Ditadura do “politicamente correto” quer restringir liberdade

Piadas e humor rendem boas gargalhadas e, invariavelmente, polêmica. O Ministério Público abriu inquérito contra o humorista Rafinha Bastos por suposta apologia a estupro ao ter elogiado estupradores de mulheres feias em show de stand up comedy. Afora a questão do bom ou mau gosto da blague, o episódio merece reflexão.

Até onde vai o limite ao direito de manifestação de pensamento e liberdade de expressão? Alguns dirão: há de se proibir os abusos! Cadeia para engraçados e falastrões!

Mas onde está a razão?

Geralmente a liberdade de expressão é um direito bem vindo pela opinião pública, desde que não seja ofensiva ou politicamente incorreta. Quando se veicula opinião fora dos padrões da moral e bons costumes aceites em determinados grupos sociais a coisa muda de figura. Todos querem liberdade para expressar-se sobre política e rock’n roll, mas quando o assunto é sexo e drogas o debate esquenta e lá vem o MP com processo.

Nos EUA, a 1ª Emenda é categórica ao proteger a liberdade de expressão. Lá, juízes fazem interpretação ampla (direitos absolutos) da aplicação da liberdade em casos relacionados à comédia e à satira usada na mídia e espetáculos, seja por entretenimento, seja por veiculação publicitária.

Inúmeros casos foram julgados, sendo o mais famoso o de Larry Flynt, editor da Revista Hustler, em 1983, quando publicou paródia sexual de incesto do falecido Reverendo Jerry Falwell e sua mãe. O processo foi à Suprema Corte, em 1988, e então Chief Justice Rehnquist disse: "No cerne da 1ª Emenda está o reconhecimento da importância fundamental do livre fluxo de idéias e opiniões sobre a preocupação com assuntos de interesse público". Shows de David Letterman, Jay Leno e Jon Stewart foram cerceados por suas opiniões sarcásticas e corrosivas. Produtores do Saturday Night Live e South Park foram processados pelas gags hilárias, ainda que de gosto duvidoso. Porém, tem prevalecido a convicção de que a Constituição é pilar inabalável da liberdade de expressão, como forma de cultura democrática, mesmo em face a direitos dos grupos e minorias.

Hoje, no Brasil, a ditadura do politicamente correto quer restringir a plena liberdade, qualquer que ela seja. Cria-se uma rede de patrulha às livres ideias da imprensa e mídia que ameacem valores conservadores arraigados.

Por isso, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Ben-Hur Rava

é advogado e professor de Direito Público.

sGFREITTAS disse:
08 de julho de 2011 às 17:03

Ficarei na torcida para que essa criatura seja verdadeiramente processada e que sofra uma condenação educativa e exemplar.
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Circula na mídia que a tal criatura "...disse que toda mulher que reclama que foi estuprada é feia, e que o homem que cometeu o ato merecia um abraço, e não cadeia."
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Francamente, tudo nessa vida tem limite... Liberdade sim, sempre, mas, convenhamos o comentário dessa criatura é de um mal profundo.
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Sabe o que é hilário mesmo de verdade ? É falar em ditadura do "politicamente correto" cerceia liberdade para este caso em especial.

Marcos Alves Pintar disse:
08 de julho de 2011 às 17:41

Ao tomar conhecimento da notícia, o primeiro caso assemelhado que me veio à mente foi o do Larry Flynt, citado pelo Autor. Basta ver o filme e se chegar a conclusões seguradas.

Nox disse:
08 de julho de 2011 às 21:26

(1) não existe democracia sem liberdade de expressão;
(2) para ser verdadeiramente efetivada a liberdade de expressão TEM que ser estendida a toda e qualquer manifestação que não constitua instigação direta à violência - ninguém melhor que a história demonstra isso;
(3) a simples ameaça de processo (indenizatória, crimes contra honra, desacato, apologia ao crime) é suficiente para cercear o direito em sua maior parte, pois, sabendo da imprevisibilidade das decisões judiciais, poucos correm o risco de falar algo que se aproxime da zona cinzenta entre o permitido e o proibido.
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Muitas vezes eu me pergunto: será que é tão difícil entender isso?
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As palavras do comediante são infinitamente menos danosas para a democracia que a atitude do Membro do Ministério Público que requisitou a instauração de inquérito. E o mais irônico dessa e de outras situações similares (proibição das Marchas da Maconha, p. ex.) é que os maiores atentados à liberdade de expressão no pós ditadura têm sido cometidos justamente por aqueles de quem se espera uma maior consciência democrática: Juízes e Promotores.
Instaurar inquérito em razão de piada de show de stand up commedy foi uma atitude verdadeiramente lamentável (opa! será que vou ser processado?).

Cananéles disse:
08 de julho de 2011 às 23:25

As vestais do direito brasileiro são um deleite para a alma! Durante uma bienal, não faz muito tempo, um magistrado saiu em defesa de uns poucos urubus - porque nunca leu nada sobre história da arte, expressão artística nem, tampouco, se preocupou com o que Freud disse sobre as pulsões. Hoje, por conta de uma piadinha, um membro do MP saiu em defesa das mulheres feias - porque também nunca leu Vinícius de Moraes, obviamente. Sugiro aos patrulhados que, da próxima vez, invertam os papéis e os chistes: o humorista louve os urubus, pois são animais que nunca reclamam de estupro; e a Bienal exponha, muito bem enjauladas, umas dez mulheres feias. Quem sabe cinquenta. Talvez oitocentas. Ou melhor: todas!

Luiz Adriano Machado Metello Junior disse:
09 de julho de 2011 às 19:10

Eu acredito que estamos vivendo uma época demasiadamente opressiva.
As conversas o comportamento e as opiniões estão sendo afogadas sob a ameaça de processos judiciais.
É só assistir o humor na TV Brasileira.. Compare Os trapalhões das décadas de 70, 80 e 90 com a turma do DIDI de hoje em dia... Com aquele LIXO de Zorra total.. Eu me sinto enojado de assistir essa porcaria que afirmam ser programas humorísticos.
Até mesmo a internet, que sempre foi livre agora é amplamente vigiada, não posso mais xingar um politico em um fórum de discussão, que o Google anexa o xingamento na busca e o politico acha o xingamento e vai tentar me processar.
E essa palhaçada de colaborador, secretária do lar? Eu não chamo nenhum dos meus funcionários assim, e não vou chamar. É agora uma ofensa chamar a pessoa a quem você dá emprego de empregada?
Essa palhaçada de politicamente correto é mais uma das consequências de não termos proteção à livre manifestação do pensamento.
Sufocam nossas críticas com processos, nossas opiniões com ameaças.
Se nesse país, um humorista vai ser preso por fazer comédia, sinceramente, eu quero sair.
Rezo pra que um dia, esse protecionismo excessivo exploda na cara do governo, com a população clamando por liberdade para se expressar.

Raphaella Reis de Oliveira disse:
10 de julho de 2011 às 18:18

Concordo, em termos.
Atualmente, não sabemos onde fica a liberdade, e onde fica o limite. É endêmico: o país permaneceu atrofiado por décadas a fio, quando "acordou", não sabia mais pensar - e gerações foram criadas sem saber, empurrando com a barriga. E agora temos isso. Não temos uma nação com pensamento crítico plenamente desenvolvido, então não temos quem saiba onde termina a liberdade do um, e começa a do outro.
Precisamos da volta das professorinhas do primário, aquelas que colocavam os brigões e faladores no cantinho quando eles faziam demais.
No caso em voga, eu acho o procedimento correto. O Rafinha Bastos não fez somente uma piada: basta rever processos antigos de estupro pra perceber que comentários como esse eram comumente proferidos pelos agressores - eles mesmos confirmando, testemunhos relatando. "Ela devia me agradecer, porque foi um favor. Feia desse jeito, nunca ia conseguir homem" e afins. Esse tipo de comentário, quando aceito na sociedade (e o riso, nesse caso, é uma forma de aceitação do que foi afirmado), pode incentivar agressores a legitimar seus crimes - e fazer ainda mais desses por aí. Nessa, o MP tem razão.
Às vezes, é só histeria. Mas às vezes - como agora - precisamos de um limite.

Ferret disse:
11 de julho de 2011 às 12:20

O "politicamente correto" é conhecido nos U.S. como marxismo cultural. Foi introduzido lá por membros da Escola de Frankfurt que se refugiaram do nazismo. Herbert Marcuse foi o iniciador, com o "sexismo".
Alguns gramscianos tupiniquins tentam atribuir à igreja Católica, citando textos obscuros.
E o humorista? Apologia ao crime resulta em, no máximo, 6 meses de detenção e multa. Com um bom advogado, não acontece nada.
Assisti uma entrevista com um membro da CUFA há algum tempo atrás. Ele afirmou (referindo-se ao termo comunidade) que não adiantaria chamar o local de atelier, porque na semana seguinte "atelier" teria uma conotação negativa.
Vai mais ou menos na utilização do termo "cadeirante" ou "portador de necessidades especiais". Os termos mudaram e podem ser até mais corretos. Mas as construções e as cidades continuam, na imensa maioria, cheias de obstáculos para eles.
Além disto, não existe censura de pensamento. É possível ser completamente nazista e não emitir uma única palavra a respeito.
E os direitos humanos? São comumente utilizados como instrumento político e até econômico.
Como certos membros da esquerda, disfarçam o totalitarismo com um falso humanismo e promessa de "verdadeira" democracia.

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