O sistema de adoção no Brasil é cruel com as crianças e os adolescentes. São os números que dizem isso: mais de 46 mil estão em abrigos à espera de uma família. Pior que isso são os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário parecerem achar tudo normal. É perverso! Todos fazem de conta que não veem essa violência de os menores não poderem ter uma família para acolhê-los. O aforismo de Lacan, “A mulher não existe”, pode ser ampliando também para “A criança não existe”. Elas se tornaram invisíveis e não há nenhuma política pública séria para tratá-las como verdadeiros sujeitos de direitos. Elas não fazem parte da engrenagem política. Não dão voto. Elas não têm voz nem vez.
Por que tem tantas crianças e adolescentes em abrigos esperando serem adotados? A primeira resposta é que a maioria dos adotantes pretendem crianças até três anos de idade, e grande parte delas já passou dessa faixa etária. É claro que se pode incentivar a chamada adoção tardia, isto é, de crianças que não estejam nesse perfil preferencial. Mas antes disso é preciso se perguntar porque elas demoram tanto em abrigos, e o porquê de a adoção ser tão emperrada. Há quem passe toda sua infância e juventude nos abrigos à espera de uma família que nunca chega. Há ações isoladas de alguns operadores do Direito pelo Brasil afora que fazem a diferença com o seu trabalho para interceder neste perverso ciclo de crianças que não têm famílias. Mas são casos isolados. É preciso muito mais.
A raiz do problema está, inclusive, em uma interpretação equivocada e preconceituosa da lei, no sentido de que deve-se buscar a qualquer custo que a criança seja adotada pela família extensa, ou seja, pelos seus parentes. Um verdadeiro culto ao biologismo, incentivado equivocadamente inclusive por dogmas religiosos. Ainda não temos um Estado verdadeiro laico. Esta procura pelo adotante “preferencial” costuma durar anos e, quando é encontrado, na maioria das vezes o parente adota não por amor, mas por culpa. O consagrado princípio constitucional do melhor interesse da criança fica longe do que seria realmente melhor para ela. Grande parte dos juízes e membros do Ministério Público ainda está paralisada na ideia de que família é da ordem da natureza, e não da cultura, ignorando toda a evolução do pensamento psicanalítico e antropológico. Isso por si só já leva o processo a atrasar anos.
Seria irresponsabilidade fazer um processo de adoção em apenas um ou dois meses. Mas demorar anos como tem acontecido na maioria deles é compactuar com o sistema que mais violenta essas crianças e esses adolescentes do que os protege. Quem aceita essa situação justifica que é culpa do sistema e que deveria ter mais profissionais no quadro das varas de infância e juventude, para dar conta do volume enorme de processos etc. Seja como for, se cada um dos profissionais envolvidos na adoção não parasse de se indignar com as crianças depositadas nos abrigos, certamente teríamos mais adoções no Brasil. Não há valor jurídico, moral ou religioso que justifique essa cruel realidade.
O sistema de adoção brasileiro precisa ser revisto urgentemente. Todos os governos em início de mandato prometem mudanças, mas nunca levaram isso a sério. O Ministério da Justiça do atual governo elaborou um bem intencionado anteprojeto de lei para desemperrar as adoções. O Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFam) vê com bons olhos a iniciativa e tem dado contribuição para seu aperfeiçoamento, pois entende que serão necessários ajustes, tais como simplificação e redução dos prazos processuais e a suspensão do poder familiar, que deve ser feita tão logo constatada a impossibilidade de permanência no núcleo familiar originário.
O melhor desse anteprojeto é que ele toca em pontos nevrálgicos da adoção e abre brechas para enfrentar o preconceito que ronda e impede que crianças tenham uma família. Nele, as adoções internacionais poderão ser vistas sem preconceito. Afinal, em uma era globalizada, a transnacionalidade é uma realidade. E, se considerarmos que os estrangeiros são os que menos exigência fazem para adoção, certamente muitas crianças sairão do abrigo, e nós, advogados, deixaremos de ser vistos como vendedores de crianças para o exterior. Outro preconceito enfrentado é o da adoção intuitu personae, ou dirigida. Há pessoas que querem entregar o filho para adoção, mas só se dispõem a fazê-lo se for para determinada pessoa. No atual sistema, isso, a rigor, não é possível, (exceção para doação unilateral, isto é, de padrastos), pois toda criança adotável deve entrar em uma lista oficial criada no início de 2008 pelo Conselho Nacional de Justiça, denominada de Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Tomara que esse anteprojeto não se torne apenas uma das boas intenções como aconteceu em tantos outros governos.
A comunidade jurídica interessada e preocupada em dar uma família a estes milhares de crianças e adolescentes espera que em breve ele se torne lei e possa ajudar a mudar esta triste realidade da adoção. Até que isso aconteça, é possível interferir e mudar imediatamente o sistema com algumas ações práticas. A primeira delas, e que pode ser rápida, é alterar o atual sistema do Cadastro Nacional de Adoção, que, ao invés de facilitar, tem dificultado as adoções. O excesso de proteção e segurança acabou por emperrá-lo ainda mais.
Há sempre esperança de que boas intenções se transformem em realidade. E, até que elas se transformem em ações efetivas, e independentemente delas, os profissionais envolvidos com adoção podem contribuir para sua efetividade, se tiverem um olhar mais generoso para o real interesse das crianças e adolescentes, comprometido com a ética do bem, saindo de seu lugar de conforto e, principalmente, acabando com o preconceito de que a família biológica é melhor ou tem preferência sobre a adotiva, que é uma espécie do gênero da família socioafetiva. Adoção não é uma filiação de segunda classe. Ao contrário, somente os pais adotivos podem repetir aos seus filhos o que Cristo disse aos seus apóstolos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu quem vos escolhi a vós”.
o articulista tem razão. O problema foi o corporativismo e a visão de esquerda em que servidores público querem controlar tudo e as pessoas. Quando tramitava o projeto de lei o Deputado foi avisado desse excesso de burocracia e que o Cadastro deveria ser uma via e não o monopólio, mas preferiu ouvir associações de servidores públicos que queriam controlar o cadastro e torná-lo em meio de controle e não de apoio. Tomara que flexibilizem o Cadastro mesmo.
Por trazer este tema à baila.
É uma dificuldade, além de um périplo desgastante, famílias adotarem crianças neste país.
Como tudo por aqui, a burocracia monopoliza todo o sistema, pois é assim que - depois - passa para o povo a imagem de que estão "protegendo as pessoas", quando, na verdade, estão apenas fragilizando-as ainda mais.
Parabéns por seu artigo!
Que mais pessoas leiam.E que seja, quem sabe, um ponto de partida para atender tantas crianças carentes de amor e de um lar.
Caso 1 - o casal convive já há 3 anos com a criança, visitando-a todos os finais de semana. A criança já os chama de pais. Requereram a adoção intuitu personae. O juiz não deferiu. Mandou ir para o cadastro. O serviço social disse que, por terem tentado adoção intuitu personae, não estão em condições de adotar agora, e sugeriram período de 180 dias. O juiz acatou.
Resultado - casal desistiu. Criança ainda no lar. Casal vai fazer adoção direta, à brasileira.
Diagnóstico - o Judiciário só atrapalha.
Estou esperando minha ordem chegar, mas a maior dificuldade que tenho hoje, é o novo programa do SISTEMA NACIONAL DE ADOÇÃO.
Críticas ao NOVO PROGRAMA INAUGURADO ONTEM:
1) O programa é ruim, mal feito, lento, não tem sistema de cache. Se tivesse era bem mais rápido e menos cansativos.
2) O programa não aceita críticas, é uma terra sem lei, um sistema sem dono, não há lugar para se apontar erros, falhas, sugestões, não tem um email para que a gente possa ir lá e mandar uma sugestão. Por isto matérias igual esta aqui prosperam, deveria ter um campo lá no site para recolher sugestões e melhorar o sistema. Eu pensei em reclamar no reclame aqui ou no consumidor br, mas é falta de consideração, tem gente séria. Se mostra um descaso com os adolescentes um sistema tão ruim. Existem aplicativos para os habilitados no celular que dão de 10 ao novo sistema do CNJ, a exemplo o ADOÇÃO e o ADOT disponíveis para androids.
Como não aceitam criticas aqui vão minhas criticas:
3a) Hoje mesmo pesquisei, vi um erro, uma das adolescentes passiveis de ser adotadas, o vídeo não tem áudio. Poxa, era só por um botão REPORTAR ERRO. Eu clicava e escrevia ESTA SEM SOM A MERDA DO VÍDEO!!!!
3b) As fotos tem tantas vezes o meu nome escrito em cima que mal da para ver. Poxa, as pessoas que tem acesso todas passaram por um sistema, foram testadas, retestadas, entrevistadas, sabatinadas, sabem tudo da vida, delas e o que elas querem é simplesmente adotar, e aparece MIL VEZES o nome do ADOTANTE sobre as fotos como se eu fosse um bandido, não dá nem para ver a foto direito!!! Toda foto é processada na hora do acesso para colocar as letras, deixa o sistema lento. Devia ter um sistema de cache. POXA!!!!! E eu sei que tal rotina pesa demais o processamento e deixa o sistema lento e cansativo, ao mesmo tempo você vê os videos inteiros e sem marcação aparecendo do lado, sem nenhuma marcação. O que valeu e de que adianta aquele tanto de lixo na frente da foto?
3c) Me falaram que tem abrigo dificultando a adoção, porque o dinheiro que recebem todo mês pelas crianças é o que os sustenta, será verdade? Será que todas as crianças estão doentes, no aplicativo que vejo no celular tem um monte de adolescentes tomando "REMÉDIO PARA ANSIEDADE". Não seria um exagero rotular quase todos os adolescentes com observações deste tipo? Ou será pratica comum dar remédio para ansiedade em abrigos e instituições?
3d) Hoje fui ver a foto de um adolescente, colocaram os desenhos e uma cartinha que ele fez, e escrito quero ir morar na Europa. Poxa mas cadê a foto, qual o sentido disto?
3e) Um casal de jovens que pensei em adotar, lá está escrito. Portadores de enfermidade. Quem é cadastro para habilitação só pode pedir informação 1 vez. Poxa mas, existe uma diferença, entre uma pessoa ser diabético ou ser portador de HIV. Ter uma leve epilepsia tratável, ou estar com câncer no sangue. Mas aquela informação prejudica a adoção daquele casalzinho de irmãos tão bonitos. Não dá para ser mais claros? Não podia ter um botão pedir mais detalhes sobre a situação médica? Se a pessoa clica manifestar interesse perde o lugar na fila.....
3f) Um menino olhando de lado. Um vídeo mal feito, que o menino não olha para câmera, parece que foi obrigado a fazer o vídeo. É o melhor que podem fazer?
3g) Quase nenhum estado as crianças e adolescentes tem foto boas, e quase nenhum vídeo. É o melhor que podem fazer? Eu mesmo aqui no DF faria vídeos e fotos de graça para vocês com meu celular, só para estimular a adoção no Brasil.
3h) Pensando e pensando. Fico pensando com meus botões: Será que o programador é ruim, ou seu descaso com as vidas que envolve o sistema? Ou o CNJ não tem dinheiro para pagar um sistema que preste e aceite críticas? Melhorem!!! São vidas!!!!
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