Semana passada teve o Dia do Professor, essa raça em extinção. Outro dia vi uma postagem sobre o estado da arte de ser professor: não vai bem um país em que dentistas, sociólogos e químicos (e professores) estejam fazendo concurso para a polícia (federal). Não falo das competências e da relevância. Falo dos salários. Portanto, o fenômeno é autoexplicativo.
Além dos baixos salários, o professor enfrenta um meio ambiente hostil, proporcionado pela "pós-modernidade" (sem que se saiba bem o que isso quer dizer).
Preocupa sobremodo o uso de telas (telefones celulares, tablets) nas salas de aula. Na verdade, isso virou uma praga. Na Suécia e Holanda o governo proíbe o uso desse instrumental nas salas de aula do ensino fundamental e médio. Em breve essa vedação deve chegar às faculdades.
Estamos cercados por telas e pessoas curvadas. Neocorcundas. Até nos cinemas e cerimônias é possível perceber o vício das telas. Crianças são mantidas "comportadas" nos restaurantes com o auxílio de "telas babás". E isso faz com que se perca até mesmo o sentido da percepção de profundidade das pessoas.
Textos diminuem, gravações são encurtadas, porque o público já não lê algo com mais de 15 linhas. Os celulares receberam o recurso do apressamento das mensagens, cuja velocidade vai até mesmo no vetor dois. Os filmes nos tablets possuem mecanismos para adiantar em 15 segundos. Palestras são vendidas sob o modelo TED 18 — em que em 18 minutos o ministrante deve dizer a que veio, porque, diz-se, as pessoas não prestam atenção por mais tempo que esse período. Em breve os filmes terão apenas 18 minutos.
E agora tem o ChatGPT. Até o presidente do STF quer comprar um ChatGPT só para juristas, quer dizer, só para o Judiciário. Ele, o robô, terá a "tarefa" de fazer, uma vez alimentado com a jurisprudência do STF, STJ e dos tribunais estaduais, um esboço das decisões (atenção: só um esboço — e o interlocutor dá uma piscadela). Diz o ministro que haverá supervisão do juiz. Que alívio. Interessante é que, com isso, cairemos em um paradoxo: se der certo, dará errado. Por quê? Porque se a Justiça melhorar com o ChatGPT, provado estará que perdemos para os robôs. Sim, derrotados pelo robô.
Há que se tomar cuidado. Certa vez uma determinada categoria de trabalhadores resolveu entrar em greve. Um integrante, mais velho, alertou os grevistas: vá que a repartição continue funcionando sem a gente…
Portanto, cuidado com o que deseja… você pode ser atendido.
Sigo. Estamos cada vez mais reféns das máquinas. As distopias estão se realizando.
Nessa linha, o historiador, jornalista e professor Moniz Sodré, em artigo intitulado Descaminhos da Atenção, na Folha, traz à luz a crise generalizada da atenção. Em aulas, espetáculos, conversas pessoais, perde-se com frequência o foco para a onipresença do celular. Ainda que este não esteja de fato sendo manuseado, seu efeito é perceptível na interlocução, seja pelo alheamento ou pela incompreensão discursiva. Enunciados muito articulados ou prolongados são motivos de impaciência. Até mesmo as canções de sucesso são cada vez mais curtas, algumas com menos de um minuto.
E acrescenta Sodré: o fenômeno é globalmente afetado pela disseminação da lógica (algorítmica) do autômato. O social, enquanto tal, não existe: a ideia de sociedade depende do pacto de confiança subjacente a toda organização. "Acreditar na palavra humana, falada ou escrita, é tão indispensável aos humanos quanto se fiar na firmeza do solo" (Paul Valéry). Isso é dar atenção, "a forma mais rara e pura de generosidade", na definição de Simone Veil.
Mas quem se preocupa com a palavra humana? Quem quer ainda dar atenção à forma mais rara e pura de generosidade? Cartas para a redação. Que não devem ser escritas pelo ChatGPT (ele escamoteia as fontes).
Vou me resumir ao que já está no título, porque não tenho tempo: jeremiada clássica. O mundo vai mal, muito mal!
Nem é preciso ser profeta para prever que chegará o dia em que seremos dominados pela máquina. Ela é cada vez mais presente. Certo dia atrás, observava um casal de namorados que, mesmo estando juntinhos, se comunicava… pelo Whatsapp. Pode ser então que, num interrogatório criminal, à pergunta (hipotética) do juiz: O senhor se considera inocente? Responda o interrogado: Um momentinho, doutor. Deixe consultar aqui o ChatGPT. Mas, no caso do STF (que já tem um certo ChatGPT constituído pelos assessores), pode ser até que a coisa melhore, desde que na base de dados estejam incluídos a lei e a doutrina, não só a jurisprudência). Mas dúvida não tenho. Vamos chegar lá. E vamos ter ministros bonitinhos: sentadinhos, bebendo vinho e deixando a máquina decidir...
Lenio, Lenio... você ainda ganha um nobel. Salve! Continue nos salvando.
Um colega, aqui em MG, teve o espanto de se deparar com uma sentença, que não se relacionava com a ação por ele proposta. Por azar, havia se esgotado o prazo para \embargos Declaratórios. Então, apresentou Apelação, pagando as custas. O magistrado, anulou a própria sentença, mandou devolver as custas, e proferiu nova sentença , dando provimento ao méeito. Tudo fruto do "copia/cola" , Como repete nosso articulista , advocacia virou exercício de acrobracia ,
Precisamos esclarecer, que os robôs e a tecnologia não têm personalidade, como vemos em várias ficções. O problema está no homem. Se existe a dominação, é o ser humano que se deixa dominar. A luta contra as máquinas já existe, mas é metafórica.
Somos muito dependentes da tecnologia, mas se a inteligência artificial (AI) condensar todos os estudos e experimentos, e encontrar uma cura para AIDS, por exemplo, seria loucura descartar isso.
Compartilho a preocupação do autor do texto, mas devo dizer que ele está totalmente desatualizado. O Acórdão proferido nos autos da Pet 11.118 (através dessa petição tentei convencer a Suprema Corte de que a política de juros adotada pelo PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL pode ser considerada criminosa) contém uma pérola da lavra do ilustre Ministro Dias Toffoli secundada por todos os colegas dele no STF.
No corpo da decisão referida Dias Toffoli disse o quanto segue:
"…Fábio de Oliveira Ribeiro afirmou na exordial que 'não está em condições de debater juros' e reproduziu seus argumentos na forma de transcrição de conversa com um algoritmo de inteligência artificial, fundamentação que, por si só, não se traduz em argumentação, menos ainda em comprovação."
Vocês percebem a ironia? O presidente do STF defendeu a criação de um ChatGPT jurídico para uso dos Ministros da Suprema Corte, mas ele mesmo votou contra a utilização do resultado fornecido ao advogado pelo ChatGPT ao decidir a Pet 11.118 .
Se o que o ChatGPT faz a pedido de um advogado é juridicamente irrelevante, com muito mais razão não poderia ser considerada válida e eficaz uma decisão proferida com ajuda do ChaGPT do STF. Não só isso. A decisão de Dias Toffoli jogou fagulhas num barril de pólvora. Doravante, todas as decisões proferidas pelo STF com ajuda do sistema VICTOR devem ser consideradas nulas. O mesmo se aplica às decisões proferidas pelo STJ e pelo TJSP com ajuda das inteligências artificiais criadas para ajudar os juízes a elaborar textos que eles na verdade não redigiram, pois contém "...transcrição de conversa com um algoritmo de inteligência artificial, fundamentação que, por si só, não se traduz em argumentação..." jurídica capaz de legitimar qualquer decisão judicial.
Há um livro, infelizmente esqueci nome e autor, que coloca a hipótese de em nossos tempos ocorrer a situação que o ser humano não poder sair de seu lar pois não tem instalado em seu corpo um "chip" que abre caminho para pagar o pedágio, pagar as compras em supermercado, ETc, etc
O ser humano nada realiza em seu dia a dia sem o chip instalado. O casal protagonista da história era muito relugioso e não concordava com essa exigência. .
O livro termina sem que se saiba se o casal encontrou alguma solução para a situação. Creio que o escritor pretendia lançar uma continuação em nova obra.
"Interessante é que, com isso, cairemos em um paradoxo: se der certo, dará errado. Por quê? Porque se a Justiça melhorar com o ChatGPT, provado estará que perdemos para os robôs. Sim, derrotados pelo robô".
Professor, pela minha algo representativa experiência, eu não tenho dúvidas de que vai melhorar com o ChatGPT. Não há tempo e energia para qualificar os estagiários, que vêm cada vez menos preparados, e não há como produzir em série sem eles. Nós já perdemos, sim.
Infelizmente é algo incontornável professor. Até mesmo seu texto não chega aqui mais com intensidade, lastro e extensão.
Há mais de cinco anos atrás eu precisava imprimir e expandir o estudo em cima dos seus textos. Hoje só leio dor e insatisfação.
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