço e já fartamente comprovado, dá resultados concretos no combate ao crime organizado.
Já no Brasil, como não poderia deixar de ser, quase não há acordos do tipo.
É que, certamente (e mais uma vez), devemos continuar nos considerando "acima" dos países decentes do planeta...
Afinal de contas, temos uma justiça produtiva e justa, um sistema de segurança exemplar, uma polícia altamente qualificada no combate ao crime, etc., etc. e tal.
E viva o Brasil, país-mãe de ilustres cidadãos como o Abadia, etc...
Concordo com a delação premiada no caso de oferer ao peixe para pegar o tubarão. Aqui temos o "sr. mega traficante" querendo entregar peixinhos, fazendo exigências, enfim, querendo comprar uma sentença. Infeliz daquele que não tem U$40mi (dinheiro fruto do tráfico) para pagar a liberdade. Parabéns ao juiz, que mostrou que um processo, com grande cobertura da mídia e expectativas da sociedade civil, pode servir de exemplo de um julgamento justo, com uma sentença justa (tomara), e uma pena que mostre para todos, inclusive quem tem 40mi de dólares, que a justiça brasileira ainda tem como se salvar.
Direito ao silêncio em delação premiada? Será que eu li direito?
Realmente, o Brasil é o país da piada pronta...
Vamos ver qual será a próxima.
O caso, fulcro o noticiário, somente será resolvido com a intervenção do JUVENAL ANTENA.
Ahhhh.... agora acho que entendi!!! A "interpretação" é de que o réu, "na verdade", não estava "disposto" a colaborar... não falou de "espírito aberto"... foi da "boca pra fora"... ahhhh.... então tá!!
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