Julgamento do mensalão reverte histórico de impunidade, diz jornal dos EUA

A cultura da impunidade está dando lugar à Justiça no Brasil. O principal marco dessa mudança é o julgamento do mensalão, em que figuras exponenciais do país estão sendo condenadas por crimes de corrupção, entre outros, e podem ir para a prisão. Outro marco é a recente condenação de dois policiais acusados pelo massacre, em 1996, de 19 militantes sem-terra. Essa foi a notícia dada nesta terça-feira (30/10) aos americanos pelo jornal The Christian Science Monitor.

"Historicamente, poucas pessoas passam um tempo considerável na prisão, no Brasil, por envolvimento em escândalos originários de corrupção política, mas o julgamento do mensalão mostra que essa tendência pode estar chegando ao fim", diz o artigo assinado por Joe Bateman, do staff da WOLA (Washington Office on Latin America) — uma ONG financiada pelo governo americano, fundações e doações privadas, cuja missão, declarada em seu website, é "promover os direitos humanos, a democracia e a justiça social" na América Latina.

"Da mesma forma, assassinatos cometidos pela polícia no Brasil são muito mais altos do que em outros países. São raros os casos em que autoridades policiais, que matam civis quando em serviço, sejam indiciados e condenados pelos crimes. Assim, a condenação dos policiais envolvidos no massacre de 1996 é uma mudança bem-vinda", diz o jornal.

Mas apesar dos ataques à cultura da impunidade do Brasil, uma mudança decisiva ainda não foi realizada. "Até agora, ninguém foi condenado por centenas de casos de desaparecimento, tortura e assassinatos políticos durante a ditadura militar, principalmente graças à Lei da Anistia de 1978, que impede que qualquer um seja julgado por aqueles crimes", afirma o The Christian Science Monitor.

No entanto, há sinais de que o Brasil pode estar se aproximando do ponto de virada em sua história de violações dos direitos humanos, sem responsabilização dos implicados, passando finalmente a confrontá-las, diz o jornal. Nos últimos meses, promotores abriram cinco casos criminais contra membros das Forças Armadas e da Polícia, responsáveis por desaparecimentos de militantes durante o regime militar. "Os casos ainda estão em fase inicial, mas se forem em frente e resultarem na condenação dos acusados, isso irá representar uma mudança definitiva do Brasil para a rota da responsabilização e da Justiça", afirma.

O artigo se refere também à Guerrilha do Araguaia. Informa que, em novembro de 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos decidiu que o Brasil era responsável pelo desaparecimento de 62 guerrilheiros. E que o Brasil tem de investigar esses casos e processar criminalmente os responsáveis, o que não tem acontecido por causa da Lei da Anistia. Entretanto, segundo o jornal, isso mudou em agosto, quando uma juíza federal do Pará aceitou abrir um processo contra dois ex-integrantes das Forças Armadas, que seriam responsáveis pelo desaparecimento de vários guerrilheiros na década de 70. A juíza baseou sua decisão no argumento de que os casos ainda estão em aberto, porque os corpos nunca foram encontrados. E, portanto, não estão prescritos, apesar de se passarem mais de 20 anos, e não se enquadram na Lei da Anistia.

O jornal também vê como um fato positivo a decisão do Supremo Tribunal Federal de autorizar a extradição para a Argentina de um ex-militar acusado de participar de tortura e desaparecimentos durante a "Guerra Suja", com uma condição: a de que ele fosse julgado por sequestro e não por outros crimes já prescritos no Brasil. Com esse precedente, um juiz em São Paulo aceitou, em 23 de outubro, processar um ex-militar, um ex-policial e outro policial ainda na ativa por suas participações no desaparecimento de um homem que desertou das Forças Armadas, assim que os militares assumiram o poder no Brasil. "Usando o argumento da não prescrição de sequestros sem corpos, uma série de casos de desaparecimentos forçados, na época da ditadura militar, pode chegar aos tribunais brasileiros nos próximos meses", diz o jornal.

Segundo artigo, é uma pena que o argumento da não prescrição e do não enquadramento na Lei da Anistia só seja válido para casos de sequestros, porque centenas de casos de tortura e de execuções extrajudiciais, durante o regime militar, ficarão impunes. "Apesar da tortura não ser explicitamente protegida pela Lei da Anistia, o Supremo Tribunal Federal e outras instituições jurídicas do Brasil já decidiram, em várias ocasiões, que ela caracteriza crime político e, portanto, está coberta por essa legislação, em desafio às convenções internacionais de direitos humanos", declara o artigo.

O artigo sugere que o Brasil deve revogar a Lei da Anistia, porque, graças a ela, ninguém foi para a cadeia, até agora, pelas centenas de casos de tortura ocorridos no período de 1964 a 1985. "Devido a essa falta total de justiça, é provavelmente muito cedo ainda para dizer que o Brasil deixou totalmente para trás a cultura da impunidade e completou a transição para uma sociedade justa e responsável", afirma o artigo. "Felizmente, há sinais de que esse processo está a caminho", conclui.

João Ozorio de Melo

é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Zé Machado disse:
31 de outubro de 2012 às 07:23

Essa notícia vai agradar ao Ministro Joaquim Benedito, preocupado com que os gringos pensam do Brasil.Todavia, enquanto a iniciativa não partir do Congresso Nacional, será apenas paliativo. Nem todos os casos vão para o judiciário, e leis deficientes obrigam juízes a colocar em liberdade criminosos perigosos que reincidem no crime. São fatos notórios todos os dias na mídia.

Zé Machado disse:
31 de outubro de 2012 às 07:23

Essa notícia vai agradar ao Ministro Joaquim Benedito, preocupado com que os gringos pensam do Brasil.Todavia, enquanto a iniciativa não partir do Congresso Nacional, será apenas paliativo. Nem todos os casos vão para o judiciário, e leis deficientes obrigam juízes a colocar em liberdade criminosos perigosos que reincidem no crime. São fatos notórios todos os dias na mídia.

Armando do Prado disse:
31 de outubro de 2012 às 09:57

Em vez de dar pitacos aqui, deveriam se preocupar com seu sistema eleitoral burro e sujeito a fraudes. O vice Gore que o diga. Deveriam se preocupar com sistema terrorista de Guantánamo. E, principalmente, deveriam deixar de praticar terrorismo pelo mundo - Iraque, Afeganistão, Palestina, etc.

Diogo Duarte Valverde disse:
31 de outubro de 2012 às 10:21

Claro, iremos ignorar o princípio da irretroatividade da lei penal, demolir tudo o que foi feito para assegurar uma transição pacífica de um regime ditatorial para uma democracia, atropelar a segurança jurídica e ainda passar por cima da Emenda Constitucional n° 26 só porque a Christian Science Monitor assim deseja. Era só o que faltava.
.
Já temos revanchistas de sobra no Brasil, não precisamos importar o revanchismo estrangeiro.

Pefer disse:
31 de outubro de 2012 às 11:05

Além de atropelar a irretroatividade da lei penal, devemos esquecer do navio-tanque enviado pelos EUA ao exército para ajudar na consolidação do golpe militar, bem como o apoio irrestrito da CIA aos regimes de força na AL e a famosa operação Condor. O jornaleco americano deveria olhar para seus próprios cueiros.

Observador.. disse:
31 de outubro de 2012 às 12:58

Os editores da tal publicação deveriam ler o livro escrito pelo falecido professor emérito da UCLA,Chalmers Johnson.Lá encontrariam muito o que fazer e analisar em seu próprio quintal.
Segue um trecho interessante do livro:
"In Blowback, I set out to explain why we are hated around the world. The concept "blowback" does not just mean retaliation for things our government has done to and in foreign countries. It refers to retaliation for the numerous illegal operations we have carried out abroad that were kept totally secret from the American public. This means that when the retaliation comes - as it did so spectacularly on September 11, 2001 - the American public is unable to put the events in context."
Então, vamos colocar os eventos dentro do contexto....lá e aqui.

Jaderbal disse:
31 de outubro de 2012 às 14:30

Toda análise ou comentário sobre o processo do Mensalão que não aborde, desdenhe, finja não saber ou realmente não saiba que as principais questões envolvidas nisso são: 1) a aplicação do princípio da presunção da inocência e 2)que no Brasil a condenação penal em instância única ofende um direito humano fundamental, tal análise ou comentário parece a mim um amontoado de ideias ininteligíveis veiculado por quem não entende absolutamente nada do direito penal brasileiro.
É o que parece ser o que fez essa publicação do Christian qualquer coisa, que parece estar festejando uma aparente tendência brasileira com base em manchetes de jornais e não no âmago da questão.

Gabbardo disse:
31 de outubro de 2012 às 17:03

Está certo o jornal. Mas, se fosse coerente (e talvez esteja sendo, não posso afirmar com certeza antes de fazer uma pesquisa no site deles), deveria clamar pelo julgamento de Dick Cheney, Donald Rumsfeld e John Yoo, entre outros, pela instauração da tortura como política de Estado dos EUA.

Gione da Silva Medeiros disse:
01 de novembro de 2012 às 09:14

Ou o Jornal não conhece a política brasileira, ou conhece nossa cultura... e, possivelmente, tenha passado a mão... para se valer os interesses do Governo (O STF também é Governo, não se engane... desconfie da falsa seriedade atual).
Guerrilha do Araguaia - militares - Governo atual - revanchismo (vingança) - alimentação do Inconsciente Coletivo - Punição.

Deusarino de Melo disse:
01 de novembro de 2012 às 17:14

Como é que os EUA olham para o nosso pais deste modo?
Vai ver que eles esqueceram que a Máfia passou primeiro por lá.

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