A trajetória do advogado criminalista José Carlos Dias, conhecido defensor dos direitos humanos, reflete seis décadas da história política brasileira. É o que revela a biografia Democracia e liberdade: a trajetória de José Carlos Dias na defesa dos direitos humanos (Alameda Editorial). O livro, iniciado pelo jornalista Ricardo Carvalho e concluído pelo filho de Dias, o também jornalista Otávio Dias, narra a vida de um protagonista dos principais momentos políticos do país.

José Carlos Dias defendeu presos políticos na ditadura
Ao longo de sua carreira, Dias ocupou cargos relevantes no processo de redemocratização. Foi secretário da Justiça de São Paulo no governo Franco Montoro, em 1982, e ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999.
José Carlos Dias começou sua carreira em 1960, quando ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, no mesmo ano em que Jânio Quadros assumiu a presidência. Jovem e entusiasmado, assistiu à posse de Jânio, mas ficou decepcionado com a renúncia do político, que buscava retornar ao poder com mais autoridade.
A partir de então, Dias envolveu-se ativamente na política. Em 1963, como estudante, discursou na posse da diretoria do Centro Acadêmico XI de Agosto, sendo elogiado pelo presidente João Goulart, presente no evento.
Formado advogado em 1964, semanas após o golpe militar, escolheu o Direito Penal inspirado no Tribunal do Júri, mesmo com o conselho do pai, o desembargador Theodomiro Dias, que dizia: “O crime não compensa”.
Entre os casos emblemáticos que defendeu está o de uma quadrilha de surdos-mudos acusada de assassinato. Dias conseguiu anular o julgamento ao questionar a veracidade da suposta confissão de um dos acusados.
Ditadura militar
Durante a ditadura militar, sua atuação ganhou novo propósito ao defender perseguidos políticos, como José Mentor, Aloysio Nunes e Paulo Stuart Wright, desaparecido nos porões do regime. Representou também a cantora Rita Lee, presa grávida com a acusação de porte de maconha.
Sua associação com a Comissão Justiça e Paz, liderada pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, foi fundamental para denunciar as torturas do regime militar.
Na Comissão Nacional da Verdade (CNV), Dias teve papel crucial, chegando a interrogar torturadores como Carlos Alberto Brilhante Ustra. O advogado Pedro Dallari, coordenador da CNV, destacou sua contribuição para a objetividade do relatório final.
Mais recentemente, participou da Comissão Arns, formada em resposta ao governo de Jair Bolsonaro para combater retrocessos democráticos.
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