Thiago Almeida: O processo de “asiatificação”

O mundo em 2022, ao dedicar os primeiros passos do lento retorno à normalidade após dois anos da pandemia, graças à disseminação das vacinas (apesar de ainda desigual se observado os países africanos ainda com baixa oferta de doses), foi marcado já por um importante evento esportivo mundial: os Jogos de Inverno de Pequim entre 4 e 20 de fevereiro de 2022 [1].

Logo em seguida, o mundo assistiria o início das hostilidades russas no território ucraniano, que se iniciaram em 24 de fevereiro de 2022. Infelizmente, ainda perdura o estado de agressão bélica russa em outro Estado soberano, em afronta à Carta das Nações Unidas de 1945.

Ainda quanto ao domínio esportivo, em 20 de novembro de 2022 iniciou-se a Copa do Mundo da Fifa no Qatar, registrando a primeira vez que esse evento esportivo ocorre no Oriente Médio [2]. Além das questões esportivas, o Qatar é um ator internacional estratégico devido as suas grandes reservas de petróleo e de gás natural (liquefeito), constituindo-se como importante fonte alternativa do gás para o continente europeu que aplica sanções econômicas à Rússia [3].

Quanto às questões de mudança climática, a Conferência das Partes (Conference of Parts) reuniram-se em Sharm El-Sheikh, no Egito (COP 27), que ocorreu no final de novembro de 2022 [4]. Apesar dos poucos resultados alcançados, a declaração final estabeleceu o fundo de compensações entre nações historicamente poluidoras e as nações em desenvolvimento diretamente impactadas pelos desastres ambientais decorrentes das mudanças climáticas. Os países reunidos reafirmaram o compromisso em limitar o aumento da temperatura mundial no máximo a 1,5 graus celsius, mas não apresentaram um plano efetivo de redução das emissões dos poluentes [5].

Acrescenta-se que há intenso debate sobre os níveis de emissões de poluentes pelos países, com destaque para as emissões históricas, uma vez que países desenvolvidos ou de industrialização antiga são os maiores emissores quando calculado desde o início da Revolução Industrial [6].

Quando analisado os dados de emissão de 2021, por sua vez, a China é atualmente o maior emissor, seguido pelos Estados Unidos e Índia. Em síntese, somente esses três países são responsáveis atualmente por 50% das emissões de CO2 no planeta, conforme dados da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) [7].

Ainda entre 15 e 16 de novembro de 2022, os membros do G20 se reuniram na ilha de Bali, Indonésia, para o 17º encontro anual. Assim como na COP27, o Presidente do Brasil não compareceu. Por sua vez, Lula, o presidente eleito para o próximo mandato a partir de 2023, esteve presente na COP27 [8].

A ausência de outro Chefe de Estado no G20 foi do Presidente russo, Putin, em virtude da acentuada hostilidade global quanto a Guerra na Ucrânia [9]. O G20, apesar da sua criação no final da década de 1990, tornou-se o principal fórum de concertação internacional a tratar de questões que impactam a estabilidade financeira internacional. O Brasil, China, Índia e Rússia, em 2008, concentrados no BRIC, historicamente constituíram-se na principal força internacional de coordenação das demandas dos países emergentes a promover reformas e cooperação global a fim de contornar os efeitos da crise financeira iniciada nos Estados Unidos. Desde então, o G20 substituiu o G7 como o fórum de maior importância econômica global. Ressalta-se que o G20 envolve 19 Estados e a União Europeia.

A declaração final do G20 abortou as questões da guerra na Ucrânia, a insegurança alimentar global, mudanças climáticas, estabilidade financeira, comércio e investimento globais, revitalização de investimentos em infraestrutura e efeitos da pandemia do Covid-19 [10].

Por fim, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Association of Southeast Asian Nations, Asean), reuniram-se em 11 de novembro de 2022 em Phnom Penh, Camboja para o seu 40º encontro, com ênfase no engajamento das regiões da Ásia, Índico e Pacífico [11].

Os eventos de importância política, econômica e esportiva globais não se inserem como coincidências de agendas. Pelo contrário, o século 21 se apresenta sobretudo como o período contemporâneo em que o eixo econômico afasta-se do Atlântico e concentra-se na Ásia e Pacífico. Nessa região, diferentes países demonstram forte crescimento econômico, ampliação das trocas comerciais e fluxos de investimento. Japão, Coreia do Sul, Cingapura, países do Golfo Pérsico, Indonésia, Índia e, principalmente, China, são alguns dos principais atores que apresentam importância econômica e política a nível internacional. Compreender as relações desses países é fundamental para que o Brasil possa estabelecer novas oportunidades de cooperação em educação, tecnologia, ciência e comércio.


[1] INTERNATIONAL OLYMPIC COMMITTEE. Beijing 2022. Disponível em: <https://olympics.com/ioc/beijing-2022>. Aceso em: 5 dez. 2022.

[2] FIFA WORLD CUP. Qatar 2022. Disponível em:  <https://www.fifa.com/fifaplus/en/tournaments/mens/worldcup/qatar2022>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[3] TANI, Shotaro; CHAZAN, Guy. Qatar to supply Germany with LNG as EU seeks secure energy options. November 30th, 2022. Disponível em: <https://www.ft.com/content/43f60031-c0cf-41f7-8a93-cf931006507a>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[4] UNITED NATIONS FRAMEWORK CLIMATE CHANGE CONFERENCE. Decisions taken at the Sharm El-Sheikh Climate Change Conference. November 2022. Disponível em: <https://unfccc.int/cop27>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[5] DW. EU: COP27 agreement 'not enough' for the planet. November 20th, 2022. Disponível em: <https://www.dw.com/en/eu-cop27-agreement-not-enough-for-the-planet/a-63823609>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[6] CENTER FOR GLOBAL DEVELOPMENT. Developed Countries Are Responsible for 79 Percent of Historical Carbon Emissions. Disponível em: <https://www.cgdev.org/media/who-caused-climate-change-historically>. Acesso em: 5 dez. 2022; OUR WORLD IN DATA. Who has contributed most to global CO2 emissions? October 1st, 2019. Disponível em: <https://ourworldindata.org/contributed-most-global-co2>. Acesso em: 5 dez. 2022; WORLD RESOURCES INSTITUTE. The History of Carbon Dioxide Emissions. May 21th, 2014. Disponível em: <https://www.wri.org/insights/history-carbon-dioxide-emissions>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[7] UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT. Carbon emissions anywhere threaten development everywhere. June 2nd, 2021. Disponível em: <https://unctad.org/news/carbon-emissions-anywhere-threaten-development-everywhere>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[8] GARRIC, Audrey. COP27: le Brésilien Lula, « de retour », redonne de lespoir à la lutte contre le dérèglement climatique. Le Monde. 17 novembre 2022. Disponível em: <https://www.lemonde.fr/planete/article/2022/11/17/de-retour-le-bresilien-lula-redonne-de-l-espoir-pour-la-lutte-contre-le-dereglement-climatique_6150224_3244.html>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[9] G20 INDONESIA. G20 Summit in Bali 2022. Disponível em: <https://bali.com/g20/df>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[10] G20 INDONESIA. G20 Bali Leaders' Declaration. Bali, Indonesia, 15-16 November 2022. Disponível em: <https://bali.com/wp-content/uploads/docs/2022-11-16-g20-declaration-bali-summit.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2022.

[11] ASEAN. ASEAN Leaders' Declaration on mainstreaming four priority areas of the ASENA outlook on the Indo-Pacific within ASEAN-led mechanisms. November 11th, 2022. Disponível em: <https://cdn-conjur.s3.amazonaws.com/uploads/2022/12/25-ASEAN-Leaders-Declaration-on-Mainstreaming-Four-Priority-Areas-of-the-ASEAN-Outlook-on-the-Indo-Pacific-within-ASEAN-led-Mechanisms.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2022.

Thiago Ferreira Almeida

é advogado e pesquisador convidado de doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Geneva (Unige), doutorando em Direito Internacional do Investimento na Faculdade de Direito da UFMG, pesquisador associado no Centro de Excelência Jean Monnet (Erasmus+ & UFMG), professor e coordenador no Centro de Direito Internacional (Cedin).

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