*Artigo publicado originalmente nesta quinta-feira (12/1) no jornal Folha de S.Paulo com o título "Decálogo do rinoceronte".
1. Não tolerarás a diferença nem respeitarás o desacordo.
2. Não perguntarás nem fraquejarás diante da pergunta. As respostas são evidentes, as soluções são únicas.
3. Expressarás desprezo pela política e por políticos, mas farás política com máscara de apolítica.
4. Opinarás com fé e convicção. Deixar-se convencer pela opinião contrária é derrota.
5. Não escutarás cientistas, especialistas, jornalistas. Ignorarás contra-argumentos, fatos, pesquisas. Não buscarás saber quem, como, onde e por quê.
6. Contra direitos, falarás em nome de uma entidade mística, abstrata, aritmética, imaginária: Deus, povo, maioria, "homem de bem". Contra direitos, invocarás uma missão civilizatória: fazer justiça, combater o crime e a corrupção, desenvolver a economia.
7. Desfilarás superioridade moral e intelectual, em nome da qual justificarás toda sorte de microagressões, linchamentos físicos e reputacionais.
8. Mostrarás o que é certo e como se faz, nem que seja no grito, no braço ou à bala.
9. Abraçarás slogans esvaziados de significado, fáceis de assimilar: politicamente correto, comunismo, feminismo. Atiçarás emoções primárias do seu público por meio dessas sínteses caricatas do mal.
10. Exigirás que sua particular forma de viver e se relacionar seja oficial. Dirás que essa forma é natural e as outras, desviantes.
No bestiário do primitivismo político brasileiro, entre mulas, raposas e serpentes, o rinoceronte tornou-se hegemônico. Acima, os seus dez mandamentos.
Na famosa peça "O Rinoceronte", Eugène Ionesco narra a resistência do personagem Bérenger diante da gradual transformação de concidadãos num animal que simboliza a desumanização da cidade. "Não se vê um único ser humano, a rua é deles", diz Bérenger.
A alegoria antifascista nos inspira a olhar para o embrutecimento do Brasil e nos ajuda a escutar os ecos da caverna que nos aguarda.
O rinoceronte brasileiro é guardião das mais cínicas falácias políticas em que nos enredamos.
Uma pequena lista: quanto mais armados os cidadãos e a polícia, maior a segurança; quanto mais se prende, mais se previne o crime; quanto mais se proíbe as drogas, mais se promove a saúde pública; quanto mais se corta em políticas de bem-estar, mais o Estado economiza; criminalize-se o direito reprodutivo das mulheres e a vida estará protegida; flexibilizemos regras ambientais e a economia crescerá.
Rinocerontes escondem que o estatuto do desarmamento reduziu as mortes por arma de fogo; o sistema prisional alimenta um crime organizado rico e inteligente; a guerra às drogas é uma das causas do encarceramento em massa, reforça o narcotráfico e a violência; há correlação entre cortes em políticas de bem-estar e aumento dos gastos em segurança; nunca se abortou tanto (nas clínicas privadas de bairro nobre e nas precárias de periferia); a mudança climática ameaça a vida de gerações presentes e futuras e o Estado, sequestrado por poderes econômicos arcaicos, permanece avesso a alternativas tecnológicas.
Rinocerontes não estão apenas nas redes sociais destilando racismo e homofobia, nas estações de metrô espancando homossexuais e quem os defende, praticando chacina contra família de ex-mulher e filho, nas TVs insuflando pânico moral.
Povoam ministérios, parlamentos, tribunais, movimentos sociais; estão dentro de casa. Não são loucos ou psicopatas.
"Os bons sujeitos dão bons rinocerontes", disse outro personagem de Ionesco. Estão coordenados, têm repulsa a direitos e liberdades iguais e lutam contra a possibilidade da democracia. Em nome do bem. Já não basta chamá-los para o diálogo.
Excelente artigo. Retrata bem a realidade brasileira e a aversão ao debate em nome de (pré)conceitos próprios do senso comum e desvinculados da realidade dos fatos. Parabéns ao articulista!
Daqui a pouco vai virar quase uma Carta Capital ou, talvez pior, um Brasil247...
Uma luz no fim do túnel, ainda se tem almas pensantes e destemidas. Parabéns professor.
Pois se pegar a curva criminal, verá que o número de homicídios aumentou exponencialmente após o desarmamento da população.
Através da sua alegoria, acusando "na largada" os outros, para que suas teses sempre prevaleçam pois tenta provocar constrangimento naqueles que divergem, esquece que países como a Suíça, EUA e outros permitem armas aos seus cidadãos e tem um número de homicídios MENOR do que em Bruzundanga; no caso dos EUA , mesmo com uma população bem maior do que a brasileira.
Fascistas são aqueles que querem que o Estado controle cada detalhe da vida da sociedade, criando uma aristocracia estatal que controla tudo e todos, sem oferecer nada em troca (ou muito pouco) e sem prestar contas a quem quer que seja.
Com um número de 60.000 homicídos/anos, após mais de década de governos ditos progressistas, é um insulto a inteligência alheia ainda colocar pechas naqueles que não desejam nada demais, que seja viver em um país civilizado e pacificado.
Ou o articulista acha o cidadão Suíço (ou americano) melhor do que o brasileiro?Ou o articulista acha que a sociedade não merece sair às ruas sem ser roubada, humilhada (como aconteceu hoje em Copacabana, RJ) ou assassinada?
Nossos "intelectuais", sem Nobel algum, se alimentam do triste embrutecimento de uma sociedade que, com certeza, é, em sua maioria, ordeira e cumpridora dos seus deveres.Mas, hoje em dia, até isto é motivo de deboche. Os "homens de bem", na fantasia do articulista, não existem.
É todo mundo igual, de preferência nivelados por baixo.Assim, já que ninguém tem culpa de nada, TODOS são culpados, não é mesmo?
Não há responsabilização de ninguém, por nada.O Estado que só tira dinheiro do contribuinte, agradece esta visão deturpada da nossa sociedade.
Infelizmente as "otoridades" brasileiras por incapacidade ou teimosia não souberam ou tiveram discernimento para fazer escolhas para conduzir o pais ao seu real e merecido status! Uma pena, pois o retrocesso é iminente!
Infelizmente as "otoridades" brasileiras por incapacidade ou teimosia não souberam ou tiveram discernimento para fazer escolhas para conduzir o pais ao seu real e merecido status! Uma pena, pois o retrocesso é iminente!
Agradeço a oportunidade para o debate.
Este outro estudo, cotejando melhor os dados, pois vistos de forma "fria" podem enganar, e comparando com períodos anteriores, comprova que os homicídios aumentaram após o estatuto do desarmamento.
Bandido nunca respeitou leis.E agora não encontra obstáculos
http://www.mvb.org.b r/campanhas/estatuto_impacto.php
Publicado no JusBrasil
http://rebelo.jusbras il.com.br/artigos/266705338/apos-o-estat uto-do-desarmamento-homicidios-com-uso-d e-arma-de-fogo-sao-os-que-mais-crescem
Nesta época de boçalidade generalizada, em que o agressivos energúmenos perderam a modéstia e ameaçam destruir com o seu primitivismo antediluviano conquistas civilizatórias, ler um artigo como esse é um alento!
Primitivo é o cidadão que se pensa civilizado, mas não perde a chance de, do alto da sua arrogante adesão ao que parece "bonito", deixar claro seu primitivismo agressivo ao ofender e menoscabar quem pensa diferente.
A contradição existencial e o primitivismo mais boçal andam juntos
Tenho que parabenizar as corajosas posições do colega João Afonso e do Observador que visualizaram o "chifre do rinoceronte" infiltrado nas palavras do arttigo e usaram outros dados que não os oriundos de suspeitas fontes, festejadas pela midia descompromissada com a verdade, para rebater.
Talvez o autor não tenha se apercebido que, ao longo do texto, ao atacar, adjetivando retrogradas as possíveis idéias contrarias, acabava assumindo a forma rinocerontídea que queria criticar. Ou desconsiderou a inteligencia alheia, o que, convenhamos, além de falta de educação, é uma escancarada manifestação sectária.
Tenho que parabenizar as corajosas posições do colega João Afonso e do Observador que visualizaram o "chifre do rinoceronte" infiltrado nas palavras do arttigo e usaram outros dados que não os oriundos de suspeitas fontes, festejadas pela midia descompromissada com a verdade, para rebater.
Talvez o autor não tenha se apercebido que, ao longo do texto, ao atacar, adjetivando retrogradas as possíveis idéias contrarias, acabava assumindo a forma rinocerontídea que queria criticar. Ou desconsiderou a inteligencia alheia, o que, convenhamos, além de falta de educação, é uma escancarada manifestação sectária.
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