O Documento 319 do Banco Mundial e o Judiciário na América Latina

Na semana passada, a coluna versou sobre relatórios do Banco Mundial publicados em novembro de 2017, com os títulos: “Um ajuste justo: análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil” e “Políticas de apoio às empresas no Brasil: grandes gastos, pouco impacto”. Percorrendo o teor, percebe-se que o nome dos documentos é elucidativo, transmitindo a mensagem de que o erário gasta muito mais do que arrecada e o faz em benefício imediato dos ricos (servidores públicos, políticos, empresários) e prejuízo mediato para toda nação que se vê na iminência de voltar ao caos fiscal/orçamentário dos anos 1980/90.

A toada da prosa é sobre a relação do Judiciário com o “ajuste justo”. A tanto, é preciso ir a 1996, quando o Banco Mundial publicou o Documento Técnico 319, denominado “O setor Judiciário na América Latina e no Caribe: elementos para reforma”. A vociferação contra a destruição do Judiciário (a palavra desconstruir não estava na moda), contra o imperialismo ianque que pretendia manietar o Judiciário para fazer da América Latina o seu quintal etc., já deixou de vibrar nos tímpanos há muito. Creio, a juventude sequer sabe da existência do tal documento, que foi demonizado, e o nome da relatora, Maria Dakolias, entrou no rol daqueles que não se pronunciam.

O Documento 319 falava sobre a lisura na nomeação de magistrados, sistema disciplinar, orçamento, gestão de acervo, meios alternativos de resolução de conflitos. Da rejeição irracional, calcada puramente na crítica a quem havia produzido o estudo — objectio ad personam —, passou-se à implementação das sugestões, culminando com a Emenda Constitucional 45. Politicamente incorreto hoje é propor mudanças nos preceitos veiculados pela EC e nas leis de modernização.

Concursos efetivamente aferidores do conhecimento jurídico, sem exame do DNA dos candidatos, criação do Conselho Nacional de Justiça, intensificação dos Juizados Especiais, estímulo normativo e administrativo às formas não conflituosas de solução de lides, criação de base de dados com a formulação de estatísticas e publicidade de produção, produtividade, salários. A arquitetura atual da instituição judiciária no Brasil tem muito do desenho feito pelo Banco Mundial há duas décadas e a ninguém ocorre verberar contra os imperialistas que usaram de estratagemas pérfidos para dominar a Justiça brasileira.

Vê-se, há relação antiga, umbilical, com o Banco Mundial, e a análise do “ajuste justo” ora proposto deve ser isenta de preconceito ideológico, para formar pós-conceito. Se a fonte impura contaminasse a água ad perpetuam, opor-se a qualquer modificação da arquitetura do Judiciário implicaria defesa das normas produzidas com suporte no AI-5, no Pacto de Abril de 77 e na Loman de 1979. Inexistem defensores da origo legis ditatorial, mas há conservadores da dicção e da mens legis atual. Esses conservadores, que se creem progressistas por se opor ao Banco Mundial, podem se abrir a análises que demonstrem que o aggionarmento do Judiciário é necessário e não deve ser à moda lampedusiana, mudando para remanescer.

A temperatura não deve subir nem quando a leitura chegar na parte que versa disparidade entre salários públicos e da iniciativa privada que instala no quintil mais rico da população 83% dos servidores federais, destacando-se funcionários e agentes políticos do Ministério Público e Judiciário. Por meio dos números, os fatos dizem “presente”.

Então, objectio ad propositum desensarilhada e a crítica ad personam completamente alijada, vamos ao debate. A primeira perspectiva é o ajuste no tamanho da máquina judiciária e seu custo. Ajuste para dentro. A segunda mirada é a postura do Judiciário como poder e seu entendimento, quando provocado nas vias processuais, sobre normas que tenham o telos do ajuste do conjunto do aparato público brasileiro.

A democracia não tem preço! A afirmação exclamada como resposta impeditiva do debate sobre o custo do Judiciário é verdadeira num sentido e falso n’outro. A verdade deita raízes na ciência dos efeitos perversos das tiranias pessoais e/ou ideológicas. Sim, as autocracias (palavra antônima) podem até gerar sociedades economicamente remediadas, mas não felizes. A opressão à diversidade, especialmente à do pensamento sobre a própria política, gera embotamento da criatividade, do viço social. Então, todos os custos emocionais são módicos para alcançar, manter e aprimorar a democracia (rectius, poliarquia).

Judiciário forte, independente do poder político legitimado pela fonte direta, o voto dos condôminos da República, é uma das premissas para a mantença e sofisticação democrática. Para que exista tal instituição é imperioso pagar salários, custear instalações físicas. Qual o custo razoável para cada sociedade?

Dados, informações e análises há em abundância. Para a argumentação em curso, adotou-se o estudo de Luciano Da Ros, denominado “O custo da Justiça no Brasil: uma análise comparativa exploratória”. Nesse estudo, há várias demonstrações que colidem com o senso comum, a exemplo da ideia de que o Judiciário é caro porque os juízes são bem remunerados. Os números revelam o principal motivo: o Brasil tem a maior proporção de servidores judiciais por 100 mil habitantes no mundo; são 205. Na Inglaterra, 30; Portugal, 58; Alemanha, 67. Argentina, 150.

No métier jurídico, a Alemanha é tratada como Nirvana. Então, mais um número alemão: são 24,7 juízes para 100 mil habitantes. Há muitos juízes em Berlim! Contudo, poucos têm a completude de investidura de juiz brasileiro e por isso são remunerados de modo parco, muito parco. No Brasil, há 8,2 juízes para cada 100 mil habitantes, e o gradiente remuneratório é estreito. Um novato tem salário parecido com o dos veteranos.

Na Inglaterra, são 3,8 juízes para 100 mil habitantes e não se pode dizer que faltam garantias aos súditos de sua majestade. Combine-se a pequena quantidade de funcionários e de juízes para ver que o Judiciário do Reino Unido é muito barato e a democracia não parece ameaçada por isso.

Da Ros chama de “burocracia jurídica” o aparato: Ministério Público, Advocacia Pública, Judiciário. Esse conjunto custou, em 2015, 1,8% do PIB. A média na União Europeia é de 0,33%. À objeção de que a comparação com a Europa é inadequada porque são democracias maduras, é de se lembrar que gastamos mais do que qualquer país vizinho, com história política semelhante. Além disso, a maturação europeia é recente, saindo da hecatombe autoritária do nazifascismo. Nem por isso o custo com o Judiciário europeu foi às estrelas.

Novamente, a questão da arquitetura da casa. A Constituição de 1988 trouxe benefícios e problemas. Esses fizeram disparar a litigiosidade a patamares sem equivalência em outros povos.

Falta examinar e prognosticar a postura do Judiciário ante eventuais normas de implementação do “ajuste justo”. Além disso, perscrutar a externalidade negativa e não visualizada da Constituição vigente sobre a litigiosidade em sede judicial. Assunto para domingos vindouros. Até lá.

Friedmann Wendpap

é juiz federal em Curitiba.

O IDEÓLOGO disse:
14 de janeiro de 2018 às 15:23

Não se pode comparar a Democracia dos britânicos e alemães com a Democracia Brasileira. Temos uma população em número e composição diferente da Alemanha e da Inglaterra, oscilando em 200/205 milhões de almas. Negros e mulatos, ao contrário do articulista, branco, são diariamente, espezinhados, ainda que sejam maioria.
O número de conflitos decorrentes de questões de gênero, raça, relacionamento social, previdenciários, penais, trabalhistas, familiares, são elevadíssimos.
Precisamos, não de mais Juízes, mas de servidores públicos no Poder Judiciário.

Voluntária disse:
14 de janeiro de 2018 às 17:47

O artigo analisa tema pouco estudado, com muita competência. Parabéns ao autor. Apenas um aspecto merece crítica, que é quando, sobre a remuneração do juiz, diz que o "Um novato tem salário parecido com o dos veteranos." Não é assim. No Brasil um juiz substituto pode ganhar mais que ministro do STF, basta que responda por outra Vara, recebe verba eleitoral ou auxílio-moradia.

Rejane Guimarães Amarante disse:
14 de janeiro de 2018 às 18:14

Era uma vez um mundo de castelos e feudos, de nobres e cavaleiros, de princesas e clérigos.Uma pequena elite proprietária de grandes áreas de terra fértil, onde habitavam e trabalhavam servos e escravos. A realidade histórica conheceu uma nova forma de organização social no mundo ocidental há alguns séculos, porém as famílias ditas de "sangue azul" e seus simpatizantes continuaram a viver esse feudalismo "imaginário", numa rotina de rituais e eventos "secretos". Sobre o "sangue azul" dessas famílias, muito poderia ser dito, mas isso é conversa para outra hora. O que importa para o momento é destacar o que vem ocorrendo na Califórnia, atingida por terremotos, incêndios e outras "intempéries", que vêm devastando grandes áreas, destruindo propriedades particulares e tornando milhares de pessoas desabrigadas e dependentes de auxílios estatais. Dentre as famílias "nobres" da Europa, uma determinada família da região da Bavária, integrante da nobiliarquia BOHEMIAN, "cedeu" exércitos e "cavaleiros" ao nazismo. O conhecido megainvestidor e especulador (não vou citar nomes) colaborou ativamente com os nazistas. Perderam a II Guerra, mas não a mania. Tinham "riquezas" bem guardadas e mais outras que "roubaram" durante a guerra e criaram bancos e empresas. Corromperam políticos e "encomendaram" leis ambíguas a serem interpretadas da forma que lhes convier no momento oportuno.O conhecido ator de Hollywood e político de origem austríaca (não vou citar nomes) é um príncipe da Bavária, nesse mundo paralelo de sociedades secretas, e, também, é o Duque da Califórnia. O poder dessa gente, hoje em dia, é o sistema financeiro e a tecnologia. Estão usando esse "arsenal" para "tomar posse" dos territórios. Ou o povo coloca essa gente na cadeia, ou será escravizado.

Dyego Phablo dos Santos Porto disse:
15 de janeiro de 2018 às 11:13

Falar de gastos públicos no Brasil e não tecer uma palavra sequer sobre juros é de uma ingenuidade imperdoável para quem, inclusive, utiliza números como argumento de autoridade. Nesse momento, a União gasta quase 50% do que arrecada com juros, em média 21% com previdência (fundamentalmente com militares, políticos, juízes e desembargadores) e o restante para tudo o mais (infraestrutura, saúde, educação, segurança pública etc). Thomas Piketty veio ao Brasil e deu entrevista ao Roda Viva, dizendo-se surpreso com a política de juros no Brasil. Joseph Stiglitz, Nobel em Economia, disse que temos uma peculiaridade que não guarda correspondência com nenhum lugar do mundo: a política de juros. Na mesma entrevista, disse que os EUA só superaram a crise de 29 devido aos altos investimentos públicos em setores estratégicos, e não enxugando a máquina. Para cobrir a dívida, o Estado tem que arrecadar, e para arrecadar ele tem que investir, diz o economista. Isso soa até elementar, mas no Brasil de hoje, não. Enfim, a soberania paralela, como diz o Jessé Souza, é quem manda no País e faz a rapina das receitas públicas. Por outro lado, há quem se omita em relação a isso. País da pátria!

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