Opinião

Jornada de quatro dias: riscos e benefícios

A implementação de uma jornada de trabalho 4×3, no qual os funcionários trabalhariam quatro dias por semana e teriam três de descanso, tem ganhado cada vez mais atenção nas discussões sobre práticas laborais no Brasil.

Essa proposta de mudança, que promete aumentar a produtividade e o bem-estar dos trabalhadores, exige, por outro lado, um compromisso financeiro significativo por parte das empresas, já que muitas precisariam contratar mais mão de obra para manter o nível de operação, eis que, com a alteração do sistema 6×1 para 4×3, haveria redução de 33% da força de trabalho, com salários mantidos e aumento de custo ao empregador.

Apenas reduzir a escala e aumentar a necessidade de se contratar novos empregados trará a majoração do custo da produção, que não será compensada pelo suposto aumento de produtividade dos que ali se encontram.

Com isso, podem acontecer situações que tendem a aumentar o problema, quais sejam: 1) repasse do custo ao consumidor com aumento de preço dos produtos e aumento da inflação, reduzindo o poder de compra da remuneração; 2) busca por alternativas e aumento da contratação informal, além do aumento da pejotização, o que prejudica o trabalhador; 3) menor contratação e substituição da mão-de-obra por maquinário, o que também prejudica o trabalhador com a redução de postos de trabalho.

Possíveis contrapartidas

Para tornar essa jornada de trabalho viável e atrativa para as empresas, é primordial que o governo crie uma série de incentivos fiscais e reduza a absurda carga de impostos a ser paga para manter-se um empregado contratado sob o regime CLT.

Entre as principais medidas que poderiam viabilizar o modelo, destacam-se os créditos fiscais para contratação, o desconto no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e a isenção temporária das contribuições ao Sistema “S”.

Os créditos fiscais para contratação configuram-se como uma ferramenta crucial para compensar os custos adicionais de empresas que precisem aumentar o quadro de funcionários devido ao regime de jornada reduzida.

Letycia Bond/Agência Brasil

Esse incentivo poderia ser proporcional ao número de novas contratações realizadas especificamente para a adequação ao novo modelo, aliviando a carga financeira sobre as empresas.

Além de viabilizar economicamente o regime 4×3, a medida impulsionaria a criação de novos empregos e contribuiria para a formalização de mais contratos de trabalho. A possibilidade de absorver novos colaboradores permitiria às empresas distribuir as atividades de forma eficiente entre eles, preservando a produtividade sem aumentar a carga horária dos trabalhadores.

Outro incentivo de grande relevância seria a concessão de descontos no IRPJ.

Esse imposto representa uma carga significativa para as empresas, e sua redução para aquelas que adotassem a jornada 4×3 seria um estímulo fundamental, assegurando o equilíbrio financeiro durante o período de transição e adaptação.

Um desconto no IRPJ proporcionaria maior flexibilidade econômica para que as empresas possam suportar os custos iniciais da nova jornada, além de fomentar a competitividade e sustentabilidade financeira a longo prazo. Com essa redução tributária, as empresas teriam condições de reinvestir em áreas estratégicas, modernizando suas operações e garantindo o sucesso do modelo de jornada reduzida.

A isenção temporária das contribuições ao Sistema “S” também desponta como uma medida essencial nesse contexto de mudança.

O Sistema “S” abrange entidades como Senai, Sesi e Sebrae, e as contribuições empresariais para esse grupo representam aproximadamente 3,3% da folha de pagamento. Embora essas contribuições desempenhem papel importante no desenvolvimento profissional e capacitação da mão de obra, uma isenção temporária para empresas que aderissem ao regime 4×3 seria uma medida estratégica, aliviando custos no curto prazo e facilitando a adaptação à nova jornada. Os valores economizados poderiam ser direcionados à contratação de novos funcionários, à adaptação da infraestrutura e a outras demandas operacionais, tornando a transição menos onerosa e mais acessível, especialmente para pequenas e médias empresas.

Esses três incentivos fiscais – créditos fiscais para contratação, descontos no IRPJ e isenção temporária das contribuições ao Sistema “S” – proporcionariam o equilíbrio financeiro necessário para que as empresas possam adotar a jornada 4×3 sem comprometer sua saúde financeira ou capacidade de crescer.

Análise à luz da CLT

Além dos aspectos financeiros, a implementação do regime de jornada 4×3 exige uma análise detalhada à luz do Direito do Trabalho. O novo modelo de jornada impacta diretamente a regulamentação das horas extras, compensação de horas e cumprimento das convenções coletivas. Assim, adaptações na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) seriam necessárias para assegurar que o regime 4×3 opere dentro das normas legais e ofereça segurança jurídica aos empregadores e trabalhadores.

O regime também levanta questões sobre o controle de jornada e o direito ao descanso. Para que o modelo se mantenha vantajoso, seria importante definir critérios claros de cálculo para horas extras e estabelecer a possibilidade de acordos coletivos específicos, permitindo adaptações conforme a necessidade de cada setor. As convenções coletivas desempenhariam papel central, uma vez que garantiriam aos trabalhadores direitos complementares e formas de compensação em caso de sobrecarga.

Spacca

Outro aspecto relevante seria a gestão do descanso semanal remunerado. No novo regime, os dias de folga não podem impactar negativamente o direito ao descanso contínuo de 24 horas, como previsto em lei, para que não haja prejuízos à saúde física e mental dos trabalhadores.

Conclusão

Com o respaldo adequado do governo, a implementação da jornada de quatro dias se tornaria uma alternativa viável e vantajosa tanto para empregadores quanto para empregados, promovendo um mercado de trabalho mais dinâmico e eficiente, que alia qualidade de vida e produtividade de maneira sustentável.

Assim, o Brasil estaria se posicionando como pioneiro em práticas laborais inovadoras, oferecendo um modelo de trabalho que respeita as necessidades dos trabalhadores ao mesmo tempo em que garante condições econômicas competitivas e favoráveis para as empresas.

Vander Brito

é advogado trabalhista no GVM Advogados.

Pedro disse:
18 de novembro de 2024 às 11:00

Ocorre que o Governo não vai incentivar tais créditos fiscais, nem deixar de arrecadar IRPJ, uma vez que se encontra com dificuldades de reduzir os gastos públicos, imagina deixar de arrecadar.

Gilberto Simões disse:
18 de novembro de 2024 às 11:48

Sem ter dialogo com a população que trabalha na escala 6x1 e os empresários do setor, esta proposta apenas alimenta o discurso esvaziado da esquerda nacional. Que encastelada no poder, já não sabe como é a realidade dos trabalhadores 6x1. Com o odor de naftalina, a proposta surge como cartas desenterradas do seculos 19 e 20. Nesta nova era de informações eletronicas e em tempo real. A proposta, não se mantem de pé. Ajustar as escalas de horarios nas empresas ou aumentar o custo. Caira diretamente na frente de trabalho. Que passará a ser mais cara para o empresário. Que poderá ajustar, drasticamente a oferta de horas. Afinal, PQ gastar Energia Elétrica, Funcionários, para se manter aberto? Quando existe a possibilidade de fechar a empresa aos sabados e domingos e ofertar seus produtos via internet. Já é dificil fazer o cliente ir até qq estabelecimento, apenas por ir. Imagina então fechar postos de combustiveis após as 17 horas, ou reduzir os horarios dos mercados para encaixar nas novas escalas. Sim, isso representa perda de faturamento. Mas os empresarios já viram como isso pode ser possivel, pós-Pandemia.

Ulisses Silva disse:
19 de novembro de 2024 às 07:00

Fala-se tanto da jornada 6x1, que, realmente, parece uma tragédia na vida de trabalhadores, especialmente, mulheres e no comércio. Mas, é um exagero o que vem no pacote (38 horas semanais e escala 4x3). Acredito que já seria um grande avanço, uma redução para 40 horas semanais, e jornada 5x2. Resolveria, em grande parte, os anseios dos trabalhadores do comércio "aviltados" em seu bem estar, com a famigerada 6x1. E as adaptações para o empresariado, seriam bem mais tranquilas do que nessa utopia de 4x3.

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