É proibido proibir?
De pronto, peço que vejam as aspas no título, para evitar mal entendidos.
E sigo, para dizer que tomei conhecimento do episódio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em que estudantes (e parece que até professores) entraram em choque com a polícia, resultando, entre outras coisas, na destruição (não sei se total) de dois carros da polícia.
Muita gente que estuda em universidade pública é filha da classe média-média alta. Enfim, com certeza mais gente das camadas médio-superiores da sociedade frequentam a universidade pública (sei que muita coisa mudou nos últimos anos, e isso é alvissareiro!). Por enquanto, ainda a maioria dos filhos dos pobres rala e estuda em faculdade privada, ao mesmo tempo em que parcela majoritária das elites brasileiras estuda nas universidades públicas. Ou estou equivocado?
O André Karam já fez uma excelente análise do imbróglio ocorrido no dia 25 de março último (ler aqui). Para relembrar: Na tarde daquele dia, houve o confronto entre 300 estudantes e policiais federais e militares no interior do campus da UFSC, em Florianópolis, que se transformou num verdadeiro cenário de guerra, com o uso de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.
O tumulto começou após policiais à paisana promoverem investigação contra o tráfico de drogas no interior da universidade. Na ocasião, alguns estudantes do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) tiveram suas mochilas revistadas. Veja-se: no resto do país, a população é revistada todos os dias e não vi manifestações em campus universitário contra esse “modelo de investigação policial” feito cotidianamente, (não estou a afirmar que este seja o melhor modo de agir, ou que em determinadas situações não seja abusivo, meu argumento limita-se no reconhecimento de ser uma prática que possui certa aceitabilidade social e que por vezes é necessária). Cinco deles portavam substâncias entorpecentes — no caso, alguns cigarros de maconha — e, por isso, receberam voz de prisão, sendo encaminhados pelos agentes federais até a viatura discreta para condução à Superintendência da Polícia Federal.
Disso resultou uma confusão. Como disse André, houve erros de todos os lados. Uma comédia de erros já bem destacados. Mas o que me interessa discutir é a ocupação do prédio da Reitoria pelos estudantes pertencentes ao movimento “Levante do Bosque”. Fiquei impressionado com a pauta de reivindicações: (a) elaboração de plano de iluminação; (b) comprometimento da reitoria da não entrada de PMs no campus; (c) revogação imediata do acordo entre reitoria e polícia e punição dos responsáveis pela operação; (d) legalização das festas no campus; (e) ampliação da moradia; (f) proposta clara da reitoria de defesa da autonomia e democracia universitária; (g) defesa da ocupação dos espaços ociosos do campus por moradores de rua durante a noite; (h) reajuste da bolsa permanência para um salário mínimo.
Lendo-as, pensei que estivéssemos em uma ditadura. Pensei logo em pedir Diretas Já. E fazer um “levante” contra o Estado opressor, se me entendem o uso da ambiguidade da expressão entre comillas. Pensei que já deveríamos mandar uma tropa de choque da Defensoria Pública para defender os pobres estudantes oprimidos pela violência do Leviatã. Mas vamos falar das reivindicações. Eis a minha análise:
a) Elaboração de plano de iluminação. Sem problemas, pois não? A universidade deve ter uma iluminação condizente. De todo modo, talvez devêssemos ver quem mais precisa de iluminação: o campus universitário ou as ruas da periferia? Sei, sei: os dois lugares.. Façamos, pois, uma isonomia. Afinal, todos são iguais perante a lei. Não penso que o Estado-pai (e mãe) deva transferir recursos do restante da malta para iluminar mais o campus do que já está. Além disso, até liberais como Rawls e Dworkin, brilhantemente estudados nos cursos da UFSC, já resolveriam esse problema de distribuição de recursos. Sem falar nos autores não liberais (também brilhantemente estudados nesta que é uma das mais importantes universidades do país), que acham que as políticas públicas devem privilegiar as camadas oprimidas da sociedade (com o que este escriba concorda já há décadas, bastando ler os textos nos quais tais ideias são defendidas, desde os tempos da ditatura militar).
b) Comprometimento da reitoria da não entrada de PMs no campus. Deixa ver se eu entendi: Universidade é embaixada de algum país estrangeiro? Precisa passaporte para entrar? Em alguns lugares precisa pistolão, é verdade, mas…impedir a entrada do próprio Estado em prédios do próprio Estado (sim, sei que é uma autarquia, e daí?) parece-me uma contradição insolúvel. Ou a universidade não é Estado? Eis ai material para uma tese de doutorado nos cursos de Humanas: “Estado versus Estado: a luta final no campus universitário – um olhar prospectivo”.
De todo modo, sei que tem gente importante e respeitável na Academia que defende essa autonomia sem limites, como se fosse mesmo um “território livre”. Insisto que é um exagero, porque não tem respaldo constitucional. Porque nem as casas das pessoas são imunes a invasões, mormente as casas dos pobres… Em Angola algumas empresas possuem uma espécie de território em que o Estado não entra. Por aqui, não creio que autonomia universitária queira dizer isso. Autonomia não é soberania, pois não?
c) Revogação imediata do acordo entre reitoria e polícia e punição dos responsáveis pela operação. Não sei bem qual é o acordo que a reitoria fez com a polícia, mas, se for um acordo no sentido de que a polícia poderia cumprir seu dever no campus, é óbvio que a reitoria não pode revogar, sob pena de prevaricar ou cometer improbidade administrativa. Punição dos responsáveis? Perfeito. Penso que a reitoria deve imediatamente abrir sindicância contra os estudantes que praticaram crime de dano contra o patrimônio público. Do mesmo modo que a polícia deve punir os seus excessos e abrir os devidos processos administrativos contra os policiais (PAD neles!). Logo. Imediatamente. Ou o Brasil não é uma democracia? Bem, se não vivemos em um Estado Democrático de Direito, aí sim os estudantes devem escapar ilesos, porque, afinal, lutar contra um Estado de Exceção é desobediência civil. O que os leitores acham?
d) Legalização das festas no campus. Pronto! Eis aí uma grande pauta. Universidade é o lugar de fazer festas. Bingo! Enquanto a malta paga impostos para proporcionar universidade “gratuita” para as classes médio-superiores, vamos legalizar as festas no campus. Penso que devemos colocar no estatuto da universidade o direito fundamental a fazer festas no campus. Abaixo as aulas. Viva as festas. Esse reitor opressor ainda não legalizou as festas? Fora com ele. Impeachment nele. Onde se viu isso, não é?
PS: claro que há confraternizações nas dependências das universidades; até mesmo festas são desejáveis. Entretanto, sabe-se bem o alvo da reivindicação do movimento. E isso é que torna o pedido um tanto quanto bizarro, mormente se olharmos para fora do campus e para quem paga a conta (ou seja, de quem se transfere recursos para proporcionar felicidade a poucos).
e) Ampliação da moradia — eis aí uma reivindicação justa e que merece apoio. Estamos juntos!
f) Proposta clara da reitoria de defesa da autonomia e democracia universitária. E isso não existe? O que seria essa autonomia? Não deixar a polícia entrar para investigar crimes (por exemplo, uso e/ou tráfico de entorpecentes?) estaria nessa pauta? Haveria um direito fundamental a livremente consumir entorpecentes? Se sim, ótimo. Vamos estender isso para fora do campus. Ou o campus é território independente, uma espécie de Estado Soberano que não se submete às leis da polis? Uma coisa parece clara: enquanto a droga não for legalizada para todos os nativos (e não nativos) de terrae brasilis, a polícia é obrigada a fazer o seu trabalho. É difícil entender isso?
Mais: Democracia seria poder virar os carros da polícia? Não há clareza hoje sobre o que é democracia universitária? Mas, magnífico reitor: explique logo o que é a autonomia e a democracia para os jovens alunos. Penso que a assessoria jurídica da universidade pode ajudar nisso, mandando cópia da Constituição e da legislação brasileira sobre a matéria. E nesse propósito até mesmo alguns livros simplificados e facilitados de direito poderiam ser úteis (essa ironia é mais bem entendida pela comunidade jurídica).
A propósito, falando em democracia: sabem como fiquei sabendo do Golpe de 1964, quando eu tinha oito anos de idade? Por dois veículos carregados de soldados, que cercaram o meu pai e o levaram preso, algemado, como subversivo. Naquele momento eu poderia ter — em desobediência civil e em luta contra a ditadura que se instalava e porque a Constituição tinha sido violada — virado e/ou queimado os dois veículos daquele Estado opressor. Pena que eu só tivesse oito anos de idade. Mas, hoje, vivemos em uma democracia… É isso que quero que entendam.
g) Defesa da ocupação dos espaços ociosos do campus por moradores de rua durante a noite. Bingo! Eis porque vamos todos para Estocolmo. O Nobel definitivamente será nosso! Por que ninguém pensou nisso até hoje? Anísio Teixeira e Darci Ribeiro, entre tantos…. Por que esses arautos do ensino público nunca se deram conta disso? Como não se aperceberam disso? De pronto, indago: por que não durante o dia também? Por que só à noite?
Moradores de rua de todo o Brasil: rumem para a Universidade Federal de Santa Catarina. Lá poderão ficar durante a noite no campus. Na sequência, sabem como é… Basta pela manhã não saírem do campus e a polícia não poderá retirá-los. Afinal, ela não pode entrar no campus. Bingo de novo. E lá ficarão os moradores de rua. Claro, só os de Floripa. Os de outros lugares, não. Que tal? Fico pensando em uma espécie de “Coluna De Moradores de Rua” atravessando os estados rumo ao campus da UFSC. Serão recebidos pelos estudantes do Centro de Filosofia e Humanas? Serão aceitos? E serão convidados a irem ao restaurante universitário? Sim, porque dormir com fome é uma violação dos direitos fundamentais. Eis aí uma nova ideia. Cedo-a gratuitamente.
h) Reajuste da bolsa permanência para um salário mínimo. Esta é uma reivindicação que a reitoria não pode atender — embora justa — porque se trata de uma política pública do governo federal. Sugiro um levante contra o opressor governo federal. Aproveitemos também para reivindicar um aumento substancial do salário mínimo dos trabalhadores. Por que só para os que moram no campus ou nas residências universitárias?
Eis aí, portanto, os pontos que quero discutir com meus leitores. Reflitamos sobre os exageros. Enquanto milhões de nativos brasileiros sofrem e… desnecessário desfilar um rosário de argumentos, um grupo de estudantes pensa que a democracia é uma coisa para brincar. Se for isso que estão estudando, é melhor a população fazer uma ação popular (que é uma ação constitucional) para pedir o dinheiro de volta. Alguma coisa está fora de ordem, pois não?
Indubitável que certa esquerda de boutique teria, hoje, seu traseiro chutado por Marx & Cia. E Lenin mandaria ler o seu Esquerdismo – a doença infantil do comunismo, que, parafraseado, pode ser lido como: “A esquerda no Brasil chega ao poder e tem gente-que-se-diz-de-esquerda fazendo isso ai…! E nosso preclaro Vladimir Ilyich Ulyanov largaria uma onomatopeia do tipo tsk tsk tsk!
Post Scriptum: Não custa lembrar: o Estado criticado por Marx já não é o mesmo Estado do século XIX e o direito apresentado pelo Constitucionalismo Contemporâneo também não pode continuar sendo visto como um mero instrumento político. A legalidade atual não é mais a legalidade burguesa, do tempo da codificação, mas uma legalidade que se baseia na supremacia constitucional, oferecendo condições muito melhores para a institucionalização da democracia.
Portanto, sugiro para os que brincam ou que querem fazer rolezinho com a democracia que consultem a história com um olhar crítico autorreflexivo. E a entendam. Aliás, não teria sido Marx quem disse que a única ciência que existe é a história? E não foi Hegel quem disse que a ave de minerva só levanta voo ao entardecer? Para aqueles que não têm memória, sugiro que leiam, por exemplo, o que verdadeiramente significa lutar por direitos, por exemplo, o livro 1964: a verdade somente a verdade, em nome da lei, que trata da luta dos advogados na defesa dos perseguidos políticos (PUC-RJ, 2014). A propósito, naqueles tempos os advogados buscavam o cumprimento até mesmo da legalidade burguesa, manuseando o habeas corpus. Hoje, com tantos instrumentos democráticos à disposição, tem gente que acha que deve quebrar automóvel…
Questão em aberto, pois. Que os leitores opinem. E não se esqueçam de dizer quais dos pontos da tábua de reivindicações dos estudantes que devem ser atendidos… Está aberto o debate!
Cuidado, professor. Não demora para algum biruta lhe tachar de coxinha ou reaça pela opinião expressada no presente texto.
A grande questão é que o Estado do século XIX criticado por Marx já não é o mesmo Estado Constitucional. A legalidade contemporânea não é mais aquela marcada pelos códigos oitocentistas, mas sustentada pelas bases constitucionais, oferecendo condições muito melhores para a institucionalização da democracia.
É evidente que houve um constrangimento em face dos cidadãos-estudantes. Polícia “dando batida” em um ambiente daqueles... E os colegas de turma, o que iriam pensar? Todos os amigos vendo aquela cena. Mas o ponto, para mim, que é o mais importante de todos, e que chega a ser uma espécie cômica-sem-graça, é o fato de a polícia ter encontrado a droga com os estudantes. Estrito cumprimento do dever legal, no mínimo. Se houvesse a batida policial e nada fosse achado, aí sim poderiam dizer: que coisa horrível, suspeitarem logo de nós! Nós que somos o futuro da nação, e que estamos em destaque cultural! Nós que somos o exemplo vivo a ser seguido! E várias outras falácias seriam libeladas. Ao final diriam: eles pensam que o campus é o Complexo do Alemão? Onde já se viu encontrar drogas logo aqui? É um absurdo! O “ilícito” da polícia foi superado no flagrante, é claro. Nada pode ser dito em desfavor da polícia. Essas reinvindicações também são coisas antipáticas. Ora, o que é que tem a ver flagrante de porte ilegal de substância entorpecente com pernoite de mendigos? E tráfico com festas? Fugiram ao tema e fizeram um bolão-tampão. Só faltou o Silvio Santos cantando: roda, roda, roda, rodou! E o prêmio “do tentação” foi: a democracia-como-sinônimo-do-tudo-é-possí vel.
Acho que a chatice do professor pega. Não palpitarei sobre a Força do Estado. Antes vou reler o Tércio Sampaio, que estudou bastante o tema. Bem, quem conhece o livro já sabe a conclusão...
E o antecedente. Sobre isso é necessário um cogito. Qual é a solução para o uso de drogas? Sim, droga é um problema e de saúde pública. Ou não? (como diria Caetano)
Vou direto ao assunto. Abra o cérebro de um usuário, ainda que esporádico, e depois me falem o que encontraram. Dica: pesquisem as manchas pretas do córtex.
Não vou me alongar, mas vou concordar que foram erros de todos os lados.
Prof. Lênio, tem remédio contra a chatice? Se não tiver, vou ter que viver com isso... e tô só no começo.
Abraço.
Estamos num tempo em que muitos confundem qualquer tipo de "proibição" com ditadura.
E o mais incrível nisso tudo é que são reivindicações oriundas de classes mais favorecidas com o escopo de oprimir ainda mais aqueles que nada possuem!
Eles não querem liberdade, tampouco democracia, o que verdadeiramente querem é oprimir e impor suas ideologias!
Lembro que quando vi as reivindicações dos estudantes na coluna do Karam, também tive a mesma percepção do Lênio. Me pareceu um conjunto de luta por reconhecimento de direitos já reconhecidos com um anexo de reconhecimento de direitos irreconhecíveis para um Estado Democrático.
Isso me deixa triste, ver nosso ensino demonstrando sua ineficiência na modificação de pensamento dos estudantes, se é que estudam. As palavras de meu antigo professor de metodologia do estudo me vem a mente: "passam pelo curso, mas o curso não passa por eles".
Crianças são crianças, de forma que se não se deram ao trabalho de estudar para praticar, e não o inverso, porque devemos nos dar ao trabalho de considerá-las. Seria porque estas crianças estão atentando contra princípios democráticos.
Espero que o mercado de trabalho esteja mais que fechado para estes moços e moças, para que eles possam ter mais tempo livre para estudar.(pena, isso não vai acontecer).
Não deixa de ser engraçado, mas nenhum pouco bonito de se ver.
Palavra de quem acabou de se formar: essa juventudade universitária drogada e comunista é a pior escória da sociedade brasileira.
Minha opinião sobre o texto:
1) Algumas coisas eu até concordo, existe um imaginário que a universidade é um salvo conduto "para tudo", mas há algo de positivo nisso, a universidade pode ser um lugar de experimentação dos sentidos e da política, vivemos em uma sociedade tão opressora que a universidade serve como um oasis da liberdade, é importante que isso se perpetue para foras dos muros da universidade para que não vivemos a dualidade do jargão dos "meus tempos de faculdade...." e hoje eu sou outro porque lá fora é outro mundo, mas isso é outra história, voltamos ao texto;
2) A forma militarizada da polícia agir incomoda bastante, modus operandi dos modelos de ditadura, isso ninguém suporta mais, desde a senhora mais idosa dos bairros periféricos aos estudantes maconheiros da UFSC;
3) É equivocado esse tipo de argumentação: "milhares de jovens são revistados nas periferias e os estudantes classe média não querem ser revistados". Na democracia, minha reivindicação ou luta não onera a luta do outro, não existe uma inflação de democracia, lutar por algo não impedi que outros lutem por outras coisas. Essas abordagens relembra, muitas vezes, um "tribunal paralelo", com traços bem identificáveis do "direito penal do inimigo", isso denota como é preciso ser repensado os modelos de segurança pública no Brasil e sua forma militarizada diante a sociedade civil. O fato de jovens de periferias serem revistados não legitima as revistas militarizadas (muitas vezes agressivas) dos universitários;
4) Existe um modelo de "guerra contra as drogas" mais nocivo do que as drogas em si, este modelo de política criminal é um fracasso, a sociedade usa drogas, a polícia apreende os usuários, são fatos, há um tensão social nisso tudo, não se trata de "em nome da democracia cumpre-se a lei", se trata de um modelo injusto e ineficiente.
5) Eu concordo, grande parte das pautas de reivindicações dos estudantes são autoritárias e absurdas, a universidade não pode virar modelo de "experimentalismos de woodstock".
professor, o seu senso, de tão incomum é fantástico... admirável análise da profunda insatisfação geral que grassa e que ninguém sabe do que se trata , mas que o seu artigo bem demonstra que nada mais é do que um profundo desrespeito ao Estado de Direito... parece que a sociedade não aceita limites e portanto , o pacto social - espelhado no ordenamento jurídico - está a lhes oprimir ! ou seja, entendi que seu texto diz o tenho observado : que embora vivamos sob um Estado de Direito, as pessoas desejam reagir ao "Leviatã" como se vivêssemos numa ditadura ! Deliciosa a sua comparação entre uma - possível -legítima reação à prisão de seu pai ( ao arrepio da lei), com a ilegítima reação a fatos - como a tratada no texto - , os quais se abrigam sob a lei.
E nesse infeliz desideratum - de desacatar o Estado de Direito - unem-se direita e esquerda ..
finalmente, seu Post Scriptum é perfeito : uma grande aula em poucas linhas ! bravo !
Sugiro ao articulista a leitura do artigo de J. R. Guzzo, publicado recentemente na Revista VEJA, com o título "A polícia, o bem e o mal".
Como eu sempre digo em minhas aulas "O mundo está muito louco"!!! e "Ninguém sabe nada de p*** nenhuma"!!!
Como hoje a vida está "muito boa", todos tem seu smartphone, seu carro, as pessoas não tem mais um ideal para seguirem.
Fico pensando como será o futuro da política brasileira na mão destes "defensores da democracia".
É melhor estocar comida mesmo.
1) Algumas coisas eu até concordo, existe um imaginário que a universidade é um salvo conduto "para tudo", mas há algo de positivo nisso, a universidade pode ser um lugar de experimentação dos sentidos e da política, vivemos em uma sociedade tão opressora que a universidade serve como um oasis da liberdade, é importante que isso se perpetue para foras dos muros da universidade para que não vivemos a dualidade do jargão dos "meus tempos de faculdade...." e hoje eu sou outro porque lá fora é outro mundo, mas isso é outra história, voltamos ao texto;
2) A forma militarizada da polícia agir incomoda bastante, modus operandi dos modelos de ditadura, isso ninguém suporta mais, desde a senhora mais idosa dos bairros periféricos aos estudantes maconheiros da UFSC;
3) É equivocado esse tipo de argumentação: "milhares de jovens são revistados nas periferias e os estudantes classe média não querem ser revistados". Na democracia, minha reivindicação ou luta não onera a luta do outro, não existe uma inflação de democracia, lutar por algo não impedi que outros lutem por outras coisas. Essas abordagens relembra, muitas vezes, um "tribunal paralelo", com traços bem identificáveis do "direito penal do inimigo", isso denota como é preciso ser repensado os modelos de segurança pública no Brasil e sua forma militarizada diante a sociedade civil. O fato de jovens de periferias serem revistados não legitima as revistas militarizadas (muitas vezes agressivas) dos universitários;
4) Existe um modelo de "guerra contra as drogas" mais nocivo do que as drogas em si, este modelo de política criminal é um fracasso, a sociedade usa drogas, a polícia apreende os usuários, são fatos, há um tensão social nisso tudo, não se trata de "em nome da democracia cumpre-se a lei", se trata de um modelo injusto e ineficiente.
5) Eu concordo, grande parte das pautas de reivindicações dos estudantes são autoritárias e absurdas, a universidade não pode virar modelo de "experimentalismos de woodstock".
Em São Paulo, esse tipo de tratamento privilegiado é exigido vez em sempre... Todo ano tem "greve de estudante".
A diferença é que a imprensa dá destaque para a suposta imunidade estudantil.
Menos polícia, mais "larápios", aumento da violência... E comunidade acadêmica exigindo polícia no campus depois de mortes...
Como manter a esperança de que um futuro melhor virá quando nos deparamos com fatos desta natureza, onde aqueles que recebem do Poder Público o estudo gratuito e de qualidade (tão desejado por muitos como a única forma de sair da condição social ocupada) nos retribuem com tão "magnífica" expressão de democracia. Nada pagam pelo ensino, e ainda causam danos ao patrimônio público que muitos brasileiros sem estudo e oportunidades ajudaram a construir ( e que, não raro, nem sabem disso, sequer tem esta compreensão). Estamos "fritos em pouca banha", como por aqui se costuma dizer.
Discordo de só os moradores de ruas,da Linda Santa e bela Catarina, dormirem à noite no campus! Têm que ser todos os moradores de ruas do Brasil dormirem nos campos universitários e permanecerem lá durante o dia, com barracas, fazendo(já vi) amor ou dormindo.Chega de Polícia nas ruas, vamos deixar os coitadinhos fumarem o bek à vontade ,afinal, se ninguém comprar as drogas, acaba o tráfico.Nesta semana, os alunos das Arcadas (futuros juízes, advogados,procuradores e sabe-se lá Alguém...ou Zé Ninguém!)invadiram a aula do professor Eduardo Gualazzi porque ele estava defendendo(certo ou errado) a sua posição sobre o regime militar.Lastimável é que a falta de argumentos aos alunos(que receberam apoio de outros professores) e descambam para a agressividade verbal. A Democracia pressupõe a divergência de ideias e quando há somente convergência de ideias, certamente não é democracia O que esperar do Brasil de amanhã com esses jovens no Poder? Jesus,nos acuda.Ah, e estão muitos anos atrasados:a URSS já acabou há muito tempo...
Algumas coisas eu até concordo, existe um imaginário que a universidade é um salvo conduto "para tudo", mas há algo de positivo nisso, a universidade pode ser um lugar de experimentação dos sentidos e da política, vivemos em uma sociedade tão opressora que a universidade serve como um oasis da liberdade, é importante que isso se perpetue para foras dos muros da universidade para que não vivemos a dualidade do jargão dos "meus tempos de faculdade...." e hoje eu sou outro porque lá fora é outro mundo, mas isso é outra história, voltamos ao texto;
A forma militarizada da polícia agir incomoda bastante, modus operandi dos modelos de ditadura, isso ninguém suporta mais, desde a senhora mais idosa dos bairros periféricos aos estudantes maconheiros da UFSC;
É equivocado esse tipo de argumentação: "milhares de jovens são revistados nas periferias e os estudantes classe média não querem ser revistados". Na democracia, minha reivindicação ou luta não onera a luta do outro, não existe uma inflação de democracia, lutar por algo não impedi que outros lutem por outras coisas. Essas abordagens relembra, muitas vezes, um "tribunal paralelo", com traços bem identificáveis do "direito penal do inimigo", isso denota como é preciso ser repensado os modelos de segurança pública no Brasil e sua forma militarizada diante a sociedade civil. O fato de jovens de periferias serem revistados não legitima as revistas militarizadas (muitas vezes agressivas) dos universitários;
Existe um modelo de "guerra contra as drogas" mais nocivo do que as drogas em si, este modelo de política criminal é um fracasso, a sociedade usa drogas, a polícia apreende os usuários, são fatos, há um tensão social nisso tudo, não se trata de "em nome da democracia cumpre-se a lei", se trata de um modelo injusto e ineficiente.
Eu concordo, grande parte das pautas de reivindicações dos estudantes são autoritárias e absurdas, a universidade não pode virar modelo de "experimentalismos de woodstock". Falta maturidade política deles, as reivindicações em sua maioria são ridículas, mas não concordo como o seu pensamento se desenvolve Lênio, lendo seu texto eu me senti nos países escandinavos, como se nossas instituições repressoras não tivessem ainda um "pouco do Brasil tirano".
Lamento ler alguns comentários postados aqui. Várias palavras de ódio desnecessárias. Desprezo ao comunismo e ao uso de "drogas" (ou de algumas delas)... lamentável. O debate sobre a legalização da maconha é real, tramita no Congresso e é medida já adotada por vários países. Será que só se pode usar os cigarros e ingerir bebidas das grandes empresas? As políticas públicas devem mudar, inclusive, e talvez inicialmente, dentro das Universidades, que em geral são vanguardistas. Não concordo com a priorização das festas como grande pauta de exigência, apesar de ter certeza de sua importância como elemento socializante. Contudo, mais importante que isso é discutir o papel da polícia, sua desmilitarização, sua integração pacífica ao convívio social (e universitário). Não vejo motivo relevante para proceder a revistas em mochilas de estudantes. Isso deve ser debatido. A reitoria deve responder qual o motivo desse procedimento INCOMUM e ANORMAL. A comunidade acadêmica deve ser consultada antes da adoção dessas políticas e depois da promoção de discussões aprofundadas sobre esses temas. Não dá pra acreditar na constitucionalidade abstrata da medida sem que ela venha acompanhada de posturas verdadeiramente democráticas. Enquanto não se ampliar o espectro de análise, incluindo o estudante e os demais atores sociais (de dentro e fora da Universidade) como agentes de transformação, a resistência deve ocorrer, o que, em alguns momentos, pode contar com medidas exageradas e até irracionais. Pra mudar essa realidade, é necessário inclusão, discussão, democratização e menos repressão!
A cada dia que passa tenho mais prazer em ler as colunas do professor. São grandes aulas em drops. Uns 99,99% dos meus colegas de academia o odeiam exatamente por causa de suas opiniões, ou qualquer coisa que tenha seu nome impresso.
Esse povo não tem que acordar às 05:00 da manhã, estudar e trabalhar com o melhor desempenho possível para não bombar ou ser ser despedido, chegar em casa à 01:00 da manhã e começar tudo novamente.
Quem vai protestar por mim além deste que vos escreve?
Vou manifestar em prol de um dia mais longo e enquanto eu estiver fora os moradores de rua da minha cidade podem usar minha casa.
Como diria Karl Marx: "o caminho do inferno está pavimentado de boas intenções". Salve a burguesia.
Acredito que seja um dos poucos a aceitar parte do posicionamento dos estudantes.
Moro na ilha da magia e acompanho de perto os acontecimentos na UFSC.
O assunto, pela repercussão que tomou, foi amplamente debatido pela imprensa local, se espalhou pelas ruas e pelos lares.
Como coloquei no título, me sinto isolado, pois entendo que tudo ocorreu por conta de atitude despreparada e presunçosa de quem comandou a ação policial no local.
Por amor ao debate, ainda que me sinta isolado, vou acompanhar tua sugestão Lênio, e trazer algumas informações e posições para ampliar o debate.
1 - A equipe da PF que estava no "bosque" da UFSC, "investigando" tráfego de drogas a pedido da reitoria, levou cinco meses, consumiu alguns milhares de reais de nossa contribuição para, encerrar por lá sua participação com chave de ouro: cinco estudantes encaminhados para abertura de TC, por portarem cigarros de maconha. Cinco meses de investigação jogados no lixo, por conta da atitude prepotente do comandante da operação (vídeos demonstram a tentativa de negociação por parte de professores com o comando da operação e a "palavra final" do comandante: vamos usar desforço físico para conduzir os "criminosos" - que já estavam no veículo da UFSC para serem conduzidos para a delegacia, apenas não seriam conduzidos pela equipe da PF, e sim por professores e pela segurança da UFSC que se prontificaram a entregá-los na repartição). A turba, com mais de 300 alunos já estava formada!!! Seria muito "humilhante" para a polícia recuar, diante do iminente confronto, e deixar que os alunos fossem conduzidos no veículo que não fosse o da PF...bombas e tiros por conta disto, e todo o trabalho de 5 meses de investigação jogado no lixo.
Por conta da limitação, abro segundo tópico.
seguindo..
2 - A PF já havia colhido bons frutos na região, pois meses antes, abordando alunos nas imediações da UFSC, conseguiram desbaratar uma quadrilha de traficantes...bingo (desculpe o empréstimo da forma).
3 - Aqui em Floripa, como aí e Porto (acredito) se vê, com frequencia, usuários de maconha fumando em plena rua, nas praias, em locais públicos. Drogas mais pesadas são usadas com frequencia em festas. A condução de usuários só se faz eficaz quando se consegue chegar aos traficantes, como no caso relatado no item 2. Neste caso específico, repito, os brios do comando falaram mais alto que o bom senso.
4 - As festas na UFSC foram proibidas, há algum tempo, por conta de reclamações da vizinhança (desordem e barulho) e por ocorrência de crimes, inclusive contra a vida, por conta, inclusive, de participantes externos ao ambiente estudantil, por isto a reivindicação da regulamentação. Nem vou falar sobre festas de estudantes. Cada um pensa o que quiser, mas eu fiz e fui em algumas. Quem nunca foi, tem todo direito de dizer que são absurdas.
5 - Sobre a revista dos estudantes, cabe um pequeno esclarecimento, pois o contexto ajuda a demonstrar o despreparo da condução do caso: informações dão conta de que a equipe foi ao local (bosque) com cães farejadores, pois existia a possibilidade de encontrarem grande quantidade de drogas "enterrada". Nada acharam, mas os cães estavam lá..e, evidentemente, sentirem o cheiro da droga nas mochilas.
Aí começou a confusão. Meu ponto de vista: como não acharam nada, vamos levar este 5 maconheiros...Minha pergunta: cinco meses lá dentro, investigando, disfarçados, e só agora pegaram cinco usuários com a droga? Nunca viram outros estudantes fumando no bosque???
Vou ao terceiro comentário...
Dentre todos os absurdos que li esta semana, pela imprensa deste meu querido país (ABSURDISTÃO ), o que mais me chamou atenção foi notar que a maioria das pessoas acha natural os adoradores da foice e do martelo falarem de ditadura e escrever artigos criticando determinados períodos da história do Absurdistao, como se isto fosse a coisa mais natural e não contraditória por conceito que existe.
Dentro deste pensamento enlouquecido e esquizofrênico - com amplo apoio dos setores acadêmicos - as solicitações dos estudantes catarinenses deveriam ser encaradas como coerentes.
seguindo..
6 - Me permita, agora, discordar de algumas pontuações suas:
a - plano de iluminação: a reivindicação procede. Segurança vem com luz. A questão colocada é que estão usando o recurso da UFSC (autonomia inclusive financeira) para atender demandas que não são tão importantes quanto a segurança. Concordo que não deva ocorrer transferência do recurso dos demais contribuintes para iluminar mais o campus, mas o remanejamento e melhor aproveitamento do orçamento interno é perfeitamente compatível com a segurança que queremos dar aos nossos filhos que estudam à noite.
b - E viva a democracia. Aqui, novamente divirjo, em partes. A PM, infelizmente, é mal preparada para confrontos. Bala de borracha e gás contra estudantes me dão arrepios, principalmente dentro de universidade. Me lembram anos de chumbo. Em certos casos, o recuo da polícia é motivo de aplausos pela multidão descontrolada.Neste, especificamente e a meu ver, deixou uma mancha na PM local, tudo por conta da idéia de que quem deveria levar os estudantes era a própria polícia, e não a segurança da UFSC.
Os demais pontos (fora a questão das festas, que já manifestei) são, como de sempre, de formidável entendimento, como sempre (quase, né?) se vê em teus sábios artigos.
Obrigado pela oportunidade. Estava com este debate engasgado aqui.
É notória a ineficiência estatal em fazer cumprir (ou ao menos fazer observar) suas próprias leis em espaços territoriais onde mais deveria estar presente. Assim o é em universidades, onde compra, venda e uso de entorpecentes é realizado à luz do dia. Também em presídios, DP's e hospitais, onde prevalece a lei do mais forte. No caso destes últimos, o imperativo da lei do mais forte até se justifica, já que a luta é pela vida. Já estes universitários estão "lutando" por? De todas as reivindicações, nenhuma delas respeita ao estudo. Ninguém pediu mais livros, modernização de laboratórios e do equipamento de informática, melhoria salarial para professores e demais funcionários. Se entendi bem, querem festa. A história dos moradores de rua seria melhor contada se deixassem claro que serão aceitos apenas os "mulas" ou "aviões". Algo, de fato, está muito errado.
O Estado criticado por Karl Marx marcado pelos traçados liberais-individualistas do séc. XIX não é mais o mesmo do Estado Constitucional que se apresenta no séc. XXI. Atualmente, a legalidade não é mais a legalidade burguesa, rígida e discriminatória dos tempos da codificação, mas sim, uma legalidade que se funda nos ditames constitucionais, oferecendo condições muito mais favoráveis para a institucionalização da democracia.
O Movimento estudantil se atém à pautas que são estritamente ligadas aos interesses do cotidiano universitário e de cunho muitas vezes pessoal.
A entrada da polícia no campus está atrelada ao sufocamento das reivindicações estudantis, pois com a presença da polícia tudo se resolve na bala e desarticula qualquer movimento que possa desestabilizar o status quo.
Os cursos de humanas estão cada vez mais sucateados,prédios são precários, a maior parte dos estudantes de humanas são mais pobres que os de cursos das exatas e biológicas.
Assim, tem-se um movimento polarizado, entre os que não recebem apoio da reitoria e os que não se importam com nada porque suas salas tem ar condicionado, os laboratórios são equipados e o tão almejado emprego em multinacional é certo.
A universidade pública tem recebido bons investimentos da iniciativa privada no que diz respeito a pesquisas na área das ciências biológicas e exatas, diante desse contexto é só analisar onde que surgem as greves estudantis nas universidades no pais, via de regra nos núcleos de filosofia e ciências sociais e não em centros como POLI e FEA, ECA etc (pensando em SP).
A entrada da polícia no campus é o gnd mote do movimento, pois tds temem a repressão que já culminou com a morte de um estudante da USP, dentro do campus, na ditadura, tendo em vista que a polícia age como fascistas, até dá a entender tal reivindicação.
Já qnt as festas no campus está mais ligado a um momento de lazer num espaço público.
Autonomia diz respeito aos estudantes e funcionários terem paridade nas eleições da reitoria e demais questões acadêmicas.
Vale a luta, manifestação, enfrentamento e fugir da apatia reinante
O irretocável texto do Prof. Lenio no dá uma mostra de o quanto somos hipócritas em relação à universidade pública no Brasil. Sustenta-se a todo custo um discurso de que a universidade pública está abandonada pelos governos, de que temos de ter um sistema universitário de "excelência", de que é preciso dar mais autonomia, mais recursos, e mais um monte de privilégio.
No entanto, omite-se nesse discurso o fato de que o ensino público superior é muito (muito, muito mesmo) mais bem munido de recursos do que o ensino básico.
Mas, o que de mais grave está por trás disso tudo, meticulosamente encoberto, é o fato de que esse ensino universitário de "excelência" é feito para uma parcela de 5% das famílias brasileiras, isto é, os 5% mais privilegiados economicamente. E pras classes menos favorecidas sobram, quando muito, o Prouni, o FIES e os cursos técnico-profissionalizantes.
Ou seja, o discurso universitário no Brasil reflete, lamentavelmente, uma luta pela manutenção de privilégios, e mais, pela ampliação de privilégios, que, aliás, já perduram por alguns séculos.
E esses absurdos, não poucas vezes, são levados ao extremo, como no caso da exigência de "legalização das festas no campus". É assim, portanto, que se vai do absurdo ao bizarro.
Não gostei do teor geral. Muitas vezes, ele usa um tipo de argumentação implausível, do tipo, "eles não protestam quando isso ocorre na periferia". Uma coisa não impede a outra. Existem as lutas globais, mas existem as lutas locais, setorizadas. Obviamente, o movimento estudantil terá como foco as condições de vida dos estudantes. Não há problema com isso. Naturalmente, espera-se que eles apoiem as lutas dos trabalhadores, dos favelados, etc, mas por motivos óbvios o foco das reivindicações será as contradições da universidade que estudam.
Festas. Não sei qual é o argumento da universidade contra isso. Não gostei do argumento de Streck; Universidade não é lugar de festa. A princípio soa moralista. Gostaria de conhecer melhor este debate para opinar melhor. Sou contra a apropriação privada de algo público. Se as questões gravitarem em torno deste argumento, acho pertinente, a menos que os estudantes tenham clareza sobre a natureza científico/cultural ou pedagógica dos eventos. Uma roda de violão que revivam canções anti-ditaduras no aniversário do golpe não pode ser mais significativo do que uma aula? Não se pode aprender muito com a projeção de um filme seguido de uma roda de conversa regrada a comida e bebida? Mas, concordo que se há uso de recursos públicos não cabe apenas a um grupo de estudantes decidir, pois é a comunidade universitária que deve gerir como gastar seus recursos. Agora se o argumento gravitam em torno da idéia de que "eles tem que estudar e não fazer festa", então eu acho este argumento anti-democrático. As pessoas devem ter sua autonomia para gerenciar seu tempo e desenvolver um projeto de vida na universidade enquanto lá estudarem. Existem regras para determinar se eles cumprem ou não os seus compromissos (alunos não comprometidos podem ficar retidos, serem suspensos, jubilados, etc.) e isso basta. Não acho que é função da universidade cometer esta ingerência de restringir as festas sob pretexto de que a função do estudante é estudar, pesquisar e fazer extensão.
Sou contra a polícia no campus. Não se trata de Estado contra Estado. Se trata de uma polícia corrupta, violenta e ditatorial VS um espaço de criação de idéias e de realização de experimentos sociais. Para falar a verdade, se existe um local não regulado pelo Estado, trata-se desta corporação, que comete impunemente -, em pleno século XXI, crimes diversos como a tortura e homicídios. Como tratar como um pedaço de Estado algo que é institucionalmente orientado para o desrespeito dos direitos humanos, se respeitar tais direitos são a função primeva do Estado moderno.
É claro que a reinvidicmação dos moradores de rua é viajada. É mais fácil protestar por casas populares ante ao órgão competente, até porque uma sala de aula é um péssimo lugar para alguém se viver. Mas não acho que este "vacilo" desmereça a pauta como um todo, e pode servir para gerar um discussão sobre como planejar democraticamente o uso dos espaços não ocupados no Campus.
De fato, ainda temos muita a aprender sobre o modo de distribuição de recursos adequado ao Estado Democrático.
Infelizmente, nossa concepção "democrática" de alocação de recursos é mais ou menos assim: "todos devem brigar pelo seu, e os que brigarem com mais eficiência obterão a melhor fatia do bolo da viúva".
Para a classe média, qualquer intervenção da polícia é abusiva, um absurdo.
Como não estamos acostumados a ser perseguidos pelo aparato repressivo estatal, qualquer exame na mochila de terceiro por "P2" soa como afronta inaceitável, atentatória da liberdade, privacidade e dignidade humanas (logo, inconstitucional).
É que, não sendo os "clientes" do direito penal, os professores e alunos da UFSC (também sou dessa instituição)enxergaram demais na atuação legítima da polícia federal de coibir o tráfico de drogas.
Aliás, mesmo o uso dessas drogas no ambiente acadêmico é algo que incomoda muita gente, principalmente os "otários" que estão bancando o estudo de poucos.
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