Para alvos estreitos, qualquer PDF-que-vai-direto-ao-ponto serve

Abstract: Na Era Digital, a neocaverna aumenta! E se compram menos livros. Dia a dia, menos!

Spacca

1. Um trágico diagnóstico
Em 2019, Henderson Fürst já havia anotado (e eu comentado aqui) o trágico diagnóstico envolvendo o mercado de livro técnicos, científicos e profissionais. Em síntese, à época constatou-se que o número de advogados e de faculdades de Direito aumentava, mas a venda de livros encolhia 65,8%, nos três anos que antecederam a correlação de fatores apontada por Fürst. Não é pouca coisa e, convenhamos, não parece uma estatística, digamos, contingencial.

Embora não tenha ficado indiferente, não posso dizer que “corei” com os dados apresentados no ano passado. Após mais de três décadas de docência acadêmica, sei perfeitamente como é o “perfil” de nossos estudantes. Ao objetivarem as carreiras jurídicas facultadas, claro, pelos tantos cursos de Direito espalhados pelo Brasil, esses mesmos alunos instrumentalizam o aprendizado.

Quero dizer, se há algo de útil visualizado no horizonte dessa geração de estudantes (e de algumas passadas também), essa “utilidade” não vai além de passar na “prova da OAB” ou num concurso aqui e outro acolá. O objetivo é sempre esse, e o caminho é ululante: para alvos estreitos, qualquer PDF-que-vai-direto-ao-ponto serve. É a Era do Resumão. Mauro Mendes Dias, em seu O Discurso da Estupidez, mostra bem isso, quando fala do “ponto surdo” do discurso.

Mas vejam qual é o busílis aqui: estou culpando o aluno? É claro que não. O sujeito não tem culpa de estar inserido nessa lógica estupidificante. Meu ponto é que há que se sobreviver à estupidificação – precisamente porque jabuti não dá em árvore e é ‘isso tudo que tá aí’ que causa… isso tudo que está aí. Pois é.

2. Mais um trágico diagnóstico: ainda lemos?
Agora, em parceria com a economista Mariana Bueno, Fürst volta ao tema (aqui) e traz um dado que, especificamente, chamou minha atenção. Se em 2014 foram produzidos cerca de 14 milhões de livros jurídicos, em 2019 esse número foi de pouco mais de cinco milhões. A redução chega a ser constrangedora e, para além de minha análise, algumas hipóteses são dispostas. Embora não cubram o déficit, temos, por exemplo, o advento de literatura especializada em formato digital.

Henderson e Mariana mostram, entretanto, que o buraco é mais embaixo. O ponto não é em que formato lemos, mas se lemos. Puxando dados da 5ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o percentual da população brasileira considerada leitora caiu de 56% em 2015 para 52% em 2019. Mais grave: entre os universitários de 18 a 24 anos, o tombo foi ainda maior, passando de 67% para 59%.

Ou seja, se já parecia estarrecedora a ideia de que pudesse haver um universitário “não leitor” (e 33% era em 2015!), em 2019 esse índice aumentou para 41%. É pasmante: quase metade de nossos universitários nesta faixa etária, da Medicina ao Direito, não lê. Repito: não lê livros. Como é possível isso? Como é possível que se tenha aberto mão da mais mínima condição de possibilidade para uma formação?

Parece haver — e o texto de Henderson e Mariana é pródigo em mostrar isso — uma espécie de desvio de curso no objetivo com a leitura. Se parece — ou parecia — óbvio — que este hábito, ao menos durante as graduações, voltava-se à prospecção de “atualização cultural ou conhecimento geral”, buscando, ainda e sobretudo, “aprender algo novo ou desenvolver alguma habilidade” etc., agora a “leitura” parece voltar-se mais especificamente ao desenvolvimento de algum softskill, ou seja, ao desenvolvimento de habilidades comportamentais ou “competências subjetivas difíceis de avaliar”. Seria algo como, ao invés de se procurar aprender “Direito Constitucional” na faculdade de Direito, o aluno buscasse desenvolver “habilidades de trabalho em equipe”. Estudo do “novo normal”.

3. As consequências vêm sempre depois!
Sim, sim, é claro que não pode dar certo. Como diria o Conselheiro Acácio, “as consequências vêm sempre depois”. Nesse ritmo, o futuro não parece promissor. Preocupante? Calma. Pode piorar. Afinal, mesmo esse tipo enviesado de conhecimento (?!) “perde” para outras atividades, como “assistir TV”, “navegar na internet”, “ouvir música ou rádio”, “usar o WhatsApp” e “assistir filmes”. Já não importa se o livro científico, técnico ou profissional é caracterizado por conteúdo preciso e confiável. Bom mesmo é o Youtube. Um filminho. Ou um blog. De quem? Não importa.

Henderson e Mariana buscam explicações na quantidade de matriculados ou na migração de conteúdo impresso para o digital, mas logo concluem que nem isso “explica”, no todo, a queda no consumo de livros voltados ao conteúdo técnico, científico e profissional. Longe disso.

E é aqui que eu volto ao ponto fundamental, que esbocei lá ao início. Há — e de há muito venho alertando sobre isso — uma migração rumo às facilitações e aos atalhos. Henderson e Mariana mostram a generalidade de minhas constatações. Ou seja, não é só no Direito. Esse “novo jeito” de dominar uma profissão parece ter se alastrado. Hora de estocar comida? Parece que sim. É muito Direito 4.0 e quejandos. É muito desing.

Pois é. Os autores do texto que motivam estas análises, ao final do argumento, observam que não é possível determinar os impactos desse universo de não leitores, seja para o mercado, seja para os futuros profissionais. Mas convidam, dada a relevância do tema, à reflexão sobre este cenário e sobre tão estarrecedores dados. É aqui que me encaixo.

4. Os porquês!
Intuo que talvez avaliar os impactos desse lamentável estado de coisas no mercado editorial seja, de fato, uma tarefa de resultado mais impreciso. Afinal de contas, há toda uma plasticidade envolvendo nichos comercializáveis que pode, muito bem, canalizar saídas estritamente mercadológicas. Aqui não palpito. Além do mais, essa discussão — embora reconheça a importância — não me interessa. Por outro lado, arrisco ensaiar uma sequência ao debate proposto por Henderson e Mariana no que se refere ao “desenvolvimento” desses indivíduos que projetam o domínio de uma profissão à margem de leitura apropriada. Recorro, para isso, à filosofia e à ciência.

Comecemos pelos paradigmas filosóficos. No contexto do movimento conhecido como ontological linguistic turn, em que a linguagem passa a inundar as disciplinas normativas da filosofia como “questão central” na contemporaneidade, Heidegger observou que essa mesma “linguagem” era a “morada do ser”. Isso significa que a linguagem é a condição de possibilidade para o pensar. Não há mundo fora dela. Traduzindo: se a realidade existia independentemente do sujeito na metafísica clássica e, no paradigma moderno, era revelada através da racionalidade humana, com o giro ontológico-linguístico ela, a realidade, existe tão-somente a partir da linguagem.

Sem perder de vista esta lição revolucionária da filosofia da primeira metade do século XX, voltemos, agora, às observações acerca da utilização de livros técnicos, científicos e profissionais, há pouco vistas, para indagar: estamos, com a significativa redução da prática da leitura, procurando “ter mundo”, isto é, “desvelar o mundo de uma determinada profissão”, apropriando-o, paradoxalmente, “sem linguagem”?

Ainda que a resposta afirmativa — e não pode ser outra — seja contraintuitiva, isso significa que, sim, é hora de estocar comida. Está clara, afinal, a imensa contradição que temos aí: projeta-se a formação de profissionais “sem mundo” justamente naquilo que pretendem (e devem) dominar. Mais que um “atalho”, uma “simplificação” ou um “macete”, a substituição da leitura por outros acessos “rouba” linguagem. Sonega, portanto, “mundo”. Eis o ponto.

5. A Fábrica de cretinos digitais
Ponto, aliás, em que a ciência vem dando seus alertas. Recentemente, li na Folha de S. Paulo que, pela primeira vez, os filhos têm QI inferior ao dos pais (aqui). É esse o abstract de A fábrica de cretinos digitais, do neurocientista francês Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França. A partir de uma série de dados bastante conclusiva, observa ele que os dispositivos digitais — entre os quais aqueles que, vimos antes, têm substituído os livros — estão afetando negativamente o desenvolvimento neural de crianças e jovens.

Embora o QI seja afetado por diversos fatores, que podem ir desde sistemas de saúde e educação, por exemplo, sem deixar de mencionar, é claro, condições socioeconômicas, o que até então se observava era que, em muitas partes do mundo, a geração subsequente a de seus pais tinha QI mais elevado. Era o “efeito Flynn”, em homenagem ao psicólogo que descreveu o fenômeno. Entretanto, mesmo frente à estabilidade desses sistemas interferentes, o neurocientista francês observou que países como Noruega, Dinamarca, Holanda e a própria França, entre outros, têm visto a diminuição do “efeito Flynn”. Na sua entrevista, é taxativo nesse sentido: “Os ‘nativos digitais’ são os primeiros a ter QI inferior ao dos pais”.

Isso tem ocorrido não pela “falta de leitura”, explicitamente, mas porque há um significativo prejuízo — a partir dos “novos hábitos digitais” — ao desenvolvimento da linguagem que, já sabemos, é a condição de possibilidade para se “ter mundo”.

Não estou aqui a pregar a “volta do lápis”. Sou, como já disse à saciedade, um “jurássico” em termos “constitucionais”. A tecnologia é boa. E eu gosto. Sigamos com a Revolução Digital. Mas parece-me insano (sobremodo, depois de ler a entrevista de monsieur Desmurget) apostar no acesso à especificidade de cada mundo profissional, privando-se de linguagem. O “mundo de cada profissão” — e friso aqui o jurídico, notadamente complexo — não pode ser desvelado a partir de atalhos, PDFs e resuminhos. Agora “resumos haitequi. E nem por algoritmos ou legal designs. Ou thinkings.

6. O que teremos, então?
A (des)leitura do livro jurídico, substituída por fórmulas simplificadas e por todas as “novidades” que ocupam o espaço da (boa) literatura especializada, vão cotidianamente acumulando informação que não produz sabedoria, conhecimento que não dá “mundo” a ninguém. Anos e anos de Caio, Tício, Mévio e gêmeos xifópagos , de exemplos abstratos, bisonhos e bizarros que não significam nada e tornam o Direito algo completamente separado do tempo e da facticidade de há muito já nos mostram isso. Denuncio isso há mais de 30 anos.

O que se sabe agora é que podemos anabolizar esse lamentável estado de coisas. É a epidemia da neocaverna no Direito para outras áreas do saber. Preocupante. É bom, por isso mesmo, estocar comida.

Em tempos de tantas crises — sanitária, econômica, humanitária —, parece que enfrentamos uma nova crise; esta, voluntária, e foi mencionada pelo ex-presidente americano Barack Obama, em comentário à (agora obscurecida) distinção entre o que é fato e o que é ficção: uma crise epistêmica. A gravidade disso é que a chave para a superação de todas as crises (ou quase todas, que seja) é precisamente a sabedoria. A sabedoria, não a informação, não o conhecimento.

Livros são, já dizia George Steiner, a chave para nos tornarmos melhores. Melhores acadêmicos, melhores profissionais, melhores indivíduos — e a coletividade é constituída por… indivíduos.

Daí por que, se a crise é ‘estrutural’ (e parece que é), também não cedo à tentação de culpar tudo na ‘estrutura’. Agora isso virou moda também. Onde fica a responsabilidade e a possibilidade de transcendência, pois? Daí por que volto ao mote: há que se resistir ao processo de estupidificação. As coisas não são por acaso, afinal.

Ou seja: O direito que se aprende facilitado é produzido facilitado, interpretado e aplicado “facilitadamente”. Sim, facilitada-mente. Mente facilitada. Mente-se com facilidade. Afinal, todos os que lidam com o Direito não são filhos de chocadeira. Juízes e promotores e defensores e advogados um dia foram… alunos. Que aprenderam com seus professores, que eram “só professores” (sic), juízes, promotores, defensores, delegados, procuradores, fiscais de rendas e advogados. Que, por sua vez, aprenderam com seus professores, que também eram juízes e promotores e defensores e advogados. Que já haviam sido alunos. De professores, que… bem, vocês entendem. Não quero chegar numa norma fundamental aqui…

Resistamos. Porque as palavras, diz Mauro Mendes Dias, estão perdendo — ou já perderam — a condição de transformar o sentido.

Ou estoquemos comida. Antes que alguém invente uma startup de estoque de comida ou estoque de algoritmos. Porque livro que é bom, nem pensar. Olhem para seus alunos. Vejam quantos livros carregam? Ou para seus amigos.

PS: parabéns, Henderson Fürst.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
19 de novembro de 2020 às 08:14

As meditações do Doutor Lenio, exatamente publicadas às 08h das quintas-feiras.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
19 de novembro de 2020 às 08:25

Diz parte do texto do mestre Lenio: "1. Um trágico diagnóstico
Em 2019, Henderson Fürst já havia anotado (e eu comentado aqui) o trágico diagnóstico envolvendo o mercado de livro técnicos, científicos e profissionais. Em síntese, à época constatou-se que o número de advogados e de faculdades de Direito aumentava, mas a venda de livros encolhia 65,8%, nos três anos que antecederam a correlação de fatores apontada por Fürst. Não é pouca coisa e, convenhamos, não parece uma estatística, digamos, contingencial.
Embora não tenha ficado indiferente, não posso dizer que “corei” com os dados apresentados no ano passado. Após mais de três décadas de docência acadêmica, sei perfeitamente como é o “perfil” de nossos estudantes. Ao objetivarem as carreiras jurídicas facultadas, claro, pelos tantos cursos de Direito espalhados pelo Brasil, esses mesmos alunos instrumentalizam o aprendizado.
Quero dizer, se há algo de útil visualizado no horizonte dessa geração de estudantes (e de algumas passadas também), essa “utilidade” não vai além de passar na “prova da OAB” ou num concurso aqui e outro acolá. O objetivo é sempre esse, e o caminho é ululante: para alvos estreitos, qualquer PDF-que-vai-direto-ao-ponto serve. É a Era do Resumão. Mauro Mendes Dias, em seu O Discurso da Estupidez, mostra bem isso, quando fala do “ponto surdo” do discurso".

Os livros jurídicos são destinados a um micropúblico. A massa de interessados nos livros prefere livros impressos e trocar edição por edição.
A retração do mercado de livros jurídicos é decorrente, intensamente, da Internet, das mudanças legislativas repetidas, da diminuição da renda daquele comprador habitual e da ausência de recursos daquele que inicia o curso de Direito.
Também, a influência do direito anglo-saxão, menos...

M. R. disse:
19 de novembro de 2020 às 08:39

O texto é cirúrgico e denuncia esse lamentável estado de coisas em que atualmente nos inserimos. Toda essa "simplificação" do Direito - aliada a essa revolução digital que trabalha para facilitar a vida do indivíduo e não aprimorar a práxis jurídica - se reflete diretamente na formação dos juristas de hoje. Esse é o ponto que me preocupa mais. O que será daqui para frente? Como iremos lidar com o juiz que estuda a partir de algoritmos, resumões, control "c" control "v" e de leituras fragmentadas (pela facilitação tecnológica de poder se procurar o tema por meio de um simples clique)? Não é por acaso que há mais de dez anos observamos um movimento que despreza as garantias constitucionais e relativiza tudo o que não interessa à decisão pré-definida. E o problema não está só centrado na figura do juiz ou concursado. Também na do advogado. Afinal, que tipo de jurista teremos se a vida dele se resume a passar na OAB? E a estrutura da prova? Bom, também não é por acaso que é possível observar advogados que odeiam o direito de defesa. Triste cenário. Apesar do meu ceticismo, realmente, espero dias melhores.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
19 de novembro de 2020 às 08:41

propenso a discussões filosóficas, mais pragmático, com educação dirigida à solução dos problemas jurídicos.
O domínio é do Mercado Capitalista, que interfere no pensamento, "no habitus", no exato pensamento do sociólogo francês, Pierre Bordieu, nas expectativas do cidadão que atua no mundo no qual impera a mercadoria (lembro que Karl Marx emprestou realce à mercadoria - no qual são sintetizadas as relações sociais) e em seu comportamento.
O que é um livro jurídico? É mais uma mercadoria no sistema de relações capitalistas.

John Paul Stevens disse:
19 de novembro de 2020 às 08:55

Estoquemos comida. Dureza.

Rejane G. Amarante disse:
19 de novembro de 2020 às 09:15

Concordo com o comentário do ESCUDEIRO JURÍDICO de que há muitas contingências nas estatísticas mencionadas para que se possam tirar conclusões só à vista delas. Estou inserida no mundo digital em profundidade. Com isto quero dizer que, desde o final da década passada, já assisti a um número de horas de vídeos que com certeza superam a carga horária dos cinco anos que passei na faculdade de Direito. E foram muitos vídeos de diferentes áreas do conhecimento e muitas informações valiosas às quais eu não teria acesso não fosse o meio digital. Além disso, há anos, participo de "lives" e interajo no "chat", bem como, em postagens fixas, faço comentários e, por vezes, há debates com outros comentaristas. Muitas pessoas alheias à área jurídica demonstram muito interesse em entender o Direito e tento explicar de forma compreensível para elas. Na área jurídica, em sites especializados, constato o interesse de colegas, principalmente jovens e estudantes, por bibliografia "útil", mas não no sentido que o senhor critica. Não buscam facilidades, ao contrário, buscam indicações de pessoas experientes sobre livros que acrescentem conhecimento, sejam de autores contemporâneos ou antigos, quiçá antiquíssimos. Devo confessar que me tornei, para esses jovens, uma fonte de indicações de bibliografia "arqueológica". Tudo bem, faz parte da vida envelhecer, ainda que por motivos alheios à minha vontade. O importante é frisar que esses jovens estão descobrindo a atualidade de Jhering, de Aristóteles, de muitos outros. Assumi como minha obrigação orientar esses jovens em termos de bibliografia, inclusive contemporânea de qualidade em postagens por vezes breves, porém muito consistentes. O Importante é ser poliglota, dominar o vernáculo e a comunicação digital.

Rejane G. Amarante disse:
19 de novembro de 2020 às 09:38

Esse tempo em que vivemos é paradoxal. Ao mesmo tempo em que é fácil mostrar a realidade, é difícil mostrar. É muito fácil produzir vídeos e mostrar a realidade de qualquer atividade profissional para estudantes de Dir. do Trabalho. O mesmo pode ser dito sobre a atividade dos policiais num distrito policial ou no patrulhamento nas ruas. Por outro lado, existe um monopólio ou oligopólio do conhecimento de quase todas as áreas nas mãos das editoras, que são propriedade de um pequeno grupo de pessoas. Esse mesmo grupo comanda emissoras de rádio e televisão e se viu diante de um concorrente indomável - as redes sociais, sites, blogs, etc. As máscaras do "consenso" científico estão caindo. Infectam as redes sociais com "diversionismo" para, deliberadamente, fazer diminuir o quociente de inteligência dos jovens, enquanto atuam de forma selvagem e criminosa para censurar quem fala a verdade na internet. Há alguns anos, eu e muitos outros acompanhávamos o youtube com satisfação, pois as informações vinham de diferentes fontes e podíamos avaliar a veracidade pela diversidade. A "política do site" é uma forma de censura no interesse das "fontes tradicionais" de informação. E nessa informação, necessariamente se deve incluir o conhecimento científico, seja em Medicina, Química, Direito, História, etc. Isso é muito preocupante, eu diria, mais preocupante do que o (sub)nível de leitura dos jovens. Doutor Lenio, há provas de que a "energia livre" era utilizada em muitas cidades de diferentes países desde o século XVIII. Isso precisa ser muito bem investigado, mas qual o "doutor" que vai contra teses "certificadas" pela Academia ? Percebe que a gravidade do problema é muito mais profunda do que o senhor enunciou ?

Holonomia disse:
19 de novembro de 2020 às 11:05

As causas vão além do que propõe o texto, data venia.
"Traduzindo: se a realidade existia independentemente do sujeito na metafísica clássica e, no paradigma moderno, era revelada através da racionalidade humana, com o giro ontológico-linguístico ela, a realidade, existe tão-somente a partir da linguagem."
Essa ideia leva a uma nova espécie de teoria criacionista da terra jovem, porque o mundo passaria a existir com a linguagem, ou seja, há trinta ou cinquenta mil anos, desprezando as bases físicas e mentais forjadas por quatro bilhões de anos de vida e treze bilhões de anos de cosmos. O mundo artificial da linguagem não pode negar a Natureza.
Abordei o Efeito Flynn Negativo no artigo "A era da burrice" (https://holonomia.com/2018/11/07/a-era-da-burrice/), sustentando ser necessária uma "encarnação linguística", do Logos que era no princípio, da linguagem, ou Logos, que existe antes da realidade material e nela se manifesta, de modo que é àquela linguagem que deve remeter a racionalidade humana, para as origens reais da própria humanidade e de sua linguagem instrumental.
www.holonomia.com

Rejane G. Amarante disse:
19 de novembro de 2020 às 12:16

Permita-me recomendar
https://www.youtube.com/watch?v=kkAzKs5PS44

Rejane G. Amarante disse:
19 de novembro de 2020 às 12:34

Se um pequeno grupo, há séculos, "delimita" a informação bem como a sua divulgação, não seria esse fato identificado e questionado pelo senhor e outros estudiosos a simples constatação de que o pequeno grupo mudou a forma como delimita e divulga a informação ? Ao longo de séculos na História, os "rebeldes" do conhecimento foram presos, torturados, queimados ou simplesmente assassinados. E o show continua.

Estudante Dir. disse:
19 de novembro de 2020 às 17:21

Realmente, essa diminuição da leitura - especialmente entre juristas - tem implicações preocupantes.

Bacharel, grande zagueiro palestrino dos anos 80 disse:
19 de novembro de 2020 às 22:56

A falta de leitura tem-se tornado comum em geral, o que me impressiona/preocupa é em graduandos.
Agora o fato de livros resumidos/esquematizados/facilitados/mastigados/regozijados serem muito vendidos e aceitos, não vejo como um problema, pelo contrário, para quem está iniciando é uma boa maneira de se situar no tema, claro que, com o tempo, se vai aprofundando em leituras mais densas. É muito difícil introduzir temas complexas com leituras densas e o supracitados livros conseguem fazer isto. Tem que se colocar no lado do outro, do estudante que está iniciando seus estudos. Não se pode querer ter o monopólio do saber, o os livros mencionados fazem o despertar para o conhecimento. Às vezes, tenho a impressão que o Streck quer monopolizar o conhecimento, de certo modo, estes tão criticados pdfs ajudam a despertar o interesse e a democratizar o saber.

Rejane G. Amarante disse:
20 de novembro de 2020 às 09:18

Entendeu o principal, o fundamental do Direito : ser um eterno aprendiz.

Ricardo Magno Barbosa Santos disse:
20 de novembro de 2020 às 10:06

Dos que lêem, se excluirmos os livros de auto-ajuda e esotéricos ou ficção (como Paulo Coelho, Harry Potter etc.), o percentual é bem menor. Que situação!

Claudia E disse:
20 de novembro de 2020 às 14:56

Que profissionais queremos ser e queremos formar?! Parabéns professor!

Edson Ronque III disse:
20 de novembro de 2020 às 15:21

Fui ler a entrevista do francês em questão, e havemos de concordar que mais ou menos, né.
Pra começar, utilizar teste de QI já é um péssimo começo. Há um bom consenso que teste de QI serve meio que só pra achar transtornos e síndromes, não medir inteligência.
A própria ideia de padronizar a inteligência é ridícula. Existem muitas coisas no mundo pra todo mundo ser padronizado. Há pessoas com inteligência interpessoal, por exemplo, que não são medidas no teste. Garrincha tinha um QI baixíssimo, mas enganava todo mundo em campo com truques extremamente espertos. Já o Roger do Ultraje a Rigor tem um QI alto e vai ver as burrices que ele vem falando na última década, é de dar vergonha alheia. Ganhador do Nobel em campanha anti-vacina, outros vendendo vitaminas sem comprovação científica (também conhecido como golpe), pessoas com síndrome de Savant conseguem literalmente ficar fluentes em uma nova língua em uma semana e não sabem, literalmente, amarrar os tênis ou a diferença de preço de um quilo de carne e um carro.
A nova geração não está mais burra. Estão inteligentes em coisas diferentes. Não somos burros porque não decoramos mais números de telefone, a gente não precisa disso. Em compensação achamos informações e, principalmente, assimilamos as informações com muito mais facilidade.
A pesquisa do francês, parece, está carregada de preconceitos. Por que, por exemplo, os jogos violentos são, especificamente, piores para o desenvolvimento? Dar um vídeo game pra criança e deixar ela jogar a vontade vai obviamente afetar as notas, mas se trocar o vídeo game pra ela ficar o mesmo tempo varrendo o chão duvido que o resultado seja diferente. ou jogando xadrez, que seja.
E tem mais:
Os testes de QI, segundo a entrevista, são diferentes. só isso já é

Edson Ronque III disse:
20 de novembro de 2020 às 15:35

suficiente pra explicar as diferenças. Como se pode esperar resultados similares com testes diferentes?
Li esses dias que fizeram testes de QI em diversas escolas nos EUA pra tentar identificar os alunos com mais capacidades de "sucesso". Dentre os selecionados como melhores, nenhum obteve qualquer coisa relevante na vida para além da média. Entre os descartados, 2 ganharam prêmio nobel.
Uma pesquisa científica de como teste de QI não é lá essas coisas;
https://www.cell.com/neuron/fulltext/S0896-6273(12)00584-3

Dito isso, o fato de universitários não lerem me parece ter mais de uma causa: uma é o método de ensino, como dito, cada vez mais voltado pra preparar os alunos pra concurso, pras pegadinhas etc, que só exigem o resumo. A outra é o aumento absurdo de número de estudantes. Antes, universidade era uma exclusividade de uma classe média que, como diz o Jessé Souza, é a portadora do "capital intelectual" da sociedade. O maior acesso às escolas e universidades, sem a devida preparação anterior, obviamente tirou o "elitismo" das universidades. Não que colocar mais pessoas seja ruim, ao contrário, é maravilhoso! Mas essa é uma consequência esperada. Assim como achar artigos na internet retira a necessidade de livros de consulta (como códigos comentados) e, principalmente, pagar 120, 200, 400 ou 600 reais num único livro todo mês é pedir demais, né (ainda da pra achar os ebooks de graça na internet). Eu sou advogado numa cidade de 6 mil habitantes. Acham que eu tenho dinheiro pra 3 ou 4 coleções de livros (CC, CPC, CPC...) de quase 2 mil reais cada toda edição? E olha que aqui não tem livraria, tem um vendedor de livro jurídico que passa de porta em porta, e diz que sou o maior cliente dele entre advogados.

Afonso de Souza disse:
20 de novembro de 2020 às 22:11

Olá, Dra. Rejane.

Segue link para um texto que, segundo entendo, tem relação com seu comentário (com o qual, aliás, eu concordo):

https://www.poder360.com.br/opiniao/coronavirus/a-ciencia-o-tempo-e-os-remedios-sem-patente-por-paula-schmitt/

Um abraço.

João Castaldi disse:
22 de novembro de 2020 às 10:54

Provavelmente os alunos não lêem porque nem advogados, promotores ou juízes lêem, e estes não lêem porque, ultimamente, de nada adianta um conhecimento profundo do direito, pois, os nossos tribunais superiores simplesmente fazem o direito conforme a própria cabeça... O que gera um efeito em cascata.

E como advogado vivo isso diariamente. De que adianta uma petição técnica, fundamentada em fatos técnicos, científicos, filosóficos e doutrinários se quando "passa de 300 caracteres" o estagiário do assessor do juiz/desembargador não lê e assim decide?

Chegamos num ponto onde é necessário explicar ao juiz que não é possível fazer concreto sem água da concessionária (caso verídico). Foram juntados estudos técnicos comprovando que águas não tratadas são impróprias para o concreto... Horas de estudos para o juiz E o desembargador simplesmente decidirem, em 3 linhas, basicamente: se vire, qualquer água serve.

Pior foi precisar explicar a diferença de dolo geral de dolo específico para... Um procurador de justiça... E como resposta receber simplesmente: não entendo assim.

Assim sendo, numa república do "resumasso", mesmo equivocado, onde conhecimento sério mais te atrasa que lhe refina, que adianta uma leitura? É realmente jogar pérolas aos porcos.

Rejane G. Amarante disse:
22 de novembro de 2020 às 19:17

https://www.youtube.com/watch?v=jed0Ky8ZzsE

Rejane G. Amarante disse:
23 de novembro de 2020 às 18:34

Muito grata.

Compartilhei bastante.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
23 de novembro de 2020 às 21:32

Nos USA, em média, o curso de Direito tem três anos, e é geralmente frequentado por ex-alunos de outros cursos universitários.
O corpo discente participa de aulas expositivas, que tomam 10% do curso. O restante, noventa por cento, constitui atividade de leitura de textos indicados pelos professores que, lá, ganham mais que juízes e possuem a mesma consideração social.
As bibliotecas permanecem em funcionamento vinte e quatro horas (em alguns Estados) e é comum você encontrar estudantes lendo textos jurídicos durante a madrugada.

Rejane G. Amarante disse:
24 de novembro de 2020 às 10:21

https://www.youtube.com/watch?v=6YOcr-S3d8w

Rejane G. Amarante disse:
24 de novembro de 2020 às 12:55

"O Espetáculo do Telejornal e a (re)construção da Opinião Pública sob a perspectiva Luhmanniana", de autoria de Francisco Renato Silva Collyer

Disponível em
https://jus.com.br/artigos/66937

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