Adriano de Oliveira: Juiz pode fazer tatuagem e trabalhar normalmente

Não faz muito tempo que resolvi fazer tatuagens. Não foi uma decisão difícil não, pois achava legal e concluí que não havia, como de fato não há, impedimento algum. Eu queria também provar para mim mesmo que tinha me livrado de uma pitada de preconceito que tinha na época da atividade policial. E talvez ajudasse outras pessoas a desmistificarem certas impressões…

Geralmente a primeira reação de quem toma ciência das “tatoos” é a de surpresa. Afinal, há algum tempo não se cogitava que um magistrado fosse tatuado. Aliás, a sociedade, de maneira geral, atrelava a tatuagem ao delinquente.

O preconceito e a discriminação contra os tatuados estão sendo gradativamente reduzidos. A prática se difundiu e as pessoas estão se acostumando com as tatuagens e se convencendo de que não passam de adornos.

Eu mesmo me perguntei, no dia seguinte ao do início do desenho: será que quem me avistar na rua vai pensar que eu não presto só por causa da tatuagem? Será que ontem eu era pessoa de bem, cumpridora dos deveres, e hoje, apenas por conta do desenho, já não tenho valor algum, já não sou digno de respeito e confiança? Pior que para alguns é exatamente isso…

O grande problema é que as pessoas firmam convicções sobre outras mais pela aparência do que pelo caráter. E é por isso que estelionatários bem trajados e articulados fazem a festa!

Recentemente um candidato ao cargo de soldado PM 2ª Classe foi reprovado porque a tatuagem era maior do que a permitida pelo edital e o tribunal paulista o reintegrou ao concurso (Apelação nº 0030009-93.2010.8.26.001). O mesmo Tribunal condenou quem fez tatuagem em menor de 18 anos sem consentimento dos pais pela prática de lesão corporal grave pela deformidade permanente (Processo 0008522-88.2009.8.26.0070). Mas o objetivo aqui não é estimular ninguém a se tatuar ou alertar para os riscos, pois cada um tem seu livre arbítrio e sabe se poderá ou não sofrer prejuízo, especialmente no campo profissional. Quero apenas relatar situações curiosas que já vivenciei em audiências.

Certa vez, ouvindo um usuário de drogas, queria saber dele se tinha adquirido maconha do réu acusado de tráfico. Ele confirmou. Eu perguntei se tinha sido a única vez e ele respondeu afirmativamente. E assim prosseguimos dialogando: Mas você já sabia que ele vendia? Não, senhor! Ele ofereceu? Também não. Mas então como é que a compra se consumou? Doutor, eu estava na fissura. Entrei num bar e avistei quatro “caras” sem camisa, todos tatuados, e logo pensei: esses caras devem vender o bagulho! Com a insinuação, por parte do próprio usuário, de que só pelo fato de ostentar tatuagens (inclusive no mesmo local em que tenho a minha), os indivíduos poderiam ser traficantes, o escrevente e o promotor discretamente sorriram para mim. Surpreendido com o raciocínio do dependente, respirei fundo para não rir e prossegui, prevendo que na minha carreira ainda enfrentaria momentos hilários por conta das tatuagens. Encerrada a audiência, diante apenas dos servidores, eu refleti: será que algum dia alguém vai perguntar para mim se eu vendo o “bagulho”? A risada foi geral…

Noutra oportunidade um réu acusado de estelionato lamentou muito por ter voltado a infringir a lei. Confesso, ele fez de tudo para demonstrar arrependimento e tradicionalmente pedir uma nova oportunidade para voltar ao convívio social. Ao final, suplicou: “Meritíssimo, só espero que me dê uma chance e que não me julgue pelas tatuagens que tenho pelo corpo!”. O mesmo escrevente e o mesmo promotor olharam para mim e aguardaram a minha reação. Não tive dúvida: fiquei de pé, exibi a tatuagem até então escondida sob a camisa e acalmei o interrogando: “fique tranquilo rapaz, só pelo fato de ser tatuado você não será condenado não”… Ninguém esperava que eu pudesse fazer aquilo. Mas a minha atitude reduziu a tensão e quem estava presente, ao mesmo tempo em que ficou surpreso, reagiu positivamente. Fiquei sabendo até que a advogada depois elogiou a minha postura…

Em outras oportunidades nas quais criminosos foram reconhecidos pelas vítimas e testemunhas principalmente por causa de tatuagens identificadoras, também tive de me controlar porque achei graça dos meus colegas de trabalho, que não perdem a oportunidade de fazer seus comentários bem-humorados sobre o elo que ainda existe entre a tatuagem e o mundo do crime, tudo para me provocar.

O fato é que além de eu ter feito o que desejava sem me preocupar com julgamento alheio (mesmo porque não prejudicaria ninguém), parece que ainda me divertirei bastante com isso tudo…

Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira

é juiz da 2ª Vara de Penápolis (SP).

Manente disse:
12 de setembro de 2012 às 07:42

Certamente, as críticas atribuidas a nós que possuimos tatuagens, verdadeiramente são preconceituosas, e, provenientes de algumas pessoas que embora tenham vontade, se deixam levar pelo acovardamento/medo das agulhas.
O que tem de bandido neste País, que, sequer tem uma tatuagem!
A tatuagem é uma arte, desde que, não extrapole os limites!

Eduardo RF disse:
12 de setembro de 2012 às 08:19

eu particularmente acho feio tatoo. Nunca faria e acho feio quem faz. Em toda vida nunca vi uma tatuagem que valesse a "deformidade"
Não tenho nada contra quem faz tatuagem, assim como nao tenho de quem fuma maconha. São pessoas "normais".
Quando vejo uma tatuagem em algum, na perna, ou no braço...logo penso: "parece que se encostou na graxa"
Sei que quem faz uma tatoo faz para sí e não para ou outros. Repito, jamais faria! Porém respeito quem faz.

Paulo disse:
12 de setembro de 2012 às 08:21

Parabéns por ocupar seu tempo com isso!!!

Vanessa Vitor Rondinoni disse:
12 de setembro de 2012 às 10:25

Adorei o artigo! Sou advogada e o sonho da minha mãe é que eu seja juíza. Quando fiz uma tatuagem ela me disse que meu futuro profissional estava acabado, aquele drama. Além da tatuagem, eu e meu marido somos motociclistas, o que também já nos fez receber alguns olhares do tipo "filho, fique longe dessa gente". A slução é rir, se divertir e ser feliz!

Ricardo T. disse:
12 de setembro de 2012 às 11:10

Estou com tempo sobrando e vou ficar escrevendo artigo bobo. Pior só eu que comecei a ler o artigo.Aff!

Vitor Guglinski disse:
12 de setembro de 2012 às 12:54

Com a devida licença dos comentaristas que criticam a postura do ilustre magistrado, penso que se deve, sim, "perder" tempo com textos dessa natureza. A iniciativa do juiz, no sentido de se revelar adepto da arte da tatuagem é digna de aplausos, pois, inegavelmente, ajuda a quebrar essa barreira do preconceito. Temos no Brasil juristas brilhantes, e tatuados; talvez um dos melhores exemplos ainda seja o de Afrânio Silva Jardim, frequentemente citado quando o assunto é profissões jurídica x tatuagens. O preconceito ainda existe, como bem pontuado no texto, mas, felizemnte, vem se diluindo conforme o tempo passa. O exemplo dos estelionatários, bem vestidos, limpinhos, finos etc., foi perfeito; irretocável! Penso que todos são absolutamente livres para fazer o que bem entender de suas vidas, desde que cultivem e preservem os valores éticos e morais que devem governar qualquer sociedade civilizada. Creio que Ulpiano sempre será atual, pois o que vale é "viver honestamente" ("honeste vivere"), "não ofender ninguém" ("neminem laedere") e "dar a cada um o que lhe pertence" ("suum cuique tribuere"). Rspeitadas tais premissas milenares, está tudo certo.

Rildo Marinho disse:
12 de setembro de 2012 às 13:39

Quem conhece o magistrado subscritor sabe de seu caráter ilibado. Parabéns por expor suas experiências com transparência, enquanto muitos hipócritas se escondem atrás do véu da aparência perfeita.

.Vinicius. disse:
12 de setembro de 2012 às 15:49

Parabéns ao magistrado. Só por ser juiz não fica obrigado a escrever sobre questões jurídicas. Ótimo texto para descontrair e relembrar que os magistrados também são humanos.

Vitor Guglinski disse:
12 de setembro de 2012 às 16:17

Honestamente, não estou entendendo o porquê de tanta hostilidade por parte de alguns leitores em relação ao excelente texto!

_Eduardo_ disse:
12 de setembro de 2012 às 16:31

O texto foi escrito justamente para isso. Demonstrar a insegurança e o preconceito que ele mesmo carregava e relatar situações inusitadas que aconteceram após ele decidir fazer a tatuagem.
O modismo da crítica aos magistrados é tamanho que nada se pode falar ou escrever, vem chumbo grosso de todo lado, sempre!

Diogo Duarte Valverde disse:
12 de setembro de 2012 às 16:39

Também não entendi as críticas em relação ao artigo. Lê o artigo quem quer, o título não engana ninguém acerca do conteúdo. O magistrado não está obrigado a escrever artigos "a la carte", para agradar a todos.
.
Eu particularmente gostei do artigo. A reflexão feita pelo articulista é interessante, e às vezes é bom ler algo bem humorado para quebrar a seriedade.

José Henrique disse:
12 de setembro de 2012 às 18:12

Parabéns juiz Adriano,
ainda por cima é um contador de 'causos'. Mostre a uns e outros como ser feliz.

Alexandre Moreira da Silva disse:
12 de setembro de 2012 às 21:55

O texto produzido pelo nobre juiz certamente atingiu seu fim: instigou os leitores a refletir e debaterem sobre o mito da tatuagem no meio jurídico. A meu ver, a discussão sobre o tema está longe de se chegar a um consenso, especialmente pelo fato de que o preconceito ainda é a grande barreira a ser transposta. A mim fica a grata satisfação de conhecer pessoalmente o jovem e competente magistrado e saber que sua história de vida, seu profissionalismo e sua reputação ilibada estão acima de qualquer figura que traga estampada em seu corpo. Parabéns pela iniciativa!!

Alexandre Moreira da Silva disse:
13 de setembro de 2012 às 09:34

O texto produzido pelo nobre juiz certamente atingiu seu fim: instigou os leitores a refletir e debaterem sobre o mito da tatuagem no meio jurídico. A meu ver, a discussão sobre o tema está longe de chegar a um consenso, especialmente pelo fato de que o preconceito ainda é a grande barreira a ser transposta. A mim fica a grata satisfação de conhecer pessoalmente o jovem e competente magistrado e saber que sua história de vida, seu profissionalismo e sua reputação ilibada estão acima de qualquer figura que traga estampada em seu corpo. Parabéns pela iniciativa!!

Julio Cesar Tavares de Oliveira disse:
13 de setembro de 2012 às 12:02

Tatuagem nunca foi coisa de gente séria, aida mais para um magistrado. A história conta que os tatuados ou eram presidiários ou faziam parte de alguma facção criminosa... Viva a YAKUSA e os Hell angel"s.
Mas, ficou lindo, não... Aquela borboleta nas nadegas. Imagine em uma audiência este magistrado visualizando o numero tatuado na mão do réu:1533. Qual será seu veredito?
Desta vez é sem abraço.

Julio Cesar Tavares de Oliveira disse:
13 de setembro de 2012 às 12:02

Tatuagem nunca foi coisa de gente séria, aida mais para um magistrado. A história conta que os tatuados ou eram presidiários ou faziam parte de alguma facção criminosa... Viva a YAKUSA e os Hell angel"s.
Mas, ficou lindo, não... Aquela borboleta nas nadegas. Imagine em uma audiência este magistrado visualizando o numero tatuado na mão do réu:1533. Qual será seu veredito?
Desta vez é sem abraço.

José Ailton disse:
13 de setembro de 2012 às 13:00

Nem só de direito e leis vivem os jurístas. Um artigo como este, por parte de um Juiz de Direito, mais que um diálogo sobre tatuagem é, verdadeiramente, uma mostra de humanidade que os Juízes brasileiros têm e devem apresentar. Tirando, assim, a capa preta do semi-deus que a maioria veste. Infelizmente, a magistratura brasileira carece de mostrar sua humanidade, suas tatuagens, seus desejos, suas raivas, seus amores, seus prazeres, como todo ser humano possui. O que acontece é que o juiz teme ser menos respeitado se se apresentar como ser humano. Parabéns ao magistrado, não o conheço, mas tenho certeza de sua alta respeitabilidade, por mostra mais que uma tatuagem, mostrar, sim, sua coragem e humanidade.

José Ailton disse:
13 de setembro de 2012 às 13:00

Nem só de direito e leis vivem os jurístas. Um artigo como este, por parte de um Juiz de Direito, mais que um diálogo sobre tatuagem é, verdadeiramente, uma mostra de humanidade que os Juízes brasileiros têm e devem apresentar. Tirando, assim, a capa preta do semi-deus que a maioria veste. Infelizmente, a magistratura brasileira carece de mostrar sua humanidade, suas tatuagens, seus desejos, suas raivas, seus amores, seus prazeres, como todo ser humano possui. O que acontece é que o juiz teme ser menos respeitado se se apresentar como ser humano. Parabéns ao magistrado, não o conheço, mas tenho certeza de sua alta respeitabilidade, por mostra mais que uma tatuagem, mostrar, sim, sua coragem e humanidade.

Michels disse:
13 de setembro de 2012 às 13:56

Que as brisas frescas das idéias renovadas do Dr. Adriano se espalhem pelo Judiciário...
Advogada, e ostentando uma tatuagem no pulso esquerdo (a outra ficou "escondida" na nuca, com cabelos normalmente soltos, ninguém vê), não poucas vezes me dirigiram olhares recriminadores (inclusive de nobres Magistrados).
O que para os outros é "deformidade", para mim e para meu marido é um símbolo de amor e fidelidade...
(em tempo: nenhum de nós jamais se envolveu em qualquer incidente policial; tem muita gente precisando revisitar conceitos - o de liberdade, principalmente!
Parabéns, Dr. Adriano

Almir Sobral disse:
13 de setembro de 2012 às 19:13

Não resta dúvida, o ser humano é preconceituoso, isto é, carrega consigo um julgamento ou opinião formada sem levar em conta os fatos que os conteste. Trata-se, portanto, de característica animalesca, beirando a irracionalidade. Muitas vezes por simples ódio.
Dentre os comentários, notamos o estigma desse rancor contrário à razão, mas, infelizmente, integra a natureza humana que, normalmente, não aceita pessoas diferentes dela mesma, quer seja pela aparência ou idéias. Tais personagens não se harmonizam com o pensamento de Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".
Parabéns ao Ilustre Magistrado pelo artigo. Pessoalmente, não gosto de tatuagem, contudo, como seria o mundo se cada um de nós tentasse obrigar ao outro a seguir os nossos critérios? A faculdade de cada um agir segundo as suas próprias determinações estaria comprometida. A independência e a autonomia individual é um bem inestimável, são os princípios básicos da liberdade. Os humanos dotados de destreza mental, respeitam tais princípios; já aqueles com habilidade evolutiva restrita, ouvem os ecos da caverna.

Almir Sobral disse:
13 de setembro de 2012 às 19:13

Não resta dúvida, o ser humano é preconceituoso, isto é, carrega consigo um julgamento ou opinião formada sem levar em conta os fatos que os conteste. Trata-se, portanto, de característica animalesca, beirando a irracionalidade. Muitas vezes por simples ódio.
Dentre os comentários, notamos o estigma desse rancor contrário à razão, mas, infelizmente, integra a natureza humana que, normalmente, não aceita pessoas diferentes dela mesma, quer seja pela aparência ou idéias. Tais personagens não se harmonizam com o pensamento de Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".
Parabéns ao Ilustre Magistrado pelo artigo. Pessoalmente, não gosto de tatuagem, contudo, como seria o mundo se cada um de nós tentasse obrigar ao outro a seguir os nossos critérios? A faculdade de cada um agir segundo as suas próprias determinações estaria comprometida. A independência e a autonomia individual é um bem inestimável, são os princípios básicos da liberdade. Os humanos dotados de destreza mental, respeitam tais princípios; já aqueles com habilidade evolutiva restrita, ouvem os ecos da caverna.

Ana Lorenzo disse:
14 de setembro de 2012 às 11:24

Como sempre, inovando no Judiciário Paulista! Parabéns! Abçs.

Marco Aurelio Claro Squillante disse:
16 de setembro de 2012 às 22:53

Muito bom mesmo Ponce, especialmente por usar a argumentação de que "O grande problema é que as pessoas firmam convicções sobre outras mais pela aparência do que pelo caráter. E é por isso que estelionatários bem trajados e articulados fazem a festa!".Incontestável!!!!
Tudo isso acontece porque para o ser humano contemporâneo "todo mundo é ruim, até que se prove o contrário", exatamente o oposto da época de nossos avós e tempos mais remotos onde "todos eram bons até que se provasse o contrário"...
Mas a polêmica sempre vai existir, diminuirá com o passar dos anos.
Até tenho uma teoria,minha mesmo, muito peculiar e pessoal, onde chegará uma época que todos serão tatuados e como não ter tatuagem será exceção, a tendência é que alguns começarão a sofrer preconceitos por não ter, e esse será o "barato" da coisa....rs
Na mesma linha,antigamente era obrigatório casar virgem e a exceção era a mulher casar "descabaçada".Inverteram-se tantos os valores que hoje a grande maioria perde a virgindade por volta dos 15 anos e mais para frente as "periguetes modernas" perderão a graça e a regra será a virgindade onde todo "o rebanho" migrará para esse caminho...
O mesmo acontecerá com o homossexualismo, minorias raciais discriminadas, com os drogados, com os infiéis, com as modelos anoréxicas,com usuários de piercings e alargadores de orelha e assim por diante.O barato da coisa é ser diferente e quando a situação se torna uma regra, perde a graça.Isso é uma tendência inerente nas relações humanas.
É a minha humilde teoria "Marcoaureliana" de hoje...rs
Abs

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