É verdade que é tudo mentira… Mitos cotidianos e jurídicos!

Spacca

caricatura lenio luis streck 02 [Spacca]Extra, extra! Polêmica nacional: o picolé Dilleto e o suco Do Bem estão sendo “investigados” porque teriam mentido em suas propagandas. O suco não é feito com laranjas da Fazenda X e o picolé não é feito com a receita inventada pelo avô do dono da fábrica, que, no máximo, sabia capinar na lavoura nas montanhas da Itália.

Questão: pode a publicidade mentir? Céus. E… céus! Depois de ter frouxos de riso, recuperei-me do choque provocado pela “polêmica” neo-farisaica. Minha tese: vamos fechar a fábrica de picolés. Onde se viu inventar um avô que não sabia fazer picolés? Que pilantras. Ora, inventar um avô.

E acrescento, a título de colaboração: Vamos fechar o McDonalds, cujo sanduíche não é nem parecido com o que está na fotografia. Exijam o sanduíche das fotos! Processemos os hotéis e agência de propaganda que vendem estadias, porque mostram fotos de quartos que, quando lá se chega, nem de perto são o que aparece nas fotos. E vamos processar as pessoas do Facebook.

Veja as fotos dos facebookeanos… Encontre-os na rua e verá: a foto não tem nada a ver com a figura “ao vivo”. E o que dizer da propaganda da Vivo? Vivo tudo ou total por R$ 6,90 por mês. Internet por seis e noventa! Sim! Tudo verdade! Assine a Sky: você não imagina que barato. Tudo por R$ 59,90 (na prática, paga-se três ou quatro vezes mais ou os canais são reduzidíssimos em relação aos demais “pacotes”, combos, etc; ou o preço só vale por três meses)! Eu tenho um celular 4G (Vivo) e posso mostrar para qualquer um que só aparece na tela 3G. Fui à loja da Vivo e nem lá dentro o sinal de 4G apareceu. Tudo verdade! Não estou mentindo. Ah: Em Porto Alegre tem uma propaganda de funerária que diz que a tal funerária nem parece funerária. Tudo verdade.

Verdades e mentiras! Esse país é uma maravilha. Ligo o rádio e ouço um reclame governamental: “a segurança pública avançou no governo tal e tal”. E, em seguida, o noticiário: morreram tantas pessoas assassinadas, houve tantos assaltos… Tudo mentira e tudo verdade!

Emagreça tomando comprimidos de algas ou casca de árvore de pé-de-boi. Ou compre a TV X em 10x sem juros! Yes! Sem juros! Tudo verdade!!! E vamos fechar a fábrica dos picolés do avô inventado. Vamos expulsá-lo do país. Mentiroso. Onde já se viu mentir assim em um país em que a verdade é quase ontológica? Alugue um carro na AVIS e devolva-o no aeroporto de Confins sem o tanque completo. Bingo! Pagará R$ 5,50 por litro de álcool. Tudo verdade. Amo esse país. De verdade. Não é mentira, não!

Aristóteles perguntava: Que vantagem têm os mentirosos? E respondia: A de não serem acreditados quando dizem a verdade. E Millor: jamais diga uma mentira que não possa provar! E eu digo: eu posso provar a verdade acerca das mentiras ditas acima. Como também posso provar que são mentiras as verdades que se dizem por ai. Por isso posso provar que os 0800 das companhias telefônicas ou da SkyNet são para enganar trouxas. Aliás, posso demonstrar que os telefones nos quais uma gravação atende são danosos ao consumidor. As companhias devem atender a ligação em 1 minuto. Elas atendem…e deixam você pendurado por 15 minutos. Como a Azul, que cobra R$ 130 para alterar uma passagem, mesmo que seja para viajar uma hora antes. Mais: faça o teste e ligue, agora, para, assim por amostragem, o SAC da Samsung (ah, não é assistência técnica? Que pena…). Viva. Ou Vivo. Também é verdade a propaganda eleitoral em que os novos deputados diziam: “Pela ética, vote na renovação”! Beleza: desde que me pague a minha parte em dinheiro! Por exemplo, em troca de meu voto em determinado projeto de lei… Entenderam?

Vou colocar um adesivo no meu carro: Fora com o cara que inventou o avô! Onde se viu isso? Ou vou colocar no twitter (que não tenho): #A publicidade e a TV não mentem! Fora com o cara do picolé Dilleto que inventou um avô fake e cujo avô de verdade não sabia fazer picolé!#

E vou estocar comida. E picolés feito com receita de meu avô. O avô é meu e ninguém tasca. Ele nasceu no Afeganistão. Faz picolé de raspa de tijolo. Picolés Streck. Os melhores. E não é verdade que seja mentira a mentira que, de verdade, contaram na peça publicitária. Montanhas: aqui vou eu! Com o farnel cheio de picolés e laranjas da Fazenda do seu Francisco. Estocar e estocar! Eis a solução. O caos e o dilúvio vêm aí! Estou avisando.

As mentiras no direito e como Fragoso sabia de tudo
Mentiras estão ligados aos mitos. Mitos institucionalizam mentiras. Mitos são simplificações com o objetivo de dar, por meio da lógica, “conforto moral” àqueles que se sentem miseravelmente perdidos em meio ao caos da História. Mitos não são verdade nem pretendem sê-lo; servem somente para conferir sentido ao homem-massa, com bem diz o Professor em História da USP Marcos Guterman.

O jurista-massa sobre(vive) de mitos. A verdade real é um mito. O livre convencimento é um outro mito que conforta moralmente os juristas. Vende-se nas salas de aula que o “direito é uma questão de  caso concreto”…e, “de verdade mesmo”, sabemos que isso é um mito, uma mentira que dizemos aos alunos. Até a Constituição mente, ao dizer que os tribunais examinarão “causas”. Os embargos declaratórios são outras das mentiras que são contadas cotidianamente. Se a Constituição exige fundamentação, como podemos admitir sentenças omissas, contraditórias ou obscuras? O Código Penal estabelece uma divisão em títulos e capítulos. O Direito Penal serve para “pacificar” a sociedade… Sim. Pura mentira. Todos são iguais perante a lei…mas no resto não. E assim por diante. Mitos e teorias sobre a lei, como diria Warat, há 40 anos.

Mas talvez o mito mais “contundente” seja o de que, em país como o nosso, a autoridade é algo que se herda, tanto é que sempre “tomamos posse”. Fulano tomou posse no cargo de…! A linguagem marca. Define. Palavra é pá-que-lavra. Veja-se o caso do juiz do Maranhão que deu voz de prisão — e efetivamente prendeu — funcionários de companhia aérea que, cumprindo procedimento previstos na legislação aérea, não permitiram que Sua Excelência embarcasse. Carregando o mito de que “faço parte de um estamento e por isso sou diferente dos patuleus”, manda prender quem faz exatamente aquilo que ele, juiz, deveria fazer: cumprir a lei. Aliás, ao que consta, o juiz já julgara ação em que a tese por ele albergada era exatamente a tese que os funcionários da TAM aplicaram no caso dele. Bingo.

Por isso, Hanna Arendt vai dizer que, em determinados casos, os mitos são uma “ofensa ao bom senso”.  É o caso. Que sentido tem, em uma democracia, que alguém possa pensar que, ao não ser atendido em seu desejo individual — no caso, embarcar em um avião “fora de prazo” — tenha o direito de prender trabalhadores em flagrante? Aliás, quantos pleitos já foram indeferidos por Sua Excelência por estarem “fora de prazo”? O prazo e a pontualidade só valem para os mortais? Há, sim, havia esquecido. Embora já tenha transitado em julgado que “juiz não é Deus” (parece já ser uma Súmula Vinculante, conforme os brilhantes votos dos também juízes Alexandre Morais da Rosa e Néviton Guedes, com os quais concordei por escrito aqui na ConJur), ainda há alguns recalcitrantes. É o caso do Juiz do Maranhão.

Nestes tempos de deificações, surge até um novo problema: e os membros do Ministério Público, mormente os procuradores da República, também não se acham deuses? Bom, talvez a solução seja adotarmos o poleteismo. Assim, não brigamos.

Cito a seguir um belíssimo texto, com o propósito de desmi(s)tificar (o mito e o sacral) o imaginário jurídico de terrae brasilis, o insuspeito Heleno Fragoso, que, ao menos nesta parte deveria ser lido pelo juiz do Maranhão e pelo procurador da República que sustenta que “passarinho na gaiola canta melhor”.

“…o Poder Judiciário pode e deve ser criticado. É que estamos mal habituados a uma autêntica sacralização da justiça, pela qual os advogados são, talvez, os maiores responsáveis. Dos tribunais se costuma dizer sempre que são ‘egrégios’, ‘colendos’, ‘altos sodalícios”, e do Supremo Tribunal comumente se diz que é o ‘Excelso Pretório’.

Dos juízes, que são apenas funcionários do Estado encarregados de dirimir os conflitos judiciais, se diz sempre que são ‘eminentes’, ‘ínclitos’, ‘meritíssimos’, ‘doutos’, ‘ilustres’, etc.

As sentenças são sempre ‘venerandas’ e ‘respeitáveis’, por mais injustas e iníquas que possam ser. Nada disso tem sentido num regime democrático e republicano, no qual a justiça se faz em nome do povo, fonte primária de todo poder”. [1]

Na verdade, Fragoso vai mais longe ainda. Mas penso que é suficiente o que está dito acima. Os advogados, principalmente eles, deveriam recortar essa citação de Fragoso e coloca-la na parede ou na geladeira, para não esquecer jamais. Mas, é claro, juízes e procuradores também devem ler esse belo texto!

Pronto. Uma coluna bem curtinha. Acústica!


[1] FRAGOSO, Heleno Cláudio – Advocacia da Liberdade, Forense, Rio de Janeiro, 1984, p. 199.

Scrideli disse:
11 de dezembro de 2014 às 09:42

Sugiro aqui uma investigação rigorosa em face da Revista Playboy, que reiteradamente vende gato por lebre!!

maria38 disse:
11 de dezembro de 2014 às 10:05

...E não é que é tudo verdade? http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/11/1552815-conar-investiga-diletto-e-suco-do-bem-por-historias-inventadas.shtml

maria38 disse:
11 de dezembro de 2014 às 10:05

...E não é que é tudo verdade? http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/11/1552815-conar-investiga-diletto-e-suco-do-bem-por-historias-inventadas.shtml

R. G. disse:
11 de dezembro de 2014 às 10:35

Simples e contundente.

Forbeu disse:
11 de dezembro de 2014 às 11:23

Obrigado pela indicação do texto do Fragoso, inspirador.
Outra coisa interessante, são sessões do poder judiciário ou legislativo onde se perdem horas para ficarem elogiando os feitos uns dos outros.

Paulo R. M. Gutecoski disse:
11 de dezembro de 2014 às 12:07

Festejado jurista Streck, foi a coluna perfeita e engraçada, para encerrarmos esse ano. Dá para passar a régua, fechar as cortinas e apagar as luzes. Voltamos só em 2015.

afixa disse:
11 de dezembro de 2014 às 14:09

e o fluminense? jogou este ano baseado em engano(nadores)?

Ruppert disse:
11 de dezembro de 2014 às 14:45

que você escreveu algo de forma simples para que eu não perca meu tempo tentando adivinhar sobre o que vc quis ou quer dizer.
desculpa, a "inserção" de linguiça não me atrai.

isabel disse:
11 de dezembro de 2014 às 16:13

Sou admiradora de seus textos, embora não aprove o tom alarmista e a "hipérbole" do "vou estocar comida", o que, sem dúvida alguma não será necessário, haja vista que não serão estas tolices comuns do ser humano - e da sociedade - que farão "acabar o mundo". Este texto foi um que quase parei de ler antes do final por conta dos exageros... Não creio que seja para tanto ... Mas, felizmente cheguei ao final pra ver você recobrar o tom que sua cultura abriga, e conhecer a espetacular lição do professor Fragoso... No fim, você nunca decepciona.

Eduardo. Adv. disse:
11 de dezembro de 2014 às 17:02

Se virem a reportagem sobre a propaganda de chocotone...
Sabe aquele que parece "expelir" chocolate?
Acionem o CONAR, pois o fotógrafo foi enquadrado pela câmera de TV na posse de uma seringa de bom calibre injetando doses cavalares de chocolate nos pedaços cujas fotos estampariam caixas, peças publicitárias e folhetos de supermercados.

Danilo Gavião disse:
11 de dezembro de 2014 às 17:10

Texto interessante. Realmente, é preciso desmistificar a autoridade, principalmente em um país em que fervilham os "argumentos de autoridade" em decisões judiciais.

A propósito: a dinâmica desse texto me lembrou o José Simão, da Folha.

Alessandro Silverio disse:
12 de dezembro de 2014 às 03:06

A própria academia tem se revelado incapaz de combater a jurisprudência, principalmente aquela oriunda das cortes superiores. Não sei se por clientelismo ou por falta de coragem.

Eduardo. Adv. disse:
12 de dezembro de 2014 às 10:29

Sobre o excesso do magistrado, há versões (bem controvertida) sobre a inobservância (pela TAM) e a observância (pelo consumidor) dos prazos mencionados no tíquete. Qual é a verdadeira? De outro lado, já foi sugerido que diante do desrespeito ao direito do consumidor o melhor seria relaxar e...
Também entendo que o Poder Judiciário pode e deva ser criticado, pois seus órgãos são servidores do público.
O resultando de uma crítica, ainda que respeitosa, muitas vezes é uma resposta ilegal e desproporcional ao direito da parte, que é representada por quem externa a reprovação. Creio que não haja advogado satisfeito com certas posturas do Poder Judiciário, mas os que decidem, marotamente, sabem bem como dar o "troco". A crítica, que é sempre necessária e possível, de fato significa andar na corda bamba...

wilhmann disse:
12 de dezembro de 2014 às 14:02

O Br na Belle Époque detém algumas colocações avantajadas: desajuste social, ALTAS taxas de juros, extensão territorial, população, números de copas vencidas, corrupção, esta não possível mensurar, mas a lado hipócrita é o que mais se agiganta. Mas nenhuma delas é balsamo ao coração. Tudo tende ao fingimento, uns se dizendo bons, outros munidos com a manjada arte da representação, veja que a TV é tb eloqüente exemplo. Cada um preocupado só em aparecer... Se só fosse o narcisismo tudo bem!! Mais subtendidos a tudo está a busca fanática pelo dinheiro, como etapa final. Assomar-se a qq custo, pois mais à frente vem os deleites e o leite da criançada. Deveriam todos passar pela metamorfose de Gregor, para, depois, sumirem peremptoriamente do "mapa", sendo rejeitados. A demagogia reina absoluta, Kakfa já havia prenunciado no book, Samsa amado, depois execrado. Analogicamente esses que se dizem paladinos da patuléia estão sim envernizados até o fígado. O nosso clímax parece ser mesmo o apocalipse; que se chegue até plutão logo, já agora nanico, para que possamos respirar um ar menos ou mais rarefeito, já que a bestialidade que aqui se apresenta não é digna de se arrostar; e lá quiçá seja melhor! Se bem que o pior, pode ficar pior, remember Murphi. Isso é pessimismo? Pode ser! Mas não é. Frente a tantas sandice deveríamos congelar nossos corações para evitar que a sofregridão de dias melhores melhore de fato. 10 Lênio, com louvor!!!!

Rodrigo Beleza disse:
12 de dezembro de 2014 às 16:47

Skynet não é o nome da inteligência artificial que controla o mundo e escraviza a humanidade no Exterminador do Futuro?

Democrata Republicano disse:
13 de dezembro de 2014 às 02:47

Sempre digo abertamente: anseio pelas quintas-feiras, pois sei que encontrarei um texto que me me fará constatar a teoria da relatividade do Einstein! Como "passam rápido" as colunas do Lênio! Desde 2012, meados daquele ano, a comunidade é brindada com esse jurista-poeta (ou seria poeta-jurista?), que nos faz parar e pensar, prática cada vez mais abandonada na liquidez da vida (pós-) moderna. De mim sempre extrai as risadas mais francas, de quem "pega" as ironias sem que o estagiário precise levantar a placa! As colunas hebdomadárias do nosso Lênio são um soco na ponta do queixo e uma borrifada de gás hilariante; o nocaute é para os "haters" e as risadas são para todos, ora bolas...
Parabéns, Lênio" És inspirador de multidões há décadas, mas este espaço lhe permitiu tocar o coração de nós, jovens e esperançosos juristas de terrae brasilis.
Que a indignação persista!
Saudações.

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