A inviabilidade do Poder Judiciário brasileiro não é mais novidade para ninguém. Há muito a sociedade já o reconhece, e qualquer pessoa que tenha de recorrer à Justiça sabe das severas dificuldades que enfrentará. Só para se ter uma ideia, em recente manifestação pública, o ministro Luis Felipe Salomão, do Superior Tribunal de Justiça, destacou que, nos últimos 26 anos, o número de processos ajuizados no Brasil multiplicou-se em mais de 80 vezes — 8.000% —, ao passo que o número de juízes cresceu apenas de 4,9 mil para 16.927, ou seja, não chegou a 400% a mais, o que dá menos de 4 vezes. É uma desproporção dramática. Sistema nenhum no mundo, público ou privado, suporta essa realidade. A quebra é inevitável.
Só que as principais razões desse caos também já puderam ser identificadas, e estão aí igualmente há muito tempo. Surpreendentemente, entretanto, não são atacadas. A grande constatação, sem meias palavras, é que a forma como os assuntos mais importantes do país são conduzidos, incluindo o estado lamentável da Justiça, é um verdadeiro desastre.
As políticas públicas, em especial saúde e educação, nos níveis estadual e federal, por falta de critério, avaliação, planejamento e execução, levam a que se batam recordes de comparecimento nos balcões dos fóruns. A previdência foi historicamente assaltada, e, quando há alguma mudança, é sempre no intuito de fazer o segurado pagar a conta. Não à toa que o INSS é o ente público nacional que mais comparece na condição de réu em processos judiciais.
A política econômica, que se move ao sabor dos ventos, não tem segurança, e é extremamente mal conduzida, multiplica as ações decorrentes do sistema financeiro, principalmente quando o dinheiro da população é simplesmente surrupiado em planos econômicos irresponsáveis. Na hora de devolver o que foi afanado, bom, aí vêm os argumentos da inflação, descapitalização do sistema financeiro, fuga de investimentos estrangeiros, e por aí vai. Rematada hipocrisia: se não daria para devolver, porque pegaram?
E o que dizer das concessionárias de serviços públicos, em especial as companhias telefônicas? É um verdadeiro inferno diário. Milhares e milhares de processos gerados por deliberado descumprimento do mínimo de respeito para com o consumidor. E o pior, está tudo contabilizado, em um pensamento infame que se disseminou num oligopólio com o qual o governo federal é irritantemente complacente. Afinal, para que pagamos os tributos que mantêm as agências reguladoras?
Ou seja, vale mais a pena lesar a sociedade e achar até graça disso: quando alguém gritar, que “vá procurar seus direitos”. Mudar essa mentalidade para quê, considerando que, mesmo assim, os lucros são muito superiores? É a velha história, se o dinheiro é a razão de todas as coisas, como quem faz muito dinheiro pode estar errado? O problema é que pode! O “mensalão” e o “petrolão” que o digam!
E os precatórios — as dívidas do Estado, decorrentes de condenações judiciais — que, olimpicamente, não são saldados? Poucos sabem, porque isso não interessa comentar, que a Constituição prevê intervenção nos Estados que não pagam as contas. É, mas só prevê, porque, nessas horas, quando interessa, o Congresso age rápido, e inventa uma leizinha de ocasião, que autoriza o calote nu e cru, a olhos vistos, mas aí as críticas são apagadas, afinal, o povo é pacífico. Acaba de acontecer aqui no Rio Grande do Sul também, mas não foi muito comentado, porque, bom, afinal, isso é problema da Justiça, que não funciona…
O sistema tributário brasileiro é um emaranhado que ninguém compreende. E é pesado, e é caro. E o que é arrecadado é mal utilizado ou desviado. Resultado, a sonegação é infinita. E aí, o quadro é interessante: quanto mais se sonega, mais se tem de cobrar para sustentar o sistema falido; quanto mais se cobra, mais se sonega. Quem nasceu primeiro, o ovo? Quem saberá?!!
A criminalidade só aumenta, mata-se, rouba-se,…, é um filme de terror, e as grandes cidades viraram grandes prisões! E as prisões não funcionam, e estão transbordando. Porque sem uma educação de qualidade, e uma formação adequada, decorrente de uma paternidade responsável, as pessoas não respeitam os limites impostos pela lei, e vamos continuar produzindo criminosos aos montes. Nossas crianças seguirão brincando de mocinho e ladrão, e achando legal ser o bandido. Enquanto a base não for arrumada, nunca sairemos desse ciclo maldito.
As famílias enfrentam severas dificuldades. O número de divórcios explodiu, e o de adolescentes infratores, e o de pais que não conseguem ensinar limites aos filhos, também. A violência doméstica está aí, todos os dias, e os casos aumentam sem controle. E onde isso tudo vai desaguar? Na Justiça, que todos criticam e chamam de (argh) morosa!!!!!
E o quadro é esse: sabemos da doença, e dos incuráveis danos que ela gera; sofremos por isso, criticamos, conhecemos as causas, mas não mudamos. Seria porque “gostamos”? Isso se chama, assim, sem muito compromisso científico: neurose. Algo como um casamento infeliz, turbulento, sem amor, que vai se arrastando tristemente durante, digamos, 26 anos, pelo menos, mas ao qual, curiosamente, não botamos um fim.
Sem a arrogante pretensão de esboçar um diagnóstico, muito menos de sugerir mágicas soluções, lá vai: a Justiça brasileira tem de tomar uma atitude real, e sair da neurose. Isso implica parar de interferir em assuntos que não são de sua competência, fazendo-se respeitar como Poder de Estado e impondo um limite firme e sério a esse caos.
Veja: as soluções “heroicas” até agora propostas não ajudaram e nem vão: pesados investimentos em informática, construção de fóruns, aparelhamento, metas, sistemas, processo eletrônico, relatórios mensais, e…, e… Pergunta: o número de processos diminuiu? Não, vem aumentando, entra ano e sai ano. Então, é o seguinte, em time que está perdendo, há necessidade de substituição, o quanto antes. Mas o que mudar, afinal?
Lá vai: quando a pressão é insuportável, e não há válvula de escape, a panela estoura. Então por que ainda não estourou? Bem, verdade que está quase, mas, apenas por amor ao debate, digamos que ainda não estourou. Porque há uma válvula de escape. E essa válvula tem sido, justamente, durante, pelo menos, os últimos 26 anos, o Poder Judiciário brasileiro, aquele que é (argh) moroso.
Não é a toa que quase tudo chega a ele, e aí está o gargalo que gerou os 8.000% de crescimento de processos. Só que há um detalhe: vamos lá, sem segredos: muitos juízes brasileiros acreditaram, um tanto por ingenuidade, outro por idealismo, e um pouco até por vaidade, que poderiam ser a “balança da nação”, o ponto de equilíbrio, assumindo aquilo que chamam de (argh) “protagonismo” ou (argh) “ativismo”, seja lá o que for. O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, adora dizer que assumiu o papel de (argh) “protagonista”, para ser mais claro, ator principal, da novela, e que novela, política.
A equação é mais ou menos singela, e o pior cego é aquele que não quer ver: já que os Poderes Executivo e Legislativo, especialmente a nível federal, não se entendem, e não apresentam respostas satisfatórias, e…, e…, o Poder Judiciário, na base do canetaço, administra a saúde, a educação e a previdência, interfere nos juros bancários, pune as companhias telefônicas, gerencia as cadeias, e legisla em assuntos relevantes, como nepotismo, aborto, pesquisas científicas, casamentos, e até impeachment. E faz metas, e estatísticas, e projeções, e isso, incrivelmente, é objeto até de propagandas na televisão, com atores globais, pompa e circunstância.
Aliás, no último grande julgamento do Supremo Tribunal Federal, o sério candidato a “heroi nacional” foi o ministro Joaquim Barbosa. Tinha até gente usando máscaras imitando o rosto do jurista. Agora, é a vez do juiz Sergio Moro. Bacana!! Chique!! Só que não adianta nada. E não faz bem ao país. É como no futebol: quando o árbitro aparece mais do que os jogadores, é porque a partida vai de mal a pior!!
E com isso a Justiça brasileira inchou, em tamanho e em ego, de uma maneira incontrolável. Só que há um grande problema nisso: a função verdadeira de julgar, essa sim absolutamente necessária, está seriamente ameaçada, e vai sucumbir. A resolução dos conflitos reais do dia a dia está travada na imensa quantidade de processos decorrentes dos problemas acima referidos. E os juízes, a propósito de “contribuírem para o progresso do país”, e tornarem-se os (argh) “protagonistas” da nação, caíram na arapuca, aliás, mais que isso, ajudaram a confeccioná-la. Ou por acaso se acredita que a falência da Justiça não interessa a um montão de gente, e que a (argh) morosidade, também não?
Os mecanismos legítimos e democráticos de pressão sobre os Poderes Executivo e Legislativo para que, afinal, apresentem respostas ao povo, não têm sido exercidos de modo eficaz, muito embora manifestações públicas estejam acontecendo aqui e ali. É justamente porque a Justiça tem sido sempre chamada nesses casos. Só que aí o resultado é peculiar: a sociedade desvia o foco, e passa a exercer a pressão sobre os juízes, dizendo que eles demoram, (argh) demoram, e os outros Poderes seguem a vida normalmente: muito conveniente! A questão agora está na Justiça, deixe que ela resolva, só que vai demorar um pouco…
Então o que tem de mudar? A postura que está nas decisões, especialmente do Supremo Tribunal Federal. Curto e grosso. Se o Poder Judiciário, assumir o papel real que lhe é atribuído, dizendo, afinal, “não”, para assuntos que são de atribuição dos outros Poderes, a sociedade vai se mover em outro sentido, exercendo a pressão democrática real, e obrigando os agentes eleitos a mudarem sua conduta. O resultado disso pode ser uma ruptura, talvez. E rupturas doem, verdade! Agora, convenhamos, falar-se, como se faz, em estabilidade institucional, no atual estado de coisas, também é muita forçação de barra.
Recentemente, o ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, concedeu entrevista na qual disse que o Poder Judiciário tem de fazer o caminho contrário, ou seja, a desjudicialização. Concordo. Brilhante!! Mas quem vai fazer isso? A presidente da República, que está sob julgamento político no Congresso, ou no Supremo, já nem sei mais, e com as negociações respectivas a todo pano? A Câmara dos Deputados, exatamente na mesma situação? O Senado Federal, exatamente na mesma situação? Não! No que depender deles, nada vai acontecer. Pior que isso, vão adotar a soluçãozinha mágica: deixe que vá tudo para a Justiça, porque até ela resolver, tudo estará bem!!!
Então, isso nunca vai sair do discurso se a iniciativa real e concreta não partir do próprio Poder Judiciário, começando por sua Corte Suprema. Mas é complicado quando uma parcela de juízes acredita que as mudanças do mundo acontecem pelo poder mágico da caneta.
Juiz tem de ser juiz, e não especialista em medicamentos, vagas em creches, administração de presídios, computadores, sistemas, estatísticas, metas, e por aí vai. Juiz não é conselheiro familiar e nem educador de adolescentes rebeldes. As mudanças reais e efetivas têm de nascer na sociedade, de dentro para fora, através de seus mecanismos democráticos de pressão e decisão, e de seus representantes eleitos, e não nos fóruns, que não aguentam mais a judicialização da vida.
Juiz pode ser idealista, desde que isso esteja longe das decisões que toma nos processos. É, convenhamos, é um pouco difícil, então melhor que não seja!!! Decisão judicial é técnica e análise, baseadas no ordenamento jurídico, e não serve para a realização de sonhos pessoais. Interpretar significa extrair do texto legal a regra que o ordenamento jurídico quer estabelecer, e não aquela que o juiz pensa que é a ideal!
Por isso, uma singela sugestão: a Justiça brasileira tem de admitir o erro cometido, há muitos anos, ao “interpretar” a Constituição, acreditando que as coisas acontecem de fora para dentro, por decreto, do juiz, no caso, e que tudo pode ser objeto de ações judiciais.
Políticas públicas, incluindo a econômica, devem ser foco de debate no Congresso Nacional, e reguladas por leis claras e objetivas, retirando-se a intervenção judicial, salvo por via de ações coletivas, em casos excepcionais, e que devem ser de competência originária dos tribunais de Justiça. Alterações Constitucionais devem emanar do Congresso, e não do Supremo Tribunal Federal. As agências reguladoras devem ter maior autonomia e punir severamente as más práticas, inclusive com intervenções severas, e cassação das concessões. A judicialização, também nesses casos, só por via de demandas coletivas.
Os benefícios previdenciários devem ser concedidos via administrativa, com disposições legais igualmente claras, e com estatísticas mais técnicas e confiáveis. Construção e administração de presídios é competência do Poder Executivo, e a Lei Orçamentária, do Legislativo, e isso não pode influenciar as decisões criminais.
E, por fim, a mensagem institucional da Justiça brasileira deve ser clara: há um limite para tudo na vida, inclusive para o trabalho dos juízes. Se isso for compreendido e respeitado, iniciar-se-á um rumo diferente, oxalá melhor. Se não, enquanto a Justiça administra o país, e o Congresso e o Planalto ficam brigando por impeachment, as pessoas estarão em estado de guerra, resolvendo os conflitos reais pela força, porque o juiz está muito ocupado agora. Se não queremos isso, está mais do que na hora de mudar de atitude.

o caminho é este, porém quanto mais processos, mais lucros para os operadores do direito......
Os problemas tomaram uma dimensão sem precedentes. Claro tratar todos de uma vez só, seria como comer um queijo inteiro de uma sentada. O seu colega, embora, da Justiça Federal, esta tendo a coragem de enfrentar o grupo mais poderoso que se tem notícias no Brasil. Guardando as proporções com o poderoso da época Getúlio Vargas, que era democrático quando lhe interessava e ditador de novo quando lhe interessava. Esse que esta cercado pela "lava jato" que diz que foi o que mais fez como presidente esta na ante sala da carceragem da capital paranaense. É sim, um fato extremamente positivo, caso contrário a ordem bolivariana já estava instalada. De qualquer sorte, seu desprendimento de desabafar, as amarras que se colocou o judiciário como um todo é algo que vem necessariamente criar "arbitramento" para decisões do "dia dia" como refere. De resto, é aumentar urgente o número de Ministros do STF para 36. E STJ 200 Ministros, embora esteja por decisão política travado. Inclusive e principalmente de ordem financeira.
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