Os Estados Unidos estão construindo um trágico histórico de estudantes que levam armas para a escola e matam ou ferem colegas e professores. No caso mais recente, que ocorreu na sexta-feira (3/12), em Michigan, Ethan Crumbley, de 15 anos, matou quatro estudantes da Oxford High School e feriu outros sete, com uma arma que os pais lhe deram de "presente de Natal adiantado".

Reprodução/Twitter/@REPTHOMASMASSIE
No sábado, a polícia prendeu os pais do aluno, James e Jennifer Crumbley. E a promotora Karen McDonald, do Condado de Oakland, os denunciou à Justiça. Cada um vai responder por quatro acusações de homicídio culposo (involuntary manslaughter), com penas que podem chegar a 15 anos de prisão e multa de US$ 7,5 mil para cada morte.
As acusações contra o filho são, obviamente, mais pesadas. O juiz as leu na audiência preliminar: uma acusação de terrorismo que resultou em mortes; quatro acusações de homicídio doloso de primeiro grau; sete acusações de atentado com a intenção de matar; e 12 acusações de posse de arma ao cometer um crime — no total, 24 acusações.
A responsabilização criminal dos pais de Ethan Crumbley é um caso raro, apesar de tantos atentados em escolas, segundo juristas ouvidos pelo The Washington Post, The New York Times e pela emissora Fox2Detroit.
Há registro de apenas um caso de condenação: o de um pai que foi sentenciado a dois anos de prisão, por homicídio culposo, depois que seu filho, de seis anos, encontrou uma arma em uma caixa de sapatos, a levou para a escola e matou um coleguinha.
Parece pouco, considerando-se que, em 76% dos casos de alunos que mataram colegas nas escolas, as armas vieram de casa, segundo levantamento do Departamento de Segurança Nacional dos EUA. E, em 50% desses casos, os pais não tomaram qualquer medida para guardar a arma de forma segura, inacessível aos filhos menores.
Para a promotora, os pais do aluno cometeram "atos graves", desde a compra de uma pistola Sig Sauer SP 2022 9mm na "Black Friday" à participação negligente no desenrolar dos acontecimentos, cuja sequência a promotora descreveu.
Por exemplo, a mãe enviou uma mensagem de texto ao filho, ao ser comunicada de que ele estava buscando no celular, durante a aula, munição para a arma: "LOL. Não estou brava com você. Você tem de aprender a não ser pego", a mão escreveu.
Os professores flagraram outros sinais de que alguma coisa estava errada. Encontraram, por exemplo, um desenho em sua carteira escolar de uma arma semiautomática, com a legenda: "Os pensamentos não param. Ajudem-me". E um outro desenho de uma bala de revólver, com a legenda "Sangue por toda parte". Em uma nota, ele escreveu: "Minha vida é inútil. O mundo está morto".
Ethan acompanhou o pai à loja de armas para comprar sua pistola. Ao chegar em casa, postou uma foto da arma no Instagram, com o texto: "Minha nova beleza". A mãe postou uma foto tirada em instalação de treinamento de tiro, com o texto: "Dia de mãe e filho testando seu novo presente de Natal".
Os pais foram intimados a comparecer à escola, onde o diretor e professores recomendaram que o levassem para casa e que ele recebesse aconselhamento psicológico dentro de 48 horas.
Os pais se recusaram a levá-lo para casa, não informaram que ele tinha acesso a uma arma, não revistaram sua mochila e Ethan voltou à sala de aula. Menos de três horas depois, o serviço de emergência (911) começou a receber chamadas sobre um tiroteio na escola.
Em algum ponto, a mãe mandou ao filho uma mensagem de texto: "Ethan, não o faça". Para a promotora, o comportamento dos pais foi inescrupuloso, criminoso, o que justifica o indiciamento deles.
Com exceções muito limitadas, menores de idade não podem possuir armas em Michigan. Mas o estado não tem leis que obriguem os proprietários de armas a mantê-las trancadas e inacessíveis a menores. Nos EUA, apenas 23 estados e o Distrito de Colúmbia têm leis que, de uma forma ou outra, orientam os pais a guardar suas armas em lugar seguro.
A notícia me fez lembrar do livro mais famoso de Dee Brown, Bury my heart at wounded knee, de uma frase em específico, citada em determinado contexto, na vã pretensão de justificar o injustificável: o massacre de nativos americanos, em especial o das crianças.
Com uma mãe feito essa, melhor ser órfão!
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