Antes de tudo: enquanto o Facebook levou dez meses para alcançar um milhão de usuários, o ChatGPT levou apenas cinco dias.
Dito isso, o jornal espanhol El País fez interessante editorial (edição de 29/1/2023) sobre a coqueluche do momento: a tal Inteligência Artificial ChatGPT.
Para quem ainda não sabe, o modelo de linguagem ChatGPT, baseado no aprendizado de máquinas e redes neurais profundas, trouxe a inteligência artificial para o debate cotidiano.
Com o tempo, cada vez mais os sistemas IA farão interfaces com nossos dispositivos e se tornarão uma espécie de oráculos de nossas atividades profissionais.
É por isso que o jornal chama a atenção: há riscos nisso e devemos tomar medidas para mitigá-los antes que eles se tornem uma unanimidade e/ou uma IADependência (a palavra é minha).
1. Os prós: sua capacidade de analisar grandes quantidades de dados e fazer previsões oferece uma assistência valiosa na previsão de desastres, diagnóstico de doenças, gerenciamento de recursos a longo prazo e eficiência no transporte. Suas habilidades já aliviam muitos meios de comunicação de acompanhar as flutuações da bolsa de valores, transmitir o futebol de ligas menores ou prever o tempo. E servem à educação, oferecendo a possibilidade de reforço personalizado em disciplinas especializadas, desde a matemática até o latim.
2. Contra: o fato é que não podemos automatizar essas funções sem mitigar as prováveis desigualdades que cresceriam exponencialmente, por exemplo, entre aqueles que mantêm acesso cada vez mais privilegiado a médicos, professores, secretários e jornalistas. Isto é: uma IA excludente.
3. Efeitos colaterais: a automação de serviços oferece vantagens econômicas às empresas, que podem estar abertas 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pagar salários ou previdência social. Ao mesmo tempo, porém, constitui um risco para a privacidade e o cuidado do usuário, paciente e cidadão.
4. O ponto fulcral: é imperativo estabelecer diretrizes e regulamentos claros que garantam um princípio de transparência e responsabilidade no desenvolvimento e implementação de modelos automatizados, particularmente em empréstimos, saúde, contratação ou justiça criminal.
5. Problemas éticos: a diretriz ética inegociável: nenhuma IA pode nos substituir ou tomar decisões por nós; apenas nos ajudar a decidir, diagnosticar, pensar melhor. E é claro que pode. Engana-se quem pensa ou diz que sou contra a tecnologia. Pelo contrário. Minha preocupação é com a dosagem do remédio que pode se tornar veneno.
6. Dilemas e perplexidades: como evitar assimetrias que surgirão entre aqueles com acesso privilegiado aos dados e a gestão de plataformas digitais e nossos interesses, necessidades e diretrizes regulatórias?
Além disso, altos custos ambientais. Modelos de treinamento como o GPT-3 exigem grandes quantidades de solo, minerais, fluidos, energia e capacidade computacional, e geram quantidades industriais de resíduos e gases de efeito estufa.
E como se dá a explanação e a verificação do modo como essas plataformas são estruturadas e organizadas? Isso é importante. Ou não é?
7. Conselho: devemos colocar nossa casa em ordem antes de deixá-la nas mãos da inteligência artificial.
8. Explicando o título da coluna: embarcávamos para a Europa — isso há uns cinco anos — e na hora do check in o menino da companhia disse "façam no totem". O jurássico aqui disse que gostaria que ele fizesse para nós.
Ele explicou empolgado que o totem blá, blá e blá. Rosane disse: "esse totem vai tirar seu emprego". Ele disse "não, vai melhorar o atendimento" e blá e mais outro bla.
Nunca mais o vimos. Descobri que foi demitido.
Alguém dirá: Lenio está preocupado com os fabricantes de vela no advento da luz elétrica. Ou está preocupado com o emprego dos cocheiros em face do invento do automóvel… Já me disseram isso. Muito engraçado. Pândegos e galhofeiros.
Primeiro, são coisas diferentes. Segundo, a precarização do trabalho é uma realidade. Por isso o oportuno editorial de El País.
Vejam as agências bancárias, reduzidas a algumas mesas. Liguem para o banco. Atenderá um robô. Agora sofisticaram: há um whatsapp robô para sacanear. Qual é o assunto? Você diz "nenhum desses". Acabou a relação com o robô.
Ligue para o SAC de empresas. Ligue para as Lojas Americanas… Reclame do Uber. Ligue para o Uber. Ah, não tem telefone? Pois é. Compre uma passagem aérea ligando para a companhia. Aliás, ligue para a companhia…
E no direito? Bom, com o salário que recebem as carreiras no Brasil… querem, ainda assim, terceirizar para robôs. É o que se diz. Há uma paixão por metaverso. Dias desses até audiência por metaverso foi feita. Desculpem: já está acontecendo. Há robôs que fulminam recursos e julgam causas fiscais e quejandos.
E volto à minha pergunta, até hoje não respondida pelos defensores da nova moda: quem programa o robô? "Ah, mas nas demandas repetitivas"… e é um robô que vai nos oferecer o conceito de um precedente, por exemplo? Algo que a dogmática e os tribunais, e digo com toda lhaneza, até hoje não fizeram? Hum, hum.
O ChatGPT já faz textos melhores que a ampla maioria — mas ampla, mesmo — dos formados em direito. É provável, visto o nível do ensino jurídico. Então, por que somos capazes de construir máquinas que fazem as coisas melhores que nós? Não, não respondam.
Ou respondam. Para si mesmos. Não é um tanto assustador?
Encontrei uma senhora que estuda direito no sétimo semestre em uma faculdade por aí. Ela não junta lé com cré. Não conhece nenhum autor, a não ser os de direito desenhado e correlatos. Claro: o ChatGPT dá de dez nesse universo. O ChatGPT pode até resolver o problema dessa senhora.
Jornal do fim de semana entrevistou uma máquina. Então. Quando ligo o rádio e a TV ou navego pelas redes, fico pensando o campo fértil de mercado que terá o ChatGPT. Vai vender mais que farmácia.
E isso faz a gente entrar em pânico. Em face do paradoxo: se vencermos construindo essas máquinas, mostramos, ao mesmo tempo, nosso profundo fracasso. Ao vencer, perdemos. A vitória é pírrica. Como chegamos a um ponto tão baixo na organização de nossas vidas sociais?
O meu ponto fundamental, insistindo novamente no óbvio: não sou contra a tecnologia (quem seria?). A questão fulcral eu resumo em uma palavra: accountability. Um dever de prestar explicações. E esse é um dever público.
Abrir mão disso é abrir mão exatamente de todos os princípios que levam as pessoas a pedirem tecnologia…! Autonomia, racionalidade, inteligência.
O mundo precisa dos chatos para colocar um freio na empolgação. Cinco dias e o Robô já atingiu um milhão de usuários?
Só peço um pouquinho de prudência na hora de fazer as coisas. Só isso.
Atenção: se os trabalhos escolares e os textos jornalísticos tiverem uma repentina melhora, fujamos para as montanhas. O robô entrou em campo. Ele venceu e nós fracassamos. Paradoxalmente.
E onde estará o menino do aeroporto?
A tecnologia baixa custos. Com a redução de custos, e aumento da concorrencia, os produtos se tornam mais acessíveis a maior parte da população. Os custos bancários cairam. Este milagre só é possível em um sistema capitalista. Um sistema que a esquerda não consegue reproduzir. O menino do totem talvez tenha perdido o emprego. Mas pessoas serão contratadas para fabricar o totem. Nunca conseguiremos criar uma inteligência artificial que substitua a mente/cérebro humano. Será sempre menor que nós. Assim como Deus fez o homem. Menor que ele. Se tem medo de IA, saiba que andar de avião pra Europa, quando pousos são feitos através de ILS E CAT3. Por computador sem intervenção humana. No Brasil só o aeroporto de Guarulhos usa isso. Nos demais aeroportos CAT2, o sistema ILS, larga o controle para o piloto assumir a 30 pés de altura. Depois dessa nunca mais andará de avião.
O menino deve estar dirigindo Uber. Provavelmente o q ocorrerá com essa senhora q cursa direito ou fará bolo gourmet. Será q a IA fará e venderá? O capitalismo nunca deu certo. Não dá. Nunca dará.
Quase parei no 'deus criou o homem', mas em respeito à sua crença, segui. Como imaginava, piorou. E muito. Por que raios insistimos em continuar quando algo já se anuncia trágico? Ô, 'Indignado' Liberal, IA não é a mesma coisa que "computador sem intervenção humana", deveria saber. Deixa de ser juvenil... Por último, a título de informação, o menino, que não foi recontratado para a sua novíssima fábrica de totens (Aliás, que exemplo liberalóide mais profundo, parece até um pires...), agora é empreendedor de cupcakes. Nunca tocou a campainha da sua casa oferecendo os novos sabores?
Acabei de comentar sobre isso. O indignadão é juvenil demais...
O capitalismo deu certo. Ele não pretende resolver o problema das mazelas humanas. Cada um por si !!
Pois bem, esta e outras questões estão tomando corpo, mas, desde quando já existe o ALARME quanto ao fim ou mitigação do TRABALHO? Nem falei emprego, mas TRABALHO.
Pois bem professor, só mais um adendo que os jênios não estão considerando. De vantagem econômica em vantagem econômica (lucros ou fraudes mesmo), e reduzindo significativamente a mão de obra em todos os setores, fica a pergunta: QUEM VAI COMPRAR BENS E SERVIÇOS DAS EMPRESAS? Os agentes econômicos esqueceram que a Economia são fluxos que envolvam vários agentes.
Ao colocar o trabalhador como um sustentado por uma renda mínima (aliás, já tem muita gente pensando nisso também), quem vai transferir via arrecadação, os recursos necessários para se pagar uma "renda mínima"? Essa conta não fecha, e não há ninguém pensando nisso.
Não, o que vai dar certo é o socialismo, claro. Não viu o sucesso da URSS e de Cuba?
Já tinha ouvido falar do chat GPT, mas aprendi mais agora. E, definitivamente, também me preocupei mais agora também.
"Encontrei uma senhora que estuda direito no sétimo semestre em uma faculdade por aí. Ela não junta lé com cré. Não conhece nenhum autor, a não ser os de direito desenhado e correlatos. Claro: o ChatGPT dá de dez nesse universo. O ChatGPT pode até resolver o problema dessa senhora".
Também há graduados em direito assim, e mesmo advogados. Eles serão a presa preferencial da IA, justamente por não poderem oferecer mais do que ela.
E o que teria dado certo, na sua opinião?
Me fez lembrar Leviatã, de Thomas Hobbes. É o caso de darmos maior importância à proteção ao trabalho em face da automação, como estampado no art 7º, inc. XXVII, da Constituição Federal?
O Homem é o Lobo do Homem!
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