Cultivar mágoas é atraso na vida dos profissionais do Direito

Spacca

Os profissionais do Direito, e também os estudantes, costumam guardar mágoas que levam consigo, alimentando-as por longo tempo, às vezes por toda a vida. Na maioria das vezes elas se originam de uma decisão contrária aos interesses do ofendido ou até mesmo de um conflito de opiniões. O fato é que as mágoas azedam as relações entre as pessoas. Mas o que leva, na área do Direito, alguém a sentir-se magoado? Bem, as causas são infinitas. Vejamos algumas a título de exemplo.

Um estagiário pode ofender-se com a chefia porque, ao seu modo de ver, seu trabalho não é reconhecido. Um advogado pode ter mágoa do Poder Judiciário porque um juiz obrigou-o a esperar longo tempo antes de iniciar a audiência e não deu nenhuma justificativa. Um promotor de Justiça pode estar ofendido contra a instituição, porque foi-lhe negado o direito de cursar mestrado no exterior. Um juiz pode ter mágoa do Tribunal ao qual está vinculado, porque suas antecipações de tutela são sistematicamente revogadas. Um candidato em um concurso pode cultivar este sentimento pelo simples fato de não ter sido aprovado.

A mágoa é um sentimento unilateral, quase sempre é ignorado pelo suposto causador. O psiquiatra Augusto Cury mostra com clareza que “ninguém tem o poder de nos ferir, a não ser que permitamos ou que haja lesão física. A virtualidade dos pensamentos nos liberta e nos protege, mas não sabemos usar essa proteção”.[1]

Como reage o magoado? Via de regra isolando-se e internalizando suas queixas. Algumas vezes narrando-as, repetidamente, aos familiares e amigos mais próximos. Frases amargas como: “aquele Tribunal de Justiça é onde mais se pratica injustiça”; “de nada adianta trabalhar muito, auxiliei a Secretaria a dar andamento a todos os processos e não recebi nem um obrigado”; “na Polícia não adianta ser honesto, ninguém reconhece”.

Pouco importa se tem o ofendido razão ou não, e às vezes até pode ter. O que importa é que manter acesa a chama da mágoa causa mal físico e psicológico ao seu portador e que, por vezes, transforma-se em sentimento de profundo rancor ou até mesmo ódio. Os reflexos físicos posteriores são inevitáveis, problemas gástricos, ansiedade, pressão elevada e outros tantos.

Como é visto o magoado? Regra geral como alguém negativo e isto pode resultar em uma má imagem. Ray Grose observa que “obviamente é fundamental que você crie e mantenha a melhor imagem possível e uma imagem que seja a mais adequada à sua organização”.[2]

Mas o que significa imagem adequada ao perfil da organização? Sabidamente, cada instituição, pública ou privada, tem seus valores, suas regras, explícitos ou implícitos. Um escritório de advocacia que atue na área trabalhista a favor do trabalhador, permite que o advogado tenha uma imagem menos formal, inclusive para interagir com a clientela. Diferente será a situação em um tradicional escritório destinado à advocacia empresarial. Aí, para os homens, o terno e a gravata serão obrigatórios.

Órgãos públicos também cultivam seus modelos. Magistratura, Polícia Federal, Ministério Público e outros, colocam-se no termo amplo de organização e seus membros assumem um modelo médio de conduta, adequando-se ao que deles se espera.

A imagem adequada ao perfil da organização não se resume na vestimenta, nos cabelos ou na forma de expressar-se, mas também no comportamento. E aí, seja qual for o local de trabalho, instituição pública ou entidade privada, a higidez mental é essencial para ter-se respeito e ser prestigiado. O magoado, evidentemente, revela perfil inadequado e será colocado de lado.

Evidentemente, desta postura podem advir resultados que influenciarão diretamente na vida profissional do envolvido. Imagine-se uma juíza que, preterida na indicação por merecimento, sinta-se profundamente ofendida porque sempre manteve a Vara em dia, ao contrário dos três incluídos na lista tríplice. Ao externar sua mágoa, o único resultado será obter a antipatia dos integrantes da lista e a repulsa dos desembargadores que não a escolheram. Aceitar o fato, encarando-o como parte da vida profissional, poderá significar entrar na lista na primeira vaga que vier a ser aberta. Não aceitar, pode significar ver seu sonho mais distante.

A mágoa poderá exteriorizar-se de forma direta, como no exemplo acima, ou de forma indireta, pulverizada. Esta costuma dar-se por ação ou  omissão.

Um oficial da Policial Militar pode ter mágoa da Polícia Civil porque levou vários suspeitos ao delegado de Polícia e este não lavrou o auto de prisão em flagrante. Consequentemente, recusa-se a prestar qualquer colaboração à PC, não escondendo a sua repulsa. Na verdade, o oficial da PM não soube lidar com a frustração e não absorveu o fato de que, no sistema judiciário, cada um é uma peça dentro da engrenagem. Todos, vez por outra, são contrariados por um terceiro que poderá rever o ato. Por exemplo, um ministro do STJ sujeita-se a ver seu ato anulado por um ministro do STF e este, em agravo regimental, pelos seus colegas. A revolta só fará  deteriorar as relações entre as duas instituições, sem qualquer vantagem a quem quer que seja.

Outras. A perda de uma importante chefia na Defensoria Pública pode ser a possibilidade de iniciar um curso de mestrado, aproveitando-se a maior disponibilidade de tempo. A decepção com um professor que se mostrou egoísta em um momento decisivo, pode dar oportunidade a conhecer melhor a natureza humana e suas deficiências, tornando o ofendido mais maduro e resiliente.

Vejamos um exemplo de omissão. Imagine-se um servidor da Justiça do Trabalho que, inconformado por não obter reajustamento de seus vencimentos, simplesmente reduz seu trabalho a quase nada. A revolta não é contra alguém em particular, mas sim contra o Congresso e a presidência da República. Qual será o resultado? Simples, as pessoas que dele dependem e que nada têm a ver com a disputa, sofrerão as consequências do atraso nos processos. O magoado, em seu íntimo, saberá que está prejudicando terceiros e isto, psicologicamente, lhe será nocivo.

Do que se falou é possível extrair-se duas conclusões. A primeira delas já ficou implícita, ou seja, o quanto é inútil e nocivo cultivar mágoas. A segunda é que a utilização do tempo dedicado a mágoas deve ser utilizado de forma positiva e, assim, constituir uma poderosa alavanca para a plena realização pessoal.

Em suma, na área do Direito mágoas inúteis devem ser postas de lado e, no seu lugar, a melhor via é ocupar o pensamento com coisas boas e positivas, na busca da transformação dos sonhos profissionais em realidade. 


[1] CURY, Augusto. A fascinante construção do eu, 2ª. edição. São Paulo: Academia, p. 126.
[2] GROSE, Ray. Como vender você. São Paulo: Laselva, 2011, p. 11.

Vladimir Passos de Freitas

é professor de Direito no PPGD (mestrado/doutorado) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pós-doutor pela FSP/USP, mestre e doutor em Direito pela UFPR, desembargador federal aposentado, ex-presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Foi secretário Nacional de Justiça, promotor de Justiça em SP e PR e presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibrajus).

Wagner A disse:
25 de outubro de 2015 às 10:37

Gosto muito dos seus textos. Eles vão além da demera aquisição de conhecimento jurídico, mas sim da possibilidade de termos a capacidade de que as relações humanas e o autoconhecimento são elementos chaves para que tenhamos um conjunto de profissionais melhores para o direito e,consequentemente, para o mundo. Muito obrigado!

Amaralsantista disse:
25 de outubro de 2015 às 11:02

Primeiramente afirmo ser de muito boa abordagem esse tema muito comum no meio jurídico. Acrescento aos exemplos já expostos um caso concreto por mim vivenciado. Certa vez, em uma audiência de instrução, ao ser uma testemunha interrogada pelo magistrado, a reclamante esboçou muito sutilmente um ponto de vista, quando o advogado do reclamado de maneira rude, solicitou ao magistrado que o depoimento fosse registrado em atamapenas informação alegando ter sido a testemunha influenciado pela reclamante, fato este, suficiente para que o patrono adverso nutrisse uma mágoa por mim durante anos. Aprendemos na faculdade durante o curso, que somos em atuação no Judiciário, adversários, e não inimigos. Há que existir, assim como no esporte, o chamado "fair play ", atuamos, debatemos nossos pontos de vista, nossas defesas, contestações, e ao final nos abraçamos e comentamos nossas expectativas apenas para que aumentemos nossa experiência em nossa carreira. O Prof. Vladimir foi muito feliz em trazer esse tema para que reflitamos nossas posições, e ao longo da nossa jornada possamos trilhar esse caminho com a alma leve, sem nutrir sentimentos negativos que possam trazer, a longo prazo, doenças e derrotas.

Amaralsantista disse:
25 de outubro de 2015 às 11:06

Primeiramente afirmo ser de muito boa abordagem esse tema muito comum no meio jurídico. Acrescento aos exemplos já expostos um caso concreto por mim vivenciado. Certa vez, em uma audiência de instrução, ao ser uma testemunha interrogada pelo magistrado, a reclamante esboçou muito sutilmente um ponto de vista, quando o advogado do reclamado de maneira rude, solicitou ao magistrado que o depoimento fosse registrado em ata apenas como informação, alegando ter sido a testemunha influenciada pela reclamante, fato este, suficiente para que o patrono adverso nutrisse uma mágoa por mim durante anos. Aprendemos na faculdade durante o curso, que somos em atuação no Judiciário, adversários, e não inimigos. Há que existir, assim como no esporte, o chamado "fair play ", atuamos, debatemos nossos pontos de vista, nossas defesas, contestações, e ao final nos abraçamos e comentamos nossas expectativas apenas para que aumentemos nossa experiência em nossa carreira. O Prof. Vladimir foi muito feliz em trazer esse tema para que reflitamos nossas posições, e ao longo da nossa jornada possamos trilhar esse caminho com a alma leve, sem nutrir sentimentos negativos que possam trazer, a longo prazo, doenças e derrotas. Parabéns ao mestre por mais esse presente semanal.

Papajojoy disse:
25 de outubro de 2015 às 12:13

Lendo biografias de homens que ocuparam posições importantes podemos confirmar a mensagem essencial do texto.
Oppenheimer, do Projeto Manhattan, injustiçado, demitido e proibido de entrar na repartição por conta de acusações infundadas de ser comunista; Allan Turing, cientista e tido como precursor na área de Informática, sofreu horrores e acabou se matando, por "acusações" de ser homossexual; Tesla, o homem dos raios, autor de projetos ainda hoje sendo estudados, chamado de maluco por sua visão de vanguarda na área da energia elétrica.
Enfim, exemplos mostram que estamos sujeitos a ataques que visam nos destruir.
E, conforme aconselhado pelo articulista, devemos mesmo entender e...bem, seguir em frente.

Marcos Alves Pintar disse:
25 de outubro de 2015 às 12:34

O Articulista tocou em um ponto de extrema importância no mundo do direito, porém, sendo elegante, não chegou a desnudar a realidade com os exemplos singelos que citou, talvez temendo chocar aqueles que não sou do meio. O mundo do direito no Brasil é um amplo universo de hipocrisia a falsidades. Por detrás do tratamento formal entre os coadjuvantes da administração da Justiça, há ódios dos mais profundos, que por vezes não restam visíveis aos comuns (ou seja, a quem está de fora) porque não conseguem entender o universo de sutilezas. Não é sem motivo. O Brasil é um dos países mais atrasados no mundo quando o assunto é Justiça. O Judiciário vive para si mesmo, com elevados vencimentos, pouco controle real por parte do povo. Tal situação gera, naturalmente, conflitos dos mais dilatados, que por vezes sequer recebe por parte da sociedades maiores atenções devido ao medo de, contrariando alguém com poder, receber-se retaliações diversas.

Marcos Alves Pintar disse:
25 de outubro de 2015 às 12:44

Por outro lado, o Articulista está coberto de razão quando diz que não se pode cultivar mágoas. Nós advogados temos inclusive como missão convencer nossos clientes no sentido de buscar meios conciliatórios e superar divergências. Isso porque, a mágoa pode acontecer mesmo quando o envolvido não está com a razão, muito comum em pessoas prepotentes. A mágoa, no entanto, não pode ser confundida com as situações nas quais alguém pratica atos de má-fé, tendenciosos, propositadamente lesivos à outra pessoa, de forma intencional e premeditada. Quando isso ocorre notadamente no exercício das funções jurídicas o perdão nesse caso não significa "superação da mágoa" mas sim submissão, o que não pode ser admitido. Quando alguém na área jurídica prejudica outrem, o que está sendo lesado é algo muito maior, pois o atingido é o sistema jurídico como um todo. Um exemplo. Digamos que um juiz raivoso com o advogado combativo venha a fixar os honorários de sucumbência em 5% do valor da condenação, ao invés de 20%. Nesse caso, não é somente o advogado que atua no processo o ofendido. Nós temos o sistema como um todo sendo agredido, com reflexos os mais diversos. Outro juiz poderá seguir pela mesma seara alegando "jurisprudência consolidada", ao passo que o violador da lei, aquele que perdeu a causa, restará incentivado a violar o direito novamente porque tem pouco o que pagar se perder em juízo. Enfim, as agressões institucionais não podem ser entendidas como questões pessoais tão somente, e o "rancor" eventualmente surgido com um ato de agressão JAMAIS pode ser esquecido sob pena de submissão. O aperfeiçoamento das instituições e as correções de rumo no caso de arbítrio são algo maior do que as mágoas pessoais e quereladas individuais.

Sergio Soares dos Reis disse:
25 de outubro de 2015 às 14:24

Excelente artigo. Parabéns.

No tópico 14:
O magoado, em seu íntimo, saberá que está prejudicando terceiros e isto, psicologicamente, lhe será nocivo.

Por conta desta narrativa, no caso de GREVE como ocorreu por parte dos Servidores do INSS, fico a me perguntar: será que os servidores, pensam que prejudicaram terceiros (segurados, e toda sua FAMÍLIA)?

Veritas veritas disse:
26 de outubro de 2015 às 06:54

...MAP tem muito a dizer sobre o tema. kkkkk.

Bellbird disse:
26 de outubro de 2015 às 12:06

Ele é doutor em mágoas. Em breve criará a Academia Brasileira de Mágoas. Lá será o presidente.

Bellbird disse:
26 de outubro de 2015 às 12:06

Ele é doutor em mágoas. Em breve criará a Academia Brasileira de Mágoas. Lá será o presidente.

Riobaldo disse:
26 de outubro de 2015 às 12:12

A mágoa resulta de sentimentos de frustração de juízos de valores dos outros, aos quais nos submetemos, na esperança de vermos reconhecidos valores os quais cremos possuir. A respeito disso advém a célebre frase de Sartre: ´para cada um de nós o inferno é sempre o outro...`A única saída que ele propõe, é a ruptura desse círculo maldito que nos aprisiona e buscarmos a liberdade a qual fomos condenados dada a nossa condição humana...

Roberto W Nogueira disse:
26 de outubro de 2015 às 19:38

Sobre o texto, tenho para mim que os valores de uma corporação ou de uma instituição não podem ser perversos, ilegais ou manifesta e insistentemente ilícitos. Nesse contexto, parece evidente que o artigo em alusão mais se presta à domesticação da resistência que de fato possa revelar-se como uma contribuição à paz e à concórdia. O autor, desse modo, não foi feliz.
Com efeito, a Justiça exige sempre a correção do injusto e a resistência contra o injusto, proporcional a este, não pode ser entendida como mágoa ou ressentimento. A bem da disciplina ética que não se move unilateralmente, é claro, deve ser entendido como espírito cívico. Simples assim!
Nada obstante, o perdão é sempre incondicional, mas não exclui a Justiça de modo algum.
O texto peca por essa imprecisão severa, pois pode ser capaz, pela apressada leitura de incautos, de transformar anjos em demônios e demônios em anjos, divisando à acomodação de ordens verdadeiramente inconciliáveis do ponto de vista da intergrupalidade, que é a raiz da vida social contemporânea.

Marcos Alves Pintar disse:
28 de outubro de 2015 às 11:30

Obrigado ao Roberto W Nogueira (Juiz Federal de 1ª. Instância) por ter respondido ao Prætor (Outros) e Bellbird (Funcionário público). Espero que citados comentaristas leiam o comentário e incorporem a lição em suas confusas e nebulosas mentes.

Você precisa estar logado para enviar um comentário.