Em um momento de crise, empresas esquecem do custo real das demissões

Princípios de boa gestão parecem evaporar da cabeça de pequenos e grandes empresários em momentos de crise. Literalmente, destrói-se o que se plantou ao longo de anos. O funcionário, que ao lado dos clientes forma o principal patrimônio da empresa, é mergulhado em um ambiente de insegurança ou é “descartado” ao menor sinal de redução das margens de lucro.

Recente estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, conclui que, diante da crise financeira e econômica internacional, muitas empresas têm demitido funcionários por precaução, e não por estar com problemas de caixa. Em geral, falta transparência no processo de enfrentamento das dificuldades. A busca de soluções inteligentes e ágeis, com ampla participação dos empregados nas decisões, é substituída por um ambiente de medo, com reflexos inevitáveis no nível de produtividade.

E é assim que se instala no ambiente corporativo e na economia como um todo o que os economistas denominam de “profecia autorrealizável”. Diante de uma queda nas vendas, as empresas demitem sem o mínimo critério e cortam investimentos. E os trabalhadores, com medo de perder o emprego, reduzem gastos. Resultado: poucos compram, poucos vendem e a roda deixa de girar.

Os pesquisadores do Ipea alertam, no entanto, que nem empresários nem trabalhadores podem ser responsabilizados pela crise, que não começou no Brasil. É normal que cada lado siga seu instinto de sobrevivência – os empresários protegendo seus negócios e os trabalhadores esticando sua capacidade de consumir. Mas o estudo conclui que “decisões individuais racionais nem sempre são aquelas que produzem os melhores resultados coletivo-sociais."

O que choca na crise atual é a “facilidade” com que muitas corporações colocam centenas, ou milhares, de funcionários na rua, mesmo recebendo benesses do governo e diariamente pressionando por incentivos e redução de impostos. Mais graves são os episódios de visível má-fé, nos quais o empresário se aproveita do ambiente de crise para demitir sem prévias negociações com sindicatos ou sem antes lançar planos de demissões voluntárias.

A maioria das empresas parece, neste momento, não estar consciente do custo real das demissões que, além dos gastos imediatos com os desligamentos, corroem a imagem e dilapidam o patrimônio humano. Perdem-se os investimentos feitos em treinamento e quebra-se o elo de identificação do trabalhador com os ideais de seu empregador. Entre os que ficam, é inevitável que circule um ar de insatisfação e insegurança, com reflexos diretos na produção.

As empresas, especialmente as listadas em bolsas de valores, não podem ignorar que os arranhões na imagem institucional terão reflexo nas relações com os investidores. É difícil apostar na compra de ações de uma corporação que faz demissões em massa. Por tabela, a cotação das ações recua e o valor de mercado da marca despenca.

Em muitas situações, a injeção de uma boa dose de otimismo, onde o corpo de funcionários se envolva na busca de soluções, em um ambiente de total transparência, pode ser muito mais lucrativo do que demissões. Se essas forem inevitáveis, diante de um prolongado recuo nas vendas, que as decisões sejam justas e serenas, com o menor prejuízo para ambos os lados. Não adianta preservar o anel se o dedo for perdido para sempre.

Segurar demissões evita custos e processos trabalhistas. E mantém-se a economia em crescimento. A perda do emprego sempre destrói sonhos pessoais e familiares.

José Augusto Rodrigues Jr.

é sócio do escritório Rodrigues Jr. Advogados.

Jose Antonio Schitini disse:
11 de março de 2009 às 18:15

O ciclo sempre continua na mesma vertente. Emprego-desemprego no determinismo binário. As fórmulas são velhas embora com atualizações pontuais como na CLT. O Vezo político traz medidas demagógicas, claramente ineficientes. FGTS, Cofins, PIS e mesmo singularizações complexas como o FAT e INSS não atendem socialmente o desempregado ou incapacitado de variadas matizes (doenças, inadaptados por drogas ou bebidas ou deficientes de cultura). Para incapacitados físicos as medidas de inserção não são abrangentes. Esses fundos são todos financeiros, isso porque visam o trabalhador ativo e que financeiramente interessam a esses sistemas enquanto geradores de recursos na álea do emprego. No desemprego as pessoas se transformam num estorvo. Não interessam a ninguém e nem mesmos aos sindicatos. O que falta? Falta vontade do governo na inserção de toda a população na dinâmica social com renda básica para todos, uma vez que a falta de renda é pena capital sem culpa. Daí o certo é transformar esses fundos financeiros e, portanto, que só se interessam pelo trabalhador que gera dividendos, em fundos sociais abrangentes tipo uma grande Bolsa de Recursos Humanos, com técnicos gerenciais de todas as áreas para dirigir em leques de subordinação escalonadas, tanto no fito de suprir os desempregados e incapacitados nas suas necessidades, como de aperfeiçoar todos na tecnologia de trabalho nos tempos modernos, além de recuperar todos para a produtividade social. Caso contrário com crise ou sem crise sempre haverá conturbação social e hipocrisia. Com habitação e e comida na mesa. O básico suprido, o índice de criminalidade cai na estatística. Empresas devem se preocupar com o social, mas a responsabilidade enorme do governo deve ser assumida.

Baratinha disse:
12 de março de 2009 às 09:06

Caro Dr. José,
Faço minhas suas palavras, pois realmente não se pensa no investimento em material humano, nem em suas consequências para o mundo dessas pessoas, pois isso pode representar a fome e falência moral, bem como uma agressão à dignidade.
A crise que aí está, prova que está havendo uma precipitação muito grande (ou má fé) nas demissões, pois já existem muitas notícias de empresas que cancelaram férias coletivas, estão convocando para horas extras, portanto a crise é muito mais um efeito psicológico do que real.

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