Crise mostra que é preciso de novo modelo de insolvência

quem te deus esse iussit et humana qua parte locatus es in re; disce.”

Persius, Satires, iii 71.

Atravessamos uma era de economia globalizada onde todos os olhos estão voltados para a extrema ameaça que paira sobre o mercado financeiro e de crédito, tendo como seu principal protagonista a maior economia do planeta que se depara com sua pior crise de confiança desde a Grande Depressão. A calamidade de Wall Street gera um impacto avassalador sem precedentes, deixando os nervos dos investidores de todo o mundo sob grande tensão.

Ninguém podia jamais imaginar que a insolvência atingiria o centro financeiro mundial que pode produzir uma destruição tipo ‘tsunami’ com efeito dominó sobre a economia global, inclusive do Brasil, independentemente do socorro de US$ 700 bilhões, de um total de US$ 1.8 bilhões até a data — “Plano de Emergencial de Estabilização Econômica de 2008 / Emergency Economic Stabilization Act of 2008,” aprovado em outubro — que muitos especialistas acreditam seja equivalente a jogar areia no oceano. O fato é que a super crise atingiu tamanho nível de complexidade e proporções simplesmente incomensuráveis, jamais visto ou vivido.

Essa faraônica crise originada em títulos lastreados em hipotecas tais como títulos de swap de créditos não performados — “Credit Default Swaps/CDS” (acoplados a operações com passivos fora de balanço e outras transações esotéricas), derivou-se de período de juros excessivamente baixos e da bolha do mercado imobiliário americano iniciada nos anos 90 e respectivas declarações de resultados artificiais, conforme corroborado pela maior parte da mídia especializada.

Além dos CDS, outros títulos de ativos podres foram desenvolvidos, incluindo obrigações de dividas colaterarizadas (CDO), obrigações de empréstimos colateralizados (CLO), hipotecas de maior risco (subprime mortgages) mantidas nas carteiras de bancos comerciais, bancos de investimento, fundos de hedge, companhias de seguro. O valor estimado dos CDS existentes no mercado é da ordem de US$ 62 trilhões.

Uma das maiores lições que pode ser extraída de todo essa bagunça é de que a mesma foi desenhada e executada por executivos do mercado financeiro realizando operações de alto risco, tal qual na Enron, Worldcom e Parmalat onde esses mesmos bancos comerciais e de investimentos e seus auditores tiveram de pagar gigantescas multas pelos delitos praticados por seus executivos. Agora temos também as agencias de rating sob os holofotes.

A insolvência de empresas nos EUA teve uma alta acentuada em 2008 e outras estão a caminho, sinalizando um ano histórico e vital para aqueles que atuam na área de recuperação e falência de empresas. Comenta-se ainda nos EUA que ninguém menos que a gigante General Motors poderia entrar com pedido de recuperação judicial. As montadoras americanas receberam uma ajuda de US$ 20 bilhões do Governo. A GE está levantando US$ 15 bilhões.

Especialistas alertam também que mais empresas na Europa serão forçadas a recuperação ou falência do que em crises anteriores em razão da velocidade sem precedentes com a qual a saúde financeira das mesmas podem piorar com a contração da liquidez. Em contrapartida, a turbulência tem gerado grandes oportunidades para investidores em empresas em dificuldade, assim como para advogados, consultores e outros experts em solução de crises empresariais.

No Brasil testemunhamos a derrocada da Varig e Vasp apesar dos inúteis esforços de tentar provar sua viabilidade. A atenção das autoridades está voltada para as empresas que emitiram BDRs como a Agrenco, que recentemente entrou em recuperação judicial pouco após haver captado próximo de R$ 700 milhões no mercado de capitais, e a Parmalat. Empresas Brasileiras já estão sentindo os efeitos da crise — escassez de crédito internacional e de ACCs; elevação de custos dos ACCs; custos, restrições e limites de crédito local (capital de giro, etc…); saída de capital para cobrir posições no exterior; postergação/cancelamento de investimentos. No mesmo viés de seus colegas estrangeiros alguns especialistas brasileiros acreditam que haverá também um numero maior de insolvências no Brasil.

A situação doméstica e global demanda atenção especial por parte de empresas e credores bem como do judiciário e de especialistas em insolvências de forma a evitar perdas ou recuperar valor em diversas circunstancias questionáveis onde o sinal vermelho haja sido acionado. Esta supercrise torna a discussão e implementação da lei modelo do tipo Comissão das Nações Unidas para o Direito Internacional (Uncitral) para insolvências envolvendo múltiplas jurisdições uma prioridade para o Brasil.

Jorge Queiroz

é presidente e fundador do Instituto Brasileiro de Gestão e Turnaround.

Armando do Prado disse:
03 de outubro de 2008 às 17:33

Vale a pena ler o artigo abaixo.

Um mundo feito de papel
Em um sistema de produção em que toda a trama do processo de reprodução repousa sobre o crédito, quando este cessa repentinamente e somente se admitem pagamentos em dinheiro, tem que produzir-se imediatamente uma crise, uma demanda forte e atropelada de meios de pagamento.
Por isso, à primeira vista, a crise aparece como uma simples crise de crédito e de dinheiro líquido. E, em realidade, trata-se somente da conversão de letras de câmbio em dinheiro. Mas essas letras representam, em sua maioria, compras e vendas reais, as quais, ao sentirem a necessidade de expandir-se amplamente, acabam servindo de base a toda a crise (...)
(...) No mais, aqui tudo aparece invertido, pois num mundo feito de papel não se revelam nunca o preço real e seus fatores, mas sim somente barras, dinheiro metálico, bônus bancários, letras de câmbio, títulos e valores. E esta inversão se manifesta em todos os lugares onde se condensa o negócio de dinheiro do país, como ocorre em Londres; todo o processo aparece como inexplicável, menos nos locais mesmo da produção.
Fragmento de O Capital, Volume 3, Capítulo 30, Capital-dinheiro e capital efetivo, Karl Marx (1818-1883).

fernandojr disse:
03 de outubro de 2008 às 18:50

Karl Marx!? Karl Marx, Fessô!?

Menos, menos, Fessô...

A crise é do subprime, não da produção de capim...

Giorgio disse:
03 de outubro de 2008 às 19:27

O negócio é fazer dinheiro de borracha. Quando a situação ficar difícil, dá para esticar mais um pouco

Giorgio

ROM disse:
03 de outubro de 2008 às 20:54

Os acontecimentos desta nova crise eram plenamente previsíveis, porque a economia verte como uma espiral, girando sobre seu próprio eixo até esgotar a capacidade dos agentes. O menosprezo que damos a história econômica quanto aos crashes de diferentes segmentos em épocas distintas, como “a mania das tulipas” (1637), a recessão japonesa (1988), e até mesmo a mais marcante do século XX – A II Guerra Mundial, decorrente da imposição à Alemanha de pesados pagamentos pelas reparações da primeira guerra. Tudo conforme criticado por “Keynes” no Tratado de Versalhes. Alias, Keynes “in a Teoria do Emprego, do Juro e da Moeda” já afirmava, se “(...); pudéssemos, pois, prever com certeza, todas as taxas que iriam dominar no futuro, todas as taxas vindouras poderiam ser inferidas das taxas presentes para as dívidas de diversos vencimentos e estas se ajustariam ao valor conhecido das taxas futuras”
Significa que a deturpação do princípio básico de remuneração do capital, vez que o lucro deve advir da taxa de juros e não, de sua forma de cálculo. Por sua vez “Hyman P. Minsky” identificou na postura (hedge, speculative e Ponzi) dos agentes econômicos forma de endividamento que nada mais é senão o paradigma usado no financiamento e na manutenção dos lucros futuros, mediante a manutenção da reserva do estoque e do patrimônio líquido presentes, gerador do contrato financeiro em termos das expectativas futuras das transações financeiras presentes. Logo, afirma a doutrina econômica que os fundos para cobrir esses compromissos financeiros provem de rendimentos do devedor (refinanciamento) ou liquidação de ativos. Constituindo elemento crítico para validar as dívidas existentes.

Armando do Prado disse:
03 de outubro de 2008 às 23:50

Tem gente que ainda não entendeu nada, nada. É o que dá ficar lendo códigos, como se bíblia fossem, em vez de estudar. Ainda dá tempo de se alfabetizar adEvogado fernando jr.

Armando do Prado disse:
03 de outubro de 2008 às 23:51

Parece que a teoria de que o mercado regularia tudo, fracassou. A história não acabou, como queriam os neoliberais. E o império quebrou. A história se vinga de quem a ignora e perde tempo lendo códigos como se bíblia fossem.

Armando do Prado disse:
03 de outubro de 2008 às 23:59

Aliás, a direita está à beira de um ataque de burrice e desespero, pois a sua queda do muro de Berlim aconteceu. Que o digam os decoradores de códigos que rondam por aqui.

fernandojr disse:
04 de outubro de 2008 às 01:16

Não, fessô. Só vou voltar a estudar quando a crise do capim acabar e a sua abstinência tiver fim.

Antônio dos Anjos disse:
04 de outubro de 2008 às 09:15

Sem querer acirrar os ânimos ou ferir as convicções políticas de quem quer que seja, mas acreditar que o modelo de planificação econômica socialista é a resposta para a economia do mundo é de uma inocência pueril. O modelo de Marx, levado a cabo por Lenin e Stalin na URSS, por Mao na China e Fidel em Cuba, somente apresentou resultados na China, após está ter se rendido às regras de mercado, sem garantir ao trabalhador o mínimo de direitos sociais e trabalhistas. Crer que o modelo capitalista ruiu, em uma crise nos EUA é desconhecer as últimas mudanças da história. Até meados da década de 90, os EUA eram o maior mercado do mundo e que centralizavam todo o comércio exterior. Todavia, a entrada do BRIC e o fortalecimento da União Européia contribuiu para que os EUA perdessem a hegemonia comercial e, consequentemente, que entrasse em pré-crise e na crise que agora se agiganta.

Antônio dos Anjos disse:
04 de outubro de 2008 às 09:18

Outrossim, não há que se falar em estatização de banco nenhum, uma vez que o Estado norte-americano não está comprando ativos, tampouco assumindo o controle acionário de qualquer instituição. Estão adotando medidas responsáveis de saneamentos financeiro e fiscal, como o Brasil fez com o PROER que os "esquerdistas festivos" tanto criticaram e agoram batem palma os EUA, dizendo, por pura ignorância dos fatos e do direito, que é "estatização".

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