Sociedade brasileira conserva-se discriminadora

Editorial da Folha de S.Paulo

Grupos favoráveis e contrários à adoção de cotas raciais nas universidades travam uma guerra de manifestos em Brasília. No dia 30, intelectuais enviaram ao Supremo Tribunal Federal, que julga Ações Diretas de Inconstitucionalidade sobre o tema, o documento intitulado “Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais”.

Ontem foi a vez de defensores da reserva visitarem a corte e a Câmara — onde tramita projeto que institui cotas em todas as universidades federais — para apresentar seu manifesto. A questão é intricada e provoca debates acalorados, mas não a ponto de inviabilizar abordagem serena, respeitosa e racional. A sociedade brasileira, apesar da propaganda em torno da democracia racial, conserva-se discriminadora. Embora seja difícil provar em juízo casos de racismo contra um indivíduo em particular, a divisão emerge clara das estatísticas. Um exemplo recente é a pesquisa do Ibope com o Instituto Ethos, divulgada pela Folha no domingo, mostrando que negros e pardos, que são quase metade da população, ocupam só 3,5% dos cargos de chefia nas maiores empresas do país.

Também é consensual que um maior acesso de negros à educação superior ajudaria a reduzir as diferenças. As disputas se tornam mais acres quando se debatem as formas de ampliar a presença de negros na universidade.

Grupos contrários às cotas argumentam, com razão, que esse tipo de política afronta o ideal republicano da igualdade de todos diante da lei. Também apontam dificuldades intransponíveis para a definição de quem é negro, o que tem gerado “soluções” absurdas, como as comissões de classificação racial, experimentadas nas universidades federais de Brasília e do Maranhão, que recendem a fascismo e devem ser denunciadas.

É possível, entretanto, evitar essas armadilhas teóricas e práticas sem renunciar a medidas anti-racistas. Um dos efeitos do racismo é que os grupos discriminados acabam perenizando-se nos estratos de baixa renda. Uma política que favoreça pessoas mais pobres automaticamente contemplará negros, índios e outras minorias sem o risco de racializar as relações sociais. Uma maneira eficaz e mais isonômica de selecionar essa população é beneficiar vestibulandos oriundos da escola pública, sem distinção de cor.

Já para preservar o acesso por mérito, o melhor é deixar de lado o sistema de cotas, que opera com números predeterminados de vagas a serem preenchidas. Em vez disso, o mais indicado é conceder um bônus na nota do vestibular aos estudantes beneficiados pela ação afirmativa.

[Editorial publicado no jornalFolha de S.Paulo, desta quarta-feira, 14 de maio.]

Jaqueline disse:
14 de maio de 2008 às 12:52

Creio que as "Cotas Raciais" enfatizariam ainda mais a segregação racial, mas concordo com uma política que favoreça pessoas mais pobres, independente da cor da pele, para que não se perpetue a desigualdade social e cultural que vemos hoje. Só para lembrar, somos um país em que 90% da riqueza está concentrada com 5% da população. Um país que não dá educação, condena sua nação de baixa renda à eterna ignorância e marginalidade social.

ERocha disse:
14 de maio de 2008 às 14:10

"Uma maneira eficaz e mais isonômica de selecionar essa população é beneficiar vestibulandos oriundos da escola pública, sem distinção de cor."
-> Acho que o editorial deveria rever este trecho. Não há que beneficiar NINGUÉM por ser oriundo de escola pública. A ÚNICA maneira eficaz e isonômica é investindo em educação e nas escolas públicas. Ou então assumir que a escola pública é tão ruim, mas tão ruim que para competir com as particulares precisam de apoio do governo dando uns pontos a mais para oculpar um pouco da incompetência do governo.

Será que também daram alguns pontos para os atletas que vieram de escolas públicas? Sei lá, alguns décimos de segundos em uma corrida pode ser. Ou então largar um pouco antes dos demais...

ERocha disse:
14 de maio de 2008 às 14:13

Outra coisa, o negro que foi beneficiado por uma bolsa pode o empregador recusa-lo alegando ser negro, mas sem que isto implique em racismo?

Afinal quem quer o bonus deve assumir o onus. Ou não?

Vitor Guglinski disse:
14 de maio de 2008 às 17:11

Analisando a questão, conclui-se que, para que se faça justiça de fato, são necessárias algumas medidas simples, dentre as quais:

1 - MELHORAR O ENSINO DE BASE, DISPONIBILIZANDO ÀS ESCOLAS O INSTRUMENTOS NECESSÁRIOS A TORNAR ATRAENTE O ENSINO PÚBLICO;

2 - DIGNIFICAR O SALÁRIO DO PROFESSOR DA REDE PÚBLICA, DE FORMA A TAMBÉM ATRAÍLO E, CONSEQUENTEMENTE, ESTIMULAR NO MESMO O DESENVOLVIMENTO DE METODOLOGIAS MAIS AFINADAS COM O CONTEXTO SOCIAL HODIERNO.

Assim, garante-se a formação do aluno, seja de que raça for, promovendo, via de conseqüência, a competitividade nos certames para o ingresso no ensino superior de forma legítima.

Do contrário, possibilitar o acesso ao ensino superior, sem uma base sólida, é garantir a formação de maus profissionais no futuro.

José Cuty disse:
14 de maio de 2008 às 19:00

Sociedade brasileira conserva-se discriminadora?!! Por que o CONJUR incluiu esse subtítulo que não consta no Editoral da Folha? O Editorial não diz isso! A tônica do Editorial está resumida assim: "Uma política de ação afirmativa que favoreça estudantes mais pobres beneficiará negros sem racializar relações sociais". Mais seriedade, gente!

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