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Ana Paula Ávila: Opinião política do patrão

Nesses tempos de muita exposição nas redes e de cultura do cancelamento, é comum questionar se as empresas não deveriam revisar a tradicional recomendação de não tomarem partido em questões polêmicas. Em certos círculos, corre uma lista de temas proibidos em manifestações públicas daqueles que representam as organizações e suas marcas, tais como armamentos, decisões militares, drogas ilícitas, tabaco, álcool, aborto, obscenidade, pornografia. No atual cenário de polarização política, criticar o governo ou seus oponentes tornou-se também um tema bastante delicado. 

Nesta quadra do desenvolvimento das relações sociais, há quem sustente que a definição política é uma exigência da sociedade e que toda passividade será castigada — ou melhor: cancelada. Além disso, considera-se que as redes sociais trouxeram novos parâmetros para o relacionamento entre as empresas e o consumidor e que as marcas aparecem mais humanizadas e próximas ao seu público-alvo quando defendem valores e posições que lhe sejam familiares. Isso explica, de certa forma, a enorme adesão de empresários, empresas e entidades representativas dos mais variados setores econômicos à Carta aos Brasileiros, originada na Faculdade de Direito da USP e aberta em solenidade pública. É importante notar, desde logo, que esse movimento se autodeclara apartidário e defende valores universais, tais como a democracia, o Estado de Direito, a segurança jurídica e a legalidade; mesmo assim, parte dos apoiadores do governo o interpreta como um ataque pessoal à presidência.

Se a história mostra que, em momentos cruciais, uma omissão pode causar mais danos que qualquer ação, também é certo que a exposição traz riscos que devem ser ponderados na decisão dos dirigentes de empresas por assumirem posição político-ideológica. Já não são poucos os casos de boicote a marcas cujos donos ou sócios se posicionam a favor do governo ou de seus adversários políticos.

Diante disso, a exposição da empresa em temas sensíveis segue devendo ser feita com cautela (hoje e sempre) e quem dirige uma organização — e responde perante investidores, consumidores, além dos trabalhadores e suas famílias cujo sustento depende do sucesso do negócio —, precisa considerar alguns aspectos. 

O primeiro deles é manter a coerência. É preciso manter a organização no lado mais seguro, evitando abordar questões ou apoiar valores que não tenham nada a ver com o negócio ou com o perfil dos seus clientes. Ressaltar aquilo que a empresa faz em benefício da sociedade; os mandatos políticos passarão, mas o legado da empresa permanecerá.

Também é necessário avaliar quem são os "stakeholders", ou seja, considerar o perfil dos investidores e, principalmente, dos consumidores. Além disso, ponderar eventuais intersecções entre as atividades empresariais e o Poder Público.

Considerar, também, os impactos sobre a força de trabalho: além do público externo, há que pensar também sobre os colaboradores que atuam na empresa, sabendo de antemão que a força de trabalho é naturalmente diversa. O posicionamento político da empresa em favor de uma ou outra tendência político-ideológica poderá romper a harmonia do ambiente laboral, provocando o medo de retaliação ou dando oportunidade ao assédio ou a perseguições ideológicas entre os trabalhadores.

Como "a internet não esquece", a dica é, também, lembrar que a sociedade está em constante evolução e a opinião externada poderá se tornar inadequada no futuro; ou pensar que um dia a opinião poderá mudar e a empresa seguirá sendo cobrada por algo que foi dito no passado. A Internet não esquece e, no Brasil, o STF considerou inconstitucional o "direito ao esquecimento" em decisão de 2021, por entendê-lo pernicioso à liberdade de expressão. Você passará; mas suas palavras permanecerão.

Outra sugestão é usar as entidades representativas para defender os valores que se julgam relevantes à empresa e à sociedade — essas entidades existem exatamente para isso, para unir forças, defender valores e também para diluir o ônus da defesa individual de posições que podem gerar desconforto em governantes. 

Por fim, é crucial monitorar as redes sociais e ter um plano de gestão de crises durante todo o processo. Se, após considerar os aspectos anteriores, a decisão seja pontuar um posicionamento político que envolva a empresa, o ideal é cuidar da forma com que essa mensagem será transmitida. Fazer o devido "disclaimer" quando a empresa defender publicamente ideias ou valores que pertençam à comunidade, e não a um partido ou um político. Ajudar o interlocutor a perceber que o que  se defende é um valor universal que não deve ser indevidamente apropriado por partido/pessoa A ou B.

Ana Paula Ávila

é sócia coordenadora da área de compliance do Silveiro Advogados, mestre e doutora em Direito pela UFRGS, mestre em global rule of law pela Universidade de Gênova (Itália) e especialista em gestão de crise pelo MIT (EUA) e em cyber security for managers pela mesma instituição.

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