Calma. Há uma ligação umbilical entre Valesca Popozuda e o futuro dos concursos, dependendo de como olha(re)mos a “coisa”. O sucesso de “Pai Tício” que benze jurusprudência também dependerá dessa intrincada operação. Por isso é que estou propondo, nesta coluna, a criação de uma Agência de Autorregulação dos Cursinhos. Se funcionará, não sei. Mas, penso que aqui se aplica o “fator tiririca”: pior do que está não fica!
O “Alcance” dos ensinamentos do professor
Tenho sido um crítico contumaz e ácido do ensino estandardizado que assola o país. Faculdades e cursinhos… Há uma disputa pela mediocridade. Dos bancos acríticos da faculdade, cujo imaginário manualesco é inescondível, passa-se para o tratamento a que são submetidos os candidatos em concursos públicos para as carreiras jurídicas: o saber bancário, acrítico, como se o candidato fosse um receptáculo de onde os professores-amestradores-treinadores põem os conhecimentos (acríticos e também repetidos como mantras) de pontos escolhidos dos programas de concurso. O direito deixa de ser um sistema, um ordenamento, e passa a ser uma fragmentação, tiras de pretenso saber. Deixa de ser episteme. Vira doxa. Discutir o direito a partir da normatividade? Nada disso. Não se busca a reflexão. É pura flexão. O amestramento (é behaveorismo – estímulo/reforço) é feito dentro dos padrões de objetificação e hierarquização. Antes de refletir, reproduzir. Pensar? Não. Decorar. Sofrível. Mais grave ainda quando ocorrem situações como a abaixo relatada.
O que vou relatar aqui me foi mostrado por alguns alunos. Trata-se de uma aula vendida on line para todo o Brasil. Vi o vídeo da aula de Direito Constitucional ministrada por um professor de um curso chamado Alcance. Dou o nome aos bois em face do que representa simbolicamente o poder de um professor no imaginário jurídico de terrae brasilis. Deixo de declinar, por enquanto, apenas o nome do professor, mas, dependendo, farei na sequência. Um docente é uma pessoa privilegiada, pois tem a sua disposição centenas de alunos. Isso quer dizer que deve saber algo mais profundo da matéria. Isto é, deve saber mais do que os alunos. Sua comunicação não deve ser aquilo que Galimberti chama de “tautológica” (que será objeto de coluna específica). Vejam: todos somos capazes de equívocos em sala de aula ou em textos e livros. Entretanto, alguns erros, em face da plêiade de livros e artigos à disposição em tempos de pós-modernidade, são indesculpáveis. Esse é o busílis. Ao que consta, o que vou relatar vem se repetindo, repetindo…
Assistindo ao vídeo, deu vontade de pedir desculpas ao professor que se vestiu de mulher e falou sobre Rawls e que critiquei aqui no ConJur. Aquela aula era “padrão Harvard” perto do modelo Tabajara apresentado pelo professor do curso Alcance. Apenas uma parte da aula on line do professor é suficiente para qualquer professor minimamente afeito à ciência jurídica ficar espantado.
Depois de passar com um Carterpillar sobre Friedrich “Müeller” (ele escreveu assim na lousa) e acabar com Savigny e o próprio Müller, nosso doutor passou a atacar de Hesse e “Gadamér” (sim, com acento no e). Diz, então, à boca cheia, que o método hermenêutico-concretizador é de Hesse e “Gadamér” (sic). Bom, de Hesse até é (embora sem esse nome no original). E também não assim como o doutor explicou. Segundo o professor do Alcance, primeiro o intérprete faz uma pré-compreensão da norma em abstrato. Depois vai ao fato. Incrível o que se faz com dois autores. O epistemicídio maior é cometido com Hans-Georg Gadamer. O que ele teria a ver com o “método” concretizador, se escreveu Verdade (contra) o Método? Ora, Gadamer disse que a interpretação é applicatio, negando, portanto, as três subtilitas (intelligendi, explicando e applicandi), justamente para afastar isso que o doutor disse sobre “primeiro o intérprete faz uma pré-compreensão…” (sugiro, para quem não tiver a pachorra de ler Verdade e Método, do Gadamer, leia os meus Hermenêutica Jurídica em Crise e Verdade e Consenso). Aliás, o intérprete faz ou possui pré-compreensão? Duvido que o professor tenha lido a orelha de Verdade e Método. Jogo minhas lekas albanesas depositadas no Banco Central de Tirana nisso. A pré-compreensão (Vorverständnis) de Gadamer, na qual Hesse (e Müller) se inspiraram, é um elemento estruturante… Não é subjetividade. Não é opinião. Não é visão de mundo. Também não é apofântica. Não aguento mais ter de corrigir esse tipo de hermeneuticídio feito por não iniciados em Pindorama. E, diga-se, não é só gente de cursinho que comete esse equívoco; há gente importante por aí que confunde pré-compreensão com subjetividade…
Na sequência, nosso maestro disse que o “método concretizador de Gadamér-Hesse” mistura (a palavra é dele, do maestro) “fato e norma até chegar ao sentido”. Esqueceu que, se falara em Müller, norma já não é o mesmo que “texto” (eis a fórmula de Müller para construir o seu pós-positivismo). Norma já é o sentido, que só exsurge na situação concreta (que Gadamer chama de applicatio) — deveria cobrar por essa aula, pois não? De todo modo, o que disse o doutor está mais para um liquidificador epistemo-procedural. E, sobranceiro, arremata: norma para fato, vai e volta, vai e volta e não para… Ora, isso mais parece um axé jurídico ou sertanejo universitário (vai e vem, vai e volta, lepo, lepo ou algo assim).
Logo depois, desenha um círculo na lousa. Então diz que é de Hesse o círculo hermenêutico concretizador. E que isso conforma “o giro hermenêutico”. Qual é o Hesse que ele leu? Ou não leu? Hesse e o giro hermenêutico? E o exemplo para ilustrar o tal círculo? Simples: “a lei seca”. A norma (sic) mudou o fato, diz o maestro. A norma influencia o fato. Quando a norma volta para o fato (sic), há essa influência (sic). Hum, hum (de novo). Mas, pergunto: se citara Gadamér (sic) e Müeller (sic), de que modo se pode cindir fato e norma? Não teria sido exatamente graças ao giro hermenêutico que já não se praticam dualismos como fato e norma, sujeito e objeto, palavras e coisas, etc? É demais, pois não? E a galera que escuta vibra. E passa no concurso. Para onde vai o Brasil?
Tem mais. Nosso doutor diz que vai fechar com “chave de ouro” o ponto da interpretação constitucional: se em face do circulo hermenêutico aplicar a interpretação evolutiva “para frente”, o circulo, ao invés de ficar parado (sic), “vai para a frente”. E conclui, magistralmente: essa é a espiral hermenêutico-concretizadora (textualmente, ele assevera: "como aquele que você tem no seu caderno"). Em duas palavras, acabou com Hesse e Gadamer. Algo como “do couro saem as correias”, digo eu!
Pensam que terminou? O maestro diz que, em curso para os candidatos ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (pobre ex-república farroupilha), ele fez várias perguntas “treinando” os candidatos (foi ele quem disse no vídeo). Tinha um que sabia tudo o que ele, professor do Alcance, havia ensinado. Mas faltava algo. E o nosso doutor então “pegou” o cara, ao perguntar, verbis: “Quais são as implicações da interpretação evolutiva constitucional no círculo hermenêutico concretizador”? Genial, não? Vamos todos a Estocolmo. O doutor vai ganhar o Nobel Jurídico. Meu candidato é ele! Vou pedir que o curso Alcance me alcance as passagens aéreas para Estocolmo prestigiar o evento da entrega do Nobel.
Disse, também, coisas como: “Ronald Dworkin começou trabalhando com princípios e depois a sua teoria foi aperfeiçoada por Alexy”. Bem assim! Mais: "Princípios são valores, mandados de otimização, conflitos resolvem-se com proporcionalidade etc." Quando fala do silogismo e da "escola racional do direito", o professor diz que "o silogismo é "parecido" com a dialética hegeliana (?): premissa maior, premissa menor, conclusão <> tese, antítese, síntese”. Que tal?
Parei de assistir ao vídeo no momento em que ele começou a explicar Rudolf Smend. “Há uma aura ao redor da norma”, perfazendo o método cientifico-espiritual, disse. E Smend virou pó. E o exemplo para explicar Smend? A união homoafetiva. Bingo! Não podia ter exemplo melhor. Encaixa como uma luva. Bem assim era o método científico-espiritual… Bem assim…! Vou estocar alimentos. E livros do Gadamér (sic), do Hesse, do Smend. E a coleção completa do Conselheiro Acácio.
Fora o que o doutor falou sobre Peter Häberle. Pronto. Desliguei.
Por uma autorregulamentação dos cursinhos
Pergunto: o Brasil teria publicado uma interpretação plastificada-resumida do Deuteronômio da Bíblia e por isso estaria sendo castigado por Jeová? Ou estamos sendo castigados porque os cursos de Direito foram criados por Decreto para comemorar a vinda do rei Leopoldo da Bélgica, que tinha acabado de surrar escravos no Congo?
Minha sugestão: que os cursinhos se reúnam e instituam uma Agencia (Auto) Reguladora. Sério. Assim como o Conar, deveria ser criado o CONARCUR (Conselho de Autorregulamentação dos Cursinhos). Fica minha sugestão. Sem qualquer ironia. Recomendo, inclusive, alguns artigos para o Estatuto do CONARCUR:
É vedado ao professor vestir-se de mulher ou de pinguim ou fazer paródias que dão-a-impressão-de-que-os-alunos-são-imbecis. Eles não são!
O livro que servirá de base para a aula deve ter sido lido, ao menos uma vez, pelo professor. Cada cursinho deve estabelecer uma direção acadêmica, para filtrar o que o docente vai ministrar.
Os professores devem ter cuidado ao exprimirem conceitos. Por exemplo, devem ser evitadas menções as menções ao jusnaturalismo como ordem de valores e ao positivismo jurídico como teoria legalista que afasta a moral do direito. Sério. Isso é um assunto muito sério.
Fica proibido dizer que Kelsen é um exegeta.
Fica proibido falar que a espiral hermenêutica é como a espiral do caderno.
Fica vedado o uso de exemplos bizarros e ridículos, como dizer que consunção é o peixão que engole o peixinho.
Sobre o que não se pode falar, deve-se calar.
Isso é necessário para que não haja uma autofagia. Sei que há cursinhos sérios. Nem estou dizendo que o curso Alcance não o seja. O que ocorre é que, na espécie, tratando-se da aula que o professor ministrou on line, temos um sério problema conceitual. Se bobearem, falarei de outras aulas do Alcance. Meus alunos já estão preparando material. Portanto, fiquem espertos… Tem mais munição! Tem coisa de Direito Penal, (mais) Constitucional, Civil…
Há limites no que cada um pode dizer. Esse negócio de uma ideia na cabeça e um microfone na frente e lá vai-aula-de-cursinho tem de acabar. Temos de valorizar os cursinhos. Salvá-los deles mesmos.
Um professor de medicina não pode dizer que o dedo do pé está atrás da orelha. Um sociólogo não pode dizer que Weber foi marxista. E um professor de Direito não pode dizer isso tudo sobre Hesse, Gadamer etc. Fora o resto que disse sobre Müller, Savigny e companhia. Não pode mesmo!
Digo para os alunos que pagam para ouvir isso: isso está errado. Não acreditem. Confiem em mim. Leiam qualquer livro sobre Hesse, Gadamer (para falar só desses) e verão. Lamento ter de dizer isso.
Numa palavra
Não sou dono da verdade. Mas acredito em verdades (no sentido de que fala Gadamer, por exemplo). Portanto, acredito que não se pode dizer qualquer-coisa-sobre-qualquer-coisa. Não posso sair por aí trocando o nome das coisas. E nem nominando o que me der na “telha”. Não posso, por exemplo, chamar de espiral hermenêutica o que é apenas uma vulgata da vulgata daquilo que alguém que leu a orelha do livro poderia ter dito e que os incautos repetem para uma plateia acrítica.
Levemos o Direito a sério. Já chega ter de ouvir que sentença vem de sentire. E que Gadamer é um subjetivista. E que a decisão jurídica é um ato solitário. E que o princípio (sic e mais um sic) da ponderação propicia… blá, blá, blá. E que os argumentos metajuridicos nos levam a… blá, blá, blá. Que a vontade das partes são argumentos metajurídicos… E que princípios são valores. O professor do Alcance é apenas a ponta do iceberg. Ele só é a ponta desse enorme bloco de gelo que esconde a crise da graduação, dos concursos públicos e da própria pós-graduação. Sim, a pós-graduação — inclusive mestrado e doutorado — vem produzindo também “material” para esse tipo de genialidades. Enfim, para parafrasear o doutor do Alcance, trata-se de uma espiral sem fim!
Do jeito que vai, daqui a pouco teremos que conviver com coisas como propaganda de autoajuda e outros quetais pendurados em postes pelas ruas da cidade, onde o Pai Tício oferece seus trabalhos, como se pode ver na figura a seguir, que circula pelas redes sociais:

Pronto. Esse pode ser o futuro! Ainda chegaremos lá!
Ou conviver com perguntas sobre a pensadora contemporânea Valesca Popozuda, como na prova de filosofia do segundo grau em Brasília. Logo, logo, isso pode chegar na graduação e nos concursos jurídicos.

Professor veja um post que fiz, no Facebook: ""Dias destes, vi quatro concurseiros, que estão - "estudando?" - para o MP de minha cidade maravilhosa, decorando, em voz alta: "Peixinho que come peixão"; "peixinho que come peixão..." Incontinenti, lembrei-me de um amigo meu que, assim como os alienados citados (ali-é-nada), estuda, também, para o MP, e já havia comentado acerca dessa palhaçada. Pois bem. Pouco depois, e (para minha tristeza) vi uma obra (não quis ler e já explico o porquê!) de um Penalista/Dep. de São Paulo" (precisa explicar mais?) cujo livro continha um peixe grande... comendo um peixe pequeno. Sim, parecia um baiacu comendo uma sardinha. Era, pois, assim, que ele explicava a consunção. Pode isso??? O que me preocupa – sobremodo! – é que esses, quiçá, serão os futuros Promotores de "Justiça"? de minha adorada cidade maravilhosa. Só nos resta, como diz o querido prof. Streck: "estocar comida"!!! Mas há mais. E pior, registro. Preparem-se! Como não podia deixar de ser, lá estavam eles, com o manual “simplificado”, “mastigado” ou “sacaneado” e "Guia para a OAB", dispondo o seguinte: "O Princípio da Verdade Real é...". Ai, ai... parei!!! Não aguentei... Imediatamente, contei até 10 e pensei: Princípio da Verdade Real??? Ora, ora e ora... mas esses caras ainda estão na metafísica aristotélico-tomista??? Acreditam que é possível, a partir de uma verdade ontológica (no sentido clássico) descobrir a essência da coisa??? Ah, não... para eles, então, há um mundo-em-si, cuja a estrutura o juiz pode apreender/conhecer através da razão e, depois, comunicar aos outros pela linguagem, via sentença judicial??? A linguagem, assim, seria (ainda) um mero instrumento???
O problema maior não são os cursos, são os concursos! Abraços
Ótima coluna do professor Lenio, a realidade do Direito no Brasil é assustador, estou no 3 ° do curso de direito, e digo, que há professor na faculdade que ensinam certas matérias, como se fosse um cursinho preparatório para OAB e concursos públicos( e o pior e que fazem isso com a aprovação e consentimento dos alunos, os professores dizem "vou dar essa matéria voltada para concursos públicos, já que esse é o interesse da maioria da sala", é bom registrar que estudo em uma instituição pública de ensino, pois no imaginário popular, teríamos um ensino melhor do que os das instituições privadas,mas a verdade é que esse forma de ensino estandardizada e acrítica assola praticamente todos as instituições de ensino jurídico do país,salvo raras exceções. E o pior de tudo é o Exame da Ordem como critério de excelência do ensino ). Os professores que buscam dar uma aula crítica e voltada para discussões aprofundadas, tem sua aula tachada de chata e cansativa. A verdade é que muitos veem o curso de direito como um meio de alcançar um estabilidade financeira, e se for preciso se submeter as manuais simplificados,esquematizados, facilitados, e descomplicados e as perguntas banais dos concursos públicos para conseguir esse objetivo,é isso que iram fazer, inclusive eu(não me orgulho de dizer isso, a verdade é que as necessidades da vida me impõe isso,e eu tente o máximo possível escapar desse universo pequeno-gnoseológico, nas horas que não estou estudando para concursos.
Eu acho que já chegou na graduação!
Teve professor de filosofia da UnB que defendeu em rede nacional de TV o professor que aplicou a prova e foi mais ou menos assim (minhas palavras):
O professor que aplicou a prova atingiu o objetivo da filosofia (minúscula de propósito), pois Sócrates usava esse método (essa do método foi boa hein Prof. Lênio) para instigar o pensamento. E o professor do ensino médio fez o aluno pensar.
Qua, qua, qua disse o pato. Cué, cué, cué disse o mareco. A nuvem é branca e o céu é azul.
E como fica a nuvem de tempestade.
E chamar a cantora de grande pensadora não é demais?(sem querer entrar no mérito da música se é que ela possui afinação musical - sustenido rachado)
Abraço.
Mas não se desespere, Dr.! Muitos colegas e estagiários que passaram pela UFS (Univ. Federal de Sergipe) dizem que há um professor pós-doutorado nesse mesmo nível.
Mas não se desespere, Dr.! Muitos colegas e estagiários que passaram pela UFS (Univ. Federal de Sergipe) dizem que há um professor pós-doutorado nesse mesmo nível.
Desta vez a superação foi total. A propaganda do pai Tício é fantástica. Não tenha dúvida que alguns concurseiros já estão levando seus apetrechos para serem benzidos em véspera de provas.
Faça alguma coisa urgente, eis que alguns cursos de mestrado e doutorado já estão caminhando para esse desiderato muito preocupante. Doutor hoje já não é tão respeitado quanto era no passado.
Minha filha iniciou o curso este ano e ando muito temeroso sobre o que estão lhe ensinando.
Isso tudo se deve ao fato de que, por alto, uns 90% dos estudantes de Direito de hoje em dia estão nessa área por dinheiro e poder, sem NENHUMA vocação para a área (e por vocação leia-se interesse natural pela matéria, senso de justiça, curiosidade sincera pelos temas, etc).
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Tenho amigos que chegaram a confessar que eram bons em Física, Matemática, Biologia, e que sempre pensaram em fazer Engenharia, Veterinária, etc, mas que acabaram fazendo Direito por causa dos concursos...
O Professor que aplicou a prova disse foi uma ironia.
Mas aí lembrei-me das aulas de Filosofia no ensino médio e fiz uma comparação com os professores que estão preenchendo espaço na mídia. E nessa comparação, constatei uma diferença brutal na didática... Uns são chatos, dão sono (os meus professores do ensino médio); outros conseguem chamar a atenção dos ouvintes, inserindo fatos passados (os filósofos da antiguidade) no contexto da atualidade. Bingo! Passa-se a entender a matéria e a ver a sua utilidade prática. Pena que fora da sala de aula...
Dúvidas:
Foi realmente uma ironia?
Foi um modo de dar um pontinho para que os alunos (eventualmente desanimados com a disciplina) pudesse tirar a nota mínima?
E se o aluno, além de não gostar de (não entender) Filosofia, também não apreciar (não ouvir) fanque? Provavelmente vai errar a letra da "canção" (porque é fanque!) e vai errar o ponto relativo à Filosofia da "Profa. Popuzada" pois, seja lá qual for a linha de pensamento, o aluno também não aprecia a matéria Filosofia em qualquer uma das suas vertentes.
E aí? Não conseguiu nota por não gostar da matéria ou não conseguiu nota por não gostar/ouvir fanque?
Infelizmente, a verdade é esta: as regras dos concursos estão postas e quem quiser brincar que se submeta a elas. Faço um cursinho tradicional em São Paulo e estudei também numa universidade muito conceituada. Passei na OAB com tranquilidade e sem cursinho, o que atribuo à dedicação durante a graduação. No entanto, se eu pretendo ingressar num concurso público, tenho que me submeter ao que as provas exigem e "saber" as matérias do modo como as bancas querem, concordando ou não. E nesse ponto meus professores no cursinho são bem honestos, o que me surpreendeu. Muitos dizem: "Isso aqui é assim porque o STJ entende assim. Mas está errado por causa de X, Y e Z. Porém, na prova respondam como o STJ, depois que você passarem defendam o que você acham certo." Muitos professores se ressentem disso (um deles, inclusive, nos recomendou ler um artigo do Prof. Lênio Streck aqui no Conjur), pois o problema da qualidade do ensino do direito e das decisões dos tribunais afetam a todos. Mas o que se há de fazer se os concursos perguntam sobre pessoas-lagarto, Tício e Mévio e Ladra Jane? Pois que mudem as regras do jogo.
Para mim, assim como o do senhor aamonteiro (Advogado Assalariado - Civil), são ótimos comentários.Fulcrais.
Há certa discussão que poderia surgir adiante, após se atacar o problema real.
Que são os concursos, a vontade de "encostar no estado" sem qualquer vocação e o "treino" (como bem usou o professor do tal Alcance em sua tosca sinceridade)sofrido por nossos alunos.Em todos os níveis.
Estamos assistindo a uma vulgarização do país e a criação de toda uma casta estatal dependente das benesses de um "Estado-mãe"(ou será pai?) e, por isso, silenciosa diante dos desmandos e da vulgarização ideológica da nossa educação.
Havia uma música que falava, no passado, em um povo-gado.Um povo bovino e marcado.Um povo (que pensa ser)feliz.É nisto que estão nos transformando há anos.
Professor, apesar de não ser o "pai tício", você adivinha meus pensamentos e traduz meus sentimentos. Sou estudante de direito de uma faculdade particular e tem dias que tenho que sair da sala porque não aguento ouvir tanta cretinice. Outro dia uma aluna, na aula de prática recursal, reclamou que na aula de Direito do Trabalho só se fala de direitos do trabalhador, que parece que o Direito do Trabalho só protege o trabalhador. E o professor concordou. E ainda disse que as coisas estavam melhorando, que os juízes mais novos já traziam uma visão mais "neutra". Como assim? Não sei se me mato ou se me suicido. Talvez seja melhor largar a faculdade... E estocar comida, bons livros e bons filmes.
A crise no ensino do direito é flagrante. Mudemos o modo dos concursos ou as bizarrices só se multiplicarão!
Sera que os alunos do sul nao fazem Enade. Conta ai professor como é o Enade ? Conta o que acontece se o alunos forem mal. Na internet é muito facil ser sabichão....
Vida de gado? Leia uma coluna e repita. Repita. Repita.
Procurem saber o que é Enade.
"Disse, também, coisas como: 'Ronald Dworkin começou trabalhando com princípios e depois a sua teoria foi aperfeiçoada por Alexy'."
Isso é uma atrocidade, mas o pior é que não apenas esse, mas muitos professores, acreditam nisso. E vivem reproduzindo essa bobagem em todo lugar que passa. E essa de Kelsen ser um exegeta, então, é outra bobagem que vivem propagando por aí.
"Disse, também, coisas como: 'Ronald Dworkin começou trabalhando com princípios e depois a sua teoria foi aperfeiçoada por Alexy'."
Isso é uma atrocidade, mas o pior é que não apenas esse, mas muitos professores, acreditam nisso. E vivem reproduzindo essa bobagem em todo lugar que passa. E essa de Kelsen ser um exegeta, então, é outra bobagem que vivem propagando por aí.
As bancas de concursos tem criado Direitos paralelos, não interessa que a lei diz, interessa o que eles dizem.
Nós achamos normal se falar em "estudo da BANCA".
Pior, é ver o descaso quanto ao tema, quando se utiliza a doutrina o faz de forma deturpada.
Mas não é só, nossas bancas não conseguem fazer uma mínima interpretação de texto: a banca do trt2, conseguiu inferir do artigo 307 do CC, que a eficácia do pagamento depende da transmissão da propriedade, nem vou falar das diversas formas de pagamento.
Prosseguiram: incompetência em razão do lugar deve ser arguida em contestação; É prevento, na JT, o juízo que despachou primeiro (nem há despacho inicial na JT); Grupo ecônomico, na JT, sem coordenação nem subordinação; Alteridade é o empregado prestar serviços que se reverterão em favor se outrem; Os procuradores do Estado e do DF fazem parte da AGU; Modificou a denominação do Princípio Jurídico (Arruda Alvim) para Princípio Jurídico da Eficiência, entre outras.
Mas o nosso judiciário diz não poder substituir a banca na correção das questões. Até onde iremos?
Sou aluna de Direito em uma faculdade particular, e essa semana presenciei uma cena vergonhosa. Um professor ditou um conceito, e sendo ele muito extenso (e por vezes mal formulado a ponto de o "mestre" mandar colocar vírgulas somente quando o seu fôlego acabava), os alunos choramingaram e ele resolveu "resumir" o que havia dito, pra ficar mais fácil os alunos decorarem, ops, estudarem pra prova. Depois ainda disse que ficava feliz com o nosso sucesso. Eu disse que aquilo não podia ser verdade e acabei sendo criticada, veja só, pelos colegas acríticos. Esse mesmo professor um dia, citando Michel Foucault, escreveu "Fucoult". Ainda nos resto esperança?
Meu bunker já está quase pronto.
Sou aluna de Direito em uma faculdade particular, e essa semana presenciei uma cena vergonhosa. Um professor ditou um conceito, e sendo ele muito extenso (e por vezes mal formulado a ponto de o "mestre" mandar colocar vírgulas somente quando o seu fôlego acabava), os alunos choramingaram e ele resolveu "resumir" o que havia dito, pra ficar mais fácil os alunos decorarem, ops, estudarem pra prova. Depois ainda disse que ficava feliz com o nosso sucesso. Eu disse que aquilo não podia ser verdade e acabei sendo criticada, veja só, pelos colegas acríticos. Esse mesmo professor um dia, citando Michel Foucault, escreveu "Fucoult". Ainda nos resta esperança?
Meu bunker já está quase pronto.
Por culpa sua, eu tive que parar para refletir, encarar a mediocridade do meu conhecimento e reconhecer a minha completa falta de domínio de conceitos básicos da área jurídica.
Como seria melhor continuar no meu maravilhoso mundo do autoengano, no qual me nutria com doses diárias de manuais simplificados descomplicados e apenas repetia acriticamente o que diziam ser necessário saber para passar em concurso público. Afinal, é tudo o que importa, não? Tudo era muito mais fácil!
Eu era feliz, mas agora tenho que conviver diariamente com essa angústia crônica que habita o meu ser depois de contemplar a vastidão do horizonte do conhecimento, que é infinito. Depois disso, descobri que por mais que eu estude todas os segundos da minha vida, apenas vou apreender uma minúscula fração de tudo que se tem pra saber. Ficou a sensação de impotência, de insignificância e limitação.
"Obrigado" por ter arruinado a minha vida!
Sou aluna da Profa. Flaviane na UFOP. Foi por meio dela e do Prof. Bruno Camilloto, principalmente, que conheci o professor! Estou no terceiro ano de Direito ainda, há muito por aprender! Mas sou grata por ter acesso aos seus textos e brilhantismo crítico. É muito empolgante! Obrigada professor!
Acho essa a coluna mais importante do ano, até o presente momento, porque denuncia também a lógica perversa dos concursos públicos (lógica essa que envolve muita grana, envolvendo faculdades, cursinhos preparatórios, livros, apostilas, etc!). Ocorre que todas essas questões sobre a mediocridade do ensino jurídico têm também a ver com a mediocridade das provas da OAB e de concursos. Enquanto a forma dos concursos não mudar, os empreendedores do (muito lucrativo!) ensino jurídico não mudarão seu jeito de fazer as coisas. Esperar que os que mais lucram com essa farra toda parem de levar isso adiante, de uma ora para outra, é ingenuidade. Lenio Streck já deu a letra: "É só não fazer perguntas imbecis!". Ocorre que parece não haver interesse político para tanto... Só isso.
É evidente que o Curso Alcance tem que processar o articulista.
É duro ver um Doutor chegando a este nível por conta de 2 questões em uma prova, onde se um dia ele conseguir ser professor de um bom cursinho (é isso que ele quer) vai ter no máximo 2 aulas por curso, e isso deve refletir na atual conjuntura menos de mil reais.
A Procuradoria do RS deve pagar muito pouco para o ilustre procurador chegar a este nível. lamentável.
Parabéns pela brilhante exposição. Por sorte tive você como professor de Hermenêutica no mestrado.
Permito-me não ingressar ao mérito da questão que o insigne articulista aborda, por motivos mais que óbvios e a partir de uma premissa insofismável: esse episódio nada representa, quando associado ao universo da ignorância plena de docentes e discentes (tanto de graduação como de pós-graduação).
Tudo não passa de um patético "faz-de-conta", onde "sábios juristas" dizem "ensinar" e alheados acadêmicos (ou graduados, nos casos de pós-graduação), entre um bocejo e outro, contam ansiosos os minutos que faltam para finalizar a "aula".
O trinômio missioneiro da Universidade - pesquisar, ensinar e difundir -, esteio do desenvolvimento de uma nação, foi jogado ao latão de lixo. A fama (não raro infundada) passou a substituir o estrito e verdadeiro conhecimento, ao passo que o aprender transformou-se em leviano suportar uma diuturna contagem regressiva de ansiosa expectativa pelo gongo salvador.
Como afirma Romero Sánchez, tudo deriva da tradição universitária (de grado e de pós-grado) e do papel do docente que, de tão arcaico este último, veste bem o papel de "gata borralheira" da Universidade (Justo Nieto): "na promoção do professorado, conta muito pouco ser um bom docente".
O resto é decorrência mais que lógica desse deprimente cenário - com as costumeiras e raras exceções, claro.
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