Coluna do LFG: É falaciosa a crença de que o Brasil é um país pacífico

Spacca

Caricatura: Luiz Flávio Gomes - Colunista - Spacca

** De acordo com levantamento feito pelo IPC-LFG, a violência e a atrocidade humana gera, anualmente, 1,6 milhão de mortes em todo o mundo (o equivalente a 134 mil homicídios por mês). Este massacre mundial atinge com maior intensidade a seguinte faixa etária: jovens de 15 a 29 anos. Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que o assassinato de adolescentes e jovens ocupa a 4ª posição no ranking das causas de mortalidade no mundo (atrás apenas das mortes de trânsito, HIV/AIDS e Tuberculose).

Este cenário não é diferente no Brasil! Apenas em 2008, o montante de 50.113 pessoas foram vítimas de homicídios (quase 140 mortes por dia), foi o que revelou o Mapa da Violência 2011, ou seja, um aumento de 17,8%, tomando como base o ano de 1998, no qual morreram 41.950 pessoas.

Mais impressionante é verificar que deste montante (50.113 mortes), 18.321 são jovens (de 15 a 24 anos), ou seja, 36,6% do total dos homicídios. Os dados conduzem para uma conclusão simples: os jovens (especialmente a faixa etária de 15 a 24 anos) são os verdadeiros protagonistas deste massacre brutal.

Esta afirmação fica ainda mais evidente quando verificamos o número dos homicídios para cada 100 mil habitantes. A taxa de homicídios entre os jovens passou de 30 (em 100 mil jovens), em 1980, para 52,9 no ano de 2008. Um aumento de 76% na taxa de homicídios (em 100 mil jovens). Ao passo que a taxa na população não jovem permaneceu praticamente constante ao longo dos 28 anos considerados: passando de 21,2 em 100 mil para 20,5 no final do período, o que significa uma diminuição de 3,3% na taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes não jovens.

O aumento dos homicídios no país (nas últimas décadas) teve como fator preponderante o massacre de jovens. As causas dessa violência epidêmica? São inúmeras, mas, especificamente no que diz respeito aos jovens, uma delas se destaca: a vulnerabilidade social, intimamente ligada à pobreza, ao desemprego, à desigualdade social ou, ainda, à ausência de políticas de desenvolvimento social, situações estas que, dificultam o acesso do jovem aos campos da educação, trabalho, saúde, lazer, cultura etc. O jovem extremamente vulnerável é torturável, prisionável e mortável. Ou seja: descartável.

Se a violência que atinge principalmente os jovens possui um caráter tão complexo e multidimensional, resta claro que as diretrizes a serem perseguidas não se limitam à esfera criminal, mas necessitam de todo um conjunto e aparato interdisciplinar. Já passou da hora de medidas e planos serem desenvolvidos nas mais diversas áreas para que os 140 assassinatos por dia (no Brasil) sejam evitados (das 140 mortes, quase 51 são jovens). Ou seja, alternativas e ações que possibilitem verdadeiramente a implantação de políticas sociais.

Resulta cada vez mais falaciosa a crença de que o nosso é um país pacífico (sem massacres e violência). Algumas autoridades, ao tentarem dourar a pílula, dizem que "O Brasil pelo menos não tem terrorismo". Tratava-se de uma referência ao ataque terrorista do Al Qaeda em Madrid (11.04.04). As bombas da Al Qaeda mataram 191 pessoas na estação de Atocha: isso significa menos de 1 dia e ½ de homicídio no nosso país.

Em 2008, justamente no ano desse discurso, o Brasil ocupou o 6º lugar no ranking mundial dos países mais violentos do mundo, enquanto que a mencionada Espanha, muito distante de nós, apareceu apenas na 51ª posição.

** Colaborou Natália Macedo, advogada, pós-graduanda em Ciências Penais e Pesquisadora do Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flávio Gomes.

Luiz Flávio Gomes

é jurista e diretor-presidente do Instituto Avante Brasil.

Marcos Alves Pintar disse:
28 de julho de 2011 às 12:46

Concordo. No Brasil é que a violência é sempre posta debaixo do tapete visando se criar uma aparência ilusória de País seguro e tranquilo. Só há maior repercussão quando os atingidos são aqueles que a massa da população aspira ser, como artistas, cantores de música sertaneja, jogadores de futebol, modelos, etc. Um jovem negro da periferia assassinado é tratado tão somente como mais um corpo "entulhando" a rua. Nem mesmo os jornalecos locais divulgam.

PAULO FRANCIS disse:
28 de julho de 2011 às 16:38

Um país que sustentou a escravatura por um longo tempo
não podia ser outra coisa.
Não há novidade no que está sendo dito.
E vai continunar assim por muito tempo. É uma questão de evolução.
Estamos ainda na idade média, vivendo estado autocrático com plenitude de políticos donos do seu pedaço.

sGFREITTAS disse:
28 de julho de 2011 às 17:49

Gostaria que o mesmo IPC-LFG fizesse uma consulta popular para saber quem algum dia nos últimos 20 anos criou a crença de que o Brasil é um país pacífico.
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Enquanto o Estado estiver focado apenas em corrupção, ou melhor dizendo, Licitação, estaremos sempre sujeito a discutir estes números.
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Será que essas autoridades que tentaram dourar a pílula são aquelas que estão em Brasília?

Saulo Henrique S Caldas disse:
28 de julho de 2011 às 21:50

Os filmes prediletos dos jovens são terror/suspense e ação com bastante violencia e brutalidade. O tema da vingança, então, em tais filmes, é como uma PIPOCA para tornar mais legal a sessão do cine.
Com esse tipo de cultura enraizada, parece que a educação intelectual vai ser sempre secundária quando cada ato depender, unicamente, da consciência.
No transito, já não se avana sinais e causam desastres porque desconhecem a Lei. O fazem porque não sentem respeito por ela, e, indiretamente, pela vida.
Quando bebem, se drogam, se agridem por causa do futebol, mulheres etc, não se valorizam e nem à vida alheia, humana. É tudo reputado à varonilidade, à pouca idade e - quando não - à educação problemática em casa.
Violência é um ótimo negócio, portanto, e os veículos a fomentam todos os dias... é uma guerra silenciosa, fomentada na mídia, nas revistas, nas esquinas e até mesmo por alguns grupos.
Não me assusto, pois, com tais estatísticas num país desses, onde o sério vira piada, onde violência é vendida na TV e praticada na vida diária como se fosse um ingrediente fundamental e NORMAL na sociedade atual.
Só lamentemos as perdas. Quem "semeia ao vento, colherá as tormentas."

Radar disse:
29 de julho de 2011 às 12:28

Mortável é um termo aceitável. Ora, há três anos não existia no dicionário brasileiro a palavra "homoafetivo", mas outra jurista, a Maria Berenice Dias (e ela não é melhor que o LFG), o criou. Os ministros do STF vivem fazendo o mesmo. É isso aí, as palavras não existem até serem inventadas. Os neologismos são caracterizam a evolução (ou involução, caso queiram) da língua.
Já quanto à violência que permeia a sociedade, é um fato. A quantidade de latrocínios e de violência doméstica tem sido alarmante.

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