Não é de hoje que casos de golpes e fraudes financeiras praticadas na formação de pirâmides, envolvendo milhões de vítimas dentro e fora do país, repercutem nos órgãos de imprensa numa velocidade maior daquela que se deseja no âmbito da Justiça. Somente em um desses casos amplamente divulgados, o da Atlas Quantum, que tem à frente e como mentor Rodrigo Marques dos Santos, o golpe de aproximadamente R$ 5 bilhões afetou cerca de 40 mil pessoas de mais de 50 países, o que demonstra a dimensão do estrago que esse tipo de crime tem.
Diante de número tão expressivo de vítimas não resta dúvidas do delito. Contudo, entre sua comprovação, a condenação dos mentores e operadores desta pirâmide e o ressarcimento de quem caiu no golpe do enriquecimento, existe uma longa e desafiadora estrada a se percorrer. Isso porque, na esfera criminal federal, onde tramita o processo de investigação, o crime pesa contra o sistema financeiro e precisa seguir um grande rito para que somente ao final, dentro dos efeitos da condenação, o juiz defina e assegure os direitos dos lesados. Trata-se de uma jornada extensa demais para quem confiou uma boa parte — em alguns casos, uma vida toda de economias.
Com o objetivo de reduzir esse trajeto, uma ponte entre vítimas e a Justiça está sendo construída na esfera criminal estadual. Entende-se assim que, por se tratar de crime contra o patrimônio, os réus envolvidos no caso, para se livrarem da denúncia criminal, tida no momento em que o Ministério Público toma conhecimento, acolhe e inicia o processo, optam em ressarcir as vítimas, nessa esfera consideradas os investidores e não o sistema financeiro. Esse pode ser um caminho vantajoso pelo fato de poder resolver o imbróglio o mais breve possível.
Esse foi o caminho escolhido por um grupo de vítimas da Atlas Quantum, no último dia 5 de julho, quando entregaram uma representação de notícia de fato criminal na Polícia Civil do Estado de São Paulo. O documento narra os fatos que configuram delitos contra o patrimônio, como também contra as relações de consumo e contra a economia popular, e é um passo importante para que a autoridade policial tome as providências legais no sentido de se averiguar se os relatos contêm o mínimo de indícios condizentes com o contexto fático e, a partir daí, desencadear o procedimento investigatório.
O caso da Atlas nesse grande esquema lesivo e ilegal de pirâmide financeira cada vez mais praticado no país é emblemático pela proporção das cifras alcançadas. Estima-se que Rodrigo Marques dos Santos teria vertido para sua esfera de disponibilidade a quantia de R$ 4 bilhões. Não há, assim, justificativa plausível ou que possa convencer ter a vultosa quantia desaparecido dos cofres ou contas mantidas sob a administração do grupo Atlas Quantum.
Não bastasse isso, após inúmeras tentativas de saques dos valores mantidos junto à plataforma da Atlas Quantum por vários clientes em todo o Brasil e no mundo, a empresa foi a público e justificou a impossibilidade de movimentação pela enorme solicitação dos saques e por estar passando por dificuldades de operacionalização.
Enquanto a empresa e seu líder se escoram nessas justificativas, seus clientes/investidores/consumidores não tiveram devolvidos os valores aplicados na plataforma, muito menos tiveram respeitados o direito ao ressarcimento que fora exigido por determinações judiciais. Mais além, Rodrigo Marques dos Santos saiu do país e continua a operar no mercado de moedas digital com o dinheiro dessas inúmeras pessoas lesadas.
A essas pessoas vítimas do golpe, momentaneamente cabe justamente fazer o que estão fazendo. Caminhar nessa longa jornada, buscando os caminhos diversos para um único objetivo, qual seja a Justiça, com o ressarcimento de suas economias e a condenação do líder e demais envolvidos nesse tipo de crime.
Apesar de ser crime, acredito que todos os participantes de uma piramide tem a nítida noção de que o negócio é fraudulento....É impossível que alguem pague os juros que prometem, além disso, os participantes também aliciam novos participantes....Todos são responsáveis....
Não, os clientes não tinham "nítida noção" de que o negócio era fraudulento. Atlas Quantum não prometia nada, não pagava "juros". Até onde lembro, não havia recompensa para atrair novos clientes, o que pode até haver em corretoras idôneas como por exemplo a XP Investimentos. Atlas Quantum alegava ganho com arbitragem de Bitcoin, começando o negócio numa época em que o criptoativo ainda até nem era tão popular. Hoje especula-se que no início a empresa talvez até nem fosse fraudulenta. Muitas pessoas idôneas, sérias e de alto discernimento trabalharam como funcionárias na empresa. O golpe foi sofisticado, muito diferente de pirámides típicas tais como o senhor descreveu. Os "rendimentos" da Atlas até eram de uma ordem de grandeza menor, nada muito exagerado. Esse golpe está mais para um Maddoff versão brasileira do que mais um mero esquema Ponzi escancarado.
Você precisa estar logado para enviar um comentário.
Fazer login