Crise do apito, crise do VAR e o avacalhamento da tecnologia

Ninguém mais (se) aguentou. Tantos erros, tantas tristezas, mais de mil palhaços na arquibancada e arlequim chorou demais pelos gols validados, invalidados, pênaltis, expulsões erradas…que a CBF resolveu chamar os árbitros na chincha.

Spacca

Poxa, onde se viu? Mesmo com vídeo, a mais alta tecnologia, e os roubos continuam? Assim não dá.

Trouxeram o VAR para o Brasil e, aqui, apatifaram. É um gritedo nos áudios e, logo depois, a parada para olhar. Para o vídeo, anda o vídeo, coloca a linha, tira a linha e, quatro minutos depois, o árbitro sai correndo para mostrar que foi gol ou calar a torcida que já vibrara. Mais pra lá, mais pra cá!

Como é possível que, mesmo com o VAR, não seja possível constatar se houve ou não a penalidade? Não acreditam na imagem? Precisam de lições de empirismo? O leitor de jornal de Wittgenstein: não acreditava no que lia, então comprava mais um exemplar para tirar a dúvida.

Vamos repetir a imagem, vai que da próxima não seja pênalti! Bingo!

Sabem qual é o problema? Em vez de os árbitros de vídeo deixarem que a imagem lhes diga algo, eles é que dizem para a imagem. Contra mim imagens não tem argumentos? Tem sim. A do gaiato da cabine do VAR.

Parece a área jurídica. Põe-se a lei; põe depois uma sumula sobre a lei. E, mesmo assim, o causídico não consegue demonstrar que tem razão. Porque o juiz briga com a imagem. O JusVar.

Parece que vão criar embargos de declaração para as decisões do VAR. E que serão respondidas pelo árbitro de vídeo assim: está pretendendo revisar o mérito da jogada; com base na minha convicção, rejeito os embargos.

Ou algo assim. Vai saber. Logo surgirão "teses" sobre marcação de pênaltis: tocar no adversário e não lhe tirar o espaço é circunstância que não enseja a marcação. "Bem claro", não? Até que surja uma nova mudança de entendimento…

Bom, agora, depois do cursinho que a CBF deu para os árbitros dias atrás, a coisa vai funcionar. Ah, vai.

Fica uma lição, pelo menos, àqueles que acham que a tecnologia vai salvar o mundo, vai resolver todos os problemas, dispensando livros, professores, bibliotecas e boas universidades tradicionais. O VAR veio para acabar com os erros e com a falta de critérios. Mas e quando a aplicação do VAR se dá sem critérios e seu uso é arbitrário? Traça a linha aqui. Não, mais pra lá. Gol legal… ups, tinha impedimento no início da jogada e ninguém viu.

Adoro os profetas do vídeo. Profetas da imagem. Pior: os profetas da imagem (os comentadores) não acertam nem profecias sobre o que ocorreu. Mesmo que tudo esteja filmado.

Lembrem-se disso quando acharem que os algoritmos e a inteligência artificial são a solução para o direito. Não adianta apostar no robô e seguir sem enfrentar a praga do livre convencimento. Quem programa o robô? O algoritmo não resolve nada quando a arbitrariedade vem antes.

Como se resolve? VAR do VAR? Até que será preciso o VAR do VAR do VAR… e assim vamos.

O VAR mostra: apostar nos algoritmos e nos precedentes não vai nos levar a lugar nenhum.

Talvez nos leve, na verdade. Direto para o hospício.

Canglingon disse:
04 de agosto de 2022 às 09:00

Deslumbrados com a tecnologia. Em vez de terem optado por seguir uma carreira nas áreas da computação, informática e tecnologia, cursaram Direito e terminaram as graduações, pós-graduações, pós-pós-graduações, e irrefletida e acriticamente saem por aí alardeando a protagonização da inteligência artificial, dos algoritmos e Machine Learning em detrimento do Direito, um ofuscamento e coadjuvantização vetustos da ciência jurídica. Lassalle já tinha embarcado nessa há mais de um século. Em vez de fatores reais de poder, agora a panaceia tecnológica revolucionária 4.0 (5.0, 6.0...).

Tecnologia não é desimportante. Nunca foi. Impactou nossas vidas – e muitos desses impactos foram e estão sendo positivos. Porém, a partir do momento em que os outros do campo do saber são epistemicamente fagocitados por essa onda de tecnologização/empresarialização/eficientização etc., temos não um, mas vários problemas. Morte da autonomia do Direito – que sequer foi bem compreendida em terrae brasilis (para se ver o nível da tristeza, o lamento já começa antes da queda). Ainda se engatinha para compreender e interpretar o que é compreensão e interpretação, o que é linguagem. Não se sabe o que é linguagem, porém isso não interrompe o processo de sua desconsideração e degradação – pelo contrário, acelera-o (ama-se velocidade em tempos pós-pós-modernos).

Um professor a criticar o articulista ainda respondeu aqui nos comentários: “Toda opinião é válida”. Relativismo na veia. Não compreendemos sequer uma teoria básica das liberdades – quero nem entrar no assunto de liberdade (sic) de expressão. Olha, mas o articulista erra em criticar o uso da tecnologia em sala de aula, taokei?

Canglingon disse:
04 de agosto de 2022 às 09:01

Houve avanço incrível, os alunos conseguem entender os desenhos 3D em realidade virtual (sic)... Quer dizer, mas toda opinião é válida. Logo, o articulista errou, mas não errou, saca? Porque toda opinião é válida. No final, o que importa é minha opinião. Ninguém tem razão. Mas ele errou, a tecnologia é incrível. Todavia não errou, porque toda opinião é válida. Ou pode ser válida, mas errada! Que tal? (Até tentei colocar essa fórmula no Excel, mas o programa curiosamente não aceitou... Estranho).

O que é verdade, afinal? Existe mesmo isso ou só é algo meio gostoso, meio cool (seguindo a modinha dos estrangeirismos) de falar?

Metemos os pés pelas mãos faz tempo e essa expressão já está desajustada. Sugiro adotarmos um VAR jurídico esclarecendo o significado do enunciado das Jornadas de Direito High Tech que esclarecem os enunciados dos Juizados Especiais que esclarecem os enunciados dos TJs/TRFs que esclarecem as súmulas dos TJs/TRFs que esclarecem as súmulas do STJ que, em tese – muito, muito em tese, esclarecem a legislação federal. Dane-se a teoria, importa a prática. Já baixei o JusVar e calculei as probabilidades dos diferentes entendimentos dos diferentes magistrados disponíveis em minha região. Tem até as fotos dos juízes e juízas e suas diferentes e possíveis expressões faciais em audiência. Incrível. Vai dar certo. Já deu.

Antonio Sérgio Lemelle Corrêa disse:
04 de agosto de 2022 às 12:01

Que vareio

Pablo Malheiros da Cunha Frota disse:
04 de agosto de 2022 às 12:20

De nada adianta o VAR se os ditames do jogo não são respeitados e o texto do Lenio mostra as duas coisas.

O ESCUDEIRO JURÍDICO disse:
04 de agosto de 2022 às 13:07

Um especialista em tecnologia da informação apresenta um problema e cria a solução; um jurista apresenta a solução e cria um problema.

O Escudeiro jurídico.

Direito e Justiça ou Justiça e Direito disse:
06 de agosto de 2022 às 10:31

Ah! Aproveitando, a urna eletrônica é mesmo infalível?

Artur lei é p todos disse:
06 de agosto de 2022 às 11:48

Sou um amante do futebol desde os meus 2 ou 3 anos quando meu pai me levava ao campo. Discordei mt de juiz e dos antigos "bandeirinhas", como eram chamados os atuais assistentes, porém, nunca tive a frustração de torcer por um gol e depois chorar pela sua desmarcação como hoje acontece.
O VAR usar uma "linha" por computador e desmarcar um gol porque o atacante estava 2 ou 3 centímetros com a ponta do pé na frente do jogador do outro time, é uma barbaridade, uma afronta ao torcedor, e também uma desconstrução mesquinha do objetivo final do jogo, o gol.
Uma falta grave q juiz não percebeu por estar encoberto por outro jogador? Chame-se o VAR.
Dúvida se a bola ultrapassou a linha do gol? Chame-se o VAR. Mas desmarcar um gol por 2 centímetros, é desrespeito. Igualmente desrespeitoso, é usar o VAR pra marcar um pênalti num cruzamento q a bola bateu no braço do defesa, estando este de costas pro atacante. Ou seja, uma total e ridícula intervenção antijogo.
Enfim, parabéns ao Lênio, cujo texto oportuniza o início de um debate sobre o uso do VAR.

Hilton Daniel Gil disse:
07 de agosto de 2022 às 10:18

Conceito amplo "infalível".
Se houver um componente eletrônico com defeito e a urna não ligue. Pode ser considerado uma falha. Então falível seria. Delimite melhor a pergunta que a chance de obter uma melhor resposta aumenta consideravelmente.

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