Eliana Calmon surpreende com código de ética para a magistratura

Editorial do jornal O Estado de S.Paulo deste domingo (17/10) fala sobre a proposta de criação de um código de ética para a magistratura da nova corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon. Segundo o texto, a ideia vem despertando surpresa no meio forense, já que muitos ministros consideram como suficiente a Lei Orgânica da Magistratura.

“Muitos juízes das instâncias inferiores têm o mesmo entendimento. Para a corporação, o código de ética seria desnecessário, pois a Lei Orgânica da Magistratura já conteria as medidas necessárias para assegurar a moralidade na Justiça”, diz o texto.

A iniciativa de Eliana Calmon vem na esteira do julgamento de Joaquim Roriz, ex-candidato ao governo do Distrito Federal. Ele tentou impedir o Supremo Tribunal Federal de condená-lo tendo como base a Lei da Ficha Limpa.

Leia a íntegra do editorial do Estadão:

“Numa iniciativa inédita, a nova corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, que está no cargo há apenas um mês, propôs a criação de um código de ética para a magistratura. O que a levou a apresentar a proposta foi a estratégia montada pelo ex-candidato ao governo do Distrito Federal Joaquim Roriz para tentar impedir o Supremo Tribunal Federal (STF) de condená-lo com base na Lei da Ficha Limpa. Aprovada há seis meses, a lei proíbe políticos condenados por tribunais de segunda instância de disputar cargos eletivos.

Como teve sua candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por já ter sofrido condenação por órgãos colegiados da Justiça, Roriz recorreu ao Supremo, alegando que as sanções previstas pela Lei da Ficha Limpa só poderiam começar a ser aplicadas a partir de 2012. Segundo ele, o Legislativo não poderia aprovar leis eleitorais em anos eleitorais. Desde o início do julgamento de seu recurso, já se sabia que a mais alta Corte do País estava dividida nessa matéria. Para levar o STF a decidir a seu favor, Roriz tentou contratar o advogado Adriano Borges, genro do ministro Ayres Britto, que sabidamente defendia a tese de que a Lei da Ficha Limpa teria aplicação imediata, o que obrigaria o ministro a se declarar impedido de votar. Com isso, Roriz teria seu recurso aprovado por 5 votos contra 4.

O julgamento terminou empatado em 5 votos a 5 e a estratégia de Roriz não deu certo porque ele e o genro de Britto não teriam chegado a um acordo sobre o valor dos honorários. A conversa foi gravada pelo ex-candidato e a fita, que foi entregue à Procuradoria-Geral da República, mostra que Borges negociava com Roriz o impedimento de seu sogro na votação, em troca de um "pró-labore" de R$ 4,5 milhões. Informado do fato, Ayres Britto imediatamente pediu ao presidente do STF, Cezar Peluso, que abrisse rigorosa investigação. E, dois dias depois, seu genro, que vinha atuando em 68 causas no TSE e 11 no STF, anunciou que não irá mais advogar nessas cortes.

O caso teve ampla repercussão nos meios jurídicos. A seccional da OAB em Brasília abriu um processo disciplinar contra Borges. E, tanto na entidade e no Ministério Público como na imprensa, voltou-se a discutir o conhecido problema de conflito de interesses criado pelos advogados que atuam nos tribunais onde parentes próximos são ministros. Pelos cálculos da OAB/DF, há mais de 20 parentes de ministros que advogam no Tribunal Superior do Trabalho (TST), no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no TSE e no STF. Pelo menos três dos escritórios mais movimentados de Brasília pertencem a filhos de ex-presidentes do Supremo. Esses escritórios, que cresceram quando os pais-ministros ainda estavam na ativa, são procurados especialmente por empresas que discutem grandes valores nos tribunais superiores.

Evidentemente, muitos ministros do TST, do STJ, do TSE e do STF se opõem à criação de um código de ética para a magistratura e à imposição de medidas legais mais severas para restringir a atuação dos chamados "advogados-parentes". Para esses ministros, já basta o dispositivo do Código de Processo Civil que proíbe advogados de entrar no meio de processos em tramitação, para impedir um magistrado de julgá-los. Muitos juízes das instâncias inferiores têm o mesmo entendimento. Para a corporação, o código de ética seria desnecessário, pois a Lei Orgânica da Magistratura já conteria as medidas necessárias para assegurar a moralidade na Justiça.

Por isso, a proposta de criação de um código de conduta para a magistratura formulada pela ministra Eliana Calmon causou surpresa nos meios forenses. Ela quer que o CNJ aprove o quanto antes uma resolução sobre a matéria. Desde que assumiu a Corregedoria Nacional de Justiça, no dia 8 de setembro, Eliana Calmon concedeu várias entrevistas criticando a desenvoltura dos advogados-parentes nos tribunais superiores e afirmando que a Lei Orgânica da Magistratura não basta para contê-los. Sua iniciativa, até agora, só foi endossada pelo ministro Ayres Britto.”

Valdecir Trindade disse:
17 de outubro de 2010 às 12:50

Quero parabenizar a iniciativa da ministra Eliana Calmom ao propor o código de ética da magistratura. Ao contrário do entedimento dos magistrados que entendem bastar a Lei Orgânica, acredito que esta não é suficiente, pois a lei embora cuide de regular a conduta do juiz, estabelecendo sanções em caso de infração, o fato é que situações comoa dos escritórios de parentes de ministros ou ex-ministros, exemplificando, de fato possuem um potencial enorme de fazer tráfico de influência, concorrendo para com o desequilíbrio da balança, e com isso facilitando a corrupção. Portanto, ao propor o código de ética, a ministra não está fazendo nada mais que aumentar o facho de luz sobre o poder judiciário, o que é importantíssimo, pois isso contribuirá para que não apenas o judiciário, mas por via reflexa, as as demais instituições públicas tornem-se de fato republicanas.
Parabens ministra. Que Deus prossiga lhe dando força e perseverança nessa saga que se afigura quixotesta, mas que na verdade é um reclamo eterno da cidadania.

Manente disse:
17 de outubro de 2010 às 19:47

Alguns já descumprem a LOMAN!!! Será que o tal Código de Ética seria respeitado?
Mas, trata-se de uma excelente iniciativa da nobre magistrada e QUE ELA TENHA ÊXITO.

João Augusto de Lima Lustosa disse:
18 de outubro de 2010 às 07:49

Parabens à corajosa Ministra que tem vontade politica de devolver o prestigio do Poder Judiciário, infelizmente decaído e ela mesma definiu em sua entrevista à revista VEJA.

Florencio disse:
18 de outubro de 2010 às 09:16

Se existe tantos membros do Judiciário se posicionando contra é sinal de que a medida é boa, pois muita gente está se sentindo contrariada em seus interesses. Um Código de Ética vai impedir barganhas, antes que aconteça a infração. De fato, a LOMAN só pune após a infração cometida, quando o dano já foi ocasionado, muita vezes já impossível uma reparação.
Bom Apetite!

Katiaznt disse:
18 de outubro de 2010 às 10:31

Parabéns à iniciativa da Exma. Ministra Eliana Calmom. Como susgestão, seria interesante incluir à proteção da sociedade no tocante a roleta lotérica das decisões dos juízes e desembargadores, pois não se comcebe, que 2 processos idênticos no pedir, porém com autores distintos, sejam tomadas 2 decisões diferentes pelo mesmo colegiado.
Outra sugestão, é o acompanhamento rigoroso do CNJ, sobre às decisões dos Presidentes dos Tribunais Estaduais, em bloquear e sequestrar verbas do Executivo (Governos Estaduais e Municipais), como o Estado de Santa Catarina, que poderia ser o primeiro, pois não está disponibilizando nem (MEIO) 0,5%, de sua receita líquida para pagamento de precatórios. Que a sociedade tenha acesso direto ao CNJ, para formalizar as denúncias de omissão e solicitar o imediato cumprimento das decisões do Conselho.

preocupante disse:
18 de outubro de 2010 às 11:35

Com a experiência arraigada de muitos anos trabalhando nessa área, ela sabe, como todos os demais ministros, desembargadores e juízes deste país também sabem, das lacunas da LOMAN. Sem esse conhecimento a Exmª. Ministra/Corregedora não iria fazer tal proposição.
Os que são contra, embora acredite eu que nem todos, estão mesmo é preocupados com a maior eficácia de um novo Código de ética, e com isso o atingimento de seus interesses individuais que põem às favas o interesse coletivo. Quem diria, até no Judiciário!

Ademilson Pereira Diniz disse:
18 de outubro de 2010 às 12:02

A prposta da MINISTRA parece boa. Entendo que TODOS as carreira de cargos público, chamadas das chamadas "funções de estado" (Juiz, Promotor, Polícia, Procurador), em que, evidentemente, há delegação de poder público, devem ter não só seu CÓDIGO DE ÉTICA, como também e principalmente um CONSELHO SUPERIOR (como os que já existem CNJ, CSMP. Já há projeto de um CONSELHO SUPERIOR DA POLÍCIA, que espero abranja não apenas as polícias civis (Estadual e Federal), mas também a POLÍCIA MILITAR (no tocante à atividade de polícia).E sobretudo que esses órgãos não sejam compostos tão somente por egressos de seus quadros, ou que possam retornar a seus cargos após seus madatos (isto poderia limitar suas atuações, por medo de represálias no futuro -- poderiam vir a se tornamrem subordinados daquele que hoje é investigado, isto além da sempre possível corrupção por simpatia pessoal.Também deve-se criar mecanismos para que qualquer do povo possa fazer reclamação diretamente a esses órgão, com a criação de DELEGACIAS nos Estados e Municípios (ou ao menos em sedes de Regiões), tudo para coibir deslizes antes que as mazelas tornem-se irredutíveis. Parabéns à Ministra.

CGSanromã disse:
18 de outubro de 2010 às 15:53

Não se pode criticar juízes ou autoridades que manipulam processos judiciais sem uma base sólida. A lei já estipula que quando o processo for distribuído a um juízo ou Tribunal, o advogado não ingressará nos autos se com tal ato acarretará o afastamento do julgador. Aí ele não entra no processo.
Diversamente, se ele já estiver no processo e este for distribuído para um julgador o qual terá de se dar por impedido ou suspeito.
É lógico que sempre existirá o INTERESSE uma vez que o desenvolvimento moral dos cidadãos não é matemático. Existem os que estão no zero e aqueles que estão no cem.
O excesso de leis nunca resolveu problema.

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