A busca do sucesso profissional, evidentemente não apenas na área do Direito, é uma aspiração comum. Negá-la pode ter duas razões, medo de enfrentar novos desafios ou simplesmente não tentar alcançá-lo para não precisar justificar eventual fracasso.
Na verdade, qualquer tentativa de crescimento pessoal e/ou profissional tira-nos da zona de conforto e coloca-nos em situação de risco. Isto é inevitável na longa caminhada que, em qualquer profissão jurídica, leva ao sucesso. No entanto, a maioria das pessoas, por medo do incerto, recusa-se a assumir qualquer tipo de risco e optam por algo menor, com menos oportunidades.
Como alerta Talita Abrantes, “O primeiro passo para conquistar o sucesso é defini-lo. É saber o que você quer para sua vida. Em outros termos, delimitar suas metas e objetivos de curto, médio e longo prazo”.[i] Os que se formam em Direito têm diante de si vários caminhos e a escolha já é o primeiro risco. Mas, regra geral, os estudantes de Direito focam suas aspirações em três opções: advocacia, concurso público ou magistério superior.
Advogar exige aprovação no exame de ordem e colocação profissional. Concurso, seja para qual for o cargo, exige renúncia e dedicação por três a seis anos até a possível aprovação. O magistério superior exige ingresso em um curso de mestrado e dois anos de dedicação absoluta, além de um investimento elevado se a universidade não for pública ou se não houver bolsa.
Mas, no pacote, está implícito que mesmo sendo grande o interesse e a entrega pessoal, em nenhum deles há garantia absoluta de sucesso. É o risco. Faz parte do jogo. Para Jorge Paulo Lemann o maior risco é não arriscar, e “o planejamento funciona justamente com a ideia de ter um Plano B, uma saída de emergência que funcione como alternativa para resultados não tão bons”.[ii]
O risco pode ser previsível ou imprevisível. Para o primeiro (previsível) a solução é um bom planejamento. Ele não assegura 100% de que será alcançado o objetivo, mas reduz ao mínimo a possibilidade de fracasso. Para o segundo (imprevisível) não há o que fazer, está dentro do imponderável. Por exemplo, após anos de estudo e alcançar-se a aprovação em um concurso público, o estado suspende as nomeações por falta de verba para pagar novos funcionários.
Vejamos como assumir e enfrentar os riscos nas três vertentes profissionais mais procuradas.
Se a escolha foi advogar, apresentam-se duas hipóteses: abrir o próprio escritório (maior risco) ou ingressar em um escritório como empregado (risco menor). Cada um avaliará qual situação mais lhe convém.
Mas o planejamento, que é inevitável, recomenda que se tenha um mínimo de vivência na área, que se tenha atuado em um escritório, mesmo que tenha sido como estagiário. É preciso ter ciência de como os trabalhos se desenvolvem, não só com o cliente, mas também na administração interna e na área judicial.
É preciso, também, ter uma estrutura mínima de trabalho. Por falta de dinheiro, às vezes é necessário dividir despesas, inclusive secretária e estagiário, com terceiros. Nisto não há nenhum problema. Porém, que confiança inspirará um advogado que não tem a mínima estrutura profissional, usa um celular e atende em casa? Dificilmente alguém lhe entregará uma causa mais relevante.
É preciso planejar a área de atuação, usando dados estatísticos da própria OAB (p. ex., população e número de advogados) e acompanhar os rumos da economia (p. ex., lendo jornais econômicos). Vejamos dois exemplos. Um positivo foi o crescimento do agronegócio, pois abriu oportunidades de especialização a muitos advogados. Um negativo pode ser a área de acidentes do trabalho, que no passado deu ganhos enormes a muito advogados, mas que, com o tempo, foi diminuindo de importância.
Atualizar-se sempre é essencial. Por exemplo, estudar o novo Código de Processo Civil, em cursos ou com grupos particulares, é obrigatório, a omissão é um suicídio profissional. O mestrado, além do alargamento de conhecimentos jurídicos, colabora para a imagem do profissional, gera segurança àqueles que pretendem contratar o advogado.
O concurso reclama anos de estudo e, ainda assim, não há certeza total do sucesso. Nunca é bom apostar em uma só carreira. Por vezes a felicidade está em outra, para a qual as portas se abrem. E nada impede que, conquistada uma função pública, se faça outro concurso para a da vocação.
Concursos hoje exigem planejamento. Há cursos para tudo, exame oral simulado e até coaching, orientando como se proceder nas mínimas coisas, inclusive psicologicamente. Evidentemente, tudo isto é pago e quem dispõe de dinheiro sai em vantagem. Mas nada impede que uma pessoa menos afortunada divida as despesas com colegas de estudo, inteire-se das novidades, assista a vídeos gratuitos na internet. Ao contrário do que se pensa, a maioria dos aprovados não é oriunda de classes sociais mais favorecidas. Estas pessoas, criadas no conforto e distantes da realidade da vida, não raramente acomodam-se e não avançam profissionalmente.
O magistério superior na área do Direito vem despertando interesse cada vez maior, principalmente entre as mulheres. Mas para tornar-se professor é preciso ter mestrado. E aí se exige planejamento e este vem desde o curso de graduação. Os exames exigem conhecimento de outro idioma, em alguns o inglês é obrigatório (v.g., FGV e PUC-PR). Durante o curso, a participação em projetos ou grupos de pesquisa, atividades complementares, ajuda na avaliação quando do concurso de ingresso.
E se o projeto de vida for só este, com exclusividade, ao mestrado deve seguir o doutorado. Fazê-lo em universidade diversa da que se fez o mestrado é bom para conhecer outros professores, diferentes métodos de ensino, visões do Direito e bibliografia diversas.
Ainda, no magistério as relações pessoais também são decisivas. Todos os títulos possíveis podem ceder diante de alguém amigo dos examinadores ou de quem decide. Isto é errado, mas é assim. O que se tem a fazer, então, é procurar ter amigos e todos os títulos do mundo e quando se tiver o poder de decidir não se deixar levar pelas recomendações.
Porém, muitas vezes os planos não se consumam, mesmo que tenha sido dada, a eles, a máxima dedicação. Seja qual for a profissão escolhida, o sucesso não veio. A advocacia não deu certo, a aprovação no concurso público não aconteceu e o exercício do magistério superior só foi possível em uma pequena Faculdade de Direito, com rendimentos equivalentes a pouco mais que dois salários mínimos.
Muito embora grande a decepção, é necessário saber lidar com a frustração. O insucesso faz parte da vida. Lamentar-se de nada adiantará e ainda fará com que as coisas fiquem piores. O caminho é pensar que nada foi inútil. O aprendizado em uma área com certeza auxiliará em outra.
Exemplificando, a advocacia dará a experiência necessária para o bom exercício de uma função pública. Os estudos para o concurso auxiliarão no magistério superior, unindo a prática à teoria. A base cultural adquirida com o mestrado auxiliará na advocacia. São linhas paralelas que se completam.
Finalmente, seja qual for a profissão, será ótimo ter um amigo sincero que aponte erros e deficiências. Poucos gostam de receber críticas, mas elas, quando sinceras, ajudam-nos a corrigir falhas. Assim, quando o alerta vier de alguém em quem se confia e de quem se gosta, a reação deve ser proativa (muito obrigado) e não reativa (já fiz isto e de nada adiantou).
De tudo o que foi dito, fácil é ver que em nossa vida profissional o risco será uma companhia permanente. Mas, sem ele, a vida pode tornar-se uma enfadonha rotina que nos empobrece o espírito e, muitas vezes, o bolso.
[i] ABRANTES, Talita. Em: http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/5-principios-basicos-para-ter-sucesso-na-carreira, acesso em 21.7.2016.
[ii] LEMANN, Jorge Paulo. Em: http://dinheirama.com/blog/2014/06/18/5-licoes-jorge-paulo-lemann-atingir-sucesso/, acesso em 22.7.2016.
Acredito que a fase de inseguranças acontece na vida de todos nós. O operador do direito, principalmente, por conta das inúmeras possibilidades que a formação jurídica nos trás, vive essa fase desde a faculdade.
Coloco-me na posição de estudante de direito que cursa o décimo semestre, já aprovado na OAB e que, desde criança, sempre quis advogar. Hoje, o medo e a insegurança me fazem refletir se é isso mesmo que quero e, ao mesmo tempo, quais são os riscos que estou disposto a correr para seguir a profissão dos meus sonhos.
Tenho certo preconceito com os concursos públicos. Mas, se questionado fosse, escolheria o da diplomacia pública. Profissão que, assim como a advocacia, me instiga. Mas também, em contrapartida, não tenho a certeza se é isso que quero para minha vida inteira.
Enfim, como o autor brilhantemente escreve, apesar de elaborar um projeto profissional, não devemos nos preparar para uma única direção. Com o plano, a possibilidade de nossos objetivos serem concretizados é quase que certa, mas devemos estar preparados caso isso não aconteça.
Agradeço pelo texto. Feito na medida certa para nós, futuros novos operadores do direito.
Prezado articulista!
Gosto de seus textos, mas gostaria de expressar minha perplexidade com uma sua opinião. O sr está MUITO errado ao afirmar
" Porém, que confiança inspirará um advogado que não tem a mínima estrutura profissional, usa um celular e atende em casa? Dificilmente alguém lhe entregará uma causa mais relevante."
Cada vez mais na área cível as pessoas estão percebendo que muitas vezes o advogado que trabalha sozinho é o que melhor atende. Figurões de superbancas geralmente PASSAM O CLIENTE PARA UM ESTAGIÁRIO MAL PAGO, INICIANTE e, não raro, ignorante. Completamente errado o articulista. A advocacia "personal" e altamente especiliazada é o futuro em muitas áreas.
Excêlente...
A vida profissional é como um navio que enfrenta águas revoltas.
O articulista fala em atualização e se mostra ao mesmo tempo em grande descompasso com a evolução do mercado de trabalho ainda vendo o atendimento jurídico em escritórios baseados no filmes americanos. O home-office é, não só uma tendência como se mostrou uma solução para a produtividade e qualidade de vida, devolvendo a possibilidade de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Sem enfrentar o trânsito, ter condomínio, água, luz a mais para adimplir o advogado ganha horas e receita para investir em cursos e em si mesmo. E sim, há estrutura. Eu mantenho uma sala maior do que muitas que aí estão para vender ou alugar, tenho telefone fixo embora hoje em dia o celular e mensagens sejam unanimidade e não pego "causas irrelevantes " pRibeiro porque isso não existe e segundo porque quando se tem a possibilidade de trabalhar de forma remota com o processo eletrônico o cliente quer ver resultado. Embora meu escritório não deva nada em elegância e estrutura, muitos de meus clientes não residem no mesmo Estado. Quando um artigo solta preconceitose sobre algo que seu redator obviamente não pesquisou, mesmo sendo já algo antigo, todo o artigo me gera dúvidas. Será que algum profissional não sabe da importância de se atualizar? Ainda que não o faça?
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