Como (não) se ensinava processo penal antes da “lava jato”. Eis o busílis!

Spacca

Caricatura Lenio Luiz Streck (nova) [Spacca]Alexandre Morais da Rosa (ler aqui) pergunta como é possível ensinar Direito Processual penal depois da operação "lava jato". A resposta é difícil. Ela exigiria a escrita de um livro e não de uma coluna. O segredo da resposta está na crise da dogmática jurídica, da qual falarei mais adiante.

Dos anos 80 para cá ocorreu uma transição não muito bem feita. A falta de democracia originou uma espécie de aposta no protagonismo do Judiciário em face da estrutura autoritária da legislação e do Estado. Por isso floresceu, em determinado período, um espaço que foi ocupado por teses acionalistas, como o realismo jurídico, o direito alternativo, o direito achado na rua, a velha investigação cientifica, etc. No regime autoritário, era necessária aposta em posturas acionalistas. Entretanto, quando foi implantada a democracia e promulgada, logo depois, a Constituição, a dogmática jurídica não se reciclou. Ali começa o problema.

A crise de paradigma de dupla face: minha antropofagia
Para mim, o busílis da questão que está na raiz da pergunta de Alexandre Morais da Rosa reside lá longe. E sobre ela escrevi muito. Já antes de 1988 fazíamos congressos e, junto com José Eduardo Faria, denunciávamos aquilo que hoje bate forte na dogmática. Faria dizia que se avizinhava uma crise de paradigma com a nova Constituição. Segundo ele, o direito estava preparado para lidar com conflitos interindividuais e não “aguentaria o tranco” quando se defrontasse com os conflitos transindividuais.

Bingo. Ousadamente, peguei a tese de Faria e fiz uma antropofagia, que já está em textos bem antigos. Chamei a essa crise de uma crise paradigmática com dupla face. A face um (lado A) era a da estrutura do direito, que, preparada para pegar ladrões de galinha (e criticava a cultura manualesca cujos exemplos eram sobre Caio, Ticio e Mévio), não estava preparada para enfrentar os casos que tratavam de bens jurídicos transindividuais (vejam: as garantias são para todos; na época denunciava que estas só eram aplicadas em favor de determinados segmentos — eu queria isonomia para a patuleia, por assim dizer).

Mas havia um problema a mais. A crise só se sustentava porque havia um lado “B”, que chamei de crise do paradigma aristotélico-tomista e da filosofia da consciência (e teses voluntaristas em geral) porque, de um lado ainda a dogmática estava sustentada em posturas objetivistas (verdade real, por exemplo e o mito do dado das posturas exegetistas) e, de outro, paradoxalmente, quando interessa(va) — ideológica e politicamente — lança(va) mão do extremo subjetivismo, dando o sentido que quer(ia) às leis e aos fenômenos envolucrados nos tipos penais e nas garantias processuais.

A crise de dupla face escondeu, por exemplo, o solipsismo judicial, que, por sua vez, esconde o paradoxo representado pela dupla face (o mix entre objetivismo e subjetivismo). E continua escondendo a relevante circunstância de que a dogmática jurídico-processual penal produziu doutrina durante todos esses anos apostando no protagonismo dos juízes. Continuou a apostar na livre apreciação da prova. Mais: colocou um verniz — que agora desbotou — com a ficção do “livre convencimento motivado” (ou livre apreciação motivada). É de uma ingenuidade de dar dó a crença generalizada da comunidade jurídica na bondade das analises judiciais. O juiz é bom? Para quem? Depende do lado que você está. Ou eu tenho um direito, ou eu não tenho — se eu tenho, o Poder Público tem o dever de reconhecê-lo. Não importa minha posição social. É assim que funciona em arranjos democráticos. E isso não pode depender da opinião que eu e você temos a respeito disso.

Observemos um sintoma: quando a procuradora Ela de Castilhos escreveu sua tese de doutorado nos anos 90, mostrou que menos de 10% dos casos de crimes de colarinho branco era objeto de condenação em Pindorama. Por que hoje isso mudou? Por uma razão simples: naquele momento os órgãos repressivos-investigativos eram competentes para lidar com os crimes ligados à interindividualidade ( o lado A da crise). Sempre foi mais fácil provar coisas quando o réu era pobre e os crimes daqueles-cometidos-por-pobres. No momento em que, dos anos 2000 para cá, houve um aprimoramento da Policia Federal e do Ministério Público, começou a mudar o cenário. No andar de baixo a coisa continuou como estava; o que começou a mudar foi a relação com o andar de cima.

Só a dogmática não se reciclou
Mas, o que não mudou? Só não mudou o imaginário dos juristas. No processo penal, continuou-se a escrever, grosso modo, as mesmas coisas. Poucas foram as analises criticas, no sentido paradigmático da palavra (não me refiro aos discursos panfletários). E tem sido quase zero a preocupação com a filosofia no processo, isto é, a discussão das condições de possibilidade de o judiciário apreender o fenômeno e… decidir. Não nos preocupamos com a decisão. Por incrível que pareça — e isso parece risível — somos tão atrasados que até mesmo o projeto do novo Código de Processo Penal (que tramita a passos de cágado no Parlamento) insiste na tese da livre apreciação da prova.

Ora, deveríamos ter iniciado no dia 5 de outubro de 1988 uma filtragem nos Códigos. Mais, fundamentalmente, deveríamos ter feito uma filtragem nas posturas dos juristas. A CF/88 mudou o alvo. Lamentavelmente, pouquíssimo se alterou na dogmática processual-penal. Até hoje tem gente que escreve sobre processo penal ainda defendendo o sistema inquisitivo. Foi muito lenta a apropriação do novo. Lembro a batalha que travei, em conjunto com a 5ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, para implementar a tese do interrogatório como meio de defesa. Fiz inúmeros pareceres sustentando a nulidade de interrogatórios que não traziam a presença do advogado. De forma pioneira, a 5ª Câmara anulou centenas de processos. O Ministério Públicorecorria contra meus próprios pareceres. E o Superior Tribunal de Justiça anulava as anulações, sob o argumento de que o CPP não exigia a presença de advogado. Lembro que, em 2004, quando veio a Lei 10.792/2003, escrevi: os juristas não acreditaram até agora na CF que prevê a ampla defesa; mas agora acreditam na nova Lei. Aleluia. Não era dramático?

Há marcos rupturais?
Alexandre Morais da Rosa diz que a "lava jato" é um marco. Eu diria que a “coisa” começou um pouco antes, na Ação Penal 470. Escrevi várias colunas na ConJur mostrando que a maior derrotada na AP 470 foi, exatamente, a dogmática jurídica. Seus elementos centrais foram destroçados do mesmo modo que o escrete canarinho o foi pela seleção alemã na Copa passada. Quando viram, estava 5×0. E assim foi com a AP 470.  Aquilo que a dogmática pregava e ensinava a vida toda foi liquidada paradoxalmente pelo mesmo esquema tático que a sustentou: a livre apreciação da prova e a busca da verdade real (que tem em seu ponto de estofo o velho inquisitivismo e, portanto, as respostas teleológicas). Sim. Há décadas que os livros de processo penal ensina(ra)m aquilo que foi utilizado como arma contra os próprios ensinadores e utentes em geral. É duro, mas foi o que ocorreu.

De fato, é nesses hard cases da vida (real) que os juízes revelam suas convicções pessoais sobre o direito, não esquecendo que também houve uma profunda renovação nos quadros da magistratura e do Ministério Público. A questão é saber se o direito coincide com as convicções pessoais dos juízes (e dos promotores). Entendem o que quero dizer? O que apareceu, tanto na AP 470 como na "lava jato" (e isso se estende ao restante do direito)? Simples. Apareceu aquilo que venho denunciando há muito tempo: A visão pessoal do judiciário acerca do problema e seus efeitos colaterais em uma sociedade fragmentada. Ou seja, indagou-se ao judiciário o que o direito tem a dizer sobre esses fenômenos e ele respondeu o-que-cada-membro-do-judiciário-pensa-sobre-tudo-isso. Claro que ele já fazia isso desde sempre. Só que, agora, pegou em outro alvo. Essa talvez seja a parte mais difícil de compreender na teoria do direito: a de que, antes dos juízes, existe uma estrutura chamada “direito” e que, por vezes, não diz exatamente a mesma coisa que cada juiz pensa. Esse é o locus da doutrina jurídica: fazer essa transição paradigmática entre o direito (estrutura) e o imaginário dos operadores. Observe-se: esta análise transcende os hard cases em tela. Não pretendo, assim, “julgar os julgamentos”.

Onde e quanto sapato aperta em novos pés
Por que digo isso? Porque, quando o sapato aperta (em novos pés), quando o caso e os argumentos que os concebem assim o exigem, os juízes acabam dizendo o que pensam sobre a apreciação da prova, do convencimento, da formação da opinião. O problema é que, por vezes, isso fica aquém ou além da estrutura chamada “direito” (que é feito pelo parlamento).  Quando surge um “decido conforme minha consciência”, ou um “não me importa o que diz a doutrina” na voz da linguagem pública, é porque a doutrina já fracassou de há muito… se é que me entendem.

Ou seja: vai tudo muito bem até que o direito (uma instituição fundante da democracia) deixa de ser um direito, para ser aquilo-que-o-juiz-entende-por-direito. É, por exemplo, quando se prende e se solta com base no mesmo argumento. Pois é: Se tudo é, nada é.  Acredito que isso tudo pode ser resumido assim: enquanto a “clientela” era a patuleia, a dogmática jurídica se indignava no atacado; mas quando a “clientela” passou a ser um “não-patuleu”, a dogmática passou a se indignar no varejo. Só que já é(ra) tarde. Aqui entra a pergunta de Alexandre Morais da Rosa.

Então, como ensinamos?
Pois esse é o ponto central para a resposta à pergunta de Alexandre Morais da Rosa. Como ensinamos processo até hoje? Simples: Ensinamos processo a anos-luz dos paradigmas que conformam o mundo. Ninguém mais fala no esquema sujeito-objeto. Mas, no direito, sim. Só que é ainda pior. Não só falam no esquema sujeito-objeto (subjetivismo-solipsista) como ainda tem gente escrevendo sobre verdade real, que é uma “verdade” pré-moderna, em que, se quisermos lidar com os fatores S e O, seria O>S, um objeto que (ainda) assujeita o sujeito. É complexo isso? É. Muito. Mas se continuarmos a achar que direito é coisa simples — como querem setores importantes da dogmática jurídica —  teremos que aguentar isso tudo-o-que-vemos-cotidianamente.

Um sintoma que mostra a crise claramente
Outro sintoma que demonstra a minha tese da crise de dupla face: a tal da ponderação. Esse sintoma desnuda a crise de dupla face. Sempre a denunciei (a ponderação) como sendo uma tese caudatária do subjetivismo. Inúmeros juristas — alguns que hoje se queixem da "lava jato" e se queixaram da AP 470 — escreveram ou ensina(ra)m nas salas de aula que o juiz pode fazer ponderação entre direitos individuais e interesses coletivos, citando, para isso, Alexy. Dramaticamente equivocados. Quantos acusados já foram condenados com base na ponderação (mal feita)? Sem fazer qualquer passagem pelas fases complexas do processo de “ponderação”, o judiciário simplesmente pega um “valor” (sic) em cada mão e, fiat lux: escolhe um deles, no mais das vezes o “valor público”, que seria o interesse da coletividade. Só que esquece(ra)m que Alexy nunca disse isso. E o ônus argumentativo? Ninguém fala disso? Sabem por quê? Porque a dogmática nunca se preocupou com isso. Coagulou os sentidos e se fechou em um monastério. A dogmática jurídica quer ser prática. Mais importante que estudar e pesquisar, é ter bons contatos na República. É conhecer os caminhos das pedras… Pois é.

Insisto: Enquanto o modelo investigatório-probatório tratava de alcançar a malta, a dogmática quedou-se silente. Agora, quando se alcançam outros setores, a “coisa pega”. Louvo a preocupação de Alexandre Morais da Rosa. Bingo. Apenas acrescentaria que: não se ensina depois… porque não se ensinou antes… Essa luta é paradigmática. E foi perdida. Pela própria dogmática jurídica. Porque exatamente cumpriu o vaticínio da crise de paradigmas de dupla face: preparada para enfrentar os conflitos interindividuais, não se preparou para os grandes embates. Não se preparou para o dia em que o jogo poderia virar, com novidades como delação, etc.

Tudo isso que disse acima posso comprovar epistemicamente (e empiricamente). Quando saiu a Lei das Interceptações — lá em 1997 —, escrevi acerca do perigo de se usar esse mecanismo como inicio e não como ultima ratio. Poucos se preocuparam com isso. A própria delação premiada merec(er)ia uma filtragem constitucional, conforme delineei alhures, para que ela não fosse utilizada igualmente como unica ratio e como instrumento de pressão. Ali está(ria) uma inconstitucionalidade. Como sempre, a dogmática decidiu esperar o que o judiciário diria… Sempre uma volta ao velho realismo jurídico. O direito se faz mesmo é… na decisão. O fantasma de Holmes, Alf Ross, Olivecrona… estão presentes.

Quando surgiu a lei que alterou o artigo 212 do CPP, fui o primeiro a escrever e lutar no tribunal para que fosse aplicado, porque ali estava o inicio da implementação do sistema acusatório. E ali estava também uma possibilidade de ruptura com a velha teoria das nulidades. Fui à luta. Fiz críticas à doutrina de Luiz Flávio Gomes e Guilherme Nucci que defenderam a não necessidade de aplicar, dizendo que o novel dispositivo nada havia alterado na estrutura do CPP. Diziam ambos que isso acarretava apenas nulidade relativa, como se estivéssemos no século XIX. Também critiquei o STJ e o Supremo Tribunal Federal. E quem esteve no Congresso da ABDCONST realizado depois da lei deve se lembrar do repto que fiz ao STF e a um dos ministros presentes acerca do sentido dos limites semânticos da lei. Está lá gravado. E a dogmática jurídica quedou-se silente. Posso matar a cobra e mostrá-la morta.

Enfim, esse quadro de crise paradigmática de dupla face faz com que, hoje — e esse é o ponto nevrálgico —  os direitos, as garantias processuais não dependam de uma estrutura chamada direito (conceito aqui já explicitei ad nauseam), e, sim, do solipsismo judicial, que por sua vez possui ancoragem nas fragmentadas decisões judiciais. Para o bem e para o mal. Afinal, há decisões para todos os gostos. As decisões passam a ser, cada vez mais, teleológicas (decide-se e, só depois, busca-se uma justificativa) e não de principio. Não quero ser o descobridor da pólvora, mas tenho insistido, com chatice epistêmica, que as decisões judiciais devem ser proferidas por princípios e não por políticas. E que precisamos de uma teoria da decisão. Antes de uma decisão por decisão, um modo de como esta deve ser feita.

Para ser bem claro: Se, por exemplo, o paciente reúne as condições de receber habeas corpus — aferíveis objetivamente em face da estrutura chamada “direito” — por mais que seja antipático ou politicamente incorreto a sua soltura, o judiciário deve conceder o writ. Mesmo que a mídia berre. Porque a decisão na democracia é por principio. Por mais tentador que seja agir por política. Mas, infelizmente, a própria dogmática jurídica cavou o seu buraco. Admite até hoje a livre apreciação. Logo, se esta é livre, pode ser contra ou a favor. E logo depois se justifica o que foi decidido intuitivamente… Por isso, em casos que envolvam forte atuação da mídia, cada vez mais as decisões são teleológicas. Finalísticas.

Mas não ponho a culpa no Judiciário. Fazemos parte de uma coisa maior, que é o imaginário jurídico no interior do qual nos localizamos. E agimos. E não reagimos. Do professor da faculdade tipo-balão-mágico, que não sabe um ovo do que ensina, até o professor de cursinho que encanta as plateias com refrões resumidinhos, até a pós-graduação que, em parte considerável de programas, ainda repete conteúdos da graduação, com dissertações e teses sobre embargos, limitação de fim de semana, estelionato, cheque sem fundo ou agravo, com temas monográficos que recebem uma flambagem teórica do tipo “regra é no tudo ou nada, princípios é na ponderação”. Tem exceção? Claro. Muita. Mas parcela considerável do ensino e das práticas nos mostra esse quadro tão bem pintado por Alexandre Morais da Rosa. Só que minha resposta tenta pegar a origem disso tudo.

O problema é que o judiciário já se acostumou…
Parece que a discussão das garantias processuais, antes tão distante do andar de baixo (veja-se que a maioria dos tribunais estaduais ainda usa a inversão do ônus da prova para crimes do tipo cometido-pela-patuleia), está provocando, dialeticamente, o andar de cima. Violações são condenáveis nos dois andares. Só há um modo de combater isso: decidindo por princípio, como explicito em Verdade e Consenso. E, para tanto, necessitamos de uma doutrina adequada.

Se na primeira pedalada a-paradigmática nas garantias a doutrina tivesse feito os necessários constrangimentos (que devem atuar nas faculdades, cursinhos, livros, conferencias, seminários, etc), não teria sido formada uma “certa tradição”… se me entendem o que quero dizer. Ou seja, o problema é que o judiciário já se acostumou a julgar conforme a sua livre apreciação acerca dos fatos e da lei. E, hoje, todos pagam o preço:

  1. o andar de baixo, por ser da tradição de um país de modernidade tardia; e
  2. o andar de cima, pelo desejo que o judiciário tem de tentar corrigir aquilo que a política não vem conseguindo.

Só que esta tarefa não é dele.

Numa palavra final
O quadro pintado por Alexandre Morais da Rosa está correto no plano de uma análise realista. É assim mesmo que as coisas estão indo. E a saída que ele propõe também tem fortes traços de realismo jurídico, isto é, a decisão é, ao fim e ao campo, um problema do judiciário e assim devemos nos preparar para enfrentar esse fenômeno de poder. Mas, aí é que está: eu não consigo conceber que o problema da decisão se transforme em um jogo de poder ou seja resolvida como se fosse (algo tipo als ob). Se, de fato, for um jogo de poder, temos de confessar o fracasso da doutrina e de tudo o que ela representa em termos de “constrangimentos epistemológicos”. É como se, no nosso cotidiano, os sentidos das coisas só nos surgissem no momento em que lidássemos com elas e não a partir de um a priori compartilhado que, é claro, também inclui o encontro com essas coisas. Mas não são essas coisas (no caso, as decisões) que me impingem o que a coisa (o sentido do direito) é. Toda concepção que possui traços realistas inexoravelmente flerta com alguma forma de objetivismo.  As decisões não são a fotografia do direito, assim como a filosofia não é o espelho da natureza, para usar uma expressão conhecida.

A partir do diagnóstico de Alexandre Morais da Rosa, haveria uma polarização que opõe um modelo “continental” de estudo do direito (identificado a partir de uma perspectiva epistemológica mais abstrata e sistemática, centrada na resolução dos problemas normativos) a um modelo anglo-saxão, de conotação realista (cuja identificação pode ser retratada a partir de um corte mais pragmático, assistemático, centrado num tipo de análise que permita avaliar as condições sociais e psicológicas que envolvem o processo decisório para — tentar — fazer projeções de como serão decididas os casos futuros semelhantes).

A questão posta, portanto — a partir de um olhar hermenêutico — não pode ter como resposta um realismo de nova roupagem, que continue a descrer da possibilidade de uma concepção de direito que preexista à decisão judicial e que deve conformar o caso, com um efetivo grau de autonomia. Ora, se hoje temos esse mosaico sincrético de tradições no âmbito do processo penal, como bem denuncia Alexandre Morais da Rosa, isso se dá justamente porque, nos últimos dez anos, o campo majoritário do direito no Brasil acabou seduzido pelo canto das sereias do realismo jurídico. O que seria essa volta a uma espécie de realismo? Simples: nele, os sentidos do direito decorrem e se dão predominante… na e pela decisão judicial; eis o porquê do crescimento do direito “jurisprudencial” em Pindorama; eis o porquê da paixão do novo Código de Processo Civil (CPC) pelos precedentes.

Claro que a solução do problema não está em colocar o modelo conceitualista-sistemático como o método privilegiado de análise do direito. Insisto: a resposta à questão exige uma reflexão que consiga apontar para uma dimensão mais complexa do que aquela que resulta(ria) de uma simples opção por um modelo ou outro. Trata-se de conseguirmos construir uma verdadeira terceira via. Algo que, na verdade, já está aí: no pós-positivismo de Friedrich Müller, na teoria integrativa de Ronald Dworkin e, permito-me dizer, também na Teoria da Decisão que proponho em Verdade e Consenso — que faz uma antropofagia de Gadamer, Dworkin e Müller, de alguma forma) e outros tantos livros. Mas esse encontro precisa acontecer logo, sem esperas ou demoras.

Desculpem-me pelo tamanho da coluna, mas o texto de Alexandre é absolutamente instigante. E é só o começo de uma longa discussão.

Igor Moreira disse:
09 de julho de 2015 às 08:47

Quando o sr. cita "lava jato" no título, faz com que o texto seja crítica direta ao processo da 13ª Vara. Ocorre que, também nesse caso, as pessoas costumam receber as informações pela mídia sem checar na fonte.
. Todas as decisões do Juiz Sérgio Moro são incrivelmente bem fundamentadas, tanto nos indícios de autoria quanto na necessidade das segregações cautelares, então qual o por quê desse discurso de "solipsismo judicial" e "autoritarismo" vinculado à "lava jato"?
. Essa sua crítica sempre pode ter vários juízos e tribunais para se endereçar, mas não vejo como poderia se aplicar à "lava jato". Se se importar, enumere especificadamente os problemas desse processo em alguma próxima coluna, para esclarecer sua opinião...

Observador.. disse:
09 de julho de 2015 às 09:55

E é bom que se discuta a doença.Torço para pessoas ponderadas, serenas e (sempre) firmes usem este momento para repensar nossa nação.
Nos acostumamos com a corrupção em certas círculos de poder.Quando não era(é) escancarada, faz(ia)-se vista grossa.Pessoas modestas que enriquecem da noite para o dia, sempre após alguma mudança de vento na política e todos aceitando as mais esdrúxulas explicações para tal fato."Feio" não é roubar.É questionar porque o "gênio da lâmpada" só aparece para alguns, em momentos políticos específicos, em detrimento da "sorte" de toda uma nação.
Parece que a sociedade se cansou.Mas não sabe como agir para mudar.Precisamos de líderes ousados.Pessoas sem medo de quebrar certos paradigmas para obter alguma mudança de cenário.
Entendo que os juristas podem olhar com outros olhos a Operação Lava Jato.
Perante a sociedade, o que está sendo feito/utilizado seja um veneno necessário para combater a picada de um ser peçonhento (a tal corrupção) que teima em exaurir os recursos de uma nação rica mas com um povo pobre.
Que o Juiz Moro e tantos outros que estão percebendo que algo precisa ser feito....procurem ir "corrigindo a rota", se amparando sempre nas leis (ou usando as brechas existentes, tão bem utilizadas por facínoras e corruptos em geral) mas que não esmoreçam em seu trabalho.
O Brasil se tornou um "case". Somos únicos no mundo em muita coisa ruim.Basta pesquisar.Precisamos mudar isto.

João B. disse:
09 de julho de 2015 às 10:37

Mas quando o tiver, farei o devido constrangimento epistemológico necessário.

João B. disse:
09 de julho de 2015 às 10:37

Mas quando o tiver, farei o devido constrangimento epistemológico necessário.

senso incomum e outras disse:
09 de julho de 2015 às 10:45

Concordo plenamente com os argumentos do articulista. O judiciário acostumou tanto com a situação predominante até agora, que, ao ser implementado uma pequena mudança com o novo CPC, ameaçam até mudarem de país caso tenham que cumprir as disposições legais.
Tivemos caso de Presidente de Tribunal conclamar órgão publico a ajuizarem ações, indicando até o que deferia ser postulado.
Será que ainda temos doutrinadores comprometidos em doutrinar? Será que os doutrinadores, não estão apenas comprometidos com os rendimentos financeiros de suas publicações?Acho que atualmente temos muitos pavões e pouco comprometimento com o direito.
Daí, o crescimento da adoração às ementas, às sumulas e orientações jurisprudenciais que presenciamos cotidianamente no fôro.

senso incomum e outras disse:
09 de julho de 2015 às 10:50

Não esqueça nunca que, aquele que abre mão de um pouco de liberdade (respeito e observância ao direito posto) em troca de segurança; não merecer ter liberdade, NEM SEGURANÇA

Observador.. disse:
09 de julho de 2015 às 11:24

Aqui o governo nem se interessou.

Uma homenagem americana à um brasileiro cujo Estado simplesmente menoscaba sua existência e morte.

Por isso precisamos que certas autoridades continuem firmes com seu (árduo) trabalho. Pois o país se tornou uma nação surreal e que ainda (desde Rui Barbosa) faz o cidadão ter vergonha de ser decente, pois sua pátria desconhece o que é honra.

http://www.wjla.com/articles/2015/07/local-law-enforcement-escort-fallen-brazilian-officer-to-dulles-for-funeral-procession-115399.html

Edmilson_R disse:
09 de julho de 2015 às 13:40

Os fins justificam os meios!
Ótima "filosofia", desde que atinja o outro, né?

O Libertário disse:
09 de julho de 2015 às 13:47

Parabéns!

Flávio Soares - Advogado OAB-PI n. 12.642. disse:
09 de julho de 2015 às 14:48

Melhor coluna do ano! E para os que dizem que o Prof. Lênio critica e não aponta soluções, vale a pena ler o penúltimo parágrafo do texto.

Observador.. disse:
09 de julho de 2015 às 14:50

Na vida alguns interpretam como querem o que lêem.

afixa disse:
09 de julho de 2015 às 16:19

nem os comentadores oficiais leem.
fica a dica

Paulo Roberto Alves dos Reis disse:
09 de julho de 2015 às 16:52

Professor, muito obrigado.
Toda quinta-feira é uma satisfação enorme ler seus textos. Deles já extrai "nortes" fantásticos para os meus estudos.

Vida longa, Streck!

Roberto Cavalheiro disse:
09 de julho de 2015 às 16:53

Como é interessante olhar o que um fiapo de luz pode fazer no breu, as vezes ficamos esperando o tilintar do sino para que possamos sair da sala, enfim é recreio, e creio que a luta para enterrar o livre convencimento e a livre apreciação da prova, enfim, todos os "livres", estejam caminhando a passos de cortejo, mas certamente estão no caminho da cova.
O direito é maior que sabores, ventos ou vontades, parabéns professor.

Professor Edson disse:
09 de julho de 2015 às 18:39

Discutir justiça num país EXTREMAMENTE corrupto é sempre dificil.

Felipe Lira de Souza Pessoa disse:
10 de julho de 2015 às 00:08

A aplicação equivocada e casuística do princípio da instrumentalidade das formas ao processo penal e a inaptidão de muitos juízes para aplicar as várias formas de medidas cautelares processuais hoje existentes são sinais da deficiência do direito brasileiro na seara processual penal. É bom lembrar que, durante toda a faculdade, normalmente, o sujeito não acalenta o desejo de advogar, de defender garantias e vê-se com frequência advogados recém-formados afirmando que não têm coragem de defender bandidos. É essa a mentalidade da maioria, principalmente nas faculdades particulares. Esses são os novos juristas.

R. G. disse:
10 de julho de 2015 às 06:31

Desde que recebida a Constituição, tem sido praticamente zero a preocupação de pensar a filosofia no processo, e as condições pelas quais é legítima uma fundamentação de decisões judiciais.

Marcos Philippe Cruvinel Goulart disse:
10 de julho de 2015 às 08:40

Mestre dos mestres! Mais uma vez brilhante. Como cidadão e dotado de mediano conhecimento jurídico decorrente da formação em direito tenho receio de procurar a justiça para algum caso particular ou de algum parente. Nunca sabemos o que o juiz pensa. Absurdo? Realidade! Toda dogmática por vossa senhoria defendida falece quando um badeco na condição de assessor redige as decisões e o juiz só lê e assina ou só assina.

Adriano Las disse:
10 de julho de 2015 às 09:06

Bastou prender bandidões...

Senso incomum, por aqui, somente o seu comentário.

O balneário esta infestado de jurisdicismoloides do deplorável status quo.

O bananal está doente e definha a olhos vistos.

Mais engenheiros e menos jurisdicismoloides em balnelândia.

Já seria um bem enorme.

Advogado Goiano disse:
10 de julho de 2015 às 10:10

Simples:
Estamos caminhando para uma mescla de "common law" e de sistema alemão/francês: o direito de "per si" andando antes da legislação.
Que monstro vai sair disso? Só o futuro pode dizer.
Como a grande maioria de doutrinadores e juristas ainda não se atentaram a isso, cada trabalhador do direito se torna um "pequeno doutrinador" no seu âmbito.
Creio que isso tudo sejam evoluções decorrentes de uma constituição engessada, que forçou todo um arcabouço jurídico de cima pra baixo a se adaptar.
Mas nem sempre a adaptação se sai melhor do que o ajuste original e, pensando em bases, definitivo.
Quem viver, verá.

Observador.. disse:
10 de julho de 2015 às 11:22

Agradeço o alerta do senhor e tenho consciência desta máxima.
O fato de merecer ou não segurança e liberdade.....Temos aqui no Brasil?Desde a C.F de 88, engessada como um colega seu apontou em outro comentário, o que temos vivido no país?
Um vale tudo jurisdicional.Uma insegurança em todos os sentidos.
Não discordei do Professor Lênio. Apenas acho que o Juiz Moro não pode esmorecer diante de tanto fogo, amigo e inimigo. No lugar dele, iria usar críticas como a do Professor Lênio para corrigir (quando for o caso) condutas e aprimorar (quando for o caso também) métodos.
Todos somos humanos e falhos.Tenho mais receio daqueles que se consideram tão sábios achando-se infalíveis, do que os que são severos nas ações mas estão sempre alertas e dispostos a autocorreção.
O Brasil é cheio de sábios.Todo mundo, por estas plagas, que estuda um pouco mais ou passa em um concurso mais difícil, já vira sumidade avessa à qualquer tipo de crítica mas sempre disposta a atacar as falhas alheias.
Apesar de tantos sábios, temos uma corrupção faraônica, um mar de sangue com homicídios nunca resolvidos e um Judiciário que o cidadão comum prefere ficar distante.
O que houve então?
Fora não termos quase nenhuma capacidade de inovação.Ainda exportamos commodities de baixo valor agregado.E nada de Nobel. Nem para criarmos um parente do Google (brincando agora) temos capacidade.Temos muitos bacharéis, gente discutindo se Cabral descobriu ou não o Brasil apenas por causa de um funk....e faltam engenheiros, matemáticos e cientistas que possam nos ajudar (e muito)em tempos difíceis.
O Brasil enfrenta uma crise econômica séria (que está só no início) que pode contaminar toda a estrutura da nação.
Alguns procuram estancar o mar de dinheiro roubado.Dinheiro que fará falta.

Antonio Carlos Kersting Roque disse:
10 de julho de 2015 às 13:08

Sim, foi dessa maneira que li o brilhantissimo texto do mestre, consumindo.
Muito me bati pela constitucionalizacao do processo penal.
Uma ou outra voz se levantava nesse sentido.
Obrigado professor, era famelico, hoje estou farto.
Vou dar forma ao texto, emoldura-lo e colocar na parede.
Tenho que ler isso todos os dias.
Mais uma vez, obrigado.

A Reta Entre Várias Curvas disse:
10 de julho de 2015 às 14:12

Professor Lênio, há tempos acompanho seu trabalho e sua persistência no combate ao solipsismo e as decisões geradas do achismo e de escolhas subjetivas. Porém, tenho uma grande dúvida a respeito de sua doutrina. Como podemos confiar num direito gerado por um parlamento despreparado, impessoal, antiético e que via de regra legisla em causa própria, destacando-se as leis criadas em troca do recebimento de propina e compra de apoio político (vide AP n. 470) e as leis geradas como contrapartida pelo financiamento das campanhas dos deputados e senadores? Devemos seguir as leis advindas de um parlamento que é o símbolo daquilo que há de pior em nossa nação?

Flávio Ramos disse:
10 de julho de 2015 às 15:29

Eu já colhera muita inquietação e percepções do texto do professor Alexandre, e agora as tenho potenciadas, professor Lênio. Perfeita e impressionante sua apropriação e integração dos problemas de direito processual levantados por ele na matriz de seu pensamento hermenêutico e permanente denúncia dos modos de fazer direito no país. Assim como ao comentar o texto iniciador, também aqui devo externar minha especial satisfação e observar, embora em menor grau, que é sempre mais eficiente em comunicar ideias quanto está mais referido a elementos concretos e conhecidos.
Concordo inteiramente que "aquilo que a dogmática pregava e ensinava a vida toda foi liquidada paradoxalmente pelo mesmo esquema tático que a sustentou".

D. Adriano Vargas disse:
10 de julho de 2015 às 15:52

A pergunta é?: quem tem a resposta em uma frase?

Esta é a resposta de um milhão de dólares.

Para os " pobres mortais" operários do direito pergunta-se:

E a segurança jurídica?

Sem regras pre-estabelecidas apodrece o direito e leva à falência a profissão pois como explicar aos alunos, e ao cliente( que nos faz sobreviver) que a Lei Processual diz uma coisa e o Juiz outra?

A pergunta está posta?

Jovem Marx disse:
10 de julho de 2015 às 18:53

Não adianta mudar o imaginário para abraçar uma novidade reacionária. Barthes (O prazer do texto) já denunciou o fetiche do novo. Não adianta mudar a máscara se o monstro é o mesmo. Muitas vezes é melhor o jogo explícito dos contrários do que o pluralismo das falsas opções.
Democracia? O que se entende por este signo? Precisamos sair do senso comum. Não é mesmo? O imaginário jurídico forjado sobre uma concepção errôneo das relações entre direito e poder, não nos dá uma resposta melhor acerca da democracia daquela que a mídia tenta inculcar.
A existência de eleições basta? A consagração de direitos fundamentais basta? O direito ao voto? Amar o indeterminado?
Em minhas aulas tenho defendido que a Constituição é sempre performativa (Austin) cujo malogro ou não depende do grau de democracia a que chegou uma sociedade. E nós onde estamos? Por certo no grau zero. Ainda, infelizmente vige a tríade assinalada por Victor Nunes Leal: coronelismo, enxada e voto.
E a dogmática? Ainda confunde os enunciados perfomativos e os enunciados constatativos, iludindo-se como vanguardeira quando nas ruas tudo continua triste e cruel. O Warat (a ciência jurídica e seus dois maridos) não afirma numa nota de rodapé que o juridicismo vampiriza a democracia, tornando-o inócua e vazia? Bela metáfora!!!
É preciso conferir à democracia um sentido que ultrapasse a dócil-utilidade (Foucault). E é patuleia que na experiência da escassez indica na carne e no corpo os limites da democracia de Habermas. Pensar os limites já é transcender dizia Hegel.
Não obstante, a dogmática não pensa os limites, passando logo para o panegírico. De duas uma. Ou a democracia é o um conceito falso e devemos partir para outra coisa. Ou a democracia vigente precisa ser criticada sem pudor. Democracia

Jovem Marx disse:
10 de julho de 2015 às 18:54

Democracia não pode rimar com exclusão, miséria e desemprego.
A dogmática é autofágica quando não encara que existe uma relação entre direito e política e, incapaz de ler os pontos de ruptura, torna-se um mero enfeite e adorno das elites.
A dogmática (crítica) está por fazer e para isto devemos nos manter fieis às honrosas exceções que fazem do direito um espaço liso (Deleuze) como Luiz Fernando Coelho, Eduardo Faria, Dalmo de Abreu, Merlin, Lyra etc. E para começar deveria sair do senso comum sobre democracia e pensá-la para além da polícia que, para Ranciére, significa preservar a divisão social do sensível em que uns mandam e outros obedecem, perpetuando os privilégios. Ou seja, preserva a pobreza no seu gueto.
Em “O ódio à democracia” assinala: “A democracia não é nem a forma de governo que permite à oligarquia reinar em nome do povo nem a forma de sociedade regulada pelo poder da mercadoria. Ela é a ação que arranca continuamente dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e da riqueza a onipotência sobre a vida.” (Ainda bem que perdi a aula de ciência política).
Aqui em Bruzundangas (Lima Barreto), a vida pública e riqueza se perpetuam enquanto a dogmática (crítica?) sonha com Walt Disney e carros importados.
Por que ainda não ouvi ninguém a não ser Nilo Batista criticar as UPP’s? Porque as favelas são localizações sem ordenamento (Agamben) onde emerge a sinistra figura de direito romano do Homo Sacer, isto é, a vida matável sem que se cometa homicídio.
E porque os “vanguardistas” não criticaram o vilipêndio dos mais elementares direitos fundamentais (liberdade física, direito de reunião, inviolabilidade do domicílio etc.)? Democracia verdadeira deixa visíveis suas próprias imperfeições. E porque a dogmática (crítica?) não faz este

Jovem Marx disse:
10 de julho de 2015 às 18:57

E porque a dogmática (crítica?) não faz este papel? E o cínico boicote ao art. 67 do ADCT? Apenas Dalmo de Abreu deu seu grito.
Lutar contra os galhos quando o cerne da questão é outra não passa de transgressão inerente. Mudar o imaginário, deixando a ordem simbólica intacta e indene de nada vale. Por isso Badiou (Théorie Du sujet) seguindo Lacan define Práxis como a ação (sentido amplo) que toca o Real mediante o Simbólico.
Como diz a sábia patuleia: o buraco é mais embaixo.

O IDEÓLOGO disse:
11 de julho de 2015 às 18:44

A inversão da primazia do objeto pelo sujeito que o interpreta, com atrofia do primeiro, que perde o seu significado, marca a ordem jurídica no período inaugurado pelo novo constitucionalismo, resultando no pamprincipiologismo.

Mandrade disse:
13 de julho de 2015 às 09:45

Caro Lenio, as decisões contra o INSS (especialmente quando trata de segurado especial ou benefício assistencial) são um exemplo do que você costuma dizer em sua coluna; pois são um festival do tal "livre convencimento" aplicado de forma irresponsável, praticamente sem qualquer critério sério. Vide esta decisão, que infelizmente nada tem de excepcional, pois ela está longe de ser uma exceção. Se as provas não agradam os juízes, eles simplesmente as ignoram. Basta citar qualquer princípio sem maiores explicações (o preferido parece ser o da "dignidade humana") e está tudo resolvido.
http://www.conjur.com.br/2015-jul-09/juiz-ignorar-laudo-pericial-conceder-beneficios-inss

LeonardoPenalista disse:
14 de julho de 2015 às 02:19

A leitura dos seus textos durante todas as quintas-feira tem me auxiliado bastante no pensar o Direito. Inclusive, mudei radicalmente minha opinião quanto ao neoconstitucionalismo pregado por esmagadora doutrina. Agora, Lênio, peço venha para desviar do assunto desta coluna e rogar para que o senhor escrevesse acerca do mérito da redução da maioridade penal. Creio que não só eu, como todos que o acompanham, gostaríamos de saber acerca da sua abalizada opinião quanto ao tema. Confesso que pendo para a não aceitação material da Constituição por violar cláusula pétrea. E aí, o que o senhor acha de nos agraciar com esse tema para a quinta-feira vindoura? Abraço!

Luiz Parussolo disse:
14 de julho de 2015 às 17:38

Para chegar-se a tamanha convicção e tamanha certeza é indispensável cognição transcendental para tamanha compreensão e desprendimento total naturalmente do "eu" e isso só é possível aos sábios.
Lendo um sábio e buscando as comparações nos Fóruns e Tribunais acredito que muito longe do que humildemente assegura em seu texto nunca deixamos de viver regimes arbitrários e a democracia ainda não chegou até nós, contrariamente ao ter chegado tardia. O que aconteceu foi a libertação do ego individual e coletivo despreparado e néscio, totalmente destituído de essência e libertino.
Com a nossa ausência coletiva em no mínimo mais de 80% em todas as dimensões, sociais, políticas, econômicos, familiares e educacionais, talvez nunca chegaremos. Não somos pragmáticos e aprioristas,

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