Barroso Filho: Concorrência insuficiente para cursos de medicina

O artigo em comento faz abordagem clara, completa e objetiva da insuficiente concorrência e da desvirtuada oferta de cursos de medicina no Brasil.

Exatamente no período de pandemia da Covid-19, o povo brasileiro se deparou com um emaranhado de normas relativas à saúde pública e um questionamento intrínseco: existe algum motivo legal para a escassez de profissionais da saúde no Brasil, especialmente médicos?

Diversos estudos, inclusive da OMS (Organização Mundial da Saúde), demonstram a existência de um grande déficit de profissionais na área da saúde no mundo todo. Mas há um motivo explícito que é comum a todos os países, o subinvestimento crônico na educação de profissionais de saúde e o êxodo contínuo dos médicos para os grandes centros.

Verifica-se ter o MEC suspendido a abertura de novos cursos de medicina e novos pedidos de aumento de vagas, pelo prazo de cinco longos anos, ou seja, até abril de 2023. Ora, e como suspender num período em que mais se precisa de médicos no país?

Analisa-se como a pandemia evidenciou essa escassez de médicos e a falta de oferta de novos cursos e de aumento de novas vagas nos cursos de medicina, com aval do Ministério da Educação por meio de uma sistemática normativa.

Com base em um contexto histórico-legal, infere-se que os mecanismos de regulamentação setorial das Instituições de Ensino Superior (IES) no Brasil se confundem com os mecanismos de avaliação dessas instituições feitas pelo MEC, pois o modelo de regulação adotado para as IES foge do modelo idealizado inicialmente para a ação estratégica de regulação.

A partir daí o Estado brasileiro contemporâneo passou a ter presença expressiva no campo da educação superior, em face da necessidade de tratamento isonômico entre universidades públicas e privadas. Todavia, há dificuldade para as autorizações quando se trata de curso de graduação em medicina, pois ele possui um fluxo procedimental extremamente complexo e passível de diversas discussões judiciais

Por fim, o estudo contempla o exame da concorrência desleal na oferta de cursos de medicina e suas consequências perversas para a população em geral, entendendo que somente um mercado regulado para a competição pode produzir os reais benefícios que se espera para a sociedade. Conclui revelando as evidências e os resultados das irregularidades, privilégios e os motivos pelos quais mudanças são necessárias, pois a população brasileira está claramente sendo penalizada em virtude da falta de profissionais da área médica para atuar no combate da pandemia da Covid-19, além de outras endemias sobejamente conhecidas no país.

Clique aqui para ler a íntegra do estudo 

José Barroso Filho

é ministro vice-presidente do Superior Tribunal Militar; magistrado há 30 anos com atuação nas áreas estadual e federal em todas as cinco regiões do país, em especial, registrando nove anos de magistratura na região amazônica; conselheiro do Conselho Nacional de Educação; ex-conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária; integrante do Projeto Rondon; integrante como observador do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), do Grupo Especial de Fiscalização Móvel Combate ao Trabalho Escravo (GEFM); missões oficiais: Portugal, Espanha, Índia, Haiti e EUA; professor de graduação e pós-graduação; autor de várias obras (artigos e livros); e palestrante em eventos nacionais e internacionais.

Observador disse:
25 de fevereiro de 2021 às 09:01

Não é só a falta de autorização do MEC para a abertura de novos cursos que impacta o sistema, genericamente falando, como um todo. O governo federal não corrige o FIES há anos. A última correção ocorreu, salvo engano, no governo Dilma.
O aluno consegue ser aprovado após um esforço hercúleo e começa a estudar, mas tem que interromper o curso, pois todo ano as faculdades particulares reajustam as mensalidades. A faixa de contribuição do FIES permanece. A diferença entre a ajuda (que será restituída pelo aluno ao final do curso) do governo e o valor cobrado pelas mensalidade é assumida pelo aluno. Quem, inclusive da classe média, consegue manter um filho estudando medicina, já que este não pode ajudar por ser o curso integral? É curso para rico. Rico, formado, vai querer trabalhar fora dos grandes centros? Está tudo errado e ainda querem atualmente desvincular as receitas da educação e tem gente que aplaude. Lamentável.

João pirão disse:
25 de fevereiro de 2021 às 10:50

Podemos somar ao comentado que desde 2016 não se fazia um Revalida para incorporação de médicos formados no estrangeiro. Ou seja, que não tiveram ônus para o erário. Só finais de 2020 foi feito uma "primeira fase" (antes era apenas uma), que ainda não teve resultado final, para aguardar a segunda fase.
Posso imaginar o que pode acontecer se a prova da OAB demorasse tanto assim.

Eduardo. Adv. disse:
25 de fevereiro de 2021 às 14:24

No país em que se criticou além do razoável a criação de leitos suplementares para o enfrentamento da COVID, com invasões aos centros de tratamento por parte de políticos da "nova política" e também demonizou-se o "Mais Médicos"... é estranho que haja uma preocupação com novas faculdades de medicina, estas majoritariamente particulares e pagas e que faturaram muito com financiamentos públicos a clientes privados.
Talvez o mais importante seja, neste momento de COVID, um aparato adequado de apoio suplementar (enfermeiros, técnicos de enfermagem, outras especialidades da área de saúde).
Não se se a maior oferta de gente com formação talvez inadequada seja o mais essencial neste momento. Mas o "motivo" é tocante, há muita gente interessada na abertura de novas vagas, e vê-se que o governo não é tão liberal assim, não.

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