O bom humor na vida forense morreu de inanição

"VladimirSpacca” data-guid=”vladimir_passos_freitas1.jpeg” />A vida forense sempre foi plena de casos (ou causos) engraçados, pitorescos, armadilhas que a vida prepara. Não havia um advogado experiente que não tivesse uma série deles para contar. Um dos mais populares, que era tido como verdade (o nome da comarca variava conforme o contador), era o do oficial de Justiça que, ao lavrar um auto de penhora, solenemente, colocou: “e na falta de outros bens, penhorei um crucifixo de madeira, de cor escura, marca I.N.R.I.”.

Essas histórias forenses foram sumindo aos poucos. Discretamente. Não houve data marcada para o falecimento. A morte foi de velhice, de inanição. Pouco procuradas, esquecidas, foram se recolhendo em pequenos cantos. Sobrevivendo, em estado decadente, em comarcas distantes deste país imenso. Sem que sua debilidade fosse notada. E a vida dos profissionais do Direito foi ficando menos rica. Sem sabor.

Não há qualquer previsão de renascimento. Nem mesmo sob a forma de reencarnação. A vida moderna não permite. Todos têm muitos afazeres. O tráfego de veículos estimula a irritação. A disputa pelo mercado de trabalho tornou-se árdua para os jovens advogados. São obrigados a fazer pós-graduação, conhecer informática e inglês. E na hora dos honorários, o contrato é de risco, só recebem se ganharem a causa. Os funcionários da Justiça estão sempre assoberbados de trabalho e, pelo nível cultural que hoje apresentam, deixaram de ser os tipos folclóricos do passado. Juízes vêem os processos chegar em pilhas e, impacientes, trancam-se nos gabinetes. E por aí vão as múltiplas causas do fim do bom humor.

Mas, se a ressurreição é impossível, que pelo menos se preserve o bom trato. Este parece que também anda debilitado. Juízes que não cumprimentam os funcionários do cartório ou não olham para o advogado. Promotores que se consideram os detentores únicos das virtudes da humanidade. Advogados que vão para a audiência vendo no colega que defende a parte contrária um inimigo. Policiais que vêem nos que os procuram os destinatários de suas insatisfações com os baixos vencimentos. Escrivães que adoram criar problemas aos advogados, fazendo mil exigências inúteis (por exemplo, para que um estagiário possa retirar os autos de cartório).

O mundo do Direito, por si só, é difícil. Ninguém procura os tribunais para divertir-se. Conflitos envolvendo a liberdade, patrimônio, guarda de filhos, geram tensão, insatisfação. Nos tribunais de segunda instância, a desarmonia pode espalhar-se até por simples posições contrárias, a respeito de algum tema jurídico. Nesta arena profissional, pesada por sua própria natureza, as regras de convivência tornaram-se essenciais para que se ponham limites nas desavenças. Não é por acaso que se criaram tratamentos formais e o data vênia precede uma opinião divergente. É para não agravar o que já é grave.

Se nem isto sobrar, se a cada interesse contrariado resultar uma representação à Corregedoria, se os atores não compreenderem que cada um tem o seu papel nessa engrenagem complicada e que devem facilitar aos outros o cumprimento do seu, as coisas se tornarão muito ruins. Ir para uma audiência — em qualquer condição — será um martírio. Fazer uma sustentação oral, idem. Participar de uma tentativa de conciliação, um pesadelo.

Se as empresas preparam seus funcionários para situações de conflito (por exemplo, as comissárias de bordo nos aviões), não está na hora das instituições prepararem seus profissionais para este novo mundo? Para dar só um exemplo, os servidores que atendem o publico nos cartórios não deveriam ter formação especial?

Para que a vida não perca seu encanto, parodiando a máxima bíblica (atire a primeira pedra quem …), vale perguntar: quem, segunda-feira, ao participar de uma atividade forense, dará o primeiro sorriso? Ou um cordial boa tarde?

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Luís da Velosa disse:
25 de maio de 2008 às 07:23

A manifestação do professor Vladimir Passos de Freitas, oportuna e lúcida, é uma verdade lastimável. Sem o bom humor (que a falta de "fair-play estimula), não haverá salvação.

Por outro lado, a falta de civilidade tem muito a ver com a formação fundamental da criatura. Em outras palavras, a falta de educação doméstica chega ao auge.

Ley disse:
25 de maio de 2008 às 14:26

Ótimo artigo. Infelizmente, é a pura verdade. Aquele clima de humor,nos meios forenses já não existe mais. Muitos magistrados, promotores, sequer permitem ao advogado uma conversa informal. Os servidores do cartório muitas vezes, não dão o devido tratamento aos advogados, dificultando assim o seu mister. Cabe nós, reverter esse quadro...

Polly disse:
25 de maio de 2008 às 15:37

Juiz e promotor que não cumprimentam advogado eu já ouvi dizer. Por será que eles assim agem com os advogados? Alguém poderia me esclarecer:
Obrigada.

GUSTAVO disse:
25 de maio de 2008 às 15:39

Excelente artigo! Leitura agradável e inteligente. Retrata com fidelidade as peculiaridades do mundo forense e toca num assunto, que a princípio pode ser de menor importância, mas em verdade faz as vezes de divâ, pois os operadores do direito necessitam refletir o comportamento muito das vezes hostil no dia-dia de trabalho, motivado sobretudo pela pressão e stresse que estão submetidos. Da minha parte, posso dizer que sou duas pessoas, uma de segunda a sexta e outra no fim de semana. A primeira muito séria, compenetrada, stressada, que não encontra tempo e espaço para bom humor. Piadas, nem pensar. Lamentável. A segunda, felizmente, mais relaxada e acessível a todo tipo de brincadeiras. O bom humor é fundamental para que sejamos felizes todos os dias da semana, máxime na vida profissional, que nos consome grande parte da nossa existência. Bom humor significa sabedoria de vida. Chegarei lá.

Polly disse:
25 de maio de 2008 às 17:03

Credo! Então é verdade o que me disseram? Acho que vou estudar Educação Física.

Mauricio_ disse:
25 de maio de 2008 às 19:04

O artigo foi muito feliz em sua abordagem e deve servir para muitos como uma reflexão.

Creio que serve não só para os operadores do Direito mas para a sociedade contemporânea de um modo geral, que adotou um estilo de vida que nos priva cada vez mais dos pequenos momentos de descontração e bom humor.

O excesso de trabalho, o trânsito caótico das grandes cidades, as filas para tudo, o dia que parece não caber dentro de suas 24 horas, nos tornaram mais insensíveis ao meio que nos circunda.

Resgatamos um pouco disso nas pequenas cidades do interior, onde chega a nos surpreender um bom dia de um desconhecido.

Em todo caso, nenhum dos problemas cotidianos justifica a falta de educação.

Tratar quem nos procura com o mínimo de atenção e deferência não é favor nenhum, mas obrigação.

Educação vem do berço.

ZÉ ELIAS disse:
26 de maio de 2008 às 09:40

O problema é que alguns juízes se tornam verdadeiros palhaços, desagradando, portanto. O site Espaço Vital coleciona ótimas pérolas, para quem gosta de um bom humor, vale az pena ver.

Marcos Umberto Canuto disse:
26 de maio de 2008 às 09:42

De fato, um siples bom dia hoje em dia é raro, a sociedade está movida apenas pelo consumo, em TER e não em SER, e, nos fóruns, com raras exceções, é exatamente como no excelente artigo do ilustre desembargador, infelizmente.

Paulo Gustavo Sampaio Andrade disse:
26 de maio de 2008 às 14:45

Prezado Desembargador Vladimir de Passos Freitas,

Nossa vida é por demais atribulada; é por demais justo que tenhamos alguns momentos de descontração, ainda que para falar de Direito...

Há mais de vinte anos, venho colecionando "causos" jurídicos nas mais diversas fontes. Em fevereiro, lancei o blog Página Legal, que fica hospedado no Jus Navigandi. Convido a todos para que conheçam:

http://blog.jus.uol.com.br/paginalegal/

não disse:
26 de maio de 2008 às 23:47

OPERADORES DO DIREITO...
--FAÇA-ME RIR...
QUEM VAI ADVOGAR PARA O ADVOGADO; QUAL JUIZ VAI DAR SENTENÇA FAVORAVEL?
O UNICO PRAZER É SER OPOSIÇAO E NÃO DEPENDER DESTA MAQUINA OPERADA PELO CONTROLE REMOTO.
TÕ RINDO!!!!

Luiz Fernando disse:
27 de maio de 2008 às 08:03

Estamos em tempos bicudos, realmente. No Paraná há um caso de um oficial de justiça que certificou haver citado o réu, "...que deixou de lançar o seu ciente por falta de caneta". Tem razão o Dr. Vladimir porque poderíamos fazer tudo o que estamos fazendo com um sorriso ou simplesmente com gestos de amabilidade com todos. Só que o mau humor começa, data venia, com os magistrados, desce ao MP/MPF e se espraia por todos os servidores. Daí nós, advogados, quase nada podemos fazer. Mas é possível mudar.

acdinamarco disse:
27 de maio de 2008 às 10:11

Tenho mais de 70 anos de idade e uma teoria : tudo está relacionado com o nível cultural das pessoas. Quanto menos cultas, mais hostis. Concordam ?
acdinamarco@aasp.org.br

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal disse:
27 de maio de 2008 às 10:34

Vale aqui lembrar e fazer perpetuar a figura do grande criminalista J.J. Alvim Passos. Seu escritório era um templo sagrado. Operadores do direito sentavam a sua volta, deliciando-se com as notáveis passagens, os pitorescos da advocacia e da escola da vida. Onde chegava, o mestre era cercado e todos queriam ouvir o que sempre era uma valiosa aula de humanidade. Espantosamente atualizado, deixava os jovens advogados encantados. Deixou saudades. Bom dia, mestre.

Antônio dos Anjos disse:
27 de maio de 2008 às 11:28

Concordo com o colega Dinamarco.
Quando os argumentos faltam, sobram as hostilidades.
Como diria Darcy Ribeiro, a educação realmente é tudo na vida do cidadão.

amorim tupy disse:
27 de maio de 2008 às 12:05

Tão com saudade , então toma lá:
A juíza pergunta ao réu: O senhor tem advogado?
Réu responde: não doutora ; quero um 0800

não disse:
28 de maio de 2008 às 09:04

-- INVEJA -- TODOS QUEREM SER JUIZES. (O AVO, PAI E O FILHO. UM OTIMO NEGOCIO)
VENCIMENTO ATE $25/30.000,00, FERIAS 60 DIAS, PORTAS PARA PARENTES, APOSENTADORIA INTEGRAL/COMPULSORIA, FERIADOS A VONTADE, MEIO EXPEDIENTE, CURSO DE ATUALIZAÇÃO COM PAGAMENTOS EXTRAS, A NÃO COBRANÇA/SATISFAÇÃO, JUIZITES PARA ALGUNS.
QUAL A MICRO/MEDIA EMPRESA PODE GARANTIR TANTAS BENESSES AOS SEUS PROPRIETARIOS? - O ADVOGADO, ESSE POBRE COITADO TEM QUE RALAR, ENFRENTAR CLIENTES SEM DINHEIRO E PAGAR IMPOSTOS/CONTRIBUIÇÕES ENTRE OUTRAS COISINHAS A MAIS, OBRIGADO A ESTAR SEMPRE MUITO BEM ATUALIZADO PARA NÃO CORRER O RISCO DE SER CORRIGIDO/HUMILHADO PELO JUIZ E/OU CARTORARIO NA FRENTE DO CLIENTE.
--É O PRIMO POBRE DA GRANDE FAMILIA DOS OPERADORES DE DIREITO.--
-- BEM FEITO QUEM MANDOU NÃO ESTUDAR!--

Jorge Florentino disse:
28 de maio de 2008 às 11:20

descordo com os comentários do nobre colega abaixo somente com o que tange ao último parágrafo. Porque não basta somente estudar porque conheço inúmeros estudiosos que como se diz popularmente devoram livros e mais livros e não conseguem ser aprovados. Enquanto conheço também vários, que conseguiram aprovação puro e simplesmente por nome de família. Como se o dom seja hereditário.

Jorge Florentino disse:
28 de maio de 2008 às 11:29

peço desculpa pelo erro grotesco de digitação consignando descordo em lugar de discordo.

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