1. A tempestade perfeita
As redes sociais são o repositório final do caos. O lugar. Vivemos o refluxo comunicativo, que se pode chamar de shitstorm (não farei a tradução, mas é a composição das palavras shit e storm – o estagiário levanta a placa “ironia”).
Originalmente o conceito serve para uma porção de coisas. Byung-Chul Han trabalha bem o tema no livro No Enxame. Faço aqui uma adaptação, porque o modo como alguns influencers lidam com alguns temas e o efeito que isso causa tem muito a ver com o refluxo e com uma tempestade… Porque o Instagram faz um shitstorm geral.
2. E fizeram usucapião da obra Harry Potter
As redes sociais, por não terem filtros, recepcionam qualquer coisa. Sobre qualquer coisa. Terraplanismos mil.
Vi agora que um professor de Minas Gerais encenou Harry Potter para ensinar o conceito de usucapião (ver aqui). Poxa. Usucapião é uma das coisas mais simples do direito. Fosse na medicina, seria um exame de urina. Ou uma unha encravada.
Pergunto: se para “ensinar” usucapião usa toda essa parafernália harrypottiana, o que o professor usaria para explicar uma interpretação conforme ou a norma fundamental kelseniana?
Definitivamente, as redes sociais acaba(ra)m com o que resta(va) do direito. Bom, em um país em que se ensina ECA cantando funk (sim, isso existe) e tem até sushi jurídico, o que dizer de Harry Potter e a usucapião? [1]
3. E degeneraram o direito…!
Permito-me dizer: ainda há tempo. Como escrevi aqui dia desses, temos de desabituar.
O direito está sendo degenerado dia a dia. O que estão fazendo com o direito? No que transformaram o ensino jurídico? E os concursos?
Achei que já tinha visto muita coisa – e olha que estou no ramo há décadas, criticando o ensino estandardizado-prêt-à-porter. Em breve nas bancas o meu Ensino Jurídico e(m) Crise – Ensaio contra a Simplificação. Mientras, há outros já na praça, como Ensino Jurídico, Dogmática e Negacionismo Epistêmico. Meninos e meninas, eu já e passei
- pelos manuais tipo Caio e Tício,
- por personagens se vestindo de cervo e levar tiro no traseiro para explicar erro de tipo,
- por concursos perguntando sobre direito fundamental de o sujeito ficar parecido com lagarto (ver aqui),
- pela teoria da graxa e testículos despedaçados (ver aqui)
- por petições usando bayesianismo para suprir ausência de prova, (ver aqui)
- por livros de direito simplificado, facilitado, seja F… em direito,
- pelo direito sem as partes chatas,
- por panfletos plastificados para ler na piscina…etc., etc.,
…, mas essa do Harry Potter para explicar usucapião me atordoou. Tonteei. Se os alunos só entendem usucapião assim, não é melhor mandá-los de volta ao ensino secundário?
4. E o menino de 10 anos passou a ensinar usucapião…
Bem, o professor explicou, em um site, que o método é tão eficiente que o filho da registradora de imóveis da cidade, com a idade de 10 anos, entendeu e até explicou para os coleguinhas o que é usucapião. Ah, bom. Está tudo “explicado…”.

Tenho uma observação: o menino de 10 anos entendeu “o que é isto – o/a usucapião” não por causa do seu “método” (sic) ou da encenação, professor. Ele entendeu por que usucapião é uma coisa tão fácil que até um menino de 10 anos entende. E seus coleguinhas também. O problema, talvez, sejam os seus alunos que necessitaram do Harry Potter para compreender a “complexidade” do conceito…! Ou é o professor que só consegue explicar usucapião com Harry Potter. Ou algo assim.
De todo modo, esse episódio de Minas Gerais serve como amostragem. Ou uma alegoria do estado da arte atual do concurseirismo. O caso, portanto, possui transcendência. Cabe repercussão geral…!
Mundo, mundo, vasto mundo… Esse é o ensino do direito? Cantar? Dançar? Fazer memes? Tiktokear? Pegar resuminho do resumo feito por ChatGPT por meio de dicas de Instagram (sim, tem gente no “insta” que “ensina isso”)? É isso?
Isso tudo dá um Globo Repórter: do que vive essa gente? O que leem? Quem lhes inspira? Como se reproduzem?
[1] Registro que, no meu tempo, chamávamos de “o usucapião”.
A crítica ao ensino jurídico é de primeira importância. Está tudo atrelado, falência do ensino jurídico e concursos públicos que não mudam há décadas... o buraco só aumenta.
"Faz parte do programa internacional da Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia (ou COST, sigla para European Cooperation in Science and Technology), que considera a leitura um "tema urgente".Segundo o programa, "a pesquisa mostra que a quantidade de tempo gasto na leitura de textos longos está diminuindo e, devido à digitalização, a leitura está se tornando mais intermitente e fragmentada", algo que poderia "ter um impacto negativo nos aspectos cognitivos emocionais da leitura". Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-59121175#:~:text=%22Leitura%20profunda%20significa%20que%20fazemos,cr%C3%ADticos%2C%20anal%C3%ADticos%20e%20emp%C3%A1ticos.%22
E o comandante do exército comparando quartéis com universidades?
O problema de Forças Armadas acho que é pensar que tem um prestígio e utilidade maior do que têm, realmente.
Sintomático do fascismo.
É, mais ou menos, parecido com isto: a criança chega no médico com todos os sintomas de gripe, mas este, como não sabe mais diagnosticar, tasca: Vamos pedir uns exames. E, nesse intervalo entre os exames e a nova consulta, a criança morre. Será que vamos chegar ao ponto de, também no direito, os advogados começarem a pedir pareceres, antes de aceitar o caso? Ou: deixa eu consultar aqui o ChatGPT...
Não há como não amar a sagacidade e pitadas de humor ácido de Lênio. Rindo aqui até 2050!
Advogado cria história inspirada em Harry Potter com 'feitiços jurídicos' para ensinar direito civil em MG: 'Animus Domini'
Lucas Castilho é professor há 15 anos e criou uma peça para ensinar usucapião a estudantes de Machado. Veja um vídeo com o trecho da peça.
Por Lara Silva, g1 Sul de Minas — Paraguaçu, MG
27/07/2023 07h07 Atualizado há 9 meses
https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2023/07/27/advogado-cria-historia-inspirada-em-harry-potter-com-feiticos-juridicos-para-ensinar-direito-civil-em-mg-animus-domini.ghtml
O professor das Alterosas está concorrendo ao Prêmio Innovare 2023 com o projeto "Civil War".
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