Por que temos vergonha dos nossos espiões

O Brasil tem 1.400 agentes secretos e não sabe o que fazer com eles. Não sabe porque não levou a sério um problema que todos os países têm de enfrentar um dia: a segurança do Estado e o papel dos serviços de inteligência. Há agentes secretos por todo o planeta. Podem ser úteis, mas nunca são populares. Inspiram repulsa por ser espias, dedos-duros, aves de rapina. Os nossos não são falcões nem abutres. São arapongas. São patéticos.

O Brasil é uma das mais dinâmicas economias do mundo. Fazemos negócios com quase todos os países. Temos recursos naturais estratégicos, setores de excelência tecnológica na indústria e na agricultura. Temos o privilégio e o ônus de incorporar a maior parte da Amazônia — e temos alguns vizinhos em situação de instabilidade. São razões, nenhuma delas imprevisível, para investir num serviço de inteligência digno do nome. Razões para proteger o Estado e a democracia que construímos.

Por vários motivos, não tratamos o tema com profundidade no momento adequado — a Assembléia Nacional Constituinte, há 20 anos. O ímpeto democratizante dos constituintes não foi o bastante para enfrentar um dado daquela conjuntura: mesmo derrotados politicamente, os militares ainda exerciam forte influência no governo José Sarney (a posse do presidente civil, com a morte de Tancredo Neves, foi decidida pelo ministro do Exército, Leônidas Pires). Inteligência e segurança do Estado eram assunto para generais. O tabu ficou intocado com a preservação do Serviço Nacional de Informações e da Lei de Segurança Nacional.

Havia outro motivo para que o assunto fosse esquecido: 21 anos de ditadura acabaram provocando, no imaginário político brasileiro, uma nefasta confusão entre inteligência e repressão, entre autoridade e arbítrio. A sociedade se recusou a discutir o problema, como se inteligência e segurança não fossem tão necessárias numa democracia quanto eram vitais para o governo autoritário. Da mesma forma, nunca promovemos um debate real sobre o papel das Forças Armadas.

O Brasil nunca discutiu seriamente como deve funcionar a inteligência na defesa do Estado democrático.

Essa atitude evasiva permitiu que o ex-presidente Fernando Collor de Mello decretasse, demagogicamente, a extinção do SNI, em 1990, sem colocar nada sólido no lugar. Os remanescentes da “comunidade de informações” continuaram agindo sem controle, mesmo depois da criação da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin dos 1.400 arapongas, em 1997. A criação da agência, no governo Fernando Henrique Cardoso, foi uma idéia bem-intencionada, mas de resultados cosméticos.

Pode-se dizer o mesmo do Ministério da Defesa, uma obra em construção. Até a posse do ministro Nelson Jobim, no ano passado, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica despachavam com o presidente como se fossem ministros. Não são, mas convencê-los disso é parte do ofício de Jobim.

A tarefa de construir um aparelho eficaz e democrático de inteligência e segurança do Estado fica mais difícil à medida que a Abin se confunde com seus malfeitos. Cada relatório estúpido e cada ação arbitrária dos arapongas — como as campanas ilegais em parceria com a Polícia Federal na Operação Satiagraha — contribuem para desacreditar a atividade. Na raiz do problema está a falta de legitimidade do aparato de segurança do Estado, que não é fruto de um momento especial, como foi a Constituinte, nem de uma discussão com o Congresso e a sociedade sobre seus objetivos e limites. Para que precisamos de inteligência? A quem prestará contas? Qual o limite entre a segurança do Estado e o direito do cidadão?

O presidente Lula nunca leu um relatório da Abin. Já está no quinto diretor-geral da agência e deve continuar improvisando. O governo FHC não se saiu melhor. Quem não se lembra das fitas da privatização das teles, que a Abin achou “embaixo de um viaduto”? Não é necessário dividir o mundo e o país entre amigos e inimigos, comunistas e capitalistas, para organizar um bom serviço de inteligência. O primeiro passo é não ter vergonha de enfrentar o problema. Afinal, uma das obrigações do Estado democrático é se defender — para poder defender os cidadãos.

Artigo publicado originalmente na revista Época desta semana.

Ricardo Amaral

é repórter especial da revista Época em Brasília.

Alex Wolf disse:
17 de setembro de 2008 às 08:35

Esses nossos "agentes secretos" são uma negação. Uns bossais, uns 007 de terceiro mundo. O MST, com sua organização, pinta e borda e esse pessoal da ABIN fica de boca aberta com tal organização. Esses "espiões" sebem muito bem bisbilhotar quem tem endereço fixo e CPF conhecido.

Crítico disse:
17 de setembro de 2008 às 09:59

Até agora, o mais coerente e lúcido artigo que eu já li no CONJUR. Vou comprar a Época para arquivar o original.

O articulista discorreu sobre o tema de honesta e precisa, sem recorrer às paixões que normalmente permeiam esse assunto tão espinhoso e controvertido.

A grandiosidade dos argumentos parece se condensar neste parágrafo:

"21 anos de ditadura acabaram provocando, no imaginário político brasileiro, uma nefasta confusão entre inteligência e repressão, entre autoridade e arbítrio. A sociedade se recusou a discutir o problema, como se inteligência e segurança não fossem tão necessárias numa democracia quanto eram vitais para o governo autoritário".

As linhas acima resumem com precisão milimétrica o momento político que o Brasil está vivendo.

Devido ao ranço da ditadura, qualquer intervenção estatal legítima e necessária é considera abuso, arbítrio ou invasão.

Só é aceitável o "oba, oba", a libertinagem, a ausência de regras.

A preocupação com os grampos ilegais é maior do que com as investidas ao erário, como se estas não matassem mais do que aqueles (corrupção mata, grampo não).

A preocupação com o avanço do estado policial (que não se instalou) é maior do que a preocupação com o avanço do estado criminal (já instalado).

Vale dizer que concordo com a defesa de todos os direitos fundamentais defendidos pela turma do "oba, oba" e sou contra estado policial e grampos indiscriminados. O que não concordo é com a inversão de valores e de prioridades, como quando, por exemplo, a mídia e a sociedade dão mais atenção a um erro estatal no combate ao crime do que ao próprio crime que gerou o erro estatal.

Roberval Taylor disse:
17 de setembro de 2008 às 11:17

O Brasil não tem serviço de inteligencia. Tem é serviço de intolerancia. Mas apesar disso no palacio do planalto se tolera tudo,até fumar onde é proibido! Se tolera tanto lá, que já está virando casa de tolerancia...

futuka disse:
18 de setembro de 2008 às 17:12

Nos tempos da 'dona dita' para polícia eu diria que eles fizeram o 'papel' de 'bate pau' e não a de policial ..ou estou errado!

Quanto ao salário não ganhavam tão bem e nem precisavam ser universitários sequer tinham carteirinhas registradas,, fazia-se uma 'vaquinha' e pronto ali estavam seus pagtos. Ou então 'informantes-oficiais' se cadastravam como AGENTES nas respectivas agencias do 'serviço nacional de informação' sendo servidor ou não para as suas 'tarefas institucionais', recebendo suas gratificações.
..blá blá ..mais a verdadeira..

TAREFA DE POLICIAL SÓ PRATICAVAM (APÓS CONCURSO)OS 'AGENTES PÚBLICOS' QUE FREQUENTAVAM AS RESPECTIVAS ACADEMIAS ESTADUAIS OU A NACIONAL DE POLÍCIA.

O resto é resto, portanto não deve ter nenhuma credibilidade uma ação judicial com o involvimento de terceiros. Sómente deveria ser aceito quando houvesse uma condução de prisão em flagrante a qual poderia ser conduzida por qualquer cidadão do povo a ação do não policial.

futuka disse:
18 de setembro de 2008 às 17:18

Em tempo gostaria de dizer que é tão ENVOLVENTE o tema que não percebi o quanto fui distante, espero que os atuais quadros de tão preciosos serviços que acredito deverão fazer os brilhantes 'secretos' servidores se destaquem mais pelo laborioso trabalho de inteligência para servir a nação e não o de Policial (para o qual já existe um quadro profissional específico).

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