Ao longo do processo de adaptação pelo qual estamos passando para endereçamento das questões ambientais, sociais e de governança, tem sido comum no âmbito empresarial a afirmação de que a adoção dos fatores ESG representaria "vantagem competitiva". A promessa, geralmente apresentada explicitamente no "combo de benefícios" para contratação de assessorias ou processos de certificação, é que tais práticas elevam a reputação da empresa de tal modo a posicioná-la à frente de suas concorrentes. Será mesmo?
A implementação dos fatores ESG pode, sim, trazer benefícios diretos e indiretos, como maior eficiência nos processos internos, melhoria da imagem da empresa junto a clientes e parceiros, aprimoramento das relações entre os colaboradores, mitigação de riscos, diminuição de autuações, entre outros aspectos. A empresa tende a melhorar em termos globais e ganhar valor. Ocorre que o apelo à vantagem, a ênfase dada à competitividade ou a qualquer outro atributo semelhante pode transmitir uma mensagem equivocada sobre o processo de adequação às vertentes ambientais, sociais e de governança.
Para ilustrar como esse viés tende a ser impróprio, cabe uma analogia simples com promissoras campanhas de cursos de idiomas, nas quais se propagava que aprender inglês, alemão ou mandarim (entre outros idiomas) representaria vantagem competitiva.
Como sabemos, muitos dos alunos que se matriculam atraídos com promessas desse tipo abandonam o curso logo após as primeiras aulas, desprovidos de motivação adicional. Outros tantos insistem ao longo de alguns meses e então compreendem, já nos processos seletivos ou nos demais desafios da vida corporativa, que a tal "vantagem" simplesmente inexiste, diante de um contingente de candidatos que também dominam pelo menos um segundo idioma, quando não um terceiro. Poucos são os que efetivamente aprendem e se destacam no mercado de trabalho com idiomas adicionais. São aqueles que efetivamente gostam da língua estrangeira, da cultura dos países que a adotam, do próprio processo de aprendizagem e de todos os benefícios correlatos. Não chegaram ao curso atraídos pelo chavão da "vantagem competitiva".
Guardadas as devidas proporções, a jornada ESG pode ser vista de forma semelhante, sob alguns aspectos.
Adotar ESG atualmente representa, no máximo, reduzir um déficit. Cada vez menos tem o efeito de representar diferencial frente à concorrência. Ao contrário, com frequência cada vez maior os fatores ESG são adotados como eliminatórios: a empresa sequer pode participar de um processo de tomada de preços se não for certificada em determinadas questões relevantes. Vide as diretrizes da União Europeia e as crescentes restrições a produtos provenientes de áreas desmatadas ou degradadas. Assim como línguas estrangeiras foram incorporadas à nossa grade de ensino, os fatores ESG já se encontram inseridos na prática empresarial dos setores mais competitivos.
Outro ponto é que a adoção de ESG demanda propósito. Verifique o histórico de empresas que se destacam em questões ambientais, sociais ou de governança. Não será surpresa constatar que a preocupação com tais fatores faziam parte do processo de desenvolvimento de cada negócio, muitas vezes em decorrência dos ideais de seus fundadores. Não foram implantados repentinamente, muito menos com o intuito de se destacar da concorrência. Foram colocados em prática porque os fundadores desejavam que suas empresas tivessem atributos adicionais à lucratividade e competitividade.
Um terceiro ponto é a sedutora oferta de "soluções ESG" com a promessa de resultados a curto prazo, as quais lembram os programas de imersão para que os alunos saiam "fluentes" após um final de semana.
Ocorre que não é simples assim. É possível desenvolver políticas internas e programas de adequação rapidamente, mas não basta divulgar tais documentos na intranet. A evolução de uma empresa nas questões ESG demanda planejamento estratégico, envolvimento dos conselheiros e diretores, engajamento e amadurecimento nos demais diversos níveis hierárquicos, aprimoramentos constantes, entre outros fatores.
Amadurecidas tais questões e colocadas em prática internamente, só então podem ser divulgadas externamente, na etapa de engajamento dos fornecedores, prestadores, clientes e investidores. Somente após esse gradual desenvolvimento é que seria perceptível — se fosse o caso — a prometida "vantagem competitiva". Aliás, pular etapas pode significar um desastre para a marca e provocar efeito contrário ao pretendido. A propaganda enganosa (greenwashing) é tão perceptível ou arriscada quanto tentar se passar no processo seletivo como fluente em idioma que não se domina.
Isso sem contar que cada pilar ESG possui uma gama complexa de desafios, apesar da recorrência no âmbito empresarial às questões ligadas a carbono, gênero e anticorrupção. Para além da síntese usualmente feita quando se fala em ESG, diversas outras questões também podem ser elencadas como relevantes e prioritárias, a depender do setor de atuação ou do modelo de negócios da empresa. Da mesma forma que é mirabolante prometer fluência em diversos idiomas a partir de um método único, é inviável pensar que as diversas questões ESG possam ser endereçadas de forma a se assegurar um diferencial competitivo.
Dito tudo isso, é plenamente válido o incentivo para que alunos que tenham se matriculado em promissores cursos de idiomas os concluam, ainda que tenham sido levados preponderantemente pela promessa da "vantagem competitiva". Que persistam, cheguem até o fim do curso e aprendam o máximo possível. Pelo menos terão contato inicial com uma língua estrangeira e poderão desenvolvê-la em etapas posteriores. Da mesma forma, ao empresário que hoje pense em adotar ESG em busca de vantagem competitiva, que o faça. Ao longo do processo provavelmente perceberá que, no máximo, estará reduzindo déficit. Poderá perceber, ainda, que se trata de uma longa caminhada diante dos desafios que os fatores ESG apresentam. Pelo menos terá dado o passo inicial e, quem sabe, encontrará motivações genuínas que o impulsionem adiante, em busca do aperfeiçoamento efetivo que esse importante e necessário processo exige.
Seja o primeiro a comentar.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login