*Artigo originalmente publicado no blog Conexão Eleitoral, do jornal O Estado de S.Paulo
Por que o candidato ficha suja, banido das eleições, pode empurrar a mulher no seu lugar? As redes sociais já estranham as esquisitas trocas dos últimos dias. Vai haver barulho, a favor e contra. Agora, só o eleitor pode corrigir essa esdrúxula situação.
O candidato favorito ao governo do Distrito Federal teve seu registro indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral. Desistiu enquanto era tempo, pois seu partido poderia ficar fora da eleição. Apesar de anunciar que abandonava a vida pública, pôs a mulher como vice do novo candidato. Vão-se os anéis, ficam as damas. Em caso de vitória, o titular pode renunciar depois da posse, abrindo vaga para a vice assumir o governo. Aí, quem vai mandar em Brasília?
Candidatos a outros governos também desistiram e indicaram as mulheres para concorrer, o que, como se diz na moda, indica uma tendência. Será esse o espírito da lei? Vamos ser cúmplices desse jogo de aparências?
O parlamentar, em geral, não quer mexer nas regras do jogo com as quais se elege. A grande revolução foi a lei da ficha limpa (LC 135/2010), caso raro e inédito de iniciativa popular, com mais de um milhão e meio de assinaturas e forte apoio de movimentos inconformados com a corrupção.
Os condenados por um colegiado não podem mais concorrer. Mas podem empurrar as mulheres para a disputa? A justiça abandonou o formalismo de exigir trânsito em julgado da condenação, e também o de achar que a preferência do eleitor é soberana. Hoje existem filtros, para barrar ladrões e corruptos, embora possa haver uma ou outra injustiça, eventualmente.
A Constituição torna inelegíveis os parentes de governantes. Mas a lei esqueceu dos parentes dos ficha-suja. Para essa eleição, só o voto pode corrigir. Para as próximas, dependeria do Congresso, que aparentemente não quer criar problema para os colegas.
Por ora, a opção é do eleitor. Participar da pantomima, e votar na mulher do que foi barrado no baile. Ou aplicar desde logo a regra que se deseja, ou seja, a de que o ficha suja não pode ser substituído por parente.
Não é nada contra as mulheres, que são muito bem vindas na política, onde vão até melhor do que os homens. Sujou a ficha, não pode empurrar a mulher, o irmão, o tio, o filho. Está na hora de acabar com esse estranho jogo de damas.
Lamentável alguém vir a público defender abertamente a supressão do direito de ser votado sem lei que estabeleça essa proibição. É natural que o Articulista tenha seus candidatos, e que ele queira que seus protegidos se sagrem vitoriosos na eleição, mas e o direito de opção dos demais? Ora, se é "imoral" o candidato desistir e ser substituído pela esposa, será o Articulista "o senhor da razão", o "tutor impoluto" de toda uma massa de eleitores? Deixemos que o processo eleitoral siga seu curso nos termos que a lei e a Constituição estabelecem, e que o eleitor vote no candidato de sua escolha.
A ideia do Prof. Muylaert (a princípio sedutora), é perigosa - data venia - já que a CF/88 expressa que "nenhuma pena passará da pessoa do condenado" (art. 5, XLV). Estender a inelegibilidade de um eventual "ficha suja" para os seus familiares significa estender uma limitação ao pleno exercício dos direito políticos (que é um direito fundamental), a quem nada fez. Cabe ao eleitor esse julgamento.
Eu não entendi bem ou o ilustrado Professor da FGV Rio está defendendo que a penalidade consubstanciada na inelegibilidade transcenda a pessoa do responsável pelos atos irregulares que a ensejaram? Ele quer mesmo que a inelegibilidade atinja "a mulher, o irmão, o tio, o filho"?
O argumento segundo o qual, se a Constituição torna inelegíveis os parentes dos governantes, deveria também tornar inelegível os parentes dos "ficha-suja" não parece muito convincente... Sem querer desenhar, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!
Segundo o articulista, se o meu tio for excluído de um conselho profissional - incorrendo na inelegibilidade da letra "m" do inciso I do art. 1. da LC 64, inserido pela Lei da Ficha Limpa - eu também estarei inelegível? É isso mesmo que o texto quer defender? Eu sinceramente espero que não... Devo ter entendido errado!
Não bastasse o genro, ex-vereador de Cuiabá, ter acabado com os planos políticos do Excelentíssimo Sr. Riva, agora, com sua Inexigibilidade, já colocou filha e mulher como candidatas à AL e ao Governo, respectivamente. Como diz o Prof. Lênio Streck, a teta da viúva jorra leite caramelizado.
Que bela aula você deu ao prof. da FGV, hem!
Se se adotar o entendimento do articulista, não tardará e logo alguém irá sustentar que mulher, filho, neto, enfim, toda a família do ímprobo ou condenado seja também considerada ímproba e condenada. Assim, voltaremos aos tempos em que quando um monarca era deposto, assassinavam toda sua família para ninguém reivindicar o trono ou pretender vingança no futuro.
Que tempos são esses?
(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Mestre em Direito pela USP – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br
Concordo em gênero, grau e número as consideranda do articulista.
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Se alguém da família se colocou em situação de inelegibilidade, a famiglia tem que pagar o pato sim.
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Aqui, não existe discussão da incidência, ou não, dos institutos penais. Nem dos institutos administrativos.
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Eleição deveria ser a coisa mais séria e republicana de todo o nosso ordenamento. Pensar em um sistema eleitoral extremamente rigoroso é uma exercício intelectivo extremamente bem vindo, sobretudo em um país majoritariamente ignorante.
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A lei do ficha limpa, para mim, é uma piada. Foi um avanço muito tímido. Óbvio e ululante que tem que se estender aos parentes, sob pena de não fechar a porteira.
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Para ser elegível, no mínimo, o requisito constitucional deveria ser o atendimento ao binômio "reputação ilibada" e "idoneidade moral" e que seus aparentados atendessem igualmente a esses dois requisitos, ou alguém aqui não sabe que, em nossa podre política, a família sempre está de mãos dadas.
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Engraçado é ver outros comentaristas tentando desmerecer o articulista. Pois, vou muito além do que foi defendido no artigo, para dizer que a porteira para ingresso nas mais importantes funções públicas (acima, inclusive, da própria Presidência da República), ser deputado federal e senador da república, ainda estão escancaradamente abertas.
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Achar que os eleitores são capazes de votar nos melhores, ou nos menos piores, é de uma ingenuidade sem tamanho. A tarefa de criar mecanismos e entendimentos muitos mais restritivos compete aos mais intelectualizados. E tenho dito.
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Finalizo assegurando, taxativamente, que "No Brasil, a carga tributária é alta porque a corrupção é estratosférica".
“Achar que os eleitores são capazes de votar nos melhores, ou nos menos piores, é de uma ingenuidade sem tamanho. A tarefa de criar mecanismos e entendimentos muitos mais restritivos compete aos mais intelectualizados”
De acordo com essa pérola antidemocrática, o comentarista Ricardo Cubas (Advogado Autônomo) parece ser defensor do voto censitário. Quem seriam, para ele, os “mais intelectualizados”? Que critérios utilizar para sabê-los? O concurso público, talvez?
Isso sim é uma grande piada!
(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Mestre em Direito pela USP – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br
Acho que o colega Niemeyer desconhece que o projeto da Lei do Ficha Limpa foi escrito por um grupo de eleitores mais intelectualizados e que acabou passando pelo crivo do sistema.
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Ou se acha que a mencionada lei saiu de uma roda de barzinho?
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O que defendo é que "os mais intelectualizados" lancem uma grande emenda à lei do ficha limpa, com requisitos muito mais rigorosos que os atuais existentes e que incluam, também, o clã familiar, porque se assim não for, não adianta.
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Agora, se uma idéia dessas é uma piada, ou é uma ilação antidemocrática, esse juízo fica a cargo da valoração dos demais leitores.
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Dia desses, assisti o horário político e constatei que a Lei do Ficha Limpa, essa sim, continua sendo uma piada, pois as figuras que continuam sendo candidatos são, em sua maioria, políticos e asseclas da velha guarda e que não tem o menor interesse em mudar absolutamente nada.
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Respeito os que pensam o contrário, mas o que estou dizendo nada mais é que fruto da vivência e sabedoria adquiridos ao longo de décadas morando na Capital Federal. Os piores cegos são aqueles que não querem ver.
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